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:: ‘Na Rota da Poesia’

SANGUE PROIBIDO

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Morena serena,

de corpo inteiro,

de olhos verdes,

cores do coqueiro.

 

Palmas balançam,

entre a faca afiada,

no fio do corte,

da carne cortada,

com sangue espirrado,

na mão ensanguentada.

 

Toque terno interno,

no vermelho a escorrer,

entre o proibido sentir,

no desejo quente,

do beijo ardente,

tocando até o ventre.

 

Ternura carente,

de uma tarde fria;

desperta o membro,

e o prazer irradia,

por fora e por dentro,

no corpo latente rente.

 

O orgasmo aflora,

entre pernas sedentas;

o sangue bombeia,

na medida da hora,

correndo pela veia,

acordando os sentidos,

dos líquidos proibidos.

 

Do fruto dos seios,

escorre a deliciosa ceia,

e fecunda o sêmen,

entre os galanteios,

tecendo sua fina teia.

 

Nascido da carne,

do extrato libido,

de um pecaminoso

sangue proibido,

Intravenoso.

SERTÃONESTE

Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário

“Que sol quente que tristeza,

Que foi feito da beleza,

Tão bonita de se olhar…”

Como lamenta o nosso Vandré,

Que tanto falou de esperança e fé,

Da “gente desse lugar”.

 

Até a corda está cara,

Couro cru não tem mais,

Então vai mesmo é de pano,

O corpo véio que virou vara,

Nesse Nordeste bíblico desumano.

 

SertãoNeste, carrasco de aço,

Riscado seco chão do agreste,

Do repente da letra no compasso,

Que das cinzas como a Fenix,

Valente ergueu o Sul e o Sudeste.

 

SertãoNeste do bravo Corisco,

Que não se entrega não,

Nessa terra da vela na mão,

Toda traçada de espinho,

Que da chuva brota o verde,

Da serra desce o São Francisco,

Pra fazer o milagre do vinho.

E matar a fome do ribeirinho.

 

SEU VIGÁRIO

Poema atualizado de autoria do jornalista Jeremias Macário

Seu vigário, a sua benção,

Vim aqui me confessar,

Contra o Senhor Deus blasfemei,

Pensei muitas vezes em me matar,

Nesse solo do meu sertão,

Só tenho levado pancada e reio,

Confesso, seu vigário,

Que nem Nele mais creio.

 

Seu vigário, sou da terra lavrador,

A minha mulher perdi no parto,

Nem o menino mirrado vingou,

Sempre roguei pela chuva da vez,

Carreguei cruz e pedra em procissão,

Com toda fé, como ensina a religião,

E nesse ano, seu vigário,

Perdi até minha última rez,

Toda noite choro em meu quarto,

Nunca a ninguém desejei mal,

Dessa vida miserável, estou farto,

Seu doutor me prometeu água,

E só me mandou castigo e sal.

 

Seu vigário, no confessionário,

Ouviu todo seu triste lamento,

Viu em sua velhice seu tempo,

Lá fora só batia o seco vento,

E disse, filho você não pecou,

Quem pecou foi o nosso patrão,

Que nos faz de pano de chão,

E da sua velha surrada batina,

De tanta sabedoria latina,

Com senso dela tirou o lenço,

Suas lágrimas caindo enxugou,

Abençoou o penado nordestino,

Aquele homem sofrido franzino.

AJUDE, TÔ COM FOME

Esse poema mais recente de autoria do jornalista Jeremias Macário foi inspirado num cartaz de uma pessoa numa das sinaleiras de Vitória da Conquista, pedindo ajude para se alimentar. É a fome que fala mais alto.

“AJUDE, TÔ COM FOME”

Pelas avenidas coloridas da noite,

Nas sinaleiras vermelhas do açoite,

Entre os selvagens beijos dos amantes,

Na viola companheira dos viajantes,

Vejo bares, festas e restaurantes,

Mesas cheias de comidas e bebidas,

Comemorando a vida de idas e saídas;

Lá fora ao vento vagam retirantes,

Perdidos sem rumo, sem nome,

E toda essa gente que mal come,

Sem lição a rogar com cartaz na mão:

“AJUDE, TÔ COM FOME”.

 

“AJUDE, TÔ COM FOME”

“Uma esmola envergonha o cidadão”,

Como dizia o cancioneiro rei do baião,

Pra ela não existe tempo de espera.

No estômago faz abrir uma cratera.

