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CONQUISTA E O CORONAVÍRUS

Carlos Albán González – jornalista

O quê leva um cidadão, que ama e deseja o melhor para o lugar onde nasceu, vir a público para declarar que apóia a continuidade de um gestor sem competência administrativa à frente da sua prefeitura? As respostas podem ser as mais variáveis, que vão desde a desinformação até o objetivo de conseguir um emprego público ou um cargo de confiança. Em Vitória da Conquista, como em milhares de municípios brasileiros, ocorreu em 2016 um movimento de punição à cúpula do Partido dos Trabalhadores, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenada por corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes. Aqueles que alimentavam o ódio ao PT deram o seu voto, por falta de opção, ao eleito Herzem Gusmão Pereira, que tem mostrado desinteresse com o cargo que ocupa.

A saúde, assim como a educação, deve ser, obrigatoriamente, uma das prioridades de todo administrador  público. Essa precedência está longe de se ver na maioria de nossas cidades. Além de não ter estrutura (faltam médicos na zona rural, leitos nos hospitais e medicamentos nas unidades da Farmácia da Família; os postos de saúde são insuficientes para atender a população mais carente). Chamada de capital do sudoeste baiano, Vitória da Conquista recebe diariamente milhares de pessoas da região e do norte de Minas Gerais, que vêm em busca de atendimento médico, ausente nos seus municípios. A demanda sofreu uma queda depois que o Estado construiu as Policlínicas de Jequié, de Guanambi e a nossa.

No momento em que o mundo se mobiliza contra o avanço do novo coronavírus, o prefeito Herzem Gusmão, que deve estar de quarentena, por força dos seus 71 anos, entregou ao seu secretário Alexsandro Nascimento Costa a tarefa de traçar um plano de batalha contra o novo vírus. O titular da Saúde, que assumiu recentemente o cargo, numa das dezenas de mudanças que vêm sendo feitas no primeiro escalão, tem revelado que não estava preparado para duelar com o Covid 19, por não contar sua secretaria com arsenal adequado.

A moeda ainda não caiu. O poder público municipal ainda não tomou consciência de que as medidas paliativas adotadas são insuficientes para enfrentar a turbulência que está por vir, com muito mais ímpeto depois que o presidente Jair Bolsonaro e o governador Rui Costa sugeriram a reabertura do comércio. Nossas autoridades deveriam tomar como exemplo a Itália, cujo governo se preocupou mais com a economia e com as brigas políticas. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala admitiu que errou ao promover a campanha “Milão não para”. A Espanha também está pagando por ter retardado em impor o isolamento social.

Conquista dispõe de poucos leitos em UTI de hospitais públicos, o mesmo se pode dizer de respiradores, necessários aos pacientes que estão em estado grave; o município não firmou acordos com a rede hospitalar privada; não foi montado um hospital de campanha; a Vigilância Epidemiológica falhou nos terminais rodoviário e aéreo, onde esta semana desembarcaram, sem serem abordadas, duas pessoas infectadas, procedentes de São Paulo. Até o momento em que escrevo estas linhas Conquista não havia registrado nem uma vítima do covid 19, mas 47 pessoas com sintomas da doença não fizeram os testes por falta de kits. As denúncias são feitas na mídia local.

Com a aproximação da abertura da campanha de vacinação contra o vírus da influenza havia uma preocupação da população, principalmente dos idosos, com uma provável aglomeração nos acanhados postos de saúde, o que iria de encontro às recomendações dos infectologistas, diante da pandemia do novo coronavírus. Felizmente, o bom senso prevaleceu: postos foram instalados em escolas e creches, além de três outros no sistema driver thru, onde os idosos foram imunizados dentro dos seus carros. Os aplausos aos agentes da Saúde municipal nos dois primeiros dias foram substituídos por protestos diante da notícia de que não há mais doses de vacina.

Prefeito, o senhor tem assistido seu colega ACM Neto, presidente do seu partido (MDB) e um dos seus ídolos na política, dar as mãos ao adversário, o governador Rui Costa (PT), para que a população de Salvador sinta que um trabalho está sendo feito para barrar o avanço do coronavírus. Mas o senhor prefere alimentar a birra com o PT – está na memória de todos a sua rejeição à Policlinica – , deixando de procurar o governo do estado, nesse momento em que todos devem se unir em defesa da saúde do povo. Logo o senhor, que cita a todo instante o nome de Deus, em desobediência ao segundo Mandamento – “Não tomar seu santo nome em vão”.

