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:: ‘Na Rota da Poesia’

VIOLAÇÃO

Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário, publicado em seu livro “Andanças”

Mesmo o mais contrito do santo,

tem no seu lamento o seu pranto,

com a revolta varando o seu peito

pela violação sagrada do direito.

 

A alma em secura não mais chora;

tortura do pau-de- arara e choque;

abafa os gritos, a censura lá fora,

calando canção suingada do Rock.

 

Nos porões desaparecem os mortos,

na selva sepultam quebrados corpos,

sem punição, sangrados como porcos.

 

A justiça cheira como um coliforme,

e nas cadeias simulam os suicídios,

com mentiras impostas pelo unifor

QUEM ESTÁ NU?

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O ministro é mais um sinistro,

político tem o seu aplicativo,

o povo pede socorro a Cristo,

e tudo fica na base do relativo.

 

Pra gente fica o osso sem o angu,

ou uma nesga do recheado bolo,

uma esmola serve como consolo,

e acusam o rei Zulu de estar nu.

 

Nu está o jornalismo brasileiro,

a educação sem eira nem beira,

onde o errado se tornou o certo,

como a ética política do esperto.

 

Criaram um negócio da China;

a paranóia virou uma coisa real,

da sociedade que é geléia geral,

que confunde ouro com platina.

 

Nu está o cabra pobre mortal,

do sistema que carimba sua cor,

se você provar ser nobre castor,

ou consumidor de nível social.

 

Nu vai ficar o rio São Francisco,

cada um tirou dele o seu petisco,

ainda chamaram o frei de alienado,

e apontaram Corisco como culpado.

 

Só conta quem tem poder e tutu,

pra financiar o estouro da boiada,

manipular e fazer muita cachorrada,

e deixar o povo espiar a praia do nu.

 

Sindicato é plataforma de pelego

pra quem não gosta fica com o sal,

se esbalda no futebol e no carnaval,

e vive em cavernas como morcego.

 

 

 

SEM ESSA DE NOVO

Amigo mano, sem essa de ano novo

Mesmo assim te desejo um novo ano

Na Sofia nada se cria, tudo se copia.

 

As luzes se apagaram, o show acabou

Você continua sendo escravo do patrão

O sinal indica não entrar na contramão

E o pássaro astronauta levanta seu voo.

 

O pobre continua sendo um estorvo

Meu camarada, não existe ano novo

No castelo assombrado pia o corvo

E o ano conta os meses e os santos dias

No calendário freguês das companhias.

 

Nas noites vagam as tristezas e alegrias

Os amores começam e se vão pelas vias

Ninguém mais aprecia noite de lua cheia

Preferem mesas suculentas da santa ceia

 

No sertão só vingam cacto e o mandacaru

E o homem labuta na terra o ano inteiro

Ronda no céu pela carniça o tenaz urubu

E nas cidades, só se vê retirante estradeiro.

 

Mano véio, sem essa de ano novo

Mesmo assim te desejo um novo ano

Seja bonito, corcunda ou como for

Siga o mais velho, amando a sua flor.

 

NA ESTRADA

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, inserido no livro “ANDANÇAS”

que pode ser encontrado na Livraria Nobel e na Banca Central

Na estrada cigana galante

Anavalhada, livre e longa

De uma vida curta e pouca

Sou sereno, frio e vento

Sol a pino de cara ardente

Poeira lá do horizonte

E ando com tanta gente

De senso santo e louca

Que comove e engana

Na procura daquela fonte

Que mata sede do andante.

 

É uma via do mal e do bem

De sina divina e satânica

Em toda extensão da pista

Com aviso em cada esquina

Riscos da liberdade proibida

Esculpidos por um artista

Com entrada, meio e saída.

Gira e muda como enigma

O sentido finito da vida

Com face suave e tirânica

Sem decifrar o rosto do além.

OH TEMPO, TEMPO, TEMPO!

Tempo, tempo, tempo!

Sempre me pedem um momento;

Do sofrimento, sou curandeiro,

Risco e rugas da sua lisa face;

Dos deuses suprema criatura;

Tempo da criança que nasce;

Procura na corrida do dinheiro;

Dono senhor de seus sinais;

Amor e ódio na jura dos casais.

 

Tempo, tempo, tempo!

Desse povo a me decifrar,

Que louco quer só me devorar;

Sou o vento que chega e vai;

Mandamentos do Monte Sinai.

 

Tempo, tempo, tempo!

