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:: ‘Encontro Com os Livros’

A CULTURA ÁRABE-ISLÂMICA E OS DIREITOS DA MULHER POR CHEBEL E FATEMA

No livro “Intelectuais das Áfricas”, o filósofo argelino Malek Chebel se debruçou nas questões da cultura árabe-islâmica, enquanto a socióloga ativista marroquina tratou dos problemas da submissão e dos direitos das mulheres mulçumanas, com base na legislação e na religião do islã.

O pensamento de Chebel (1953-2016) é interpretado pelo historiador Murilo Sebe Bom Meihy quando escreve que o trabalho do filósofo merece destaque por retirar o monopólio do conhecimento científico das mãos dos analistas europeus, e por romper a dura supremacia dos teólogos e pensadores do Oriente Médio clássico em relação aos temas e debates sobre o islã.

Murilo destaca ainda que, “no contexto de reconstrução nacional após a independência, uma geração de jovens, incluindo Chebel, tentava sobreviver no interior de uma conjuntura política centralizadora dominada pelos líderes da emancipação, e marcada pelo flerte com o pan-arabismo, o socialismo terceiro mundista da Guerra Fria, e a crença em uma revolução social, política e cultural que não se limitasse às fronteiras da Argélia recém-criada.

De acordo com o historiador, autor de dezenas de livros, a obra de Chebel pode ser dividida em três áreas, tais como, os estudos mediterrâneos, a quebra da imagem do islã como uma ameaça para o Ocidente e a relação entre cultura e sexualidade no islã. Entre suas obras primas, Murilo cita L´esclavage em Terre d´Islam, de 2007.

Na questão sobre as formas de servidão, Murilo diz que o filósofo redireciona a bússola cultural africana para o Oriente, conectando o espaço mediterrâneo do islã ao infame caminho da escravidão que parte do Magrebe (Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos e Mauritânia) para o Golfo Pérsico, não antes de deixar um rastro de sofrimento envolvendo negros, brancos, europeus, africanos, crentes e infiéis.

Nesse sentido, Chebel constrói uma geografia da escravidão quando se relaciona ao território da África. Afirma em sua obra que partes específicas da rota comercial dos escravos tinham uma função bem determinada no interior da cultura escravista desenvolvida nas terras do islã. Assinala que o Egito era o cérebro do tráfico de escravos.

A QUESTÃO DO FEMINISMO

Sobre Fatema Mernissi, a abordagem coube a Isabelle Christine de Castro, doutora em História Social. Ela afirma que Fatema desenvolveu em suas obras a questão do feminismo. “Dedicou-se em sua vida (faleceu em 2015) a demonstrar a necessidade de combater o discurso de uma elite sobre uma propalada inferioridade feminina que, ao contrário do que é disseminado, não teria apoio nas escrituras religiosas”.

Assinalou que Fatema deixou bem claro em seus livros a força da mulher magrebina, mulçumana e africana com seu próprio exemplo ao desafiar o patriarcalismo global. A socióloga argumentava que, mesmo que a religião conceda privilégios aos homens, não há indicações inquestionáveis nos textos religiosos que justifiquem uma posição de subordinação às mulheres.

Isabelle enfatiza que a marroquina sempre questionou premissas tradicionais em busca de demonstrar que a igualdade de gênero não é apenas uma necessidade social, mas uma demanda da religião que se instalou na região há cerca de 14 séculos.

“Mernissi (nasceu na cidade de Fez no ano de 1940) fez parte de uma geração de marroquinas que se beneficiou da abertura promovida para a educação feminina, pouco antes da independência do Marrocos, em 1956. Ela fez doutorado em sociologia, em 1973. Ao contrário de outras mulheres ativistas, como a médica egípcia Nawal el Saadawi, a marroquina não se afastou da religião para combater a privação de direitos que muitas sociedades mulçumanas impõem à metade de seus cidadãos. Ela sempre tentou combater a subordinação feminina usando como arma os ensinamentos ligados ao islã”.

Igual a ela, muitas ousaram desafiar o mundo patriarcal, especialmente no campo da política. “Fatema optou por desafiar o establishment religioso em seus próprios termos, ao acusá-lo de promover uma interpretação equivocada dos fundamentos do islã relativos aos direitos da família. Criticou a falta de políticas estatais para atacar as desigualdades e denunciou o impacto delas sobre as mulheres. Preferiu criticar as bases do discurso religioso”.

Nesse capítulo dedicado à socióloga pela historiadora Isabelle, vamos ainda falar sobre o véu, o harém e as fronteiras e a revolução da informação.          