Prefeito, o senhor está sendo pressionado por meia dúzia de bolsonaristas e por sua correligionária política Ana Sheila Lemos Andrade, presidente do CDL, para reabrir totalmente o comércio. Não ceda às pressões. O vírus não faz distinções. Agride príncipes e prefeitos (Isabel Díaz Ayuso, sua colega de Madrid, está infectada). Portanto, deixe a letargia de lado e vá atrás do dinheiro. O Ministério da Saúde liberou esta semana R$ 73 milhões para reforçar o combate da Bahia ao coronavírus. Os deputados petistas Waldenor Pereira (federal) e Zé Raimundo (estadual) destinaram quase R$ 4 milhões das suas emendas partidárias para o Hospital Geral. No mais, vamos conversar com Deus, mas em casa, sem necessidade de ir aos templos religiosos, para evitar aglomerações.

 

O CAOS SEM O APORTE ECONÔMICO

Talvez eu seja o único jornalista e cidadão que há duas semanas vem alertando que as medidas de isolamento de ficar em casa para combater a pandemia tinham que vir acompanhadas de um imediato aporte econômico do Estado. Somente agora, com atraso, a grande mídia burguesa vem tocando no assunto, ainda de forma tímida subindo os morros.

O mandar ficar em casa é uma recomendação dos organismos de saúde, mas não pensaram nos milhões de brasileiros que vivem de uma renda mínima da informalidade, de comissões, do trabalho intermitente, autônomos, dos desempregados que fazem bicos e outras atividades para sobreviver e comprar o pão de cada dia, numa expressão mais simples e direta.

AS FAMÍLIAS POBRES

Não estou com isso sendo contrário ao isolamento, contanto que os governantes acionassem seus caixas para sustentar as famílias pobres que vivem nas favelas e em seus barracos vivendo na linha de pobreza, muitos das quais em plena miséria, sem dinheiro para o álcool gel e até sem água nas torneiras.

Somente agora, o governo federal está apresentando um conjunto de medidas para amparar esses milhões de brasileiros, mas, como tudo no Brasil é burocrático e demorado, não se sabe a forma, quando e como esse socorro   vai ser concretizado. Sem um urgente aporte econômico, o Brasil pode virar um território de caos social onde a fome pode falar mais alto que o vírus, e aí vamos ter mais vítimas.

Nesse bate boca político, científico e de economistas dando palpites, até agora só vemos falatórios demagógicos dos governantes, sem apresentar uma saída para atender o menos favorecidos. Nesse sistema capitalista selvagem e predador, numa catástrofe ou tragédia, os pobres são os mais atingidos. É lamentável dizer isso, mas só os fortes sobrevivem nessa selva de hipocrisias.

Nessa avalanche de informações, colocaram os idosos como se fossem únicos grupos de risco, quando, na verdade, todas as pessoas com doenças crônicas (diabetes, pressão alta, câncer, problemas coronários e outras), sejam jovens ou velhos, não estão imunes e podem perecer. Houve uma discriminação generalizada porque a maioria dos idosos entre 70 a 80 anos têm problemas de saúde e tomam remédios contínuos.

Essa mídia burguesa, que passou todo o tempo de costas para a pobreza, só faltou sugerir a criação de campos de concentração para os idosos. Nessa história existe muita hipocrisia e falsos heróis, criados por essa mídia. É verdade que os caminhoneiros estão nas estradas transportando alimentos e produtos para o abastecimento do mercado, mas não me venham com essa de que estão ali só com essa missão sublime de salvar vidas.

Eles são uma categoria que ainda têm a permissão de trabalhar, e estão também ganhando seu dinheiro para sustentar suas famílias e pagar as prestações de seus carros. Não existe essa de sacrifício pleno, sem benefício. E como ficam aqueles que nem estão podendo produzir alguma coisa para sobreviver?

Por último, a grande emissora Globo, que vem comandando os noticiários, com suas tendências de sempre, mostra um senhor esportista amador, como exemplo de ficar em casa, correndo tranquilamente em seu apartamento de classe média alta, confortavelmente bem tratado e alimentado, quando milhões vivem em barracos apertados, em becos estreitos e sujos, sem o mínimo de saneamento básico. Não se falou quanto esse senhor ganha por mês como aposentado e qual sua renda.

