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“A REGRA DO JOGO”

 

 

No último 7 de abril foi lembrado o “Dia do Jornalista”. Diria que não se tem muito a comemorar diante do atual quadro político do Brasil onde a categoria tem sido hostilizada, principalmente pelo chefe da nação, mas me faz voltar aos tempos das redações barulhentas, fumacentas e de muitas discussões sobre as matérias que estavam saindo do forno diretamente para o público leitor, ou telespectador. Infelizmente, temos hoje um sindicato bem mais enfraquecido. Mesmo durante aquele período tenebroso da ditadura civil-militar, tenho saudades daquele jornalismo à prova de fogo onde se questionava “A Regra do Jogo” que muito nos ensinou Cláudio Abramo em seu livro título. Nesse dia, presto a ele uma homenagem e a todos os profissionais que fizeram “O Pasquim”, um jornalismo alternativo, satírico, de contestação, de reportagens inéditas que sabiam driblar a censura do regime militar. Sobre Abramo, comentou Jânio de Frietas na orelha da sua obra que, “apesar disso, surge um Cláudio. Surge na multidão de jornalistas, um ao qual o tempo pode magoar, mas não pode vencer: Seu talento é mais forte do que a pressão de todos os relógios”. Para ele, ressalta Jânio, o jornal morria com a rapidez de um dia, mas seus artigos entravam para sempre na memória de milhares e milhares de leitores… “Podia fazer melhor, não fosse a exiguidade do tempo”. Abramo foi morto em agosto de 1987, deixando um grande legado, como a modernização dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. “Suas lições percorrem todo espectro da atividade e da ética jornalística”- disse Mino Carta, no prefácio da obra. Não desmerecendo o jornalismo de hoje da internet, não se se tem mais pauteiros e chefes de reportagem como antigamente que, sem muitos recursos tecnológicos, apresentava mais criatividade, imaginação e tramavam matérias mais empolgantes e históricas. Não quer dizer que naquele tempo não haviam falhas, mas as reportagens eram mais consistentes, investigativas e completas, sem deixar furos clamorosos como atualmente. Hoje se usa o “ctrl c, ctrl v” bem mais que o “gilete press” daqueles tempos. A busca pelo furo era mais intensa e emocionante. Os repórteres hoje precisam melhor formular as entrevistas e pesquisar mais o tema da matéria. Existe uma deficiência no preparo, talvez pelo vício demasiado da internet.

 

A IDEIA É ESSA

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

A ideia é essa, meu amigo,

Seja como vaga-lume na escuridão,

Se não tem certeza da sua opção,

Se vai dar certo ou errado,

Se arrisque fundo no desafio,

Mesmo que seja na luz do pavio.

 

A ideia é essa, meu amigo,

Para desvendar o seu segredo,

Nunca tenha medo do castigo,

Seja qual for o final do enredo,

Ouça a mensagem da canção,

Que vai guiar sua difícil decisão.

 

A ideia é essa, meu amigo,

Nunca deixe de regar a sua flor,

Seja na alegria ou na triste dor,

Sempre encare seu presente,

Curta os momentos da vida;

Construa bem seu futuro abrigo,

Com sua mente mirando o mar.

Ao lado do seu grande amor.

 

AMOR PELA NATUREZA

Nona Alves Fernandes – jornalista

Para aliviar os momentos tensos e exaustivos vividos em 2020, o médico Getúlio Borges Fernandes escolheu a Ilha de Itaparica para passar um período de descanso nos primeiros dias de janeiro. Na maior parte do tempo era a Natureza que preenchia os momentos de reflexão do cardiologista. Ao término do curto período de férias, Getúlio já não podia esconder para si mesmo que estava apaixonado por algo que significa vida para o ser humano.

