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:: ‘Na Rota da Poesia’

O CARA DO MAL

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Esquartejei em pedaços o Cristo;

deixei morrer de fome africanos,

nas atrocidades sempre persisto,

e até joguei bombas em ciganos.

 

Estuprei a natureza e não gozei;

queimei mendigo, índio e gay;

fui exterminador dos pantanais,

e grelhei vivo muitos animais.

 

Com o lema da usura e avareza,

fui um cara-de-pau com certeza;

carrasco nos tempos romanos,

me juntei com todos os tiranos.

 

Bebi o sangue do bode preto,

na encruzilhada dos canaviais;

pratiquei o ritual dos canibais;

e do satanás divulgue panfleto.

 

Num macabro canto do mal,

como uma besta fera do astral,

fui um sanguinário cruzado,

banhando de sangue o condado.

 

Pratiquei todo tipo de sujeira;

acabei com uma aldeia inteira;

roubei os cobertores do inverno;

e mandei todo mundo pro inferno.

 

Tirei doce da boca de criança;

com os malfeitores fiz aliança;

tinha aparência de um carneiro,

para ser mesmo um carniceiro.

 

Torturei muita gente nos porões;

incinerei corpos em ricos casarões;

degolei muitas cabeças do bem,

e hoje ouço gritos e vozes do além.

 

NA ESTRADA

Na estrada cigana galante

Anavalhada, livre e longa

De uma vida curta e pouca

Sou sereno, frio e vento

Sol a pino de cara ardente

Poeira lá do horizonte

E ando com tanta gente

De senso santo e louca

Que comove e engana

Na procura daquela fonte

Que mata sede do andante.

 

É uma via do mal e do bem

De sina divina e satânica

Em toda extensão da pista

Com aviso em cada esquina

Riscos da liberdade proibida

Esculpidos por um artista

Com entrada, meio e saída.

Gira e muda como enigma

O sentido finito da vida

Com face suave e tirânica

Sem decifrar o rosto do além.

MENTE BRASILEIRA

Letra de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A mente moura ibérica, negra e índia,

Essa mistura mestiça brasileira mente,

Mente feio o eleitor na urna ao ir votar,

Depois o eleito só quer tirar seu proveito,

Promete pão e escola e dá circo e esmola;

Enganam o governo e o caro parlamentar,

E a avenida histérica se divide pra xingar.

 

Gente falsa compra sapato em Nova York;

Só quer falar I love “very  good, nok, nok”;

Rouba meu cofre e sempre se diz inocente,

O demente mente que a ditadura não existiu,

Mente na TV que não tem feito preconceito,

Faz de conta que lê e só vê as redes sociais,

Avança os sinais e se diz humano solidário,

Apoia os fascistas e o corrupto salafrário.

 

Mente vil brasileira tão incoerente mente,

Onde o forró lambada virou coisa imoral,

A puta finge amor na cama que já gozou,

A igreja prega que a inquisição já passou,

O malandro se gaba de esperto inteligente;

Todos só querem em tudo levar vantagem;

O Nordeste não tem mais cabra da peste,

Como Suassuna com sua viagem armorial;

Mente brasileira de cultura ainda colonial.

 

 

NOS BARES DA VIDA

Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário

A inspiração aflora e o casal ao lado só namora

O papo rola com a turma do jogar conversa fora

Uns caras da saideira falam de política e fofocas

O poeta rabisca no guardanapo seu fiapo da letra

Canta uma canção de amor a viola cigana menina

Moucos das redes sociais navegam em suas locas

Num bar de Minas bateu asas o Clube da Esquina.

 

Nos bares da vida sempre tem freguês

Uns vão comemorar feliz suas glórias

Outros vão até lá suas mágoas consolar

Se está numa boa se diverte nas histórias

Se bate a crise toma pra esquecer a danada

Escutar o cancioneiro falar da mulher amada

Mesmo sabendo que a conta chega todo mês

 

Nos bares da vida discutem escritores e cordelistas

Olhares indiscretos trocam bilhetes com o garçom

Em Munique sentou num bar o corvo cruel da morte

O comuna Marx brigou com o anarquista Proudhon

Nas tabernas, bárbaros juraram derrubar os romanos

Num bar de Gori, Stalin tirano tramou a queda do czar

Hemingway tomava a santa cana na Bodeguita cubana.

 

Saiu o manifesto Bola-Bola Cinema Novo no Alcazar

No Vermelhinho cruzaram militantes contra a ditadura

O surrealismo francês ternura nasceu no Cyrano de Paris

Artistas baianos curtiram noites no Anjo Azul e Tabaris

Nas etílicas tintas das matérias escolheram seus pincéis

Naquele bar atiraram pistoleiros e jagunços dos coronéis

Nos bares da vida, sempre existiu aquele histórico bar.

