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LANÇAMENTOS DE LIVROS NA UESB

Etnicidades, antropologia, povos indígenas e africanos, escravidão, terreiros de candomblé, quilombolas e personalidades da religião afrodescendente foram, entre outras, as principais questões levantadas na noite de ontem (quarta-feira, dia 4) no Módulo quatro da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb por professores que lançaram seus livros para acadêmicos, pais de santo de terreiros de Vitória da Conquista e convidados.

Numa variedade de temas específicos, centrados nas culturas, vida social e religião dos povos africanos e indígenas, foram apresentados os trabalhos “Remanso –uma comunidade mágico-religiosa (o fantástico apoiado em uma mundividência afrodescendente – aspectos das ambiências sociais, geográficas e históricas)”, de Itamar Aguiar e Ronaldo Sena, “Etnicidades e Trânsitos”, dos professores Marise de Santana, Edson Dias Ferreira e Washington Santos Nascimento, “Antônio Burokô”, de Domingos Ailton, “Tradições Étnicas entre os Pataxós no Monte Pascoal”, de Luis Caetano e outros ensaios individuais de Marise e Ronaldo.

Representantes de terreiros de candomblé de Conquista estiveram presentes ao evento quando ao final dos pronunciamentos dos autores fizeram uma oração de paz e pediram a todos mais tolerância religiosa e menos preconceito. Na ocasião, foram destacados os massacres e a opressão praticados pelo Brasil, no caso da escravidão, e pela humanidade em geral contra os negros e as nações indígenas.

Itamar Aguiar falou do propósito da obra Remanso, uma comunidade quilombola situada em Lençóis, numa área às margens do Marimbus, na Chapada Diamantina, destacando a vida, a religião e os costumes de uma gente predominantemente negra que vive da pesca e da agricultura.

Domingos Ailton descreveu sobre o personagem Antônio Burokô, um famoso pai de santo que viveu por muitos anos em Jequié e que sempre conseguiu driblar a polícia nos momentos de perseguição contra os terreiros, nos anos 30 e 40 do século passado.

Infelizmente, como sempre acontece em lançamentos de livros e eventos culturais na Bahia e em todo Brasil, o público presente foi pequeno para o tamanho e importância das obras escritas, mas o professor Itamar apontou a qualidade dos participantes no encontro como fator principal que mais interessava naquele momento. Foi um debate proveitoso onde todos expressaram suas ideias e argumentos.

AS QUARESMEIRAS NOS CONSOLAM

Em meio a tantas mazelas, egoísmos e cercados de ódio e intolerância, as quaresmeiras nas ruas e avenidas de Vitória da Conquista ainda nos consolam e aliviam nossas aflitas almas. Lá estão elas imponentes e exuberantes com suas flores coloridas aveludadas para confortar as dores das perdas, do ente que partiu ou da decepção que nos ronda.

Nesses momentos tão difíceis, elas nos falam, com seu olhar sereno, para prosseguirmos a jornada, e abrandam o coração de quem chora e derrama suas lágrimas por dentro. Não estão lá apenas nas épocas de quaresma, mas todos os dias do ano algumas se atrevem a florir como se estivessem de plantão para distribuir bondade e paz.

Apesar de tão maltratada pelas mãos do carrasco homem egoísta que só pensa em si, e tirar proveito como se a existência fosse eterna, a natureza continua nos abençoando como a mãe que, mesmo rejeitada, nunca abandona seu filho que se desviou do caminho. Ela não é só poesia, é essência e bálsamo até onde não existe sentido de viver.

OS TERRENOS DOS LIXÕES MEDIEVAIS

Eles estão por todas as partes da cidade de Vitória da Conquista, principalmente nos bairros próximos do centro e nas periferias. Tem donos especulando ganhar dinheiro, mas estão lá abandonados acumulando matos, lixos, restos de materiais de construção, camas velhas, sofás, plásticos, armários, materiais eletrônicos e até medicamentos vencidos.