Numa dessas manhãs de verão, “contaminado” pelo clima de serenidade do lugar, que contrastava com a aflição e a dor dos hospitais, manifestou em Getúlio a ideia de editar os versos escritos na época de estudante e os mais recentes, a maioria dedicada à Natureza. Entre bulas e reclamos de medicamentos e com a ajuda de sua secretária Lizandra Nunes, os versos rascunhados em receituários foram reunidos no livro “A Vida Humana e a Natureza”

Prefaciado pelo escritor Eduardo Olympio da Silva Braga, o primeiro trabalho literário do doutor Getúlio contem 142 páginas e 124 poemas. Editado pela Fontenele Publicações, em São Paulo, encontra-se à disposição dos amigos, colegas e clientes do escritor nas principais  distribuidoras de livros do país, podendo ser adquirido pela internet.

“Amor pela Natureza” é o título de um dos poemas do médico-poeta. Numa das estrofes, ele adverte:: “Se cometer o pecado/ da natureza lesar/nunca será perdoado,/seu ato será levado pra no futuro julgar”. Observa-se que a métrica usada pelo autor se aproxima da figura poética das redondilhas (versos de sete  a  nove silabas).  Itaparica, celeiro de inspiração e “beleza por todo o canto”, foi lembrada pelo escritor ao citar  a água da Fonte da Bica, uma das atrações turísticas da ilha. “Viva o povo brasileiro/ Escreveu nosso poeta”, é uma lembrança, uma homenagem, ao mais conhecido dos itaparicanos, o “imortal” da Academia Brasileira de Letras (ABL), João Ubaldo Ribeiro.

Médico e escritor Getúlio Borges Fernandes

A dedicação de profissionais da Medicina pela literatura pode ser constatada numa consulta aos anais da ABL. Vamos encontrar entre dezenas de médicos acadêmicos os nomes de Ivo Pitanguy, Miguel Couto, Deolindo Couto e Moacir Scliar. Com 24 livros (poemas, contos e romances)  publicados, o pediatra Aramis Ribeiro Costa presidiu em duas oportunidades a Academia Baiana de Letras.

Membro da Academia de Letras de Vitória da Conquista, o jornalista, escritor, poeta, escultor e produtor de vídeos, Jeremias Macário, num passeio pelo seu jardim, como faz diariamente para esquecer a covid-19, comentou: “Tente refletir sobre o mistério contido numa flor. Vamos apreciar com mais atenção a natureza. As flores me deixam menos tenso nesses tempos de pandemia e de crise política, econômica e social”

Getúlio Borges Fernandes nasceu em 13 de fevereiro de 1954, em Igaporã, no sudoeste da Bahia, onde iniciou os estudos; os cursos ginasial e colegial foram feitos em Caetité. Adolescente, transferiu-se para Salvador, onde ingressou na Faculdade de Medicina da UFBa, especializando-se em cardiologia e clinica médica. Em seu consultório, no Itaigara, atende há mais de 35 anos uma clientela fiel.  Suas atividades profissionais incluem a docência universitária nos cursos de graduação em Medicina e de pós-graduação em Clínica Médica.

 

 

A GRAVIDEZ E A PANDEMIA

Uma população inteira de Vitória da Conquista foi dizimada. Simplesmente desapareceu do mapa, como se estivesse sido exterminada por uma bomba. Calma gente, não é nada disso! Conquista continua viva com o mesmo número de habitantes, mas também está sendo sacodida pela pandemia que já ceifou a vida de mais de 333 mil pessoas em nosso país, o mesmo contingente de humanos da nossa cidade do Sertão da Ressaca.

O dado é só para ilustrar a dimensão do estrago que a Covid-19 já fez no Brasil, e só aumenta a cada dia, ultrapassando mais de quatro mil mortes por dia, o maior índice do mundo. No entanto, minha intenção é fazer uma relação entre a gravidez de mulheres nesse período de pouco mais de um ano e a doença. Trata-se de um assunto pouco comentado pela mídia.

DUPLO PERIGO

Não sou nenhum infectologista ou especialista nesse campo, mas qualquer um sabe que é um duplo risco para a mulher se engravidar nesse tempo tão aterrador. Confesso que ainda não li e não vi nenhuma reportagem mais específica e profunda, mostrando os perigos para a mãe e o bebê no caso de a mulher vir a ser contaminada.

Mesma que a grávida de Covid tenha um parto sem problemas, a criança pode nascer com sequelas de deficiências, como ocorreu no caso da Zica? Entendo que o risco seja bem maior para a mãe infectada que já tenha doenças crônicas, como pressão alta, diabetes, asma e deficiência coronária.