Eu também faço aqui meus exercícios diários em meu quintal apertado e ainda sou um privilegiado porque tenho um benefício merreca, mas muito longe daqueles que estão sofrendo, passando fome, privações e outras necessidades. No lugar deles, tenho que agradecer a minha situação, que não é boa financeiramente, mas vai dando para tocar a vida, sem a agonia e a miséria batendo todos os dias em minha porta.

JANGO E EU – MEMÓRIAS DE UM EXÍLIO SEM VOLTA

Melancolia, saudades da pátria, dos tempos da infância quando pouca coisa se entende dos acontecimentos, lembranças vividas num diário-romance, com passagens políticas desde o golpe de abril de 1964 até a morte misteriosa de seu pai, em dezembro de 1976, em “Jango e Eu – Memórias de um Exílio sem Volta”, escrito por João Vicente Goulart, numa linguagem simples, solta e descontraída, bem longe das amarras acadêmicas.

É um livro que eu diria bem prazeroso para se ler que se passa no Uruguai, na Argentina, Paraguai e tem uns fiapos interessantes na França, na Espanha e na Inglaterra. São narrativas espontâneas, algumas soltas, que, em pedaços, formam o todo de um tempo difícil que marcou nossa história brasileira. Não precisa que tenha vivido aqueles dias, nem que seja um estudioso do assunto da ditadura. Você vai compreender de uma maneira fácil como tudo aconteceu. O leitor faz um passeio relaxante em paisagens não repetidas.

Os grandes homens do século XX

No prefácio do livro, Tarso Genro lembra os grandes homens do século XX, com os generais Rondon e Lott, os políticos e intelectuais Luis Carlos Prestes, Jacob Gorender, João Amazonas, Juscelino Kubitschek, Leonel Brizola, Getúlio Vargas, Alberto Pasqualini, Anísio Teixeira, Carlos Nelson Coutinho, Antônio Cândido, Leandro Konder, Florestan Fernandes e, em especial, João Goulart, o mais avançado, democrático e tolerante.

Conta ainda sobre os trinta dias que ficou na fazenda de Jango, em Tacuarembó, no Uruguai, em 1972. Quase 40 anos depois assinou, como ministro da Justiça, a anistia de Jango. Destacou que Jango não era socialista, nem comunista e nem pretendia instalar uma ditadura no país. Pretendia implantar a reforma agrária nas terras situadas a dez quilômetros à margem das rodovias. Essa nunca foi feita no Brasil. Ele ainda fundou a Eletrobrás; reescalonou a dívida externa; limitou a sangria da remessa de lucros para o exterior; e abriu relações comerciais com a China, pois teve a visão de perceber o potencial daquele país.

Afirma Tarso Genro que o ex-presidente foi vítima brutal de difamações dos grandes veículos de comunicação, das arengas das forças armadas, da classe média e da ampla maioria da Igreja Católica. “A elite direitista detestava ele e o considerava traidor. Falava com os grandes chefes de Estado, como Kennedy, Fidel Castro e Mao Tsé-tung. Era um social democrata de esquerda num tempo “errado”. Apenas achava que o capitalismo poderia ser mais justo e evitou uma guerra civil”. O Brasil continuava submisso e atrasado dependente das matérias-primas na exportação. Sessenta anos depois permanece o mesmo quadro descrito por Tarso.

O prólogo da obra fala do desconhecimento dos fatos que atingiram o país a partir de 1964. O autor ressalta se sentir no dever de contar a história de seus dias de exílio junto ao pai Jango, sua mãe Maria Thereza e a irmã Denize. Ele relata o dia a dia de uma família refugiada no exílio político, se situando no período de 1964 a 1976 quando o pai morreu. “O exílio nos faz peregrinos”. Essa história real da América Latina (“Veias Abertas”, de Eduardo Galeano) “chegou até nosso cotidiano dentro de casa”

Tudo se inicia quando pisou em terras uruguaias. Mais e mais ditaduras fechavam o cerco. Recorda das constantes perseguições dos exilados, desaparecimentos e trocas de prisioneiros entre as ditaduras, como se fosse contrabando. “A liberdade é uma só” – dizia o seu pai.