Transformaram-se em verdadeiras lixeiras que acoitam ratos, cobras, mosquitos diversos e todo tipo de insetos que provocam doenças e até a peste dos tempos medievais. Lá estão eles emporcalhando as ruas, ao lado e na frente das casas em plenos tempos que a besta humanidade diz ser civilizada e moderna.

Dizem que existem um poder público e uma lei para ordenar o uso do solo e obrigar que os donos cuidem e cerquem seus terrenos para que eles não virem lixões medievais das doenças, mas cadê a vigilância da fiscalização? Que nada, meu amigo! Até o poder público é proprietário desses terrenos sujos que incomodam e enfeiam a cidade.

Se Vitória da Conquista tem um Plano Diretor Urbano, de ordenamento do solo (cada um dá nome à sua rua e escolhe seu número), ele está caduco e precisa ser atualizado através de um projeto do executivo a ser debatido em audiências públicas na Câmara de Vereadores com toda a comunidade.

Enquanto os lixões proliferam nos terrenos abandonados, o legislativo bate-boca; cada um só se preocupa com suas indicações domésticas; em apresentar moções de aplausos, proteger seus lotes eleitorais para que o “inimigo” não invada o terreno; e tramar para continuar no poder. Precisamos de uma Câmara mais firme e séria que discuta mais o coletivo em benefício de toda cidade. Conquista não merece!

O CHOCOLATE DA MÍDIA QUE PERDEU SEU PAPEL HISTÓRICO DE INFORMAR

Menos incitação ao consumismo e mais humanismo. É isso que se espera da mídia que tem se esquecido da dura realidade brasileira. Diante de tanto aperto financeiro das famílias, de excluídos do convívio social e de milhões de desempregados, o repórter é pautado para noticiar a venda de chocolates nos supermercados, atendendo mais a um dos caprichos do sistema consumista.

Por que não mostrar também o outro lado onde milhões não têm dinheiro nem para comprar o feijão com arroz? Praticamente não temos uma imprensa alternativa que saia dessa mesmice publicitária comercial que só empurra as pessoas, mesmo sem condições, a comprar produtos e mais produtos nestas datas criadas pelo setor.

Não sou nenhum ingênuo para não saber que tudo faz parte do jogo capitalista e que a mídia necessita faturar para sobreviver, mas não que ela entre totalmente de cabeça neste esquema e não possa mostrar o que está por trás desse paraíso surreal. Isso acontece na páscoa, no período natalino e em outras épocas que fomentam a cultura do consumismo desvairado.

Levada pelo apelo comercial, que conta com a força persuasiva da mídia, principalmente da imagem televisada, muita gente se entrega a esta onda fazendo sacrifícios sem puder e termina se endividando. É tudo maquinal. As pessoas compram porque outras fazem o mesmo, como se fossem obrigadas a cumprir um ritual e não pudessem ficar de fora para não serem vistas como antissocial.

Não existe entre nós um segmento alternativo da imprensa que nestas ocasiões faça matérias sobre o Brasil pobre que está bem longe do alcance dessas comemorações festivas inventadas pelo comércio, a maioria imitações norte-americanas. O que a mídia tem feito é induz para que as famílias consumam mais e mais, sem a consciência do que estão fazendo.

Tem a camada privilegiada que pode participar da festa para se exibir, os penetras que entram sem puder, mesmo sem sentido da coisa, e a grande maioria de excluídos que frustrada fica de fora das extravagancias. Muitos, felizmente, não embarcam nesta cultural artificial e descartável.

QUASE NADA SOBRE A DITADURA

Mas, não é somente nesta questão que a nossa mídia tem cometido seu pecado capital. Ela se habituou a cobrir escândalos, tragédias humanas e naturais, bárbaros assassinatos, execuções (caso da morte de Marielle Franco), chacinas e fatos históricos lamentáveis e logo depois se afasta da cena sem dar o devido seguimento, as chamadas “suítes”. Neste sentido ela tem colaborado para que o povo esqueça sua história e assim repita os mesmos erros do passado.

