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:: ‘Na Rota da Poesia’

RASGA NO PEITO A DOR

Poema mais recente de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

De tanto viver neste sol inclemente,

Que racha a terra e arde a mente,

Entre as secas veredas de espinhos,

Onde as aves não fazem seus ninhos,

Rasga no peito a dor do nordestino,

Que viu morrer de fome seu menino.

 

Rasga no peito essa dor vaga latina,

Em ver a mulher a chorar no fogão,

Numa cozinha de panelas vazias,

De olhar fundo com marcas do sofrer,

Saudades eternas da nossa menina,

Que teve a mesma sina da falta do pão.

 

Rasga em meu peito essa dor assassina,

De ver tanta gente a padecer na espera,

Outros a viver em mansões de quimera,

Oh Senhor Deus do poeta da dor rasgada!

Olhai para esse povo no arrasto da enxada!

A rogar que dos céus desça a graça divina.

 

Rasga no peito essa dor contínua,

Pior que a dor canina de dente,

Que enxaqueca de cabeça doente,

É essa dor que jorra na alma sofrida,

De um povo ferrado em curral de boi,

Que procura por uma justiça que se foi.

 

 

MATA DO POÇO ESCURO

Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário, em homenagem aos 180 anos de emancipação política de Vitória da Conquista, completados no último dia 9 de novembro. O texto faz parte do livro “Andanças”, que pode ser encontrado na Banca Central e na livraria Nobel.

Tudo no alto era traçado,

Como se fosse um abraço,

Onde morava o sagrado,

Riscando o seu traço,

Na água farta escura,

Jorrando da escarpa,

Que saciava a cidade,

Pura clara e sem mistura.

 

Era tudo uma floresta,

Do irmão sol e da irmã lua,

Para dançar em sua festa,

Com a esbelta índia nua,

No Poço Escuro de mel,

Sem brancos e senhores,

Só com os deuses do céu

Num banquete de flores.

 

Devastaram tudo, seu moço!

E só uma mata rala restou;

A minação foi-se minguando,

Como dos bichos, o almoço;

O Poço fraco quase secou;

E até foi embora o orixá xangô;

O caboclo também se mudou,

Porque também foi o nosso nagô.

 

Num puxadinho nanico,

Tombaram um velho sagui,

Um macaco e um mico,

Pelos invasores exteriores,

Deixando em escombros,

A nossa bela Serra do Periperi,

Onde um dia passeou o Saci.

 

A serra tem gente por cima;

O capão de mata ainda respira;

O Poço virou coisa de rima;

No Escuro ainda conspira,

O homem do Senhor Criador,

Que escarra sangue na natureza,

Como se fosse um estripador,

Que desfigura a candura de beleza.

 

 

 

 

PARA AONDE VOU?

Poema mais recente do jornalista e escritor Jeremias Macário

Como um navegante solitário,

Nesse cenário controverso,

Vou viajando em meu universo,

No galope do meu cavalo,

Como um vassalo do vento,

Sem pensar no senhor rei tempo,

Com meu jeito estúpido de amar,

Roendo a corda e consumindo alento,

Sem acreditar que existe outro lar.

 

Nem imagino para aonde vou,

Cantando pneus entre as curvas,

Vou pegando as enfadonhas retas,

Até o infinito monte do horizonte,

Na ânsia de alcançar as tais metas,

Mesmo quando as vistas ficam turvas,

Nesta comichão de tantos insumos,

De juras entre os diabos e os deuses,

Nas encruzilhadas de vários rumos,

Ouvindo a viola do cancioneiro poeta,

Que em seu peito rasga o verso profeta,

Sobre a vida nesse capital de esmola.

 

Vou viajando por aí sem destino,

Como mais um retirante nordestino,

Na busca da verdade e da razão,

No conflito teórico da classe marxista,

Entre o ateu da direita ao esquerdista,

Entre a ciência e a fé na religião,

Vou indo como chama da liberdade,

Outras vezes como tocha apagada,

Como um todo, como um nada,

Nesse deserto do camelo beduíno,

Com minhas lembranças de menino.

 

Para aonde mesmo eu vou?