Como jornalista, creio que é uma pauta importante para uma matéria esclarecedora. Nesse ponto, e diante do atual quadro, os casais têm pensado nessa questão antes de decidir ter um filho? Dá para mensurar se nesse período de Covid houve um aumento, ou uma redução no número de partos nos hospitais? Outra questão é a falta de vagas nas unidades de saúde, especialmente do SUS.

O que mais me espanta, ou aliás, já era de se esperar, é perceber que as mulheres mais grávidas são as mais pobres e que já têm três e quatro filhos pequenos numa situação de desnutrição alimentar, o que demonstra, mais uma vez, a falta de educação e instrução para evitar nascimentos nesse panorama de pandemia, desemprego e fome.

É a cara de um Brasil desigual onde a miséria aparece ao lado da Covid-19 como uma praga que está exterminando os brasileiros mais fracos. O insignificante auxílio emergencial mais as iniciativas de doações de grupos e associações não estão dando conta da demanda de milhões de bocas famintas.

Todas essas mazelas são resultado da falta de uma liderança no comando central e de uma coordenação que ouvisse as recomendações científicas de combate ao vírus desde o seu início, numa frente de isolamento social e adoção dos protocolos de higienização, como o uso de máscaras e outras medidas de restrição.

No entanto, o que temos é um governo de negacionistas que ainda acredita que a terra é plana e que a pulga vem da areia. É um governo que se indispôs com nações das quais tanto necessitamos de negociações para aquisição de mais vacinas para imunizar a população. É um governo que se isolou do resto do mundo e disse que ser pária é bom. É um governo que levou o Brasil a bater o recorde de mortes no mundo.

A MISÉRIA E A EXPLORAÇÃO SEXUAL

Demora muito tempo esquecido, mas o tema sempre volta à tona. O discurso continua o mesmo, e assim sempre vai haver exploração sexual de menores no mundo das estradas brasileiras. Entra campanha e sai campanha, sempre focada nos caminhoneiros, como se todos eles fossem tarados sedutores das meninas esmolambadas de pés no chão, ávidas por um prato de comida.

Não quero aqui, de forma alguma, eximir a culpa dos motoristas das cargas pesadas, mas não podemos generalizar. Existe do outro lado das leis do estatuto da criança e das Ongs defensoras da causa, um discurso moralista e até hipócrita, que deixa de reconhecer que a miséria e a fome levam esses menores a praticar a sedução por urgente necessidade de se nutrir, tanto que vendem seus corpos por uma refeição. Claro que ao caminhoneiro cabe ter consciência e recusar.

OS PAIS E AS MENINAS

Nessa miséria profunda de desigualdade social, principalmente a nordestina, que tem origens no cruel passado de exploração dos coronéis do dinheiro e do poder, até os pais mandam suas inocentes e frágeis meninas vagar à noite nas estradas ou nos postos de combustíveis à procura de homens, para matar a fome e sobrar um pouco de comida para os outros irmãos.

A esse povo errante e retirante, há séculos que os governos aventureiros, oportunistas e populistas negaram a educação, dignidade humana, ajuda para manter suas lavouras e um emprego decente. É muito fácil colocar a culpa só nos caminhoneiros e carimbar neles uma imagem de vilões aproveitadores, e não atacar de frente o problema da miséria. Nesse Brasil, costumamos sempre jogar toda sujeira para debaixo do tapete, como se isso fosse resolver as mazelas.

Quem não sabe e conhece as histórias de pais desesperados, inclusive de mães que vendem seus filhos por tostões para ficarem livres de seus rebentos e ainda pegar uma graninha merreca para tirar a barriga da miséria? Em minhas andanças como jornalista, já narrei um caso de um marido vender a mulher e a filha por uns sacos de farinha e feijão.

Por falta de educação, que por séculos é negada ao povo, as famílias pobres são as que mais têm filhos, inclusive nesse período caótico da pandemia, e isso persiste até hoje no campo e nas favelas das cidades grandes. Nelas ainda existe a cultura religiosa de que foi a vontade de Deus que assim quis. O resto, todos sabem o que acontece quando chega o aperto num casebre apertado repleto de crianças que dormem amontoadas com fome.

