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:: ‘Na Rota da Poesia’

SOU MAIS AS CAPELAS

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

Bendito seja nosso oratório!

Sou mais as capelas,

Com suas rezas e velas,

Do que a ostentação das catedrais,

Com seus bispos, papas e cardeais.

 

Sou mais as capelas,

Sem estilos gótico, ou barroco,

Feitas pelos braços dos mutirões,

Na pisada do samba e do coco,

E nelas não se fez inquisições.

 

Sou mais as capelas,

Do sincero nordestino de fé,

Onde tem Maria, João e José,

O compadre, a comadre e você,

Sem o falso senhor do poder,

Que só quer pousar pros jornais,

Entre luminárias dos castiçais.

 

As catedrais dos imponentes sinos,

Das mitras, báculos e anéis,

Com seus seculares painéis,

E crucifixos banhados a ouro,

São da nobreza, reis e rainhas,

Coroados como deuses divinos,

Que saquearam o tesouro dos latinos.

 

Capelas não têm vitrais nas janelas,

Nem antigos imperiais azulejos,

Só seu vigário e seus fiéis sertanejos,

Que oram Pai Nosso, Santa Senhora,

Mandai chuva pra molhar esse solo,

Pra matar a fome da criança que chora.

 

 

 

 

MEMÓRIA

Um poema do jornalista e escritor Jeremias Macário em homenagem aos torturados e mortos pela ditadura civil-militar de 1964 e que faz parte do seu livro “ANDANÇAS”

De algum lugar da selva,

De gente pobre submissa,

O guerrilheiro firme resiste,

Redigindo sua carta,

Para sua amada Marta,

Acreditando na vitória,

De construir uma justiça,

Para mudar nossa história.

 

De algum lugar da selva,

Vive uma senhora lavradora,

Onde as réstias da luz do sol,

Disputam espaços nas folhas,

Revigorando o social ideário,

De um guerrilheiro solitário,

Que foi crivado de balas.

Pela tirana metralhadora.

 

Veio a fúria do vento forte,

Cuspindo fogo pelas ventas,

No disfarce de uma chicória,

Que com seu cutelo da morte,

Devorou a nossa memória.

 

Sem o direito de nem pensar,

Quanto mais de se expressar,

Os contras foram torturados,

E sacrificados no altar.

 

Os sobreviventes dos horrores,

Ainda temem seus algozes,

Como os cães mais raivosos,

Que ainda causam as dores,

Ultrajando nossa memória.

 

De uma noite para o dia,

A lua cheia ficou vazia;

Foi-se embora toda ternura,

Porque o carrasco teve anistia,

E a família do desaparecido,

Ficou sem fazer sua sepultura.

 

Pior ainda é perdurar as trevas,

Sem a punição dos assassinos,

Que executaram nossos meninos,

E agora querem outra vez voltar,

Para massacrar e humilhar,

Quem já foi tirado do seu lar.

 

Está entalado em nossa garganta,

O grito proibido da verdade,

Dessa memória ensanguentada.

Que ainda não saiu do porão,

Para punir toda brutalidade,

Dos carrascos de plantão.

LÍQUIDO AMARGO

Poema de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário, que pode ser encontrado em seu livro “ANDANÇAS”

Dá para escutar o vento farfalhar no trigal,

No brandir das espadas na poeira da arena;

Ouvir o galope do corcel a milhas de distância,

Quando o silêncio visceral da morte,

Derrama seu líquido amargo da solidão,

Pelo corpo que não é mais seu.

 

Dar para sentir o salto veloz da fera,

A dilacera suas presas mortais,

Na garganta sanguenta da razão.

 

O líquido amargo expele sua fórmula,

E com toda calma arranca sua alma,

Para um outro além da dimensão,

Sem ao menos pedir a sua permissão.

 

 

ELES AINDA RESISTEM

Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário em homenagem às profissões em extinção

No campo agreste do Nordeste,

Ainda toureia o nosso vaqueiro,

E o carro atropelou nosso tropeiro.

 

Antigamente se dizia,

Meu alfaiate, meu sapateiro,

Não escuto o fole do ferreiro,

Malhando o ferro da ferradura,

Dos cavalos velozes das diligências,

Nas estradas reais de suas excelências.

 

Na rua não passa mais o amolador,

Nem o vendedor de quebra-queixo,

E o saveiro sumiu na fumaça da maresia,

Com o progresso e a tecnologia.

