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CIGANAS TENTAM ENTRAR NO PROGRAMA DE PROTEÇÃO A TESTEMUNHAS

Cinco mulheres ciganas e sete crianças, vítimas das perseguições policias de Vitória da Conquista após a morte de dois soldados, no distrito de José Gonçalves, no último dia 13, estão tentando entrar no Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita), conforme informou o presidente do Instituto dos Ciganos do Brasil (ICB), Rogério Ribeiro.

No desenrolar dos acontecimentos e, durante a busca dos criminosos dos PMs, houve várias mortes, e outros ciganos foram espancados e torturados, sinalizando atos de vingança. Como forma de proteção, o Conselho Tutelar e outros órgãos ligados aos direitos humanos conseguiram, entre os dias 15 e 16 de julho, encaminhar essas ciganas e crianças para outra cidade da região, no sentido de preservar a vida dessas testemunhas.

Na ocasião estiveram em Conquista o presidente do ICB e o secretário Nacional do Ministério dos Direitos Humanos, Paulo Roberto, que acompanharam a saída desse pessoal da cidade. Agora, o objetivo está sendo incluir essas vítimas no Provita, mas o programa, como explicou Rogério, tem seus tramites e burocracias. O que se sabe é que a matriarca dos ciganos aceitou ser incluída nesse esquema de proteção.

O Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita /SP), de acordo com pesquisa, é um instrumento atuante de acesso à justiça e combate à impunidade no estado de São Paulo. Esse programa funciona desde 1999 e é vinculado às Secretarias da Justiça e da Defesa da Cidadania e da Segurança Pública. O Provita/SP faz parte do Sistema Nacional de Proteção a Vítimas e Testemunhas, gerenciado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal.

O programa tem a missão de proteger vítimas e/ou testemunhas que estejam sofrendo ameaças sérias, graves e iminentes, em virtude de colaboração em inquérito policial, ou processo criminal.

O caso pode ser encaminhado por autoridades policiais, Ministério Público, Poder Judiciário, órgãos públicos ou entidades que trabalham na defesa dos direitos humanos, e até mesmo por meio de contato do próprio interessado com o Provita/SP.

Após o pedido, o(s) interessado(s) poderá(ão) ser acolhido(s), provisoriamente, até que o caso seja analisado pelo Conselho Deliberativo da entidade,  instância máxima e órgão competente para a decisão final sobre o ingresso, ou não de uma pessoa no programa (e, se o caso, também a sua família) no Programa de Proteção.

O período de proteção é de dois anos e pode ser prorrogado por até dois anos ou, caso seja necessário, pelo tempo de duração do processo. O Programa de Proteção Paulista está fundamentado na Lei Federal nº 9.807/1999 e nos Decretos Estaduais nº 44.214/1999 e nº 56.562/2010.

 

CIGANOS FOGEM EM CORRERIAS DEPOIS DE AMEAÇAS E PERSEGUIÇÕES

Com uma introdução de que a cidade de Vitória da Conquista abriu guerra contra os ciganos, o presidente do Instituto Ciganos do Brasil (ICB), Rogério Ribeiro, encaminhou um relatório à Procuradoria Geral da República, Defensoria Pública da União, ao Ministério Público Estadual, Câmara Municipal de Vereadores de Conquista (Comissão de Direitos Humanos), à OAB nacional e a outros órgãos ligados aos direitos humanos onde detalha os fatos ocorridos na semana passada que resultaram na morte de dois policiais militares, e repudia as consequentes violações contra o seu povo, com a prática de atos cruéis de tortura, perseguições e mortes (seis).

Rogério, que também é membro consultivo de Promoção da Igualdade Racial da OAB/Ceará, esteve em Conquista entre os dias 19, 20, 21 e 22 /07, mantendo contatos com órgãos, entidades e setores da polícia civil da cidade e em Itambé, no sentido de acompanhar os desdobramentos dos crimes e, ao mesmo tempo, prestar apoio logístico às famílias ciganas vítimas de atos de violência por parte de policiais locais. O comando da Polícia Militar nega que tenha havidos excessos por parte de seus subordinados, e que ainda deu proteção às famílias em fuga.

Repúdio contra as perseguições

Na ocasião, o presidente do ICB concedeu uma entrevista ao nosso blog www.aestrada.com.br onde demonstrou seu repúdio contra as perseguições e se disse decepcionado com a falta de respostas concretas por parte das autoridades militares. Rogério fez um forte apelo para que o Estado da Bahia apure todas as mortes e torturas, com o propósito de que os culpados sejam punidos. No Distrito Integrado de Segurança Pública/Vitória da Conquista foi recebido pelo coordenador delegado Roberto Júnior que se dispôs averiguar os fatos com imparcialidade.

Em sua fala, ele se referiu, principalmente, à coletiva prestada pelo secretário de Segurança Pública e o comandante Geral da Polícia Militar da Bahia, no dia 19/07 que, de acordo com ele, não foi nada transparente e deixou um rastro de dúvidas e negações quanto as ações truculentas de agentes da corporação local, inclusive contra uma idosa de 82 anos e três netos adolescentes.

No relatório, Ribeiro cita os locais em Vitória da Conquista, como no distrito de José Gonçalves, onde se deram as reações dos policiais contra os ciganos, como a invasão na casa de uma moradora, matando o filho Adenilson Almeida, de 15 anos, por volta das 22 horas do dia 13/07 (não era cigano).