“O DECANO DA FILOSOFIA AFRICANA: PAULIN JIDNENU HOUNTONDJI”

No livro “Intelectuais das Áfricas”, o professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, Itamar Pereira de Aguiar escreve um artigo em que fala do filósofo Paulin Jidnenu Hountondji, que nasceu na Costa do Marfim, em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Concluiu seus primeiros anos de estudos em Porto Novo no Daomé, em 1960. Essas regiões sofreram administração colonial francesa.

No período de declínio colonial, Paulin mudou-se para Paris onde acompanhou a movimentação política que promoveu a derrocada do colonialismo francês. Matriculou-se no curso de Filosofia na conhecida École Normale Supérieure onde se formou em 1970. Depois chegou a ministrar aulas em universidades da França, dos Estados Unidos e da própria África.

De acordo com Itamar, durante o mandato do ditador Mobutu, no Zaire (Congo), o filósofo procurou, em silêncio, observar como atuava o nacionalismo dito republicano em uma ditadura ao modo africano. Como ativista político, Paulin se opõe ao regime militarista em vigor, “cujos defensores se proclamavam revolucionários”.

Em Benin, sob a direção do Alto Conselho da República, em março de 1990, Paulin foi nomeado ministro da Educação. Diz o professor Itamar que, “o conjunto da sua obra recebeu influência da Filosofia Moderna Ocidental, do Iluminismo, mais especificamente, dos pensadores marxistas Althusser e Derrida”.

Enquanto intelectual, Paulin voltou-se mais para a filosofia política. “porém cioso da importância dos elementos culturais e históricos do continente africano, torna-se postulante do pensamento endógeno, crítico da filosofia enquanto visão de mundo em países da África”.

As suas obras (mais de vinte), segundo o professor Itamar, “revelam sua intensa e diversificada atividade acadêmica, assim como os temas por ele explorado enquanto pesquisador engajado política, cultural e filosoficamente nas questões essenciais e existenciais dos africanos na contemporaneidade, especialmente dos povos da Costa do Marfim, onde nasceram seus ancestrais…”

Em sua primeira obra Remarques sur la philosophie africaine contemporaine, Paulin procura colocar em prática a filosofia africana, voltando-se para os problemas das condições de vida de seu povo. Ele passa a abordar as graves questões que afligem as nações africanas.

Ao estabelecer comparativo entre a filosofia africana e a europeia, afirma que muitas posições dos filósofos do continente fazem parte da mesma estratégia dos colonizadores em desqualificar e de considerar os africanos incapazes de refletir por si e sobre si, e de produzir pensamentos lógicos. “Em últimas palavras, de filosofar”.

“Eu chamo de filosofia africana um conjunto de textos: precisamente, os textos escritos por autores africanos e qualificados por eles mesmos como filosóficos – ressalta Paulin em seu livro. Ele convoca os pesquisadores conterrâneos a produzirem sobre e para os africanos que ali nasceram, ou que ali vivem.

Paulin defende que os africanos, confiantes em si mesmos e de modo autônomo, se ocupem com as investigações e conhecimentos que respondam aos problemas e questões de interesse direta ou indiretamente dos africanos.

Em seu texto, o professor Itamar enfatiza que o “colonialismo, a escravização e a diáspora praticados por franceses, belgas, alemães, ingleses, portugueses e outros, ocasionaram movimentos de resistência diversas, principalmente nas Américas para onde foram levados aos milhões de indivíduos na condição de mercadorias, comprados e vendidos como animais de tração para serviços nas plantações, mineração, criação de gado, nos serviços domésticos e de ganho, em países como Brasil, Cuba, Estados Unidos, Haiti, México e outros, no lapso temporal do século XVI ao XIX, quando se efetivou atrás das lutas libertárias, a abolição da escravidão, sendo o Brasil o último a efetivá-la em 13 de maio de 1888”.

“FRAGMENTOS”

O lançamento do livro “Fragmentos”, da advogada, poeta e psicanalista em formação, Ana Priscila C. Luz, ontem (dia 03/09), sexta-feira, às 17 horas, marcou a reabertura das atividades da Biblioteca Municipal José de Sá Nunes, que ocorrerá oficialmente no próximo dia 8 (terça-feira) depois de uma temporada praticamente fechada por causa da pandemia.

A poetisa conquistense, estudiosa de idiomas e cozinheira autodidata, como ela mesmo se expressa, sempre foi apaixonada pela literatura desde criança. Suas influências vão de Adélia Prado e Francesco Petrarca. Ela é também autora de “Poeta em Pânico” e editora-chefe da Rádio Melodia.

Júlia Cândido Viera escreve na orelha da obra que o leitor vai mergulhar no interior da autora, “reconhecendo em cada verso, o resultado da sua busca por localizar-se nessa existência”.

“Ao ler seus poemas somos levados a imergir para seu Eu e saborear tudo aquilo quem a torna quem é, uma mulher inquieta, que não se contenta com o óbvio e que já compreendeu que a dúvida é aquilo que nos leva a encontrar nossa melhor versão” – destaca.

A apresentadora de Ana Priscila diz que este livro é uma forma de mostrar ao mundo que, mesmo em situações adversas, é possível tornar belo aquilo que nos fere. Afirma ainda que os estudos da psicanálise a levou a tornar verso tudo aquilo que um dia foi tormenta.

Dentre alguns de seus poemas podemos citar “Cena Primitiva” onde a poetisa escreve: O mundo inteiro transa/menos nossos pais/Essa imagem mental/já é demais. Em “Nessun dorma” – O sono cai como uma luva/no meu corpo/É meu cismar torto/que resiste. Noutro verso intitulado “Liv e Ingmar” – Viviam em ilha recôndita./Juntos, eram a pangeia./Imersos, solidão ontogênica./Tão definitivos/quanto impermanentes. “Quando me apaixonei”, Ana narra Invadiu minha fronteira,/se instalou de vez. /Sem eira nem beira,/coisa de tez.

O evento foi realizado na Biblioteca Municipal, hoje dirigida pela atriz Jean Marie que, durante este período da pandemia, operou várias mudanças e deixou o ambiente mais aprazível para a leitura. Ela e sua equipe recuperaram todo material referente à memória de Vitória da Conquista e abriram um espaço de exposição de livros só de escritores da terra.

O funcionamento da Biblioteca, após mais de um ano com atendimento limitado, ficará restrito a 50% da ocupação do espaço, dentro de todos os regramentos recomendados contra a Covid-19. A sua sede está localizada no Bairro Conquistinha, próximo ao centro da cidade.

Fotos da Biblioteca Municipal, cujas atividades serão oficialmente reabertas no próximo dia 08/09 (terça-feira) com limitação de 50% da sua ocupação por causa da pandemia. Fotos de Jeremias Macário

“PERCURSOS TRANSLOCAIS: VALENTIN MUDIMBE E O PÓS-COLONIAL”

As suas produções intelectuais foram voltadas para a salvação do seu país, o Zaire, hoje a República Democrática do Congo. Em suas teses filosóficas sempre defendeu que a cultura nacional autêntica era uma mistificação. Quanto ao continente africano, “não existe uma cultura unificada”.

Como monge de formação beneditina, Valentin Mudimbe estudou e lecionou em várias universidades como doutor nos Estados Unidos e na França. Em 1968 formou-se em Sociologia na Universidade de Paris-Nanterre. Na interpretação da acadêmica Regiane Augusto de Mattos, ele é comentado como um dos expoentes africanos no livro “Intelectuais das Áfricas”.

Nos anos 60, de acordo com Regiane, foram para Mudimbe e outros universitários africanos um período de despertar político, no qual o marxismo, e depois o socialismo africano, tornaram-se inspiração, não somente politicamente para os movimentos de independência da África, como para compreender academicamente as sociedades africanas.

Em seu livro “A Invenção de África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento”, publicado em 1988, Mudimbe apresenta a ideia de África como uma invenção epistemológica na área das ciências sociais, defendendo que o conhecimento seria um conhecimento estritamente controlado por procedimentos específicos elaborados por europeus, que ele denomina gnose.

De acordo com Regiane, o intelectual em que ela se refere, não apenas criticou a antropologia clássica e a etnologia europeias, como rejeitou o movimento político cultural Negritude (Aimé Césaire, poeta da Matinica, foi o primeiro a usar esse termo) promovido por intelectuais negros, afirmando que também era uma concepção influenciada por uma episteme ocidental da África, mas representada por africanos e seus descendentes.

Para a intérprete de seus pensamentos, desde o final do século XIX, intelectuais africanos empenharam-se em transformar a visão que imperava na África de um continente formado por sociedades sem história. Após a segunda Guerra Mundial, esses intelectuais escreveram trabalhos em torno da problemática colonial, tendo um papel importante nas lutas de libertação do continente. Nesse âmbito, ganhou destaque, como ramo específico do pan-africanismo, o movimento da Negritude.

O principal teórico do movimento foi Léopold Senghor, mais tarde presidente do Senegal, permanecendo no poder entre 1960 a 1980. O meio de debate e divulgação do movimento das ideias era a revista Présence Africaine, criada em 1947.

No pensamento de Mudimbe, os africanos deveriam criar suas próprias perspectivas através da ruptura, rejeitando as teorias do desenvolvimento contínuo de uma cultura africana, fechada e única. Ele propôs que os intelectuais africanos inventassem suas próprias concepções do conceito de africano.

Para ele, os ocidentais se entendem como vetores de um modelo cultural pretensamente universal. Entretanto, essa universalidade não é construída através de uma experiência real da pluralidade, pois viveram a alteridade de modo marginal ou deformado, partindo da sua própria identidade.

Mudimbe defