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:: ‘Na Rota da Poesia’

MALUCA LUTA

Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário

Vida de estouro de boiada.

Mundo maluco de cão.

Luta de povo besouro.

 

Falso ouro enferrujado,

de sonhos cheios de pelos,

que viraram pesadelos.

 

A luta maluca de bravura,

vira loucura e até tortura.

 

Concebidos num caso por acaso,

a vida nunca teve sentido.

 

O vazio das perdas e a depressão,

são dos fortes a salvação.

 

O alienado não se deprime,

nem tampouco alcança o sublime.

 

Você não é obrigado a ser feliz,

nem portar cartão de crédito

do giz politicamente correto.

 

Rasgue sua carta de conduta,

e siga a sua maluca luta.

 

Engula o seu choro contido,

e devore seu sentido derretido.

 

Sua cidade é o seu inferno,

e não adianta se esganar,

porque aqui não existe eterno.

 

 

A morte é a negação do existir,

e o existir, um sonho passageiro,

porque você não passa de meeiro.

 

Nascemos todos no prejuízo,

esperando pelo dia do juízo,

com a promessa de ter um paraíso.

 

Mesmo que sejam os diabos,

os deuses são sempre endeusados

pelos seguidores idiotas dopados.

 

Você nunca vai vencer essa luta,

esquisita depravada conquista,

porque se agarra uma maluca,

a outra sempre está à vista.

 

ETERNO AMORES

Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário

Existe aquele amor sempre o eterno,

mesmo quando outro toma seu lugar;

é o amor que vira nódoa na sua alma,

e nem todo o tempo consegue apagar.

 

Existe o amor de amante arrebatador,

que seduz como a pedra de diamante;

corta e devasta como o cruel lenhador,

até arder de cio na Comédia de Dante.

 

Existe aquele amor piedoso e o terno,

o do platônico que nunca se esquece,

e o do verão que se aquece no inverno.

 

Existe o prostituto que não tem pudor,

o que diz que ama e que nunca amou,

e o do condoreiro no vôo do Condor.

 

DOR DA SAUDADE

Esta dor que a ti dilacera,

é uma dor que rasga e corta;

vem na forma de quimera;

entra como uma desvalida,

sem ao menos bater na porta.

 

A depressão corre pela veia;

a hora para e turva o ser;

o passado vem e não passa;

o futuro curto não clareia,

e o presente só faz sofrer.

 

É uma dor que amolece,

e não tem cura de doutor;

nem o tempo desaparece,

com este nó da saudade,

quando se pensa no amor.

 

É uma dor doída varada,

que te impede de comer;

suga a alma desamparada;

deixa a boca seca e amarga;

e só faz lembrar de você.

 

Parece não ter mais fim,

esta tal tirana da saudade,

que não escolhe a idade;

entope qualquer coronária,

e se espalha como cupim.

 

É uma vilã, esta ordinária,

de véu e traje existencialista,

que consome toda nossa diária;

rouba sorrateira a nossa alma;

e ainda diz que é uma altruísta.

EXISTE E NÃO EXISTE

EXISTE E NÃO EXISTE

Ainda existe

processo sem prisão,

a tortura sem história,

corrupção com vitória,

o crime que compensa,

a manipulação da imprensa,

o sonho feito de cristais,

como promessas sagradas

dos amantes e dos casais.

 

Ainda existe

a vergonha da esmola,

a escola sem lição,

país sem educação,

criança sem livro,

rei fajuto de camisola,

a justiça da pistola,

o cruel capital,

o empreiteiro pardal,

o ladrão de gravata

o coronel da chibata,

o amolador de navalha,

o ferreiro do fole

e o político canalha.

 

 

 

 

 

 

 

 

Não existe

relógio sem hora,

piora sem melhora,

cordel sem rima,

cantador sem viola,

presente sem passado,

chato que não amola,

sandália sem poeira,

cavalo sem crina,

cidade sem feira

país sem hino,

nem vida sem sina,

romaria sem peregrino,

e criatura sem destino.

POEIRA

Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário

POEIRA

Andei por aí,

comendo poeira

por todo lugar,

no sol da zonzeira,

de a pele rachar.

 

Andei por aí,

longe das catedrais,

nas capelas de cruzes,

marcadas por sinais,

sem o foco das luzes.

 

A pé, ou de carro,

a poeira a subir,

nas casas de barro,

na estrada da vida,

não tem mais Juriti.

 

Menino descalço,

andando por aí,

com a barriga vazia,

parecendo o Zumbi,

na poeira do dia.

 

Caminhei por ai,

nas minhas andanças,

vendo a fome,

severa o seu nome,

de tristes lembranças.

 

A poeira nas curvas,

nas rodas veloz a girar;

tapa tudo ao redor;

vira nuvens no ar,

e em nós fica só o pó.

 

Perambulei por aí,

comendo o sal,

misturado à poeira,

do bem e do mal,

das viagens daqui.