“AJUDE, TÔ COM FOME”

 

“AJUDE, TÔ COM FOME”

O governo não nos deu educação,

O capital nos excluiu do mercado;

Vivemos o agora do bota fora,

Como manadas no estouro do gado,

Como os milhões de desempregados,

Somos filhos de uma sociedade,

Que criou a fome e a violência,

Num país que roubou a cidadania,

Como se leva a poeira a ventania,

E há dias que o nosso irmão não come:

“AJUDE, Tô COM FOME”

SEU VIGÁRIO!

Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Seu vigário, a sua benção,

Vim aqui me confessar,

Contra o Senhor Deus blasfemei,

Pensei muitas vezes em me matar,

Nesse solo do meu sertão,

Só tenho levado pancada e reio,

Confesso, seu vigário,

Que nem Nele mais creio.

 

Seu vigário, sou da terra lavrador,

A minha mulher perdi no parto,

Nem o menino mirrado vingou,

Sempre roguei pela chuva da vez,

Carreguei cruz e pedra em procissão,

Com toda fé, como ensina a religião,

E nesse ano, seu vigário,

Perdi tudo e a minha última rez,

Toda noite choro em meu quarto,

Nunca a ninguém desejei mal,

Dessa vida miserável, estou farto,

Seu doutor me prometeu água,

E só me mandou mais castigo e sal.

 

Seu vigário, no confessionário,

Ouviu todo seu triste lamento,

Viu em sua velhice o seu tempo,

Lá fora só batia o seco vento,

E disse, filho você não pecou,

Quem pecou foi o vosso patrão,

Que nos rouba e nos engana,

Como lobo e a hiena da savana,

De todos nós fez pano de chão,

E da sua velha surrada batina,

De tanta teologia e língua latina,

Da filosofia extraiu todo senso,

Dela tirou o amarrotado lenço,

E suas lágrimas caindo enxugou,

Abençoou o penado nordestino,

Aquele homem sofrido e franzino.

LÁGRIMAS DE FOGO

Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Você vivia nas cavernas,

Quase nem erguiam as pernas,

E dos seus olhos frios vazios,

Escorriam lágrimas de fogo.

 

A neve é como poeira branca,

No gelo da estérea Sibéria;

A estepe solavanca como o mar;

O medo corta como lâminas no ar,

E da alma brotam lágrimas de fogo.

 

Os carrascos têm chifres e cascos;

No açoite gemido da bigorna da noite,

O machado sempre sobrevive ao dono,

Testemunho do sanguinário tirano,

Que se alimenta de lágrimas de fogo.

 

As pessoas perderam sua história,

No buraco escuro da memória,

Somos nós, e vocês separados,

Cada qual a puxar seus arados,

Vertendo suas lágrimas de fogo.

 

Temos uma consciência morta,

Toda vida tem a ruptura da aorta,

Nas labaredas das lágrimas de fogo.

 

Não recebo mais carta de Esparta,

Nem dos filósofos da eterna Atenas,

Das belas e das sensuais morenas,

Pra enxugar minhas lágrimas de fogo.

 

A chuva nos traz lembranças,

E com o tempo e o balanço do vento,

A dor se transforma em mudanças,

Pra soprar minhas lágrimas de fogo.

 

Tem porta que só pode ser aberta,

Pelo amor, e sem ele o sangue coagula,

E secam minhas lágrimas de fogo.

 

Acabou a revolução do amor;

Hoje é como beber um copo d´água,

Sem suspiros, sem flores e sem cor,

Nas entranhas das lágrimas de fogo.

 

Cegueira de uma loucura noturna,

Das nuvens que se derretem em suor,

Desse céu que não tem mais ternura,

E dele só caem lágrimas de fogo.

 

Com a matéria que se torna pó.

Galopo nessa desatina sangria,

No meu cavalo de nome Ventania,

Para as montanhas dos lobos uivantes,

Na terra sagrada dos Xavantes,

Para matar as saudades do amor,

E arrancar do meu peito o rancor,

Que desce dessas lágrimas de fogo.

.

Viajo no infinito do horizonte,

Na procura da sonhada fonte,

Levando meu último canto,

Minguado encanto de esperança,

Que o índio acendeu com sua dança,

Rezando minhas lágrimas de fogo.

 

O mestre solitário da cabana,

Da floresta que virou savana,

Extirpou do peito seu coração;

Entoou a canção da crença,

Do espírito tirou toda doença,

Para iluminar o meu caminho,

Me transformar num passarinho,

E me libertar das lágrimas de fogo.