Quando tudo começou

Tudo começou no dia 31 de março de 1964, na Granja do Torto, com os rumores do golpe. Os telefonemas eram cada vez mais alarmantes. Darcy Ribeiro, ministro-chefe do Gabinete Civil avisou que Jango estava no Rio de Janeiro. “Pela manhã já havia malas arrumadas para irmos direto para o aeroporto. Não pudemos levar tudo”.

 

Canta, em forma de diário, que ele (João Vicente), sua mãe e a irmã saíram apressados num avião da FAB, que não era o mesmo em que viajavam, em direção a Porto Alegre. Deixaram para trás pertences pessoais que nunca foram devolvidos, inclusive joias e documentos públicos e privados. Segundo o autor, o governo Jango foi o único que não preparou sua saída do poder. Depois tiveram que lhe devolver o patrimônio que havia sido bloqueado. O voo para Porto Alegre foi demorado. Jango ainda estava em Brasília, a caminho do Rio Grande do Sul.

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A QUEM APELAR?

Há dias que venho falando que a questão nestes tempos horríveis de coronavírus não é somente mandar as pessoas ficarem em casa, como faz a mídia burguesa. A imagem flagrada pelas lentes do jornalista Jeremias Macário indica que são pessoas que vivem nas ruas há muito tempo, e a sociedade passa e vira as costas. Agora, a situação ainda é mais grave com o vírus rondando, além da fome. A quem apelar. Esse é um quadro típico do nosso país. O outro são os desempregados, informais, os trabalhadores intermitentes, os comissionados e os biscateiros de um modo geral que estão sendo obrigados a ficarem em casa, muitos em barracos e favelas das periferias. Se o pão já era minguado, imagine agora sem nada fazer para ganhar uns trocados! Quem vai socorrê-los da miséria? Quando a mídia insiste em que todos fiquem em casa, deveria, como manda o bom jornalismo, mostrar o outro lado, de como essa gente vai se alimentar, e cobrar dos governantes providências urgentes, antes que tudo vire uma convulsão social, com invasões. Ai, vamos ter mais pessoas morrendo, além do coronavírus. Outra irresponsabilidade foi a realização do carnaval quando já existia um caso no Brasil. Sem moral, agora esses governantes ficam batendo boca, fazendo política e demagogia. Os pobres, nesses momentos difíceis, são os últimos a serem socorridos. Quem olha para eles? A elite está numa boa em suas casas, curtindo seu uísque e suas deliciosas e caras iguarias. Não está nem ai para a pobreza.

REPÚBLICA CABANA BANANA

Poema inédito de autoria do jornalista Jeremias Macário

Na minha isolada cabana banana,

Tem a serra, o frio e o calor tropical;

Tem alguma lavoura que ainda restou,

Na lagoa barrenta até uns pés de cana,

Não mais os conflitos cangaços da guerra;

Tem a mulher pegando água na cacimba;

Tem os galhos secos engaços da catinga;

O orvalho poético da manhã como cantiga;

Tem violeiro cantando a canção de amor.

 

Na minha lesa República cabana banana,

Tem minhas lágrimas de ver tanta pobreza,

De ver se espalhar pelo Brasil tanta riqueza,

Nas mãos de um latifúndio cruel capitalista,

De coronéis do poder que fazem do povo,

Um poço social desigual desumano vazio,

Onde o desempregado não passa de vadio,

Alienista político em pleno primeiro de abril,

Numa pátria amada cristã fundamentalista.

 

Na minha cabana choupana consumista,

Recebo da República uma magra banana,

Esperando meu amor que nunca chegou,

Como gladiador sem ver o tempo passar,

Assuntando o vento assoviar pra lá e pra cá,

Nas saudades de estradeiro amante do mar,

Que me ensinou ser um romântico beija-flor,

Mesmo neste Coliseu de passado de breu,

Onde o pobre e o negro tentam curar a dor.

 

Na minha República cabana banana,

Tem a lança da poesia na minha capanga;

Tem o lamento do sertão e a fera da savana;

Como um fantasma do mundo vai meu grito

Entre o nascer, o poente e a fonte do saber.

 

 

A GRANDE MÍDIA BURGUESA E O ÁLCOOL GEL

Somente agora, e de forma tímida, a grande mídia burguesa está saindo de seus estúdios de apresentação, de seus boletins diários e entrevistas com infectologistas, médicos e especialistas para mostrar o outro lado do álcool e gel. Refiro-me aos pobres das periferias que não têm condições financeiras nenhuma de adquirir o produto para se proteger do coronavírus, o Covid-19.