SUA IMAGEM

Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário

Fui fluir a saudade no vento

(do campo).

Nas flores perfumadas do sertão

(em cores),

vi sua imagem toda colorida

(do verde verão).

Fui buscar o sentido da vida

(nos espinhos).

Os pássaros em festa voaram

(de seus ninhos),

e lá na barragem estava sentada

(na mesa de sempre).

Mirei a paisagem para encontrar

(a paz).

Meu pensamento voou até as nuvens

(de cera),

e sua imagem esculpida na pedra

(faceira).

As árvores viçosas brotaram

(da seca).

Quero consumir todo o seu amor

(por inteira).

Não consigo descolar sua imagem

(dessa minha viagem).

CÍRCULOS CINZENTOS

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário que fala do suicídio de Getúlio Vargas, dos abutres pelo poder e dos golpistas que sempre aproveitaram dos momentos mais difíceis do país.

Corvos agouram os céus do palacete;

um tiro vara o peito do destino fatal,

vergando o corpo no cobiçado Catete,

naquele agonizante agosto nacional.

 

Um abutre vigiava o seu aposento,

voando em círculos no céu cinzento,

mas um estrelado conteve o tropel,

para não quebrar o verso do cordel.

 

Nasceu no planalto um traçado raro,

das mãos de um jovem visionário,

que sonhou com o grande pássaro,

e morreu depois como um solitário

 

Povo galopado no galope da vassoura,

de um lunático que se armou de tesoura;

tomou um uísque e fi-lo só porque quis,

que de lá saiu da ressaca rumo a Paris.

 

O gaúcho lá dos pampas tomou um susto;

o chimarrão espatifou-se nas terras de Mao;

os quartéis se armaram para o quebra-pau,

cada caudilho queria arrematar o seu busto.

 

Depois de muita peleja pela Legalidade,

Brizola pontuou bem sua viola em Cadeia;

os sargentos armados cercaram toda cidade,

e o homem entrou pelo sul com praça cheia.

 

Concordou parlamentar com os generais,

e ficar uns tempos até poder presidenciar,

mas a panela começa ferver lá nos Gerais,

e Lacerda lacera e rouba o gordo Adhemar.

 

As idéias cruzam os sessenta vermelhos;

as esquerdas se apressam para revolucionar;

Grupo dos Onze rende mais que coelhos;

todos pedem reformas ao senhor Goulart

 

Estouram as marchas sociais e marxistas;

foi o mesmo que bulir na casa de vespeiros;

uns excomungando os velhos comunistas,

e outros pontuando nos levantes marinheiros.

 

Ventos e raios partem das altas montanhas,

derramando ódios até a Central do Brasil,

e no Automóvel Clube assanha as aranhas;

da serra desce Vaca Fardada de vazio fuzil.

 

Um Castelo de peças começa a ser montado,

na ponta de uma mortífera estrela de espada,

com Atos até de um desatino cruel malvado,

de um Costa morto de isquemia emparedado.

 

Nos porões trevas de sussurros agonizantes;

açoite de choques ditando o proibido pensar;

elétricas cadeiras onde padecem os amantes;

guerreiros perdidos da selva de algum lugar.

 

No inferno dos dragões treme a carne e arde;

algozes fazem dos corpos montes de trapos;

perde-se o domínio do existir para o covarde,

e o torturador desseca o espírito aos sopapos.

 

Nos estádios vibra o vilão com cara de ferro;

celebrações de vitórias do mundo campeão;

gemidos nos cárceres abafados pelo o berro,

e o fogo da bala abate mais uma organização

 

 

 

BERRO DE FERRO

Poema do jornalista Jeremias Macário

Meu grito explode e berra

como as bombas na guerra;

queima como brasa de ferro

nas fornalhas dos algozes,

que calam as nossas vozes.

 

Treme no úmido porão,

a carne do meu doído berro,

que tine na lâmina do ferro,

perfurando a minha mente,

nas mãos de um delinquente.

 

Meu gemido sussurra no berro

nos telefones de pau-de-arara;

choques e cusparadas na cara;

no ânus enfiam uma vassoura,

e pela garganta uma tesoura.

 

São os passageiros da agonia

por quem minha alma berra,

que ousaram sonhar um dia

com uma socialista-ideologia,

na terra dividida em igual fatia.

 

Minha alma vaga dilacera

no nevoeiro do mar negreiro,

nas entranhas da selva fera,

que testemunhou o horror

da besta de dente carniceiro.

 

Meu berro das torturas letais,

da suástica sádica seca a saliva,

na sede suada dos golpes fatais,

que no sabre sequestra até criança

e ainda manda ter fé e esperança.

 

Tem o berro ferido e calado,

que marca gente como boiada,

e ainda nos contam uma piada,

com enredo de dor existencial,

onde a vítima se torna animal.

 

Na base aliada do troca-troca,

cada rato cuida bem da sua loca,

fazendo da desgraça um negócio

e deixando o resto como esmola,

do tamanho de um pedaço de sola.