Não importa, se tiver uma porta,

Para sacodir a sujeira da poeira,

Dessa breve vida incerta estradeira.

 

 

EU ESTAREI LÁ!

Poema mais recente do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quando se abrirem as fronteiras,

As pedras das muralhas caírem,

Para cada um construir o seu lar,

Que a guerra facínora fez ruína,

De falsas juras de altas torturas,

Eu estarei lá só para te ajudar.

 

Quando teu ser perdoar meu ser,

E o sonho de uma igualdade una,

Preencher essa oca vazia lacuna,

Do existir sem o sentido de viver,

Eu estarei lá só para te amar,

 

Quando você estiver triste e depressivo,

Andar por aí como se fosse morto-vivo,

Isolado pela sua raça, gênero e nação,

Nesses oceanos de predadores humanos,

Num caminho escuro, sem um futuro,

Eu estarei lá para clarear tua  razão.

 

Quando a fome roncar pra ladrão,

Minha fina viola nordestina sonora,

Vai rogar ao Pai e a Nossa Senhora,

Pra do alto mandarem o teu manjar,

E eu estarei lá para entoar uma canção.

 

Quando tudo for ódio e intolerância,

Os brutos te negarem a fé e a ciência,

Trocarem a semente da cura pela dor,

Com esse tóxico veneno da ganância,

Eu estarei lá para te dar minha flor.

 

Quando não houver porta de saída,

Não mais tiver esperança na lida,

Mesmo com a volta da paz e calmaria,

Tentar abandonar a tua amada Maria,

Eu estarei lá só para te levantar.

 

 

 

 

 

EU ESTAREI LÁ

Recente poema do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quando o planeta se aquecer,

Com as elevadas temperaturas,

As florestas virarem savanas,

Subirem as ondas das águas do mar,

Arder em fogo as linhas humanas,

Eu estarei lá para te amar.

 

Quando as fronteiras se abrirem,

As pedras das muralhas caírem,

Para cada um construir o seu lar,

Que o homem facínora fez ruína,

Desde as eras sumérias e romanas,

Eu estarei lá para te afagar.

 

Quando teu ser perdoar meu ser,

Vamos todos um dia nos irmanar,

E o sonho de uma igualdade una,

Pode preencher essa vazia lacuna,

De um existir sem sentido de viver,

Eu estarei lá só para te beijar.

 

Quando você estiver triste e depressivo,

Andar por aí como se fosse morto-vivo,

Violentado pela sua raça, gênero e nação,

Em seu caminho escuro sem um futuro,

Eu estarei lá para estender minha mão.

 

Quando estiver com fome a roncar,

Refugiado por aí como um cão,

Minha viola catingueira sonora,

Vai rogar ao Pai e a Nossa Senhora,

Pra do alto mandarem o teu manjar,

E eu estarei lá com a minha canção.

 

Quando tudo for ódio e intolerância,

Não mais houver a social democracia,

Os brutos te negarem a fé e a ciência,

Trocarem a semente da cura pela dor,

Com o tóxico veneno da ganância,

Eu estarei lá para te dar uma flor.

 

Quando o tempo resolver parar,

A porta se fechar para tua saída,

Não mais tiver esperança na lida,

Seja na tempestade ou na calmaria,

Tentar abandonar a tua amada Maria,

Eu estarei lá, seja em qualquer lugar.

 

 

 

 

 

MENTIRAS, MENTIRAS!

Poema de autoria mais recente do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por que de tantas mentiras?

O culpado diz ser inocente,

Mentiras de iras dessa gente!

 

Você me fala de democracia,

Diz ser a favor da liberdade,

E prega pela volta da ditadura,

Que vai oprimir a sua distopia,

De divagar pela sua loucura,

Coisa de insanidade e psicopatia.

 

Por que de tantas mentiras?

Mentiras, mentiras de iras!

 

Você tira de mim a educação,

Mistura cultura com comunista,

Me trata como um idiota besta,

Se não concordo, sou um alienista,

Faz a esmola render sua eleição,

Com a ração de uma básica cesta.

 

Por que de tantas mentiras?

Mentiras, mentiras de iras!