 

 

 

 

NO MEU EMBORNAL

Nasci no espinhaço do sertão,

No profundo agreste nordestino,

Com rapadura, farinha e carne seca,

Ouvindo o estrondo do trovão,

No sol escaldante de matar,

Que até inseto morre no ar,

E carrego no meu embornal,

A faca, a foice e o martelo,

E da minha primeira lição,

Estudei o latim no Seminário,

O grego, o francês e o português;

Labutei duro e fiz histórias no jornal.

 

As angústias e a vida em vendaval,

As coisas boas e ruis do passado,

Todas as alegrias e o choro calado,

Até o soro que tomei lá no hospital,

A solidão das vagas madrugadas,

Os acordes da mulher doce amada,

As cores do meu país maltratado,

Onde o roubo é tratado como normal,

Está tudo no meu velho embornal.

 

O conhecimento, as intrigas e brigas,

Os momentos de tantas fadigas,

As certezas e a vida de incertezas,

O sonho de ver irmão igual irmão,

Viver num país de igualdade social,

Sem o preconceito religioso racial,

O saber de saber que nada sei,

Que sou simples ser e não um ter,

Tudo está no meu surrado embornal.

 

Carrego tudo no meu embornal,

Muita coisa boa nesta sacola,

Coisas que não se aprendem na escola,

Como as noites etílicas sagradas,

Os segredos dos frios dos invernos,

E as floridas cores das primaveras,

Muita gente de caras mascaradas,

Nas eras das ditaduras severas,

Tudo está lá guardado no embornal.

 

O clarear do verão seco e quente,

Batendo nos rostos de tanta gente,

Indo e vindo nas bancas de jornais,

De corpos sofridos e espíritos fatais,

Em linhas tortas arrombando portas,

Tudo está lá no meu velho embornal.

SAMOS O QUE SAMOS

Poema inédito e mais novo de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Somos volúpias carnais infernais,

Ternos, tiranos irracionais radicais,

Hienas caçadoras carniceiras,

Águias de garras traiçoeiras,

Gaviões famintos nos galinheiros,

Gafanhotos destruindo plantações,

Mandacarus sobreviventes do sertão

Fogo e fumaça em erupção.

 

Somos água seca da cacimba,

O cangaço retorcido de aço,

O silêncio que vem lá de cima

Do universo sideral dos céus,

Gentes inocentes incoerentes,

Com a mente que sempre mente

Sentados nos bancos dos réus.

 

Somos feiticeiros de religiões,

Arrastando legiões carneiras;

Somos todos paus de atiradeiras,

Fingindo ser o que não somos

Nesta vereda de tantos ramos,

Em noites embriagadas de vinhos,

Tentado arrancar nossos espinhos.

 

Somos aves, passarinhos gigantes,

O céu e o inferno de Dantes,

O vento forte que vem do norte,

Madeira de ferro pra toda obra,

Que vive correndo atrás da hora,

Ora rir feliz e ora triste chora,

Sofrendo com o aqui e o agora.

GENTE QUE É GENTE

Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por esse lenho da Vera Cruz

Desceram os espíritos da nau

Atrás do venal cobiçado metal

Com doenças do corpo e da alma

Inocular o vírus predador do mal

Na gente virgem mata selvagem.

 

Armada de doutrina sagrada

Comeu nativo na cruz e na tara

Cuspiu gente que ainda faz gente

Do açoite do cipó, do reio e da vara

Do ouro, do mel da cana e da boiada.

 

Neste visceral árido caminho

Vaga a ampulheta da morte

De uma gente andante solitária

Que se humilha pra ser gente

E não é vista pela sua gente

Indiferente e inconsequente.

 

Depois de um sono de engano

Raios de luz batem na janela

Crianças choram de fome

E a paisagem do mar da favela

Na curva da esquina some.

Nas bocas fumacentas do crack

Nos escombros e nas ruínas

Trapos, farrapos amontoados

Mães, meninos e meninas

Das guerras tiranas assassinas

De uma gente que não vê sua gente.

 

Gente de fé e luta cangaceira

Da seca cinzenta e inclemente

De rostos marcados nas feiras

Carrega seu bocapio de poeiras

Cheio de esperança de ser gente.

 

Vejo os mortos vivos

Perambulando nesta estrada

Do pergaminho curto da vida

Como códigos de um ninho

Misterioso de uma gente crente

Que nem sabe se é mesmo gente.

 

A alma da terra dessa gente

Que não tem na capanga a moeda

Para dar ao barqueiro Caronte

Vaga pelas margens do rio

No viaduto e debaixo da ponte.

 

Atrás daquele monte de pedras

Pode existir uma doce fonte

Uma flor rara e solitária

Outro horizonte perdido

Outra gente que ama gente

E ensina como mudar a mente.

 

Gente que é gente do ter e do ser

Gente braçal e de todos os rincões

Gente do pensar mágico simpático

Das fábricas, campos construções

É preciso fazer a hora acontecer.

 

ENTRE UM E O OUTRO

Poema do jornalista Jeremias Macário

Brigam a ciência e o mistério,

pela verdade do peregrino,

mas poucos levam a sério.