 

Sou aquele cabrito que berra,

da América do Sul até a África,

desde toda a matança trágica,

da peste do vírus que virou aço,

até os foguetes voando ao espaço.

 

Não quero ser mera quimera,

que só berra sem ser uma fera;

quero ser como ferro da terra,

que sai bruto e se torna metal,

para fazer sua história imortal.

O PONTEIRO E A MORTE

Poema do jornalista Jeremias Macário

macariojeremias@yahoo.com.br

No seu solitário espaço,

o ponteiro do relógio

avança como um arqueiro,

marcando todo nosso passo

nesse percurso traiçoeiro

do caminhar passageiro.

 

O ponteiro roda, roda…

e o tempo passa tic-tac, tic-tac…

pacientemente, sem correr,

e o tempo mais uma vez roda,

sem a pressa do apressado ser.

 

A distância vai reduzindo

da saída ao lugar de destino,

fazendo sua parada na tenda,

cada um faz seu rito peregrino,

ora chorando, triste ou rindo,

na procura da sua comenda.

 

Nas tempestades e bonanças,

nos abrigos para descansar,

das fatigantes andanças;

nas curvas, retas e cruzadas,

o ponteiro vai continuar lá,

para marcar tic-tac, tic-tac…

e depois em silêncio avisar,

que a sua hora vai chegar.

 

Não adianta tentar enrolar;

viver como um sideral;

se esconder na China ou Bagdá;

desprezar que existe um final,

o ponteiro vai girar incansável,

no ritmo do tic-tac, tic-tac…

alertando saque, saque,

não compre tick de embarque

nessa onda do insaciável,

de mais ouro e mais capital,

nesse mercado de vendaval.

As cordas podem até arrebentar;

os ponteiros pararem de rodar,

mas o tempo não larga seu cajado,

e o homem escravo vai até lá

acertar o ponteiro atrasado,

para servir a vontade do seu Alá.

 

À meia-noite para para badalar,

com toda força do seu pulmão,

nas catedrais monumentais,

ou no velho casarão do lar,

assustando o sono do ancião,

para recomeçar tic-tac, tic-tac…

no templo da vida do Deus dará.

 

Um ponteiro conta o segundo,

na marcha do tic-tac, tic-tac…

como alma imortal do mundo;

o outro troca de minuto,

fazendo sua ritual travessia;

e o terceiro aponta a hora,

no visceral da lida de todo dia,

e assim o tempo vai embora.

 

Para quem rir ou até chora,

da conversa do caçador,

ou do pescador e vendedor;

do vigor ou do coma terminal,

o tic-tac repete a sua sonora,

mas faz-se de mouco o imoral.

 

Quando o dinheiro é religião,

quando sua força é a espora,

quando se fomenta a mentira,

e do pobre se rouba o tostão,

em nome do céu e do inferno,

e só se pensa no aqui e agora,

a vida fica sem sul e sem norte,

na cegueira de que tudo é eterno,

e se esquece que existe a morte.

 

LEMBRANÇAS DO TREM

Poema do jornalista Jeremias Macário

Foi-se o tempo de menino,

espiando o telegrafista,

com batidas de artista,

mandar tocar o sino,

como se fosse um hino,

pra lembrar aos viajantes,

que em poucos instantes,

vai ter máquina na pista.

 

Lá vem o trem a se arrastar,

nas serras diamantinas,

como cobra a deslizar,

por entre as colinas.

 

Lá vem o trem roncando,

com suas patas de ferro,

levando usinas de sonhos,

nas cabeças dessa gente,

soltando o seu berro,

e avançando imponente.

 

Lá vem o trem groteiro,

pelas esquinas do sertão,

no seu traço rotineiro,

picado lento e ligeiro,

parando nas estações,

como fazia o tropeiro.

 

Lá vem o trem das matinas,

de janelas sem cortinas,

no seu balanço manso,

apitando pra avisar,

que logo vai parar,

na Estação de Paiaiá.

 

Lá vem o trem penitente,

puxando a sua corrente,

nos trilhos do dormente,

como um rezador,

que vai curando a dor

da alma do  doente.

 

Lá vem o trem lembrança,

dos dias que era criança,

matando minha saudade,

de no embalo a pongar,

e mais adiante se soltar,

pra na linha caminhar,

vendo o meu trem sumir

no horizonte de lá,

e noutra cidade chegar.

 

Em sua última viagem,

o trem partiu para o além,

e levou a minha bagagem,

ficando só na mente,

a marca daquela fumaça,

na minha cinzenta vidraça

 

Lembrança da valente,

Piritiba de toda gente;

do sábado de feirante;

do poema cortante;

do poeta Aragão,

que mistura pavio,

mandioca com feijão,

e ainda nos dá razão,

pra xingar de delinquente,

o governo indecente,

que deixou esse vazio,

do nascente ao poente.

 





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