Conforme os relatos do presidente do ICB, foi no mesmo dia 13 de julho que o soldado Robson Brito de Matos, 30 anos, e o 1º tenente Luciano Libarino Neves, 34, morreram na troca de tiros na zona rural de José Gonçalves. Depois do acontecido, o cigano Rodrigo da Silva Matos, 58, pai dos suspeitos dos assassinatos foi ferido e encaminhado para o presídio. No Distrito Integrado de Segurança Pública, no dia 15/07, foi interrogado de forma humilhante.

Ainda na tarde do dia 13/07, a polícia matou Ramon da Silva, o Ramonzinho, de 23 anos. No Bairro de Lagoa das Flores houve um confronto dos militares com dois ciganos.  Na fuga para a cidade de Itiruçu, onde foram mortos por policiais, no dia 14 de julho, eles bateram na porta de uma cigana de 82 anos e seus três netos adolescentes, pedindo para guardar uma arma 380.

Narra o documento que policiais da Rondesp torturaram e ameaçaram de morte a idosa e seus netos de 15, 16 e 17 anos, no período de 16 horas à meia noite e 40 minutos. “Não quero nenhum pé de cigano em Conquista, senão a gente desce o laço” – disse um deles.

Nas torturas para que essas pessoas abrissem a boca, foram usados vários instrumentos de intimidação, como marreta, palmatória, canivete, cassetetes de borracha, sufoco com sacolas plásticas e água de QBOA, incluindo puxões pelos cabelos de uma cigana adolescente.  Depois dessas agressões, os policiais deram duas horas para que as vítimas sumissem.

O ICB, segundo o seu presidente, prestou apoio logístico na transferência de três famílias para outros estados, sendo seis adultos e três crianças, no dia 17 de julho.  No dia seguinte, outro caso de violência ocorreu no povoado de Boa Sorte, em José Gonçalves, onde uma picape foi incendiada com o corpo do empresário Diego Santos Souza, de 39 anos. Cidadão de bem, ele era dono de um restaurante, em Algodão, e membro do Apostolado da Misericórdia. A Igreja Católica não deu nenhuma nota de pesar e solidariedade sobre o acontecido.

O presidente Rogério, em seu relatório, ainda postou uma nota de repúdio a uma mensagem de ofensas no perfil de um policial fardado. Em contestação ao conteúdo da postagem, afirmou que o Instituto sempre tem lutado pela dignidade humana, a favor da igualdade racial e contra o discurso de violência, preconceito, discriminação, ciganofobia e sexismo.

Destacou também que repudia as operações policiais motivadas por vingança, com seis mortes, deixando um rastro de impunidade. Em seu desabafo, ressaltou que o medo tomou conta de Vitória da Conquista, com torturas, incêndios em veículos e casas.

Lamentou que não teve acesso aos inquéritos e nem aos laudos das perícias das mortes. Sobre a presença de policiais em acampamento cigano, Rogério indaga o que mesmo eles estavam investigando? No entanto, reconheceu que as investigações no Distrito Integrado estão sendo conduzidas de forma imparcial, e que o Instituto pede rígidas apurações sobre as abordagens nas casas dos ciganos e na rua.

Por fim, o relatório cita a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, o Comitê para Eliminação da Discriminação Racial da Organização das Nações Unidas e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos onde estabelecem deveres do Estado de não empregar forças que violem os direitos humanos e a liberdade dos grupos desiguais.

Esses organismos recomendam o combate a qualquer tipo de discriminação, inclusive praticada contra ciganos por organizações do Estado. Rezam em seus artigos, prevenir abusos policiais e garantir medidas judiciais em caso de violações.

 

AUXÍLIOS, BOLSAS E DOAÇÕES SÃO ESMOLAS QUE ESCRAVIZAM O CIDADÃO

“Uma esmola envergonha o cidadão”. Quem não se lembra desse verso na canção do rei do baião Luiz Gonzaga? Pois é, por mais que seja duro, é uma verdade em nosso país, principalmente nesses tempos de pandemia quando houve um grande aumento da pobreza e, consequentemente, da fome. Segundo pesquisas, uns 30 milhões vivem nessa linha da miséria.

Claro que também existe o ditado de que a fome não espera e tem pressa. Não estou aqui para condenar os auxílios emergências, as bolsas famílias e as doações incentivadas e praticadas por grupos isolados, pessoas e organizações do terceiro setor. O que argui é que há 30 anos, ou mais, existe o chamado bolsa família e, de lá para cá, a situação só tem piorado.

Todos os dias acompanhamos nos noticiários os atos de solidariedade ou caridade (muitos evitam falar nesse termo por achar pejorativo) na forma de doações de alimentos, roupas, agasalhos de frio, sapatos e brinquedos para as crianças nas épocas de Natal, mas pouco se ouve em mutirões de emprego e oportunidades no mercado de trabalho para que o nosso cidadão se sinta digno como gente partícipe da construção social.

O Brasil precisa criar pessoas amadurecidas para que vislumbrem novos horizontes, e não que fiquem a vida toda dependentes de doações, bolsas e esmolas.  Achar que elas só necessitam de pão e água, é o mesmo que escravizar suas dignidades. Só a educação, a saúde, a segurança e o emprego podem tirar a população desse abismo da pobreza.

Nem é necessário dizer que o papel dos governantes é fundamental para que o ser humano resgate sua dignidade e se livre de uma vez por todas das esmolas escravizantes. No entanto, o que temos é uma política do assim é melhor em nome do poder.

Enquanto grande parte da sociedade se mobiliza para socorrer a fome dos mais necessitados, eles lá de cima cada vez mais se acomodam e cruzam os braços. Na urgência de matar a fome, o cidadão acaba duplicando o seu papel social porque ele já paga escorchantes impostos que deveriam ser revertidos em benefício das camadas mais carentes.