São muitos os exemplos que poderiam ser aqui listados, mas vou me reportar ao 1º de abril de hoje de 2018, que está completando 54 anos da ditadura civil-militar que, com sua repressão de fogo e ferro, torturou e matou muitos brasileiros que se levantaram contra o regime. Pouco se tem falado da data para o público, enquanto os generais festejam em seus quarteis como uma “revolução” que tirou o povo do cativeiro.

A mídia tem a obrigação de exercer seu papel histórico, de estar sempre relembrando estes acontecimentos através de entrevistas, reportagens jornalistas exclusivas e documentários. Isto serve para que a população tome conhecimento, principalmente os nossos jovens que, no caso específico da ditadura de 64, quase nada sabem do assunto.

É por estas e outras que tem muita gente maluca por aí pedindo a volta dos militares ao poder, e a maioria inculta entra no embalo, falando impropérios e repetindo besteiras que escuta dos extremistas retrógrados. Como as feridas continuam abertas com a anistia dos torturadores, essa saída suicida de acabar com a liberdade ganha cada vez mais espaço na sociedade.

A mídia tem muita culpa nisso porque ela se distanciou da sua missão precípua de bem informar sobre os fatos e passou a fazer apenas o factual de sempre, com cunho mais publicitário e consumista, só pensando na audiência e no faturamento.

Para resumir, a nossa mídia está mais pobre em conteúdo. Deixou de fazer com que as pessoas reflitam mais sobre sua realidade e sua história. Ela perdeu muito o seu lado investigativo e provocador. É lamentável, mas é a verdade. Alguns impressos ainda pontuam estas questões.

VOU SER MOCÓ E VIVER NUMA LOCA

Não fique ai esperando. Com um eleitorado quase todo ignorante, alienado e escravo dos favores e dos religiosos, as eleições não mudarão as coisas. A ratazana vai continuar roendo o delicioso queijo chamado Brasil. Sem esperanças e futuro incerto, vivemos numa sociedade acossada pelo medo.

Pode até ser covardia ou fuga do real, mas estou cansado e pensando em virar mocó num sítio qualquer por aí pra viver na minha loca, isolado no meu buraco egocêntrico, e bem longe de tantas idiotices e imbecilidades. Prefiro a reclusão nestes dias que me restam. As circunstâncias financeiras, infelizmente, ainda não me permitem, mas tenho pressa e apelado para Odin e a todos os deuses do universo que me levem.

O tempo não espera e estou me esvaindo aos poucos neste turbilhão de besteiras, retrocessos, violências e descalabros dos porcos malfeitores. Neste arrastão desumano, confesso que não sou um homem maduro o suficiente pra viver com sabedoria e serenidade, de modo a evitar a irritação e a revolta. Ainda me sinto um perdido nesta selva dividida de lobos, hienas e raposas raivosas. Meu lugar não é mais aqui.

Os extremistas estão avançando com seus tanques e passando por cima das diversidades e divergências. O ovo da serpente está sendo gestado. Os direitos humanos e trabalhistas, os movimentos em defesa da igualdade social, de gênero e de cor, as lutas em prol de justiça para os injustiçados e as denuncias contra as brutalidades da força repressora policialesca estão sendo destruídos e ameaçados de morte.

Como no poema de Maiakovski, do jardim pisoteado, agora estão arrombando nossas portas e destruindo nossas flores e lares, provocando choros, lágrimas e ranger de dentes. As nossas crianças e jovens estão sendo exterminadas por balas assassinas, e não se sabe quem é mais truculento e sanguinário, se as rajadas dos bandidos dos morros e asfaltos ou os homens ditos da lei com seus fuzis e metralhadoras em punho.

As ideias macabras nazifascistas de ódio e intolerância se disseminam nas redes sociais com calúnias, injúrias e difamações. Por todos os cantos se ouve impropérios, absurdos e incitações dos radicais. As notícias falsas e mentirosas se propagam como rastilho de pólvora. Das bocas tremulas escorrem espumas de ódio e dos cérebros endurecidos ofensas contra os que rogam por igualdade. O certo não é mais certo, e o errado é o correto.