 

MEU CHAPÉU DE COURO

Poema mais recente de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Meu chapéu de couro,

Pra casa não leva desaforo,

É como minha viola estradeira,

Que já comeu muita poeira.

 

Meu chapéu de couro,

É marca do vaqueiro catingueiro,

Das brenhas do espinho quebrador,

Do sertão valente do Nosso Senhor,

Que derruba touro brabo fugidor.

 

Meu chapéu de couro,

É símbolo desse engaço nordestino,

Do cangaceiro e do pistoleiro,

Cravejado como do Virgolino Lampião,

É o mesmo que com a mão implora,

E aos céus ergue a sua oração,

Pai Nosso, Ave Maria, Nossa Senhora,

Abençoai seu filho e proteja seu destino.

 

O meu chapéu de couro,

Aguenta chuva, sol e sequidão,

Não é de ouro, é da cor do agreste,

É como o do Gonzaga, rei do baião,

Nasceu da labuta dessa mãe terra,

Da chibata do coronel do reio cru,

Mas foi louvado por nossa gente,

No rodeio e no canto do repente,

Resistente como o nosso Nordeste,

E imponente como o pé do mandacaru.

 

 

 

TERRA ARRASADA

Soneto do jornalista Jeremias Macário

A geleira se derrete e o planeta treme e aquece;

O ancião olha o chão rachado e faz a sua prece;

O verde vira inferno nas carvoarias lambuzadas;

Queimadas matam as matas pra entrar manadas.

 

Furacões e tempestades retorcem vilas e cidades,

No flagelo de povos esmagados nas calamidades,

E o ranger das placas explodem fogo e terremotos;

Numa terra arrasada de pestes e famélicos mortos.

 

Rios secam poluídos de metais vertendo sangue;

O mar avança no galope dos ventos da noite fria,

E o pintor do mangue risca a paisagem que existia.

 

Raios e meteoritos deslizam entre a estrela guia,

E Deus recria outra esfera com raiz forte e sadia,

Recompondo os seres para cumprir sua profecia.

HISTERIA E PSICOPATIA

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Sou como a poeira do tempo,

Empurrada por essa ventania,

Da infinita galáxia viajante,

Como ente estrela cadente,

Bem distante dessa filosofia,

Que nos engasga de asfixia.

 

Histeria, exagero, psicopatia,

Gripezinha de marica brasileiro,

Quem morre cedo dá bobeira,

E daí, não sou nenhum coveiro,

Se dane sua besta, vire caveira,

Agride, não vacine de Covid.

 

Meu peito está cheio de bronca,

Tem a dor do verso e do amor,

Encrenca de um ser navegante,

De ameríndio dessa mata gigante,

Caldeirão de negro e de eurasiano,

Como sangue quente de um cigano.

 

Não tenho mais crença nessa gente,

De carona na histeria do corona,

Como patética mente inconsequente,

Que copulou com o espinho maldito,

Soltou saliva com seu infernal grito,

Como o genocida, louco alienígena,

Que quer acabar com a nação indígena.

 

 

 

 

 

A VACINA E A COVID

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário (Leia Andanças)

Oh, Senhor, tudo é muito triste!

Ver tantos irmãos a tombar,

Por essa maldita que persiste,

Ver artista dizer que ela é comunista,

Uma vacina frita que não se decide,

E tanta gente a morrer dessa Covid.

 

Renegam a ciência e se agarram na fé,

Oh, Senhor, perdoai tantas asneiras,

De pastor dizer ser coisa de Lúcifer,

Desse espinhoso a correr mundo a fora,

Como poeiras infestando as fronteiras,

E essa vacina que por aqui nos divide,

Com tanta gente a morrer de Covid.

 

Nessas vias de tantas cruzes de agonias,

Vou em meu corcel de patas a cavalgar,

Nessa solitária imensidão do infinito,

Só para mergulhar no horizonte do mar,

Dizer para o meu amor que não vacile,

Não vamos ter mais morte dessa Covid.

 

Aqui ainda sobrevivo em minha escuridão,

Sem saber se dois mil e vinte já passou,

Recebendo tantas notícias na contramão,

As redes brindando dois mil e vinte um,

No zoom mortífero dos imbecis do terror,

Sobre a vacina que nosso destino decide,

Pra acabar de vez com esse morrer de Covid.





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