Como não há reação, cobrança, conscientização política e mobilização daqueles mais esclarecidos que poderiam atuar nesse sentido com relação aos poderes públicos, esse ciclo vicioso das doações e auxílios em forma de esmolas nunca termina. No fundo, estamos também contribuindo para que essa camada tão baixa e tão pobre continue escrava do próprio poder por ela constituída. Por incrível e irônico que pareça, é desse fel que se banqueteiam os governantes e políticos para se manterem no poder. E assim caminha o nosso Brasil.

UM FUNDÃO FEDORENTO

As aves de rapina do Congresso Nacional não param de mostrar suas garras mortíferas contra o Brasil e o seu povo, como se não bastasse um poder executivo desastroso e destruidor do nosso patrimônio. Dessa vez, deputados e senadores criaram um Fundo Eleitoral de quase seis bilhões de reais (era dois bilhões) para gastar na cata de votos para suas reeleições.

É mais uma excrescência nacional quando negaram uma verba de dois bilhões para que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) realizasse o censo demográfico neste ano, que já deveria ter sido em 2020. Nada para a pesquisa e a ciência e tudo para suas farras nababescas a fim de continuarem fazendo seus malfeitos, corrupção, propinas e rachadinhas.

Até quando vão continuar destruindo o Brasil, tão rico e tão pobre, com 30 milhões vivendo na miséria passando fome? É um dos Congresso mais caros e que mais desperdiça dinheiro público no mundo. Não representa seu povo e, nessa hora, elementos da esquerda, centro e da direita se juntam para permanecerem mamando nas tetas do povo inculto e tratado pior que lixo.

São ratos, hienas e raposas na disputa pela carniça que, em toda véspera de eleições aparecem com suas emendas vergonhosas, mas, como o cão foge da cruz ou o vampiro da luz do dia, não querem nem falar de fazer uma Reforma Eleitoral para valer que termine com suas mordomias de verbas indenizatórias, reeleição, redução de parlamentares em geral e foro privilegiado. Cinicamente ainda chamam isso de reforma política, embutida nela um distritão, que para nossa gente soa mais como palavrão.

É um Brasil de terra arrasada que agora está preso na encruzilhada do retrocesso, do negacionismo da ciência e vivendo uma barbárie pior que na Idade Média. É um país que foi vendido por essa corja ao diabo chifrudo. Os ricos e poderosos transformaram o Brasil num curral de matança de gado ferrado, e ainda tem milhões que entregam suas almas em defesa desses genocidas.

O brasileiro de bom senso e mais inteligente não compactua com essa bandalheira insana e assassina, mas, infelizmente, ainda é uma minoria falante que é tratada de comunista que come criancinhas. A grande maioria é alienada, masoquista e não existe como ser humano consciente político.

Esse nosso povo acha que é civilizado porque tem um celular na mão para acreditar em falsas notícias e apoiar os demolidores do futuro. Essa gente oca que se satisfaz com um carrinho, uma graninha para uma farra no bar e visitar shoppings em final de semana, nem pensa na nova geração que ela mesmo gera como se fosse apenas uma realização pessoal para encher seu ego de uma falsa felicidade.

Já nos acostumamos e nos acomodamos com uma casta de poderes donos de um rebanho que se contenta com o pouco e com as sobras. É tudo como se fosse uma ordem natural das coisas que não pode ser mais mudada. Como um castigo divino do Deus que sempre assim quis.

Para que reagir contra esse sistema? É assim mesmo, e nada se pode fazer – dizem os submissos que já aceitaram suas condições de apenas coadjuvantes ou figurantes dessa nossa história macabra, desde os tempos coloniais. Os contestadores são simplesmente execrados como marginais da sociedade que devem ser recolhidos aos muros das lamentações para se purgar de seus pecados, como queixosos e ranzinzas.

Enquanto isso, eles lá de cima vão tratando o resto como bagaço, como se nem existisse, com direito a voto, mas sem voz. A camada debaixo apenas serve como adubo para eles plantarem suas lavouras que rendem farturas para suas mesas das orgias e bacanais. O pior é que os de baixo se odeiam, não se toleram, não se unem, se matam e banalizam a violência e a desgraça.

“Nesse conflito, na geração da violência, o mais forte acaba eliminando o mais fraco, mantendo, por este motivo, o ponto de vista de que a sua proposta, tanto quanto os seus atos, são moralmente justificados”.

A frase é uma citação de Senna; Souza, no livro “Remanso – uma comunidade mágico religiosa”, dos autores acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, num comentário sobre a teologia da dominação do cristianismo em relação às religiões de matriz africana, que bem serve de ilustração para o tema em questão.

MAIS UM CASO PARA O ARQUIVO MORTO

Todas as vezes que policiais militares são assassinados, de imediato vem por trás disso um rastro de revanches e vinganças que terminam sobrando para pessoas inocentes e parentes. O caso dos dois agentes mortos na semana passada no distrito de José Gonçalves, em Vitória da Conquista, não é uma exceção.

É só relembrar a chacina ocorrida numa periferia da cidade, se não me engano, há onze anos. Praticamente uma família foi eliminada por justiceiros, e as investigações não deram em nada. Na época, um promotor e um juiz que estavam dando andamento ao processo chegaram a ser ameaçados.

Os métodos são sempre os mesmos, e as apurações nunca chegam a uma conclusão, como o fato do menino Maicon que foi vítima de uma ação atabalhoada da polícia. Os familiares pediram clemência e justiça, mas o corpo da criança não foi encontrado. Tudo ficou sem resposta até hoje.

Na ocorrência mais recente, o que se fala é que um grupo de ciganos matou dois policiais que, segundo informações do próprio comando e de um delegado civil, estavam numa diligência investigativa, só que não esclarece que tipo de investigação.