 

Você canibaliza nossa história,

Chama sua negritude de escória,

Diz que a terra é chapada plana,

Não existe aquecimento global,

Contesta a ciência e o universo,

Respira fascismo e retrocesso,

E encarna a inquisição medieval.

 

Por que de tantas mentiras?

Mentiras, mentiras de iras

 

No pleito político eleitoral,

A mentira é a maior vencedora,

Como óleo derramado no mar,

Chamas a arder nossos biomas,

Pelo índio que queima seu lar,

Sua Amazônia e o belo Pantanal,

Mentiras são como o plutônio,

Aumentando o buraco de ozônio,

Criminosas mentiras de tantas iras!

 

 

 

SAMUEL, O UNGIDO

Um poema de Jeremias Macário ao seu neto Samuel

O bíblico ungiu Saul e David,

Em nome de Deus viu o futuro,

Dissipou a fumaça no ar escuro,

Entre chamas ardendo os biomas,

E nesse meio veio o nosso Samuel,

De olhar ungido da árvore saído,

No céu primaveril do brotar florir.

 

Que seja vento anunciador da chuva,

Para molhar a mãe terra e dar o fruto;

Que seja infinito na finitude desse ser,

Para com o saber transformar o bruto;

Que seja sempre criança temperança,

Para curar qualquer ferida do tempo,

E fazer a sua hora antes do amanhecer.

 

Do índio caboclo de sangue mestiço,

Mouro ibérico desse nosso Brasil,

Do ventre saiu o Samuel desafio,

De uma era incerta que lhe espera,

Para navegar na corrente correta,

Como guerreiro que vem, vê e vence,

A peleja estradeira do eterno existir.

BIOMAS EM CHAMAS

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Esses malditos agro-capitais,

Querem é derrubar e queimar,

Nossas milenares florestas tropicais.

 

Bendito é o rio que corre livre das chamas!

Louvado o canto divino do sabiá nordestino,

Que roga ao Norte a se unir ao pampa sulino,

Para defender proteger nossos ricos biomas.

 

Em meus olhos desse Supremo Criador,

Oh quanta tristeza ver essa beleza em chamas!

Pelo cruel homem destruidor dos biomas,

Na ganância do sempre ter mais riqueza

 

As araras da caatinga presas em suas garras,

O tuiuiú pantaneiro voa na fumaça da secura,

Nas selvas raras reina a canção do uirapuru,

Os nativos em seus ritos benzem seus biomas,

Para que a mãe terra pare de arder em chamas.

 

No enlace sacro das águas com as divindades,

Da foz que se enrosca com o balanço do mar,

No namoro eterno que nasce do vento com o ar,

Cada ronco do motosserra é um gemido vil,

Da morte animal nas chamas do nosso Brasil.

 

No árido deserto das fornalhas de carvão,

Sumiram a rolinha ”fogo pagou” e o gavião,

No cerrado granado só a soja para a China,

Não mais o pequi e o esvoaçar da campina,

 

Sai o madeireiro e entra o mercúrio garimpeiro,

E a vida ora em memória da fauna e da flora,

Do Saci e do Curupira banidos da nossa cultura,

E nada cura essa ira de um futuro de chamas,

Ao dele fazer um monturo de nossos biomas.

 

No Brasil de nossas eras destas bestas feras,

De ratos em suas farras a esporrar suas taras,

O cara acusa o índio-caboclo de incendiários,

Assim fez Nero com os cristãos na Roma real,

E nele se encarnou do seu mal lá do seu altar,

Para varrer da Amazônia, os donos do seu lar.

 

Esses malditos agro-capitais,

Querem é derrubar e queimar,

Nossas milenares florestas tropicais.

 

 

TAPA NA CARA

Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário

Deixaram o corpo estirado na maca,

No corredor de um sujo hospital,

Não ganhou nem o seu funeral,

E eu, nem ao menos protestei,

Por nos tratar como bruaca.

 

Fizeram esculacho da nossa lei,

Escarraram em minha cara,

Nos surraram com reio e caiçara,

Na carne tremida pelo frio vento,

Da urina fedida do cru cimento,

E mais uma vez com tudo me calei.