Dos reis filhos dos sumérios;

Carrasco dos gregos e romanos;

Das lendas, mitos e mistérios;

Cruel dos sanguinários tiranos;

Inspiração dos poetas cantadores;

Chibata nas costas do escravo!

Tempo do tinteiro dos escritores;

Coragem libertária do bravo.

 

Tempo, tempo dos escândalos!

Roda sideral que nunca para!

Cadê o tempo do viver e amar?

Cadê o tempo do sentido do existir?

Tão levando o meu ar de respirar!

Não deixe o “Velho Chico” sumir!

Degole as cabeças desses vândalos;

Enterre na Vala dos Desconhecidos

Essa gente de tanta cara e tanta tara.

 

TERRA TERROR

Escurece o tempo que grassa,

uma cuca tragada pela massa.

 

Pombas cruzam o espaço;

o sangue jorra no asfalto;

derretem as idéias e o aço,

e a vida se torna uma pasta.

 

Destila a raiva dos alienistas,

com sede de vingança selvagem;

matam até por uma imagem,

os religiosos segregacionistas.

 

Nas cavernas de Tora-Bora,

lançam chamas de agonia,

em terras que foram travessia,

de tribos de reis de outrora.

 

Do império esmagador,

tanques cospem nos desertos,

e foguetes certos e incertos,

espalham inferno e terror.

 

Só tem perfume sua flor,

a outra é o cheiro do mal,

que tem veneno de coral,

e cresce como um tumor.

 

Da terra brota o terror,

de terno gravata e turbantes,

da verdade uns figurantes,

que dizem ser seu Senhor.

 

Por todo canto terroristas,

ameaçando tragédia nuclear;

contaminam todo o nosso ar,

disseminando idéias fascistas.

 

Sodoma e Gamorra de consumistas,

que alimentam a pança dos sofistas.

CULTURA DO CORPO

Alta serotonina…

Ficar como uma menina;

bunda dura, cintura fina;

só a plástica  que anima;

silicone,  química e faxina.

 

Revolução hormonal;

é o corpo da era do dopado;

deixou de ser morada divina,

para ser uma gata felina.

 

O que vale é ter boa imagem;

é a cultura do individual,

do corpo sarado e venal.

 

Sociedade dos patéticos,

dos deuses cosméticos;

são os ingredientes  fanáticos,

do mundo dos galácticos,

sem os valores éticos;

vale tudo  para a cura;

é a loucura  dos estéticos.

 

Obsessão pela aparência,

da adoração do deus-ciência,

dopada de ansiedade e depressão.

 

Tem que ter o corpo legal,

no lugar da mente  racional.

 

Ingere laxantes e diuréticos;

vai de dose de  anabolizantes,

tanto faz pra cavalos e elefantes.

Prefere ficar cega a ser gordinha;

mato quem me chamar fofinha.

 

Não existe lugar para enrugado;

quero o corpo todo  torneado,

para excitar e deixar tarado;

flacidez é o maior  pecado.

 

É proibido se alimentar;

passa o tempo a contar calorias;

são obscenas minhas estrias.

É a paranoia da lipofobia,

e a dieta é a deusa guia.

 

Não transgrida os setes pecados:

não comerás frituras;

evitarás   gorduras  saturadas;

não beberás guaranás;

não experimentarás doces e manjas;

não fraquejarás com os bolos;

não deixarás seduzir pelo chocolate;

e nada de cervejas ou malte.

 

Nefropatia, vigorexia, anorexia, bulimia:

moda da mente fraca e  doentia.

 

Prefere a cegueira da razão,

que separar de sua única paixão.

 

Narciso tem de ser liso ou lisa:

diet – light – botox – lifting.

 

É o apelo da cultura cretina,

que banalizou  e virou  rotina,

numa mistura masculina e feminina:

consumo e consumismo banal,

na moda do mundo superficial.

VISÃO VARIADA

 

Poema de Jeremias Macário

Vi a magia dos faraós

conservar seus mortais,

com óleo de fino linho,

nas tubas de labirintos nós,

de seus imortais funerais.

 

Vi a mão divina de Deus,

descendo sobre as águas,

como luz rasgando o breu,

abrindo livre passagem,

para o seu povo Hebreu.

 

Vi no lenho da cruz,

um senhor a sangrar,

como o rei de Judá,

para salvar os homens,

e obedecer seu pai Alá.

 

Vi romanos no Coleseu,

com espadas a gladiar;

vi o deus Prometeu,

e a figura de Iemanjá,

nas profundezas do mar.