Será que se tratava de uma espionagem atentatória contra a segurança nacional? É um segredo de Estado que não pode ser revelado? Mais uma vez, é tudo nebuloso, e ainda o secretário de Segurança Pública e o comandante Geral da Policia Militar dão uma coletiva à imprensa falando que tudo está sendo transparente. Como assim?

Outra questão é quanto o assassinato praticado por dois motoqueiros encapuzados a um menor de 13 anos numa farmácia. O secretário afirmou que foi uma queima de arquivo perpetrado pelos próprios ciganos, mas nada prova, sempre com aquele argumento de não atrapalhar as investigações. É tudo muito estranho! Ficam as dúvidas e as interrogações.

Essa de jogar a culpa para os ciganos me ativou a memória de atos de terrorismo acontecidos no final da ditadura onde se fala de abertura democrática. A turma da linha dura atirou bombas em bancas de jornais e até na sede da OAB do Rio de Janeiro e espalhou notícias falsas de que foram os comunistas.

Logo depois do fato, em José Gonçalves, ocorreram três mortes na mesma semana, e aí, novamente, o secretário, o comandante e a delegada da Polícia Civil, que vieram a Conquista, disseram que os crimes não têm nenhuma relação com os policiais alvejados. É muita coincidência! Soltaram o verbo na coletiva, e nada ficou explicado como se esperava.

Infelizmente não temos mais jornalistas investigativos como antigamente. A verdade é dura, mas deve ser dita. Por medo de ameaças ou outra coisa, a nossa mídia só dá o factual daquilo que consta no Boletim de Ocorrência, o chamado BO, e a sociedade fica sem resposta.

Aliás, é essa mesma sociedade falida moralmente que manda matar, mesmo que seja de forma indiscriminada. Foi isso que ouvi de um empresário certa feita quando no Sindicato dos Jornalistas da Bahia e na Associação Bahiana de Imprensa dei uma nota de apoio à Justiça que estava investigando a chacina.

Não estou aqui para defender o crime, nem o criminoso, mas tudo tem que ser transparente, e os culpados severamente punidos. Será que tudo está sendo feito dentro da ordem e da lei, sem o conhecido corporativismo? A coletiva dos comandantes deixou mais dúvidas que esclarecimentos.

As associações e entidades representativas dos ciganos no Brasil se mobilizaram, publicando nota de repúdio contra as perseguições ao seu povo, por sinal sempre estigmatizados como bandidos, sujos e ladrões ao longo da história, desde muito tempo antes de Cristo.

O cigano Rogério Ribeiro, presidente do Instituto Cigano-Brasil e membro consultivo da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB do Ceará, em um vídeo numa rede social, pediu ao comandante da Polícia Militar de Conquista que segurasse sua tropa, embora tenha dito que foi bem recebido em sua conversa por telefone.

Como nos tempos em que viviam em correrias, diante dessas mortes e amedrontados com o que ainda possa ocorrer, muitos tiveram que fugir para outras bandas. É uma nação cujos filhos já nascem sob os olhos do preconceito e do ódio. Foram escravos na Romênia e massacrados por toda Europa e no Brasil, desde a Colônia e no Império. Quase todos foram exterminados durante o nazismo de Hitler, e nunca foram indenizados.

UM SONHO, OU PESADELO?

Numa noite de muito calor eu acordei lá pela madrugada todo suado e apavorado com um terrível sonho, que depois fui perceber se tratar de um pesadelo. Acho que comi alguma coisa indigesta.  Voltei a me deitar, mas nada de sono recuperador da minha cansada mente.

Lá fora só as luzes neon e as folhas das árvores a farfalhar. Uma sombra de medo tomava conta das ruas abandonadas. Uns falam de fantasmas que aproveitam o silêncio para passear e outros de alguns viventes humanos na espreita prontos para dar o bote de assalto, como uma cobra traiçoeira.

No outro dia, ainda zonzo e mal dormido, tentei recapitular algumas passagens daquele pesadelo. Lembrei do saudoso roqueiro Raul Seixas que fala em sua canção que um sonho que se sonha junto se torna realidade, só que não foi um sonho e estava sozinho. No entanto, só para contrariar, meu pesadelo se tornou concreto.

Em meu pesadelo labiríntico grego via o Pantanal do meu Brasil em chamas, e a floresta Amazônica sendo derrubada por ambiciosos lenhadores, e depois sendo queimada. A flora ardia em choros, e a bicharada gemia em dores de morte. Os índios que sobreviveram àquela tormenta foram expulsos de seus lares. Tudo depois eram cinzas, e um deserto sem ar para respirar.

Em meio a toda aquela destruição, um homem com cara de monstro aterrorizador, com outros tantos ao seu lado que mais pareciam zumbis saídos da terra, gargalhava e mandava seus seguidores cobrir o chão de lavouras e gado. Outros avançavam com máquinas para minerar a terra. Os rios ficaram envenenados, e outros simplesmente sumiram. Não existiam mais barqueiros para transportar as almas para as outras margens.

No pesadelo, o homem, com feições psicopáticas de armas na mão, esbraveja contra jornalistas, com palavrões, xingamentos e ameaças. Condenava os cientistas, ambientalistas e pesquisadores que previam um futuro avassalador. Falava coisas malucas e dizia que era o novo dono de tudo aquilo.

Pelas ruas ele jogava seu séquito de apoiadores contra qualquer um que lhe opunha. Propunha investigar e prender os contrários. Às vezes se disfarçava em pele de cordeiro e falava até em democracia e liberdade, mas era mesmo um lobo que queria impor nova ditadura e, para isso, se cercou de generais e coronéis. Espalhava terror em cada pronunciamento, ameaçando fechar os poderes constituídos para ficar só com o dele.