 

Eles ainda resistem,

Passando profissão de pai pra filho,

Na batida seca do feijão e do milho,

Ainda resistem à extinção,

Como a Arara, a Asa Branca e o Gavião.

 

Hoje é meu técnico de informática,

O meu médico, só o rico tem,

Como o advogado e o engenheiro,

Mas ainda tem a religião fanática.

 

Eles ainda resistem,

Como teias nos fios do algodão,

Da mulher rendeira a tecer sua lã,

Para proteger do frio seu clã.

 

Na esquina ainda tem o relojoeiro,

Mas ninguém quer mais ouvir,

A canção romântica do seresteiro,

Nem as raízes do som sertanejo,

Não tem mais o tocador de realejo,

Nem na praça o fotógrafo lambe-lambe,

E não se ama mais no primeiro beijo.

 

POEMA DE AMOR

Poema de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor,

Mas minha veia é nordestina,

De sangue catingueiro da sina,

Que tenta tecer os fios do amor.

 

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor,

E eu já te amo do jeito que sou,

Seco como pedregulho sertanejo,

Te vejo no meu eu interior,

Com o coração que ainda tem dor.

 

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor,

E eu sigo como um viajante,

Errante nas asas do Condor,

Não sou do tipo romântico,

Sou mais fechado lacônico,

Mas também fonte de calor.

 

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor,

Perdão, não sei fazer poema de amor,

Só sei falar dessa injustiça social,

De tanta gente viver desigual,

Na cidade e no sertão sem cor.

 

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor,

E peço que não me leve a mal,

Sou assim meio bruto e rude,

Talvez seja um sujeito anormal,

Nascido em outro planeta sideral,

Mas que procura cativar sua flor.

 

 

ANDANÇAS

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário, que leva o mesmo nome do seu livro

Oh quantos feixes de lembranças!

Daquela terra estéril e árida,

De gente sofrida de alma cálida,

A esperar algum agito do vento,

Para farfalhar as folhas da plantação,

Quando nessa travessia do tempo,

Resolvi partir em minhas andanças.

 

Como viajante dessas histórias,

Fui rasgar todas as divisórias,

Deixei meus pais e o meu amor,

Com lágrimas bateu no peito a dor,

Cortei pelo cemitério dos anjos,

Bem longe vi as meninas de tranças,

E segui com a mochila das andanças.

 

A noite na roça é fechamento de porta,

Aí fui girar mundo nas andanças,

Passei fome nas esquinas das vidas,

Entrei em muitos becos sem saídas,

Levei rasteiras, tropeços e foras,

Roguei por todas Nossas Senhoras,

Voltei como agrônomo doutor,

Para reanimar essa natureza morta.

 

As estrelas e a lua voltaram ao cio,

Meu amor me beijou quando me viu,

Do chão criamos filhos e bonanças,

Mas meus pais não resistiram o verão,

E se foram durante minhas andanças.

AS ESTAÇÕES PERDEM SUAS CORES

Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por Deus, Alá e por Jheová!

Deixem de atanazar a natureza,

E sugar de cada Estação,

O vigor sublime da sua beleza.

 

Os deuses da tecnologia e da ciência,

Estão poluindo o ar, a terra e o mar,

E do humano a consciência escravizar.

 

Lá se vão os contrastes das Estações,

A noite virou um clarear do dia,

Com a energia da luz artificial,

Que tirou a magia do espaço sideral,

 

No Nordeste, o verão chicoteia no reio,

Com um fino outono e rala primavera,

Na era do escasso inverno que não veio.

 

O céu noturno, nosso templo sagrado,

De lua e estrelas no infinito universal,

Que previam o futuro com o ritual,

De fartura das colheitas do arado.

 

As bruxas voadoras em suas vassouras,

Cortavam as noites como os cometas,

Para anunciar as mudanças nos planetas.

 

As Estações não eram preguiçosas,

Cada qual exibia suas cores,

Os pastores tinham o tempo certo,

Do rebanho curral e das colinas viçosas.

 

Existia o limite entre frio e calor,

Com o toque dos tambores dançantes,

E o sopro nas orgias dos berrantes.

 

No Brasil já devastam os ciclones,

Queimam as florestas do Xavante,

O Pantanal vai perdendo seus clones,

E a Estação faz sua mudança rasgante.

 

O DESERTO E O MAR

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O deserto é o mar de mortais poeiras,

O mar é o deserto de águas traiçoeiras,

Eu sou o deserto rasgante incerto,

Você é o mar nas ondas a cortar.