Não é só isso. Moradores pobres que vivem em favelas e barracos não têm nem água nas torneiras e sabão para lavar as mãos. Essas pessoas, há muito tempo, vivem aglomeradas em cômodos apertados, sem saneamento básico, onde todos dormem juntos. Os jornalistas devem sair de seus confortos dos computadores, subir os morros e atravessar a linha de pobreza para mostrar essa triste realidade.

Quando se manda que todos lavem as mãos com álcool e gel, a impressão que passa é que toda população brasileira, com profundas desigualdades sociais, pode comprar o material, que subiu de preço pelos gananciosos. Gostaria de indagar quem olha para esse povo e vai fornecer o álcool e o gel?

Há dias que venho fazendo essa observação, mas sendo criticado por muita gente. Passou do tempo dos veículos de comunicação cobrarem providências urgentes por parte do poder público (municipal, estadual e federal), e não ficar fazendo de conta que vivemos num país rico, sem esses terríveis desníveis sociais de calamidade pública.

Outro problema que já venho falando é quanto a situação dos desempregados, daqueles trabalhadores intermitentes, comissionados e dos informais que dependem do que produzem para comprar suas necessidades básicas, principalmente os alimentos do dia a dia.

Quem vai socorrer essa gente, da qual pouco a mídia comenta e entrevista, mostrando o quadro de penúria, principalmente agora? Não estou aqui para contrariar a recomendação de que todos fiquem em suas casas, mas existe uma tremenda omissão da imprensa que pouco noticia como esses brasileiros esquecidos vivem, estão vivendo e vão viver daqui para a frente para enfrentar a luta contra o Covid-19.

Existe um plano dos governantes para atender esses milhões que já vivem em plena pobreza, com a tendência de piorar mais ainda com o confinamento e a falta de dinheiro para se proteger do vírus e se alimentar? Até o momento, só demagogias, falatórios, discurso e nada de concreto.

Na verdade, não existe um plano para sanar esse problema, e a nossa mídia não explora esta questão que pode se transformar numa convulsão social e invasão de casas comerciais, mercados, farmácias e supermercados. Como solucionar o problema das pessoas que têm doenças crônicas e precisam de fazer hemodiálises, quimioterapia e outros tratamentos inadiáveis, sem o transporte para deslocamentos para cidades e clínicas que prestam esses serviços?

É um alerta que fica, e um apelo para que a mídia comece mais firme a noticiar essa situação que pode se tornar crítica e caótica, se não forem tomadas as devidas medidas por parte do poder público. Mais uma vez, vamos deixar essa gente de lado e fazer de conta que ela não existe?

 

AS CONSEQUÊNCIAS FINANCEIRAS

O fechamento do comércio em várias cidades do pais, inclusive em Vitória da Conquista, é uma medida para se evitar aglomerações, mas quando começar a faltar dinheiro aos empregados e àqueles que trabalham na informalidade, para adquirir os produtos de primeira necessidade, como alimentos e remédios? Quem vai socorrer essa gente do setor privado que vai ficar sem receber? Já pensaram nessas consequências? Se o comerciante não produz, não tem como pagar.

Os funcionários públicos das repartições vão receber sua grana no final do mês. E os outros, quem vai socorrer? O poder público vai distribuir cestas básicas e ajuda financeira? Com essa pandemia do coronavírus se espalhando, estamos numa encruzilha daquelas que “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”, ou entre a cruz e a espada.

As autoridades precisam trabalhar nesse plano de socorro. Caso contrário pode até ocorrer invasões em mercados e supermercados por comida. Depois vão chamar as pessoas de vândalos? Prendê-las? A situação é grave e precisa ser estudada para que não haja uma convulsão social.

Outro fato são as pessoas com doenças crônicas da região que precisam de fazer hemodiálises, quimioterapias e outros procedimentos urgentes nas clínicas da cidade. Sem vans e o transporte, como elas vão se deslocar de suas cidades? As vans não vão rodar com pouca gente porque financeiramente não vai compensar, e a maioria não tem condições de pagar um veículo particular.