Desde o início do seu surgimento inesperado, ora em forma de animal mitológico e gente, avisou que tinha vindo para destruir, e não para construir. Para tanto, condenou todas as ideias avançadas e evolutivas. Seria o anticristo? Mandou logo cortar a cultura, para ele coisa de comunista comedor de criancinhas. Arregimentou seus ajudantes para sucatear as universidades, para ele lugar de maconheiros e intelectuais pervertidos pecaminosos.

O pesadelo ficou ainda pior e aterrorizante quando apareceram na escuridão tenebrosa da noite uns monstros invisíveis em forma de coroa atacando e matando nosso povo, principalmente os mais pobres e famintos. Levaram os diabinhos para o laboratório e lá deram o nome de Covid-19. Vieram voando da China. Foi logo a primeira versão. Invadiram todo planeta e matavam por sufocamento, com morte dolorosa e sofrida.

Muitos irmãos do meu país começaram a perder a vida. Só choro, ranger de dentes e lágrimas dos parentes e amigos pela perda de seus entes queridos. Mesmo diante daquele horror, daquela desgraça que se abateu entre nós humanos, o homem genocida debochou; chamou o visitante assassino contaminador de uma gripezinha de fresco; e ainda humilhou as pessoas classificando-as de maricas.

O estrago foi aumentando. Os hospitais ficaram superlotados, numa agonia desesperadora diante de tantos seres humanos sendo dizimados pelo redondo coroado de espinhos venosos. Mesmo assim, aquele homem pestilento do meu pesadelo condenou todas recomendações científicas para controlar o danado invasor. Saia por aí a cavalo, de moto, de barco e a pé transmitindo a letal doença e ainda receitando uma tal cloroquina para derrubar o invisível.

Vi em meu pesadelo, naqueles escombros e ruínas, muitos lamentos de dor, como se fosse um inferno de Dantes. Tentava acordar para me livrar daquelas imagens macabras, mas não conseguia me desvencilhar dos tentáculos pegajosos em torno de mim. Nas cenas, via feições de caveiras e risos sarcásticos, dizendo sou eu que mando, tudo é meu, meus soldados, meus ministros, meu Brasil.

Em meio àquela aflição perturbadora, enxerguei na penumbra das trevas uma nave extraterrestre que pousava e abduzia o cara do mal e, rapidamente, levantou voo, riscando o universo numa velocidade alucinante. Os seguidores do ceifador de vidas tentaram impedir seu rapto planetário, mas nada puderam fazer. Ficaram até berrando palavras de ordem, mas sumiram depois do sumiço repentino do seu chefe maior, como nas guerras indígenas.

A cabeça doía quando, finalmente, acordei atormentado por nunca ter visto em toda vida aquelas figuras asquerosas. De lá para cá, outros pesadelos parecidos sempre voltam, como num trauma que gruda em nossa alma para sempre. Não foi um sonho para se levantar animado e otimista com a roda da vida. Foi mesmo um pesadelo que deixa o seu dia pesado e nunca dá para se esquecer dele.

 

A RETOMADA DAS AULAS PRESENCIAIS

É indiscutível a necessidade da volta às aulas presenciais nas escolas públicas e particulares depois de quase uma ano e meio de fechadas por causa da pandemia. A polêmica, no entanto, gira em torno dos protocolos a serem seguidos e fiscalizados, especialmente quanto as públicas que, como sabemos, não oferecem condições físicas adequadas aos alunos, mesmo antes da Covid-19 se alastrar pelo país. O ensino no Brasil já poderia estar normalizado se não tivéssemos um governo retrógrado e negacionista da ciência.

Sabemos que em nosso Brasil as leis nem sempre são cumpridas, e a fiscalização é por demais falha. Na teoria, as recomendações dos decretos municipais nos convencem diante dos cuidados a serem tomados. Na prática, a coisa funciona bastante diferente por falta de estrutura dos prédios e carência dos principais itens de higiene, principalmente quando se trata da zona rural onde existe até falta de água.

Nos primeiros dias das atividades tudo pode correr dentro dos conformes, mas semanas depois começam as escassezes de álcool gel, papéis de limpeza e outros materiais de prevenção, com banheiros quebrados e até ausência de aparelhos de aferição dos alunos. São justamente nessas deficiências que entra a burocracia para a diretora adquirir os produtos que constam dos protocolos prometidos na teoria.

As escolas particulares contam com mais estrutura física, e não existe a tal burocracia para dificultar a manutenção dos itens de prevenção essenciais para que não haja contaminação entre os alunos. Outro problema sério diz respeito à fiscalização permanente da vigilância sanitária, que já é deficitária por natureza, porque não existe um contingente ideal de fiscais para cobrir todo o universo de estabelecimentos escolares.

Outra questão a ser avaliada é quanto a vacinação dos professores, muitos dos quais ainda não receberam a segunda dose que oferece a imunização mais completa e segura. As escolas públicas vão ter gente suficiente para monitorar os protocolos que a própria Secretaria de Educação anunciou para fundamentar a abertura das aulas?

O perigo está no relaxamento das medidas, coisa que sempre ocorre com o passar do tempo em nosso país de um modo geral, não apenas em Vitória da Conquista que está reabrindo o ensino presencial, de fundamental importância para as crianças e os jovens estudantes que estão por demais atrasados em suas séries.