Logo cedo, as meninas e meninos caem na rua da amargura, e oferecem a única coisa que possuem que é o sexo. Eles estão por todos lugares, não somente nas estradas e postos, mas nas praias nordestinas, nas ruas, nas portas dos hotéis e em bares e restaurantes. Não são as campanhas, nem as leis e estatutos que vão acabar com esse triste quadro.

Com o agravamento da Covid-19, o desemprego, a informalidade e a falta de instrução para arrumar um trabalho, a situação piorou mais ainda, e engrossou esse contingente de menores, principalmente de meninas sendo exploradas sexualmente.

O que não dá é para generalizar e jogar toda culpa no caminhoneiro. Não estou aqui defendendo a categoria, e sei que muitos aproveitam essa fraqueza e comete o crime. Não vamos ser hipócritas para não enxergar que a raiz do problema está na miséria. As políticas públicas são sempre populistas com o sentido de angariar votos para que o sistema perpetue assim.

 

 

O PRECONCEITO RACIAL INTERROMPE OS ESTUDOS DE UM MENINO ESCRITOR

Não fosse o preconceito racial, o menino Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido em 13 de maio de 1881, quando o mulato Machado de Assis lança, no Rio de Janeiro, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, e Aloísio de Azevedo publica “O Mulato”, tinha tudo para ser um grande aluno. Isolado e excluído, o único consolo eram as leituras na Biblioteca Nacional e as visitas à capelinha do Apostolado Positivista.

Em “Literatura Comentada”, da Abril Educação, o crítico Antônio Arnoni Prado fala do grande escritor que foi Lima Barreto, cujas obras foram marcos de uma literatura realista/naturalista de transição para o modernismo entre os séculos XIX e XX. Seu pai, João Henriques era tipógrafo nas oficinas do Jornal do Comércio e do Jornal A Reforma, e sua mãe, Amália Augusta, professora que contraiu tuberculose e morreu em 1887.

Lima Barreto tinha mais quatro irmãos e veio numa época muito difícil para a família quando sua mãe faleceu. Com seis anos frequentava a escola pública, quando o pai ingressou no movimento de resistência liberal e publicou uma tradução do “Manual do Aprendiz Compositor”.

Dedicado, Lima Barreto passa com brilho pelo curso primário e pelos exames da Instrução Pública que lhe deram condições para entrar no Liceu Popular Niteroiense. Internado, o menino só vê a família aos sábados. Deprimido e solitário pela discriminação, pensa em se suicidar aos 15 anos.

Em 1895 transfere-se para o Ginásio Nacional. No ano seguinte conclui os preparatórios no Colégio Paula Freitas para o ensino superior. Em 1897 ingressa na Escola Politécnica. Em 1902, ainda na Faculdade, começa a colaborar em “A Lanterna”, órgão da mocidade das escolas superiores. Assinava como Alfa Z e Momento de Inércia.

Na escola, Lima Barreto era perseguido pelo professor Licínio Cardoso, com constantes reprovações injustas, e sofria de forte discriminação racial. “Seu sentimento de revolta, suas atitudes pessimistas e seu complexo de inferioridade aumentam”. Nessa época, seu pai enlouquece. Para cuidar dos irmãos e da saúde do pai, abandona a Faculdade.

Em 1903 ingressa como amanuense na Secretaria da Guerra. Frustrado com a situação, ele começa a beber e a frequentar cafés, livrarias e redações de jornais do Rio de Janeiro. Era o fim do período áureo da boemia literária. Dos encontros nos cafés, conhece Domingos Ribeiro Filho, Lima Campos, Gonzaga Duque e outros. Desses contatos com o meio intelectual, passa a colaborar na “Quinzena Alegre” e em “O Diabo” (revista de troça e filosofia). Depois conseguiu um trabalho na redação de “O Pau”, com Crispim Amaral.