Todos estão fixos como robôs de olho nas telas malditas, e longe do olho no olho entre os seres. A mobilização popular tem seu tempo curto de ativismo, só enquanto o sangue ainda está quente nas ruas e nas calçadas. Depois todos seguem indiferentes, cada um no seu caminho da busca pela sobrevivência individual. O coletivo é sempre o descartável e tem seu prazo de validade vencido.

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VEREADORES REAGEM CONTRA SALOMÃO NUMA SESSÃO QUE “PEGA FOGO”

Num discurso inflamado, o vereador do PT Coriolano Moraes se dirigiu ao colega David Salomão dizendo que fascista sempre evoca o nome de Deus, pátria e família, para manipular e enganar o eleitorado com mentiras. No mesmo tom, outros se mostraram também revoltados com a atitude de desrespeito do parlamentar para com os outros membros da Câmara de Vitória da Conquista.

A rejeição por 16 votos ao projeto de Salomão, considerado como inconstitucional, o qual visava impedir a realização de blitz no trânsito da cidade com apreensão de veículos irregulares com o IPVA, foi o estopim dos desentendimentos na sessão de ontem (quarta-feira, dia 28), que na gira popular se diz que “pegou fogo”.

A reação de Coriolano endossou os pronunciamentos da maioria dos parlamentares da Casa que se sentiu ofendida por ter sido difamada nas redes sociais como traidora porque não votou seu projeto, por quase todos considerado como um absurdo jurídico por se tratar de uma questão da alçada do governo federal.

O primeiro a falar foi Álvaro Pithon que não poupou palavras para tecer duras críticas ao colega que, segundo ele, de forma mentirosa e vergonhosa tentou colocar o povo contra a Câmara que não aceitou um projeto que não é da competência dela legislar. Todos seguiram a mesma linha de repúdio à atitude do colega e se sentiram atingidos na sua honra.

Antes de mostrar toda sua agressividade, como sempre faz, Salomão leu seu Salmo preferido em louvor a Deus, e depois descarregou toda sua raiva naqueles que votaram contra sua proposta.

Atacou de forma grosseira o Governo do Estado e denunciou que os vereadores ficaram com medo de aprovar uma medida que iria beneficiar a população. No seu entendimento, foi uma covardia do legislativo municipal.

Quando começaram os bombardeios contra sua pessoa, o vereador retirou-se da sessão plenária, mas nem isso acalmou os ânimos e as posições de revolta. Muitos pediram sua presença para que ele ouvisse a verdade e não a mentira que soltou de forma antiética nas redes sociais na semana passada.

Todos contaram que foram interpelados pelos eleitores e a população conquistense de um modo geral, indagando sobre o motivo de não terem votado no projeto contra as blitz e apreensões de carros em débito com o IPVA e outras taxas obrigatórias cobradas pelo governo.

Os vereadores explicaram que todos os advogados, a própria OAB e especialistas consultados se posicionaram contra a matéria por não estar na esfera municipal, e que seria até ridículo se a Câmara aprovasse um projeto inconstitucional.

Não é a primeira vez que o vereador David Salomão vem batendo forte contra o legislativo municipal do qual ele pertence, destilando suas ideias conservadoras, retrógradas, arbitrárias e extremistas, inclusive pedindo o retorno de uma intervenção militar no país.

Não é somente isso, por muitas vezes o vereador em referência tem agido com a falta do decoro parlamentar, o que poderia já ter sido julgado pelo Conselho de Ética, cuja hipótese não foi descartada, conforme ficou evidenciada no discurso de alguns parlamentares que mais uma vez se sentiram ofendidos com suas acusações.