 

Vi e ouvi os pássaros,

cantando no meu quintal;

vi o gato nas telhas,

fazendo o miau, miau…

e o político cara-de-pau,

roubando nosso mingau.

 

Vi os poetas no sarau,

e jornalistas enchendo

as páginas de calhau;

e os periquitos famintos,

comendo meu milharal.

 

Vi os cafajestes de terno,

em pleno verão e inverno,

na pele de um lobo mau,

fazendo daqui um inferno,

como se tudo fosse eterno.

 

Vi soldadinhos de chumbo,

nos morros fazendo escambo,

nas praças todos marchando,

com caras pintadas de Rambo,

virando direita e esquerda,

na ordem do seu general.

 

Vi fotógrafos clicando,

para expor no varal,

e os carros velozes,

invadindo o sinal;

do além ouvi vozes,

do julgamento final.

BALANÇA PRA LÁ…

Olha o balanço das árvores,

que o vento dá,

balança pra lá, balança pra cá,

depois começa tudo,

como nas ondas do mar.

 

Olha o tempo passando,

ligeiro e devagar;

olha a morte chegando,

com a sentença de Alá.

 

Parte rasgando o avião,

lotado de gente zumbi;

criaturas saem da terra,

e aparecem como saci.

 

Olha a dança das folhas,

girando pra lá e pra cá,

levando saudades no ar.

 

Na avenida zunem os tiros;

balas voam perdidas;

criança tomba no asfalto,

no ataque dos vampiros.

 

Carnaval de sunga suada;

empurra pra lá e pra cá;

pula, pula a pipocada,

no axé de arrocha cambada.

 

Vadia a bela, ou a feia,

na orgia da bundada;

balança pra lá e pra cá,

pra gringo e nativo

namorar sua sereia.

 

No sol do meu sertão,

balança o pau-de-arara,

cortando o cinzento chão

de espinho, fogo e vara,

na poeira da estrada.

 

Virgulino, meu capitão,

que diz dessa nossa vida,

e da traiçoeira morte,

sem aviso e sem razão;

que diz da canção,

de Vandré que chora,

mandando fazer a hora.

 

SERPENTES QUE NUNCA MORREM

Poema de autoria de Jeremias Macário

Palavras perseguem, desencantam, encantam;

grudam no canto do cérebro e martelam na melodia;

cantam em prosa e verso  no compasso da filosofia.

 

Aparecem frescas na madrugada de borrões fortes;

roubam o espaço do amor com pincéis de  sangue;

brotam como raízes exuberantes soltas em mangue,

no barco veloz das folhas, cortando como os serrotes.

 

Surgem como condes nobres, ou tabaréus lá do norte;

uma cambaleia em fome,  balbucia como tísico pobre;

outra se reparte em fatias e monta o enredo do caixote.

 

São serpentes de dentes afiados, ou como mastodôntico;

podem ser centopéias, ou até mesmo um deus platônico,

que sempre querem indicar as veredas da nossa andança;

ferram nossa pele e nos trançam com a dor da lembrança.

 

Pedem mil perdões e aparecem na forma de um isotônico,

nos açoitam e nos transportam para um mundo catatônico;

por vezes nos faz bailar no salão de espelhos da real dança.

 

Chicoteiam nosso espírito, ora tranquilas, ora raivosas;

cheiram como as rosas, pela terra germinam e dormem;

duras como as rochas nas histórias de versos e de prosas;

as palavras são serpentes devastadoras que nunca morrem.

 

Em poemas de vários temas, nos filmes e nos teoremas,

viram feiticeiras e lendas como as pirâmides faraônicas;

são as  românticas e as semânticas das línguas românicas.

 

Trovas tiradas tiranas da viola do repente do cantador;

no coco, nas emboladas como as trovoadas de sertão;

no cordel  como fel, falando do Satanás e do Senhor;

as palavras revivem o cangaço do nordestino Lampião.

 

Nos folclores dos agrestes e nos causos dos coronéis,

que compram suas patentes e molestam suas meninas,

as palavras cospem brasas nos gatilhos das carabinas,

 

São como serpentes traiçoeiras das florestas escuras;

escondidas como sacis e disfarçadas de índio curupira;

são os escombros das guerras e as canções de ternuras;

são os eruditos, clássicos escritos e do humilde caipira.

 

Percorrem os séculos, impregnadas no ditado popular,

vagando de geração em geração em nossos pensamentos;

no politicamente correto caem bem no vernáculo vulgar.

 

 





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