O ingresso no jornalismo profissional se deu em 1905 no Correio da Manhã. Divide seu trabalho com a militância política no comitê do Partido Operário Independente. Em 1907 funda a “Revista Floreal”, para combater os formulários de regras literárias que impediam a projeção de novos talentos.

Finalmente, em 1909, Lima Barreto publica, em Lisboa, seu romance de estreia “Recordações do Escrivão Isaias Caminha”. No ano seguinte, o livro é elogiado por José Veríssimo. Em 1911, o Jornal do Comércio começa a publicar em folhetins seu segundo romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, numa linguagem despojada e inconformista.

O escritor aproveita o sucesso para colaborar com a Gazeta da Tarde e publica o romance “Numa e a Ninfa” (relatos folhetinescos). Esta fase, porém, é marcada por penúrias e desgostos familiares. Entrou em depressão e terminou sendo internado no hospício, em agosto de 1914.

Ao sair, intensificou mais seu vício ao álcool e passou a perambular pelas ruas. Certa vez, seu amigo Monteiro Lobato o vê bêbado numa mesa de bar e evita falar com ele por se sentir constrangido. Em 1916 precisa fazer um tratamento de saúde para curar uma anemia profunda, mas continua participando do jornalismo militante de esquerda, apoiando a plataforma do movimento anarquista que desencadeia em 1917, em São Paulo, uma das maiores greves da história operária brasileira.

Lima Barreto aproveita o ensejo e lança o “Manifesto Maximalista”, publicado nas páginas do seu semanário A.B.C., com informações sobre a Revolução Russa. Mesmo fraco, continua sua atividade literária e escreve para a revista “Brás Cubas” e a “Lanterna”. Publica “Os Bruzundangas”, um perfil das mazelas nacionais. Em 1918 é aposentado da Secretaria da Guerra por invalidez. Foi ainda diagnosticado como portador de epilepsia tóxica.

Sua melhor obra para muitos críticos foi “Vida e Morte da M. J. Gonzaga de Sá”, em 1919. Foi novamente recolhido ao hospício e só volta de lá em 1920. Candidata-se por duas vezes à Academia Brasileira de Letras, mas não é eleito. Suas últimas manifestações de rebeldia intelectual foram registradas no romance “Clara dos Anjos”, crônicas sobre o folclore e publicações de suas experiências no hospício, contidas nas páginas do “Cemitério dos Vivos”.

A miséria e os delírios do pai louco esgotam suas forças para escrever, e Lima Barreto morre de colapso cardíaco, em 1º de novembro de 1922, nove meses depois da realização da Semana de Arte Moderna. Ele nasceu no realismo/naturalismo e viveu no simbolismo. Na verdade, foi um precursor do modernismo, numa autêntica literatura, “voltada para os problemas existenciais do indivíduo em face da sociedade”.

Em nosso próximo “Encontro com os Livros” vamos comentar uma das suas importantes obras da literatura brasileira.

UM CICLO VICIOSO DE CONTAMINAÇÃO

NÃO É JUSTO, OS JOVENS QUE VÃO PARA AS BALADAS ESTÃO TENDO PRIORIDADE NOS LEITOS DE UTI.

Sai uma festa de tradição cultural e entra outra, e tome comemoração, numa pandemia que já ceifou a vida de mais de 325 mil pessoas, uma população inteira de Vitória da Conquista. No Brasil, principalmente na Bahia, os eventos se sucedem numa progressão proporcional da doença através das aglomerações. É um suicídio coletivo! “Gente estúpida”!

Esse ciclo vicioso de contaminação indica que a pandemia ainda vai perdurar por alguns meses, e só pode baixar com a vacinação em massa, que sofreu atrasos e continua num ritmo lento. Ninguém quer cortar sua tradição, como bem vimos no São João passado com uma multidão comprando ingredientes nas feiras e mercados para festejar com as famílias, amigos e parentes.

Depois do São João vieram as eleições, e depois as comemorações de final de ano. O ritual de estupidez é sempre o mesmo, seguido de um aumento nos índices de infecção, superlotação nos hospitais e mais gente morrendo. No início de fevereiro tivemos os carnavais clandestinos incentivados pelas lives da turma do axé baiano.