CRESCIMENTO ILUSÓRIO E REPETIDAS CRISES

Um passo à frente e três atrás. Assim é o crescimento de épocas em épocas curtas do Brasil primário com repetidas crises agudas, bem mais acentuadas que o capitalismo como um todo, conforme cálculo de Karl Marx. Sem planos estratégicos o futuro de uma nação é incerto.

Com economia frágil, desprovida de planejamento intensivo e fincada no agronegócio (no inicio era a monocultura) com maior peso na exportação de produtos primários e dependência dos industrializados finais, como a química fina, o nosso país é o primeiro a entrar numa crise de cunho externo e um dos últimos a sair dela.

Esta marca do improviso, com raras exceções, do endividamento dos recursos vindos de fora, do capital egoísta explorador e concentrador de rendas, da falta de compromissos sérios dos governantes para com as causas sociais, desde os tempos coloniais e imperiais, fizeram do Brasil um país feio, desengonçado e atrasado, de difícil recuperação.

De subdesenvolvido a emergente (só trocam os termos), esta terra de Santa Cruz não consegue galgar um crescimento desenvolvimentista sólido e duradouro, e ainda se vangloria da supremacia na agropecuária dos grãos e da carne, como sempre o carro-chefe da economia que evita quedas maiores do PIB (Produto Interno Bruto), ou ajuda na sua alta pífia de 1%, como a do ano passado. A base do superávit da balança comercial está nas matérias primas.

Mais uma vez, o destaque do PIB de 2017 foi o agronegócio altamente subsidiado, com 13% (milho, soja, algodão, carne e outros primários), com serviços e comércio pouco acima de 1%, e a indústria se arrasta com baixos índices de produtividade, hibernada no negativo ou na estagnação.

Na pauta de exportação valem bem mais os grãos, o ferro, o petróleo cru, alguns manufaturados e semi-industrializados (laminados de ferro e alumínio, celulose de papel e petroquímicos). O comando é sempre das matérias-primas que oscilam de preços e dependem da demanda dos grandes consumidores.

Da colônia, do império à república, os ciclos de produção, desde o Pau Brasil, a cana-de-açúcar, a pecuária, o ouro, a borracha e até o cacau, na Bahia e na Amazônia, tiveram seus picos de alta e depois entraram em fracasso, Da independência herdou uma pesada dívida para com a Inglaterra. A diversificação lenta da economia para o campo da indústria só se deu na segunda metade do século passado, muito menos pela iniciativa privada acumuladora de lucros em aplicações financeiras, e praticamente pela mão paterna do Estado.

A classe trabalhadora sempre foi explorada pelas empresas, principalmente as multinacionais do imperialismo norte-americano que aqui se implantaram para sugar nossas riquezas e usar a mão-de-obra barata. Tudo sempre voltou para os países de origem.

Os operários só vieram ter um alento em termos de benefícios e direitos trabalhistas a partir do segundo Governo de Getúlio Vargas, com sindicatos ainda pelegos amordaçados pela ditadura dele, de 1930 a 45. Ali começavam os golpes e as sucessivas crises.

Juscelino Kubistchek se notabilizou pelo entreguismo e mais endividamento pela construção de Brasília e mais abertura de estradas, privilegiando as rodovias com os carros das primeiras montadoras automobilísticas, em detrimento do transporte ferroviário e fluvial. A inflação começou a corroer as parcas economias dos mais pobres e quase nada em programas sociais, em educação e saúde.

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FALTA DE RECONHECIMENTO E INGRATIDÃO

Como se diz no jargão jornalístico, no “gancho” do meu companheiro jornalista Carlos Gonzalez sobre Sérgio Fonseca que faleceu nesta semana do dia 22 (quinta-feira), quando disse que sentia nele em vida um semblante de mágoa pela falta de reconhecimento dos seus relevantes trabalhos em Vitória da Conquista, concordo que esta impressão foi confirmada no seu enterro nesta sexta-feira (dia 23).