 

Cada um com seu mistério profundo,

O Saara africano é o maior do mundo,

O deserto é o mar seco árido infértil,

Que um dia já foi Crescente Fértil.

 

Temidos pelo viajante aventureiro,

Os dois são muralhas contra invasão,

E o poeta escreveu “Navio Negreiro”,

Em alto mar condenou a escravidão.

 

Novas rotas uniram ilhas e continentes,

Numa procissão de veleiros imponentes,

Com suas surpresas de armadilhas de teias,

Como o deserto com suas nuvens de areias.

 

Os faróis da era acendem seus pavios,

As caravanas de camelos são como navios,

Com suas cargas escravas, virgens e marfim,

Nos horizontes de ouro das linhas sem fim.

 

Engolem vidas e escondem piratas,

Com seus oásis e montanhas de pratas,

O deserto da sede cria visões e miragens,

E o mar a balançar nas galeras selvagens.

 

Sacudidos pelo calor dos testes atômicos,

O deserto foi dos peregrinos islâmicos,

Vias de mercadorias para levar o Alcorão,

E pelo mar, o jesuíta fez o nativo cristão.

 

 

 

DA GAIOLA MEDIEVAL

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário (macariojeremias@yahoo.com.br)

Da gelada gaiola medieval,

Voam pássaros libertários da igualdade,

Rasgam os véus das linhas do tempo,

Nas asas dos céus do Renascimento,

Para condenar a crueldade escrava,

Curar séculos de inquisição da palavra,

Que só a Igreja ditava o bem e o mal.

 

Da gaiola gelada medieval,

Sai a Bíblia da Reforma de Lutero,

No dote de cada um ser seu sacerdote,

E atira contra as vendas das indulgências,

Que salvam nobres e excluem os pobres;

Calvino em sua pregação é mais severo,

Defende sua tese da predestinação,

E nega as catedrais das janelas de vitrais,

 

Da gelada gaiola medieval,

Partem navegadores e cientistas,

Jesuítas vão levar suas doutrinas,

Nasce a revolução dos grandes artistas,

Leonardo da Vinci pinta Mona Lisa,

Michelangelo faz a Capela Cristina,

Bartolomeu dobra o Cabo da Esperança,

E lança nova rota marítima pra China.

 

Da gaiola gelada medieval,

A imprensa voa como presente divino,

Para anunciar a luz de um novo destino;

Colombo chama o Novo Mundo de índios,

Nas Américas dos incas, maias e astecas;

Vasco da Gama navega até a terra Índia,

E a história troca suas espadas afiadas,

Por uma guerra ainda mais mortal.

 

Da gaiola gelada medieval,

Voa uma florida ave primaveril,

Deusa da ciência e da tecnologia,

Que bebe do saber e do conhecimento;

Faz o invento do vapor e da energia;

Ergue a era das cidades industriais,

E a fome gera a Revolução Francesa,

Com seus ideais pela melhoria social.

 

 

NEM SEI SE SOU…

Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário, que fazem parte do seu último livro “ANDANÇAS”.

Meu amigo camarada,

Desculpe meu jeito serial,

Assim fui criado e feito,

Numa couraça de crença,

De um sistema desigual.

 

O tempo é uma cilada,

Entre o amor e a dor,

Nem sei se sei, se sou,

Como um quase nada,

Ou um pouco de cada.

 

A morte só é uma graça,

Quando vira uma piada,

Em conversa na praça,

Mas passa sem dar risada,

Com sua sentença marcada.

 

Nem sei se assim sou,

Um pavio do candeeiro,

Na face de um escravo e patrão,

Como lobo, e um cordeiro,

Vigilante errante de plantão.

 

Nada que reluz me conduz;

Faço destinos em pedaços,

De fios de algodão e de aços,

Ora sou laço nos espaços,

Ora sou simples traços.

 

Nem sei se sou encanto,

Alegria, lamento e pranto,

Em alguma parte desse canto,

Que mais parece um conto,

De encontro e desencontro.

 

Uma hora penso ser corda,

Grossa de sisal, ou de viola,

Outra hora, sou uma estola;

Procuro quem me consola,

E a dura realidade me acorda.

 

Nem sei se sou criatura,

Como diz a benta Escritura,

Nessa eterna via de procura,

De caminhos de aventura,

Cheios de ódio e de ternura.

 

Nem sei aqui qual meu papel,

Se é de cortina, ou de véu,

E assim vou indo ao léu,

Como a semente ao vento,

Do nascente ao sol poente.

 

 

 

 

 





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