No setor educacional, pelo menos essa maldita pandemia nos deu uma lição de resposta sobre o tal projeto fascista do ensino domiciliar. Esse tempo fora das escolas, sem a presença pessoal dos professores e o contato com os colegas, representou perdas incalculáveis para os estudantes, não somente no âmbito da aprendizagem, como em termos psicossociais na forma do relacionamento humano.

Isso é uma doideira num Brasil tão desigual e analfabeto onde a maioria dos pais é obrigada a trabalhar para sobreviver. Além do mais, milhares não têm instrução suficiente, nem pedagogia para ensinar seus filhos. Vão catequizar seus filhos numa doutrina que lhe convenham?

Por sua vez, o Ministério da Educação, conduzido pelo pastor evangélico conservador, só faz gastar nosso dinheiro com propaganda de programas que nem estão funcionando. São milhões de reais desperdiçados, quando as universidades estão sucateadas e o ensino básico numa situação vexatória.

Usa uma tremenda verba para anunciar o Enem e ainda dizer que é uma das maiores plataformas de concursos do mundo, como se isso fosse uma glorificação para o Brasil que apresenta as piores notas em provas de língua e matemática.

UM EDITAL MERRECA E EXCLUDENTE

Numa cidade do porte de Vitória da Conquista, a terceira maior da Bahia, com cerca de 230 mil habitantes, o novo edital de premiação artística da Secretaria de Cultura, no valor de 300 mil reais, é uma merreca, principalmente se levarmos em consideração o universo de preponentes que atuam na área, podendo abranger até cinco mil ou mais que isso.

Eu diria que é mais um desprestígio e falta de consideração com a nossa já combalida cultura onde os poderes públicos pouco dão importância, e os prefeitos fazem dela uma pasta apenas decorativa, quando deveria estar equiparada com a sua irmã siamesa educação. As duas caminham juntas e se complementam.

Outra vergonha, no caso de Conquista, que tem uma falsa impressão de ser uma cidade cultural, é que não existe uma política traçada para atender todas as linguagens artísticas, durante todo o ano. Nunca tivemos uma Feira do Livro, ou Festa Literária, e há muito tempo que não vemos os salões de artes plásticas e os festivais de músicas, dança, teatro, exposições de fotografias, mostras de audiovisual, seminários, encontros e outras expressões culturais acadêmicas e populares.

Até antes da pandemia só tivemos dois calendários, um no meio do ano – o São João – e outro no final – o Natal, que mais beneficiam a área de música, com uns cachês pequenos e pagos com atraso para os artistas. Arte não é somente a música, e somos carentes de atividades programadas para movimentar a cidade, inclusive com a geração de renda e emprego.

Quanto ao novo edital lançado recentemente, com premiações de apenas 750 reis, excluindo aposentados e pensionistas, diria que isso não passa de uma esmola e um cala boca às manifestações dos artistas que foram para a porta da Prefeitura Municipal contestar a declaração do secretário que mandou os músicos passarem o chapéu para ganhar uns trocados.

Esse edital de 300 mil, uma vergonha para uma Prefeitura, que gasta milhões em outras coisas (propaganda, comunicação, slogans), deveria ser para cidades como Anagé, Belo Campo, Tremedal, Piripá, Caetanos, Caatiba, Bom Jesus da Serra, Aracatu e outras da nossa região. Conquista não merece isso e nem os artistas.

A iniciativa da Secretaria de Cultura teve o propósito de se equiparar a um auxílio emergencial (insignificante) em tempos de pandemia, e o pior é que muitos vão ficar de fora desse “benefício” pela desclassificação e exclusão dos aposentados. Não digo todos, mas a maioria de artistas aposentados ganha um salário mínimo, ou pouco mais que isso. Vivem catando um trocado aqui e acolá. Outros possuem outras atividades para sobreviver.

A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista também tem sua parcela de culpa nessa falta de tratamento adequado e desrespeito com a nossa cultura porque deveria cobrar mais do executivo e formular um projeto-de-lei criando uma política para o setor, numa parceria com o segmento privado se bem que, lamentavelmente, os empresários de Conquista não investem em cultura porque acham que não dá dinheiro de imediato.

Eles têm uma mentalidade atrasada quanto a ajudar um projeto dessa natureza. O futebol amador e profissional é um dos exemplos de que não recebe apoio dos empresários. O time do Vitória da Conquista vive penando por patrocinadores, e sempre está na linha do rebaixamento no fraco campeonato baiano por falta de atletas da contratação de melhor qualidade.

Quando se vai pedir algo a um deles, para um determinado projeto, mete a mão no bolso e sai com uma esmola, dizendo que está lhe ajudando porque é seu amigo. Não tem nenhum senso de custo/benefício. Eu mesmo já senti isso na pele quando me atrevi a realizar algo cultural e precisei de colaboração, porque não disponho de posses para bancar um trabalho sozinho.

O escultor e multifacetado artista, Alan Kardec, está bancando a implantação de um museu com recursos próprios e ainda é criticado por esse tal Conselho Municipal de Cultura e por empresários. O museu já é o maior a céu aberto do Norte e Nordeste, e vai ficar para a posteridade como grande patrimônio cultural de Vitória da Conquista.

Quem faz cultura em Conquista não é reconhecido. Pouco é lembrado. Não valorizam a arte, o intelectual, o estudioso ou o pesquisador.  Eles só são lembrados quando morre. Para que homenagens depois de morto? Isso soa a falsidade, hipocrisia e mesquinharia. Quando muito se dá é um título de cidadão, e olhe lá.

Infelizmente, nossa cultura continua desprestigiada e vivendo de esmola, como esse vergonhoso edital. Que digam os artistas, principalmente os músicos a quem se mandou passar o chapéu. Conquista conta com grandes talentos, mas adormecidos e desconhecidos por falta de apoio dos setores público e privado.