Mais uma vez, caro Gonzalez, observei isso na ausência de uma representação do poder público no velório e no enterro de um jornalista sério que no passado prestou seus serviços na divulgação da cidade e da região. Cerca de 30 a 35 pessoas amigas acompanharam sua despedida, e nem um secretário da Prefeitura Municipal e um vereador da Câmara, ou seu legítimo representante, se fizeram presentes no ato.

Sei que quase ninguém gosta do que falo, mas nunca vou deixar de ser sincero com o que penso a respeito desta questão. Tenho constatado a falta de reconhecimento e até de gratidão da parte dos segmentos desta sociedade para com o passado de pessoas que quando estavam na ativa eram evidenciadas e depois caíram no total esquecimento e ostracismo.

Cabem às assessorias de comunicação, principalmente, dos órgãos públicos competentes ficarem atentas e alertar seus dirigentes no poder sobre a importância de prestar um tributo àqueles que fizeram parte da história do município, não somente na área política. É isso que faz reativar a memória de um povo. Não é só fazer moções e dar títulos de cidadão.

Não vou mais repetir sobre quem foi o intelectual jornalista Sérgio Fonseca, mesmo porque já falei aqui sobre a sua atuação como profissional da comunicação e a respeito da sua pessoa em vida na passagem por Conquista. No entanto, ele não é um caso isolado de menosprezo.

Há anos fiz um comentário neste mesmo sentido sobre a morte do geofísico Rui Bacelar Filho quando ele se foi e não prestaram nenhuma homenagem à sua pessoa. Naquela época, afirmei que Conquista era uma cidade ingrata para com seus adotivos e legítimos.

Não quero aqui forçar a barra, nem requerer atenção privilegiada para amigos, mas só dizer que as pessoas que prestaram seus serviços à cidade por muito tempo merecem o devido reconhecimento dos representantes da sociedade, especialmente do poder público constituído. É uma grande falha quando isso não é feito. Não é questão de vaidades, mas de consideração e respeito. No enterro do jornalista Sérgio, senti de perto este vazio enorme e a mágoa da qual se referiu o companheiro Gonzalez.

 

UM JORNALISTA DESBRAVADOR

Carlos Albán Gonzalez – jornalista

Aproveito o espaço reservado pelo amigo e colega Jeremias Macário para prestar uma homenagem a um companheiro do jornal “A Tarde”. Numa espécie de minibiografia Jeremias revelou para mim uma fase de conhecimentos e realizações de Sérgio Fonseca, que nos deixou nesta quinta-feira, aos 80 anos. Vivenciamos o mesmo período de grandeza do maior veículo de comunicação do Norte e Nordeste do país, o que nos deixava orgulhosos.

Pessoalmente, não nos conhecíamos. Mais de 500 quilômetros separavam nossas mesas de trabalho. Na bem aparelhada sede do Caminho das Árvores, em Salvador, a função do repórter, do redator e do editor era exercida num ambiente confortável, apesar da máquina de escrever e do telefone com fio. Não se imaginava a jornada de sofrimento dos correspondentes do interior, obrigados a cobrir os fatos importantes de uma imensa região do estado.

Sérgio foi um desses jornalistas desbravadores, tal como um bandeirante. Nas últimas décadas do século passado mostrou para os leitores de “A Tarde” o desenvolvimento de uma cidade que viria a ser a terceira do estado. Como chefe da Sucursal de Vitória da Conquista, Sérgio angariou assinantes e aumentou as vendas nas bancas da cidade.

Em 1991, Sérgio recebeu uma missão mais árdua: dirigir a recém criada Sucursal de Barreiras, a fim de acompanhar o crescimento de um promissor polo agrícola no oeste baiano. “Passou a bola” para Jeremias, que deu continuidade ao trabalho jornalístico e administrativo da Sucursal conquistense, e foi molhar os pés nas águas do Rio São Francisco, que ainda respirava com toda força dos pulmões.