 

Misturam religião e profano,

nas festas de todo o ano.

 

Uns vão e outros ficam,

na curva escura da vida.

 

Uns preferem a linha reta;

outros duvidam da seta.

 

A saudade aperta,

quando termina a festa,

e o encontro se desfaz,

no ar como o gás.

 

Entre a água e o fogo,

fico com o fogo.

 

Entre a terra e o ar,

fico com o ar para respirar.

 

Entre a pauta e o roteiro,

temo ficar com os dois,

e ser escolhido pra depois.

 

Entre a morte e a vida,

não tem mais saída.

 

Entre a treva e a luz,

fico com a que me conduz.

 

Entre a música e a literatura,

só se tiver conteúdo e cultura.

 

Entre o deletar e a tortura,

me leve para a sepultura.

 

Entre o amor e a dor,

nos dois eu sou.

 

Entre a capela e a catedral,

sou a mais simples pra rezar,

e chegar do outro lado de lá.

 

Entre o amigo só das festas,

fico com o das horas incertas.

 

Entre Raul, Chico e Gil,

melhor se for de vinil.

 

Entre Milton e Vandré,

fico também com Tom Zé.

 

Entre a religião e a filosofia,

prefiro a popular sabedoria.

 

Entre esse espaço de aço

e a sociedade alternativa,

fico com a criatura primitiva.

 

Entre a chuva e a maré,

prefiro ir seguindo a pé.

 

 

 

 

 

0 SISTEMA TECNOTÓXICO

Poema do jornalista Jeremias Macário

Neste mundo de tanta tecnologia

A sabedoria caiu no coito da orgia;

O homem ficou ainda mais idiota,

Que nem sabe mais abrir sua porta,

E como tropa segue cego sem rota.

 

Ainda jovem plantei árvore, livro e fiz filho,

E dai Raul, continuo um cara insatisfeito,

Um andarilho sem sentido e sem conceito,

Nesse sistema que nos empurra pro poço;

Sou como um cão faminto roendo um osso.

 

A máquina roubou o seu lugar;

Planta na terra mais agrotóxico;

Colhe veneno alimento de matar;

Tudo fresco e vistoso por fora,

Que se come até a casca na hora.

 

O homem corre dia e noite, noite e dia;

Respira no ar as partículas de dióxido,

E lá vai o elemento andante tecnotóxico

No sistema tóxico de tanto pó e negócio,

Que suga sua alma e cada gota de energia.

 

Sou um invento contente tecnotóxico;

O sistema que manda fazer isso e aquilo;

Beber ácido e comer a comida a quilo;

Ser um ativo neste mundo competitivo;

Fumar tóxico e engolir fumaça de monóxido.

 

Sou do sistema um átomo e fio de conectar;

Sempre carrego na cabeça a senha do celular;

Excremento que por ai vagueia sem um tema,

Pronto pra aprender o teorema do esquema,

E repetir na entrevista tudo que me perguntar.

 

Não tenho nome, sou número tecnotóxico,

Moço engravatado e um liso comportado,

Se quiser um emprego de gari ou deputado,

Sigo a linha padrão de um bom capitalista

E nada de artista, ativista ou comunista.

 

Minha artéria venenosa de competição

No sistema bruto sem caráter e sem lição,

Nem vejo miséria nesse mundo tecnológico;

Como na fila o hamburguer cheio de tóxico,

E nem quero saber dessa coisa de ser lógico.

 

NÃO QUERO MAIS ESTA LIÇÃO

Poema de autoria de Jeremias Macário

Meu poema não fala de libido e amor,

Lembra de um gado em disparada,

Como no verso galopeiro de Vandré;

Ele é mais de dor ferida que de flor;

É cálice amargo, vida de caça fuzilada,

Como na angústia do Drumond de José.

 

Não quero esta assassina lição,

De esquecer a milenar sabedoria;

Não quero soldado para abater,

Fazendeiro com guia pra matar,

Brasileiro comer pedra pra viver,

No país de um futuro sem razão.

 

Quando a mente vira aço se cala,

E o artista se quebra em pedaços;

Não protesta contra esta estupidez,

Em nossos peitos o cara mira a bala;

Voltam-se aos tempos dos cangaços;

E o povo freguês nunca tem sua vez.

 

A mídia quer mesmo é bajulação,

Como o profeta Raul Seixas anuncia;

Fazer sua média atrás do capital vil,

E os canalhas encurtam nossa educação;

Querem um povo de cangalhas e servil;

Negam a ditadura e cospem democracia.

 

Como no rasgo da viola do vate,

Não quero aprender esta lição

Dos inimigos da nossa cultura;

Sou menino e visto o rosa;

Sou a menina desse céu azul;

Quero o saber da Sociologia,

De toda parte, do norte ao sul,

O livre pensar da nossa filosofia,

E gritar bem alto a minha prosa;

Marchar firme contra esta loucura

Da apologia a essa arte do descarte.

 

 

 





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