 

A noite pode até ser uma menina,

Mas o dia é uma ave de rapina,

Entre chibatas nos espinhaços,

E rações nos tachos de melaços,

Lembram as épocas da coivara,

Que se acordava com tapa na cara.

 

O tempo que amacia e suaviza,

Também alisa e retalha a pele,

Penetra e endurece as juntas,

Torce e retorce o seu corpo,

E nos faz andar lentamente,

Até nos deixar seco indiferente.

 

 

 

 

O FIM E O NOVO

Poema do jornalista Jeremias Macário. Este e outros podem ser encontrados em seu novo livro “Andanças”

De um tempo fizeram fatias,

e para uma noite criaram fogos;

inventaram a dança dos códigos,

na língua divinha da quirologia,

das cartas viradas e dos tarôs,

para ir ao futuro do ar e da jia,

de sonhos melados de fantasias.

 

É o final das contas de um ano…

um novo a contar que se anuncia;

é a despedida da via gregoriana,

religiosa, dionisíaca e profana,

de um reino espártaco e romano,

decifrado pela suma quiromancia.

 

É mais o fim de um ano…

da hora pontual da terra ranger;

dos mortos-vivos ressuscitarem;

explodirem as luzes do show,

quando o seu relógio zerar,

para o pacto entre amor e dor.

 

É mais o fim de um ano…

e um novo de Jeová, ou de Alá;

do deus da orgia sodomitana,

do ritual celta  da bela cigana,

e do espírito cristão de se rezar.

 

Cada um pode fazer o seu fim,

para começar um outro novo,

com a cara pintada de humano,

nas águas desse imenso oceano,

onde vai se banhar nosso povo.

 

O novo pode ser o início do fim,

para quem não segue seus planos,

de se purificar dos apegos carnais;

dos caprichos capitais mundanos,

e não escolhe os simples portais.

 

Na sua taça fina da embriaguez,

borbulha o glamour da nudez,

girando o luxo em câmara lenta,

no ácido disfarçado de água benta.

 

Os foguetes dos canibais globais,

são explodidos em nossos quintais.

Os devotos fazem rituais viscerais,

de oferendas para seus orixás locais,

banhando todo de branco os litorais.

 

Os morros estendem os seus varais,

como se fossem concurso de festivais,

de pobres vistos como os anormais;

e a violência é manchete nos jornais.

 

No final se reparte o PIB desigual,

com a cara de um novo sujo imoral,

na disputa do Ocidente e do Oriente,

entre o Israel poderoso e o mulçumano,

vivendo todos na mira do Americano,

e que se dane a fome fatal do africano.

 

É o pipocar dos velhos espumantes,

na Paris milenar de seus viajantes,

nos mares lunares dos transatlânticos,

na companhia dos tarados amantes,

ou na Londres aristocrata imperial,

e na Atenas da sabedoria imortal,

derramando toda riqueza de um ano,

no consumo varado da compulsão,

enquanto nobres se fartam de brioche,

e os miseráveis ficam sem o seu pão.

No mosteiro do fim de ano,

ora o monge do alto monte tibetano,

pelo seu opressor filho das dinastias,

e na ilha das prisões de Guatânamo,

vivem acorrentadas de ódio as etnias.

 

Nem no fim, nem no novo,

se ouve o roncar da barriga vazia,

nem o apelo do santo peregrino,

para dividir parte dessa fortuna,

para matar a fome do nordestino,

e não derrubar a única baraúna.

 

A roleta da vida gira outra vez,

e passa o final, e passa o novo,

na rota mitológica de cada povo,

como dos heróis da mesopotâmia,

que têm que derrotar os monstros,

para livrar-se da saga cruel do caos:

matar o rei num sacrifício penoso,

para lavar todo pecado criminoso.

 

No novo da Pérsia e da Babilônia,

os escravos tomavam o assento

dos seus notáveis mestres das lidas,

para narrar e cantar seu lamento,

lambendo suas próprias feridas.

 

A Grécia celebrava o seu novo,

com a luta de Zeus contra Titã,

encenando uma liturgia pagã.

 

Os romanos festejavam a saturnália;

soltavam na arena a grande fera;

Cristo cortava o deserto de sandália,

para anunciar ao povo uma nova Era.

 





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