Sérgio e eu escolhemos a mesma cidade para viver na condição de aposentados. Mudei há quatro anos para Conquista. Foi quando conheci pessoalmente o companheiro dos bons tempos do jornal dos Simões. Encontrávamos num barzinho na Rua da Granja. Desses encontros participavam Ricardo Di Benedictis, seu filho Ricardinho, Jeremias e Luciano.

Sérgio chegava apoiando seus 1,90 de altura numa bengala. Sentava, pedia uma dose de conhaque antes do primeiro gole de cerveja. Falava muito pouco, apesar do seu vasto conhecimento linguístico e literário. Sempre me deu a impressão de um homem solitário, magoado, talvez, por  não ter recebido o justo reconhecimento   pela divulgação que deu a Vitória da Conquista.

 

 

MAIS UM AMIGO E COMPANHEIRO QUE SE VAI

Terminou ontem pela manhã, quinta-feira, dia 22 de março, o longo ou curto caminho de 80 anos do amigo e companheiro jornalista Sérgio Fonseca que se foi. Lá no além, não se sabe onde, deve estar entre intelectuais distribuindo conhecimento e sabedoria, e falando alemão, inglês, italiano, francês, espanhol e até russo para gringos presunçosos que se acham superiores.

Conheci o Sérgio pela primeira vez entre março e abril de 1991 quando vim para Vitória da Conquista substituí-lo na chefia da Sucursal do Jornal A Tarde. Foi logo me passando as primeiras instruções de gerenciamento administrativo e jornalístico do andamento da Sucursal. Como dever de casa, um teste de como calcular espaços e preços de publicidade para o veículo.

Naquela época estava deixando Conquista, depois de muitos anos aqui, para comandar a Sucursal de Barreiras. Lembro que estava entusiasmado com a região do cerrado pelo seu potencial de nova fronteira agrícola e por possuir muitos rios e água em abundância. De lá para cá, houve muita exploração desordenada pelo homem, mas isto não é o caso.

Por mudanças na política empresarial da empresa, de lá o jornalista destemido e desafiador (fez curso nos Estados Unidos e andou por outros cantos do Brasil), foi trabalhar em São Paulo. Passou por Eunápolis, na Bahia, e resolveu, em definitivo, viver o seu resto de tempo em Conquista, segundo ele próprio, por ser uma terra boa e de clima agradável.

Foi um grande prazer e honra conviver com ele por perto nestes dez últimos anos de vida. Com sua concepção filosófica de bem viver de forma harmoniosa, ponderada e equilibrada, de uma memória fantástica, nas rodas entre amigos nos bares (alô Ricardo, Ricardinho, Luciano, Gonzalez e outros), sua opinião era sempre escutada e acatada por todos.

Observava os argumentos acirrados e dava sua cartada final, acompanhada de citações de grandes pensadores, poetas, escritores e filósofos. Assim procedia nos nossos saraus aqui no nosso Espaço Cultural A Estrada. Sempre fazia questão da sua presença, e algumas vezes não comparecia por causa de alguns problemas de saúde e pela sua idade já avançada. Mesmo assim, ligava no outro dia procurando saber como foi o bate-papo e a “confusão”.

Quando aparecia, aturava-nos por pouco tempo nas noitadas, por razões que já citei, mas deixava nos encontros seu recado certeiro e sensato, sem alterações e quase nada para contestar. Era um leitor voraz e me deu muitas dicas de livros. Foi revisor da minha última obra “Uma Conquista Cassada – Cerco e Fuzil na Cidade do Frio” e sempre me perguntava rindo quando eu ia parar de ler tanto sobre a ditadura civil-militar de 1964. Por último me brindou fazendo o prefácio para meu livro “Andanças” que estou tentando a duras penas publicá-lo.

Como jornalista e chefe da Sucursal A Tarde prestou grandes serviços para Conquista e região. Fica conosco um grande cabedal cultural, intelectual e rico em bondade, seriedade, ética e visão que tinha do mundo, da política nacional e do comportamento humano. Falei com ele na última terça-feira e estávamos planejando um encontro aqui em casa para trocarmos ideias com os amigos e companheiros.



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