Agora é a Semana Santa e os Ovos de Páscoa, com as peixarias, feiras e supermercados cheios de consumidores ávidos para fazer mesas fartas com vatapá, caruru e outras comilanças. Como no Natal, a Sexta da Paixão é o tempo que as pessoas mais se empanturram com comidas e bebidas quando deveria ser o contrário, como recomenda a religião. A tradição da festa, carregada de comidas, ultrapassou a religiosidade.

Esse quadro de insensatez serve para estampar um dos maiores paradoxos brasileiros. De um lado, uma camada mais pobre se aglomera nos mercados para comprar peixe, camarão, dendê, quiabo, castanha e outros ingredientes para a festança. Do outro, vemos imagens de casebres famintos, de geladeiras e panelas vazias, com crianças e adultos que mal fazem uma refeição por dia.

Não dá para entender esses absurdos de desigualdade social de uma pobreza, que ainda consegue um dinheirinho para cumprir a tradição de uma Semana Santa, dentro de outra ainda pior de extrema pobreza que passa fome e não vai ter o peixe na mesa para seguir o preceito.

Dentro de mais 15 ou 20 dias vamos ter outro avanço da doença, praticamente coincidindo com o São João de junho, para completar o chamado ciclo vicioso da contaminação. Enquanto isso, as vacinas chegam aos tiquinhos, numa velocidade de uma carroça.

 

AS FLORES DO MEU QUINTAL

 

Elas estão em várias partes das nossas cidades, mas são despercebidas pela grande maioria que vive na corrida desenfreada pela busca do dinheiro e, consequentemente, da sobrevivência. São as flores que até são pouco decantadas pelos poetas que no romantismo serviam de inspiração para belos poemas de amor e gratidão pela vida. Elas sempre foram as musas da natureza. Em meu quintal, as flores me deixam menos tenso, principalmente nesses tempos tão difíceis de pandemia e crise política, econômica e social, com tanta pobreza. Estão sempre nas lentes da minha máquina. Precisamos olhar mais para as flores quando passamos por uma por que eles nos saúdam. Uma parada pode ser confortante e pode lhe dar a resposta que você tanto procura para seu problema. Vamos apreciar mais a natureza que pode nos fazer mais tolerantes com os outros. Tente refletir sobre o ministério contido na flor, e sua  vida pode ser bem melhor nesse universo desconhecido.

SE O TEMPO PUDESSE VOLTAR

Poema mais recente do jornalista e escritor Jeremias Macário

Ah, se o tempo pudesse voltar,

E mudasse o rumo do vento,

Escolhesse outro conquistador,

Com uma história de Brasil vencedor.

 

Ah, se o tempo pudesse voltar,

Para proibir toda escravidão,

Levar água e comida ao nordestino,

E a todos dar um bom destino,

 

Ah, se o tempo pudesse voltar,

Para garrotear uma ditadura militar,

Onde nosso povo fosse livre e feliz.

 

Ah, se o tempo pudesse voltar,

E impedisse a derrubada das florestas,

Para termos o puro ar para respirar.

 

Ah, se pudesse voltar ao tempo,

Para recuperar o tempo perdido,

E melhor entender o caminho da vida.

 

Ah, se pudesse voltar ao tempo,

Não magoaria o sentir de tanta gente,

E regaria sempre a minha semente.

 

Ah, se pudesse voltar ao tempo,

Não jogaria lixo na pista e no mar,

E aproveitaria mais o tempo para amar.

 

Ah, se pudesse voltar ao tempo,

Repetiria as boas ações que fiz.

E cortaria todos os males pela raiz.

 

Ah, se pudesse voltar ao tempo,

Mas o tempo não pode voltar,

“E agora José? E agora José”?

O jeito é ter coragem e fé,

Remover a pedra do caminho,

Porque você ainda tem tempo,

Pra seus sonhos reconquistar.