UM CAOS NA AVENIDA INTEGRAÇÃO

Transitar pela Avenida Integração (antiga BR-116 – Presidente Dutra) é um tormento para os motoristas, e exige muita atenção e paciência. Da Rodoviária até o alto da Serra do Periperi você tem que enfrentar as pragas dos quebra-molas e os inúmeros semáforos. Quando se chega nas imediações do Bairro Brasil, entre as zonas oeste e leste, no comércio propriamente dito das casas de peças de automóveis, tudo vira um inferno para se dirigir.

Sem fiscalização para disciplinar o trânsito e multar os infratores, motoristas estacionam seus veículos, inclusive grandes e pequenos, praticamente no meio da pista em sentido duplo e ligam os alertas, como se isso dessem a eles o direito de parar sem serem penalizados. Quando se chega no miolo da avenida, aí embola tudo, e quem está transitando é obrigado a desviar, correndo o risco de provocar um acidente.

Sinceramente, a Avenida Integração virou uma bagunça, e cada um faz o que bem entende para preservar seu egoísmo e individualidade de estacionar em frente da loja que ele vai comprar uma peça, ou fazer algum conserto no carro. Além desse caos, existem os pedestres, bicicleta e até carretas que fazem complicar mais ainda o trânsito, especialmente nas horas de pico. Por tudo isso, essa artéria tem sido alvo de muito acidentes, inclusive com mortes.

A Secretaria de Mobilidade Urbana precisa tomar uma providência para melhorar o fluxo de veículos na Avenida Integração, multar os infratores, tirar os quebra-molas, colocar radares em sua extensão, pintar as faixas de pedestres e até impedir a passagem de carretas, tendo em vista que já existe o Anel Viário para isso. Nesta semana, por exemplo, um caminhão parado no fundo dos carros pequenos tomou toda pista, criando um tumulto infernal.

Nas Avenidas Juracy Magalhães e a Brumado também ocorrem quase que a mesma coisa. Muita gente acha de estacionar no meio das referidas pistas para resolver algum problema nas casas comerciais, e os motoristas que seguem na direita que se danem para desviar dos carros. O comodismo impede que o cidadão pare seu veículo numa transversal de rua e ande uns 30 ou 50 metros até o seu local desejado.

Em todos esses lugares está faltando mais fiscalização dos agentes de trânsito para multar esses imbecis preguiçosos que só pensam neles e não respeitam o direito dos outros. É difícil entender como o cara para quase que no meio de uma pista de rolamento impedindo a livre passagem dos outros. Infelizmente, na Bahia e no Brasil como um todo, a coisa só funciona na base do rigor e da punição porque quase ninguém obedece as leis.

Outra coisa na via urbana de Vitória da Conquista que inferniza os motoristas são os quebra-molas, elevatórios antiquados que só servem para provocar danos nos carros. Não é um quebra-mola que faz evitar um acidente. O que impede de acontecer um acidente é a prudência do condutor. É só seguir as sinalizações, tanto horizontais como verticais. Conquista virou a capital dos quebra-molas, e cada vez chegando mais quando se abre uma rua ou avenida.

A Prefeitura Municipal precisa acabar com esses monstrengos anacrônicos, e a Câmara de Vereadores deixar de aprovar a construção desses elevados de cimento e ferro pela cidade. Ninguém está aguentando mais esse tal de subir e descer que irrita e enerva qualquer motorista, principalmente os visitantes.

Centenas deles são colocados em locais impróprios, em subidas e descidas, que arrebentam qualquer pessoa desavisada, sem contar os prejuízos que o dono tem de arcar nas oficinas. Um deles mesmo está bem lá postado numa descida da Avenida Bartolomeu de Gusmão, próximo do cruzamento com o Hospital Samur. É só um exemplo. Existem outros assim.

Quem gosta de quebra-mola é justamente dono de oficina mecânica. Será que não basta a escorcha nos preços de combustíveis praticados pelos proprietários de postos em Vitória da Conquista, que tem a gasolina mais cara da Bahia? Estamos, então, na capital dos quebra-molas e do combustível mais careiro. Esses títulos não nos orgulham em nada. Muito pelo contrário.

“O ÓPIO DO POVO”

Carlos González – jornalista

“O futebol é o ópio do povo”, frase atribuída ao jornalista, dramaturgo e torcedor fanático do Fluminense Nélson Rodrigues (1912-1980), adaptada da máxima “a religião é o ópio do povo”, de autoria do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), idealizador da doutrina comunista, está associada aos regimes totalitários e aos governantes que adotam a velha política do “pão e circo”. Extraída da papoula, a droga era usada, a partir do século XIX, pelas populações famintas da Ásia e do Leste Europeu como antidepressivo, com a capacidade de causar um efeito sedativo. Nos tempos modernos, o entorpecente de origem vegetal foi substituído pelo esporte, mais precisamente pelo mais popular deles, o futebol. A indesejada Copa América, em disputa no Brasil, está sendo usada por um presidente – que se diz palmeirense, mas posa com a camisa do rival Corinthians, – para tentar frear sua queda de popularidade, em função da situação caótica em que vive o país.

Recusada pela Colômbia, que convive com uma crise social, e pela Argentina, sem controle da pandemia, a Copa América foi prontamente aceita pelo genocida, que viu no torneio uma forma de armar o “circo” para aquela camada da população desempregada, ameaçada pelo vírus, sufocada pela alta da inflação e sem condições de se alimentar. Não adiantaram os protestos dos cidadãos conscientes, inclusive cientistas, e dos profissionais de saúde que cuidam dos infectados pelo coronavírus.