A mídia passa todo o tempo repetindo notícias e divulgando decretos dos governos. Trabalha com números de casos e entrevistando infectologistas sobre higienização, mas não questiona este outro lado da história que pode acontecer quando as pessoas começarem a ficar sem dinheiro na mão. No caso do comércio, os repórteres entrevistaram os representantes do setor, mas deixaram de lado os comerciários, os que trabalham por comissões e os informais.

Nesse quadro crítico que se vislumbra, até quando o comércio pode continuar fechado? Pelas informações da área da saúde, essa pandemia ainda vai durar por um tempo. Fala-se em meses. De um modo geral, esses trabalhadores não têm fundos para aguentar nem um mês. Os servidores públicos vão receber, sem problemas, como se estivessem em férias.

A questão não é somente baixar decretos, mas montar um plano “B” para controlar as consequências que podem vir na frente. Todos acham as medidas acertadas, mas somente poucos refletem sobre as consequências para os mais necessitados que dependem de um dinheirinho para fazer sua feira, principalmente os desempregados que estão atuando na informalidade.

Está também na hora de convocar os psicólogos e os psicanalistas para tentar evitar que a população entre em pânico. Nessas ocasiões, o medo é a pior coisa, e uma mente amedrontada deixa o corpo debilitado. Por enquanto, só estão tentando cuidar do corpo. Acima de tudo, a mente precisa estar preparada para o que vier daqui por diante. Numa tragédia, é comum as pessoas partirem em manada, e aí termina morrendo mais gente no corre-corre, empurradas e pisoteadas.

ALARMES E COISAS INEXPLICÁVEIS

Não dá para tentar encobrir que o governo chinês não foi culpado pela disseminação do coronavírus (Covid-19) no mundo, que começou lá no final do ano passado. Por ser uma ditadura fechada, como qualquer outra faria, os primeiros casos foram abafados e escondidos até quando a situação fugiu de controle meses depois, e aí o vírus já havia feito um rastro de destruição em várias regiões do pais e transportado para outros vizinhos asiáticos.

Agora imagina se essa pandemia tivesse acontecido durante a ditadura civil-militar no Brasil, especialmente nos anos de chumbo do governo Médici (1969 a 74)! Certamente, por algum tempo, os generais teriam confinado o vírus em seus quartéis, e a sociedade teria o mínimo de informações. Mesmo assim, as notícias seriam censuradas. Naquele tempo, muitos casos dessa natureza tiveram sua divulgação proibida para a população.

E OS PAÍSES AFRICANOS?

Isso acontece em todas as ditaduras que, para não comprometer a governabilidade, seus governantes carimbam esses acontecimentos na lista dos arquivos de segurança nacional. Mal ou bem, estamos numa democracia de tempos de redes sociais onde as notícias correm como rastilho de pólvora, muitas das quais falsas, desencontradas, exageradas, incompletas, inexplicáveis e até em forma de pânico e demagogia.

Todos os dias recebemos um monte de notícias do coronavírus nos países europeus (Itália, França, Espanha, Portugal, Inglaterra e outros), asiáticos (Japão, China, Malásia) e dos Estados Unidos, mas nada com relação ao continente africano. Por lá o Covid-19 não passou? Por que esses países são excluídos do noticiário?

SEM ESTARDALHAÇOS

“O número de contaminados só faz crescer na Bahia” – diz em tom enfático uma repórter da TV. Isso em termos psicológicos só causa pânico e mal-estar na população. Passa uma sensação de terrorismo jornalístico quando a linguagem deveria ser outra.

Numa democracia, o jornalismo precisa ser feito com responsabilidade e sem estardalhaços, procurando ao máximo evitar o sensacionalismo em momentos críticos. Os programas mais parecem um show de espetáculos. A profissão de infectologista nunca esteve em alta.

Os apresentadores insistem o tempo todo que as pessoas fiquem em casa, lavem as mãos com álcool e gel e usem máscaras. Quase nada se fala que todos precisam se alimentar e têm outras necessidades para sobreviver. Por acaso os governos vão levar comida e dinheiro na porta de cada cidadão? Os pobres das periferias têm condições de comprar álcool, gel e máscaras? A grande maioria passa fome e vive em barracos sem o mínimo de saneamento básico. Isso o jornalismo não comenta e nem questiona.

Estamos chegando ao fim do mês quando uma grande leva de aposentados precisa ir aos bancos para tirar seu dinheirinho, para fazer a feira e comprar seus remédios. Vão proibir os idosos de irem aos caixas para sacar seus benefícios? O governo vai mandar levar o pagamento de cada um em sua casa?

O governador do Rio de Janeiro falou em distribuir cestas básicas para desempregados, idosos e os mais pobres. Não explicou como ele vai fazer isso. Vai montar um mutirão de funcionários com caminhões de produtos higienizados para entregar em cada porta? Ele já mapeou esse contingente, ou vai cadastrar cada um para receber os alimentos? Se for fazer isto, com certeza haverá aglomerações de filas.

SUBMISSÃO VERGONHOSA AOS EUA

Muitas medidas anunciadas não passam de demagógicas porque, não somente a União, mas a grande maioria dos estados está quebrada sem recursos nem para bancar a saúde se o quadro da pandemia piorar. Será que agora vai adiantar muito fechar portos, aeroportos e rodoviárias? Quem vai sustentar as perdas econômicas? Como as pessoas vão conseguir sobreviver sem dinheiro? Vamos entrar na pandemia da fome? Vão criar campos de concentração para os idosos?

O governo federal tomou a decisão de fechar os aeroportos brasileiros para a entrada de aviões de diversos países europeus, mas manteve a porta aberta para os norte-americanos onde lá a situação já é crítica em muitos estados. O ministro da Justiça tenta explicar e inexplicável, ou aliás, ficou bem escancarada a vergonhosa submissão aos ianques. Eles podem vir e contaminar os brasileiros.

Por que os governos não cancelaram o carnaval quando o vírus já estava contaminando muitos países? Tudo soa a demagogia, e agora, de maneira atabalhoada, e imitando outros países, querem se aparecer como salvadores da pátria quando não passam de alarmistas de plantão.

 

PARADEIRO

Está um paradeiro danado, não é João? Enquanto o cliente não aparece, a saída é a leitura como bom  passatempo nesses tempos onde as pessoas exercitam mais o corpo que a mente. Talvez por isso estejam mais doentes e entram em pânico como neste momento da pandemia do coronavírus e dos noticiários pandemônicos jornalísticos. É bom se prevenir das fake news que andam soltas por ai. Pena que as redes sociais viraram uma praga, e a tecnologia do celular tornou o mundo mais imbecil. Poucos hoje se dão à leitura de livros, revistas e jornais, se tornando uma massa de alienados, que acha que está bem informada e sabe tudo, quando nada sabe. Vamos ler e cuidar mais da saúde mental para tornar o corpo mais sadio e sair desse paradeiro. Um flagrante saída das lentes do jornalista Jeremias Macário, na Praça Barão do Rio Branco. A leitura pode acabar com esse paradeiro mental.

NINGUÉM QUER SABER DA LIÇÃO

Nova versão do poema, de autoria do jornalista Jeremias Macário, que fala do aquecimento global e a consequente destruição do nosso planeta

O inverno frio virou verão;

Foi-se outono e a primavera,

E o Beato do sertão virou mar,

Na profecia do mar em sertão,

Da terra mina lunar de cratera,

Pela alma vil humana profana

Do templo da nossa casa divina,

E ninguém quer saber da lição,

Prefere ter mais armas na mão.

 

Nessas viagens messiânicas,

Da troca tirana do ser pelo ter,

No insano guloso do consumo,

Da produção por mais insumo,

Vem a tormenta ranger de dentes,

E não vingam mais as sementes,

Nesse solo de placas tectônicas,

E ninguém quer saber da lição,

Prefere ter mais armas na mão.

 

No calor do aquecimento global,

Depois das falsas mesas do clima,

O capital aumenta suas chaminés,

E vem o escuro tufão gira mundo;

Larvas vulcânicas viram monturo;

Mares lixeiras tóxicas e atômicas;

Derrubam florestas, nasce a fome;

Some a natura no óleo do convés,

E ninguém que saber da lição,

Prefere ter mais armas na mão.

 

Nascentes morrem nas cabeceiras;

Derretem dos polares as geleiras;

Desaparecem o urso e o salmão;

Das águas monstros de tsunamis;

Rios cimentados estouram canais,

E a selva de pedra derrete em caos,

Na fornalha de mais de 70 graus:

Tudo está escrito nos antigos anais,

E ninguém que saber da lição,

Prefere ter mais armas na mão.





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