TEM CHEIRO DE ENXOFRE NO AR

Nesse dia de 31 de março de 1964 (na verdade o golpe foi 1º de abril – dia da mentira), o general Olympio Mourão (o outro) desceu a serra de Juiz de Fora (MG) e começou a quebrar com toda ordem constitucional, em nome de uma salvação ilusória de tirar o país das trevas comunistas. Foi o maior atentado à democracia no Brasil que, de início, com uma propaganda midiática dos Estados Unidos de uma Guerra Fria, contou com a adesão de uma camada de civis, da Igreja e até da Imprensa.

Um ano depois, em 1965, esses apoios foram sendo retirados porque a nação se sentiu traída (prometeram eleições livres), e piorou mais ainda com o AI-5, de 13 de dezembro de 1968. Cinquenta e sete anos depois, infelizmente, estamos sentindo esse mesmo cheiro de enxofre no ar, com os generais fazendo Ordem do Dia, negando toda a história, e assegurando que foi um movimento marco da democracia.

OS TORTURADOS POLÍTICOS

Eles poderiam, pelo menos, respeitar a memória dos torturados políticos mortos nos porões fúnebres da ditadura civil-militar (fuzilados e esquartejados) e dos seus familiares que até hoje ainda choram pelos seus entes queridos. Deviam respeitar, pelo menos, esse momento terrível de pandemia da Covid-19 que já matou quase 320 mil brasileiros, uma população inteira de Vitória da Conquista. Eles hoje, que estão encastelados no governo, têm uma grande parcela de culpa por essa mortandade que poderia ter sido evitada.

Monumento na Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, em homenagem aos tombados durante a ditadura civil-militar de 1964. Foto do jornalista Jeremias Macário

Eles deveriam respeitar as famílias enlutadas e focar suas energias autoritárias para reparar seus erros, e adquirir vacinas suficientes para imunizar toda nossa população. Não é hora de ficarem ai dividindo e tentando reescrever nossa história, com levianas mentiras. Tudo isso é por conta de uma anistia (1979) que não teve reparação das atrocidades cometidas e deixou as feridas abertas em nossos corações dilacerados.

De lá para cá, o nosso país nunca mais foi o mesmo, vivendo uns altos e baixos em seu desenvolvimento econômico, educacional e social, culminando com esse caos de atraso político ideológico fascista, com cheiro de enxofre no ar. Esse seria o momento de reconciliação, de paz e não de criar mais ódio, intolerância e divisão entre um povo tão sofrido.

Não é momento, e nunca será, senhores generais, de comemorar um passado que só nos deixou más recordações, não importando seus argumentos inconsistentes e não convincentes. Pelo menos, lembrem, senhores generais, que foi um passado de sangue, e mirem nos exemplos dos nossos países vizinhos (Uruguai, Argentina, Chile, principalmente) que puniram os torturadores, e não tentam hoje mudar suas histórias.

É muito estranho a saída de três generais de comando das forças armadas de uma só vez, isto depois do processo de redemocratização há pouco mais de 30 anos. O ministro da Defesa, que foi exonerado, não estava alinhado ao pensamento do capitão-presidente que queria decretar estado de sítio no país, e continua com a maldita ideia de uma intervenção militar, fora os seguidores aloprados que defendem uma reedição do AI-5, ou sei lá, um AI-6.

Infelizmente nossa juventude, que pouco conhece sobre nossa história, e gente inclinada ao autoritarismo, entram na onda da negação de que não houve uma ditadura no Brasil que matou mais de 500 pessoas e torturou milhares que contestaram o regime dos generais dos cincos governos militares.

Não sabem que houve um golpe dentro do golpe, em 1968, com total censura à imprensa, corte dos direitos civis, cassação dos políticos em geral considerados subversivos e fechamento do Congresso Nacional. Naquela época, não se podia nem realizar reuniões, e a ditadura dizia ter o poder de adentrar no pensamento individual.

Hoje, eles falam em movimento e até revolução, argumentando que as forças armadas foram chamadas pelos civis, pela Igreja (pátria, família e tradição) e pela mídia, para manter a ordem ameaçada pelo totalitarismo comunista. No entanto, esquecem de dizer que entre meado e final dos anos 60 para início dos 70, praticamente todos esses setores da sociedade se arrependeram do apoio e se posicionaram contra as barbaridades do estado de exceção.





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