As confederações de futebol da América do Sul (Conmebol) e do Brasil (CBF) só visavam os milhões dos patrocinadores (Ambev e Mastercard retiraram o apoio financeiro); os jogadores brasileiros divulgaram um irrelevante comunicado onde juravam que o amor pela seleção era maior que tudo. Maior, evidentemente, do que o sofrimento dos familiares das mais de 530 mil vítimas da Covid-19. A maioria dos governadores se negou a receber os jogos, que estão sendo disputados apenas nos estádios de Brasília, Cuiabá, Goiânia e Rio (Maracanã e Engenhão).

O homofóbico (a Justiça do Rio quer saber por que a camisa nº 24 da seleção foi “cassada”) presidente imaginou que a Copa iria afagar seu devoto Sílvio Santos, dono do SBT, emissora que adquiriu os direitos de transmissão dos jogos, e criar picuinha com a Globo. A temporada circense não teve o êxito esperado. Sem público nas arquibancadas e um futebol violento e de péssima qualidade técnica, as seleções sul-americanas não empolgaram o torcedor, nem mesmo a brasileira, em franca decadência depois dos 7 a 1 aplicados pela Alemanha na Copa do Mundo de 2014, e no êxodo de jogadores para Europa e Ásia.

Os índices de audiência do SBT têm sido bem abaixo dos apresentados pela Eurocopa, transmitida pelo canal Sportv. A CBF até que procurou dar uma ajuda, transferindo partidas do Brasileirão para às 11 horas, e tirando um Fla-Flu do Maracanã – quem poderia imaginar – para o estádio do Corinthians.

“Pra frente Brasil”

Nessa Copa América envergonhada, Bolsonaro imaginou também que poderia desviar a atenção do país para os escândalos do seu governo, como se o brasileiro fosse o mesmo alienado dos anos de chumbo (1969 a 1974), o mais sanguinário da ditadura militar (1964-1985). O rigor da censura aos meios de comunicação impedia que o povo tomasse conhecimento das sessões de tortura e das mortes nos porões da ditadura, enquanto o presidente Garrastazu Médici (1905-1985) assumia o posto de torcedor número 1 da seleção, com direito a intervir na comissão técnica e na convocação dos jogadores, campeões mundiais de 70, no México. A marchinha “Pra frente Brasil” se transformou numa espécie de hino do regime autoritário.

A vitória alcançada pelos comandados de Zagalo estimulou Médici a continuar a se valer do futebol com finalidade política partidária. O AI-2, assinado em 1965 pelo marechal Costa Silva, criou o bipartidarismo, a fim de dar a impressão no exterior de que o Brasil respirava democracia. Após cassações de políticos que faziam oposição ao regime foram criados a Arena, o braço da ditadura no Poder Legislativo,  e o MDB, uma espécie de coadjuvante da comédia. Para fortalecer a Arena no interior do Brasil, Médici começou intervindo na CBF, colocando o almirante Heleno Nunes na presidência da entidade, com a orientação de aumentar o número de participantes do Campeonato Brasileiro, chegando a marca recorde de 94, sendo 30 do Nordeste, região que era representada apenas pelo Bahia. Daí surgiu o slogan: “Onde a Arena vai mal, um clube no Nacional”.

Ambicioso em suas pretensões, o Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o Brasil de 1º de janeiro de 2003 a 31 de agosto de 2016, se candidatou, por iniciativa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a promover os dois mais importantes eventos esportivos do planeta, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, no intervalo de dois anos, contrariando a opinião dos economistas e de uma considerável parte da população, sob o argumento de que o país tinha outras prioridades no âmbito social.

Vaidoso e no auge da popularidade, Lula pretendia que o Brasil exercesse maior influência no concerto das nações, ou talvez sonhasse com vida longa para o petismo na chefia do poder. A indicação para a Copa de 2014 foi tranquila, diante das desistências de Argentina e Colômbia. A FIFA exige oito cidades-sede, mas Lula conseguiu ampliar para 12, cujas arenas, entre reforma e construção superfaturadas, minaram os cofres das estatais e do Executivo.

No primeiro dia de 2011 Lula passou a faixa presidencial para sua ex-ministra Dilma Rousseff, que ficou encarregada de montar toda a estrutura para realização da Copa. Com as obras atrasadas, que provocaram a reação da FIFA, ameaçando levar o torneio para outro país, a presidente não agiu para impedir os escândalos financeiros em seu governo, envolvendo ministros, diretores da Petrobras e empreiteiras. A campanha de “Não vai ter Copa” ganhou as ruas. Na abertura do torneio, em 12 de junho de 1914, Dilma foi recebida no Maracanã sob vaias e xingamentos.

A candidatura do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 trocou o noticiário esportivo pelo policial. No dia 2 de setembro de 2009, em Copenhague, na Dinamarca, autoridades governamentais e esportistas comemoraram a indicação da capital fluminense. Um ano depois da realização do evento, o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, preso por desvio de dinheiro público e condenado, confessou que seu governo, naquela reunião de setembro de 2009, comprou os votos de nove delegados africanos por 2 milhões de dólares. O intermediário da negociata foi Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, que chegou a passar 15 dias numa prisão, além de perder o cargo que ocupava há 22 anos. O suborno foi o método usado para afastar a cidade de Madri da disputa.

Muitos dos estádios construídos para a Copa do Mundo e os equipamentos para os Jogos Olímpicos estão hoje sem serventia, passando por um processo de deterioração. O legado financeiro negativo deixado por esses dois megaeventos não foi questionado nem pelo Ministério Público Federal nem pelo Tribunal de Contas da União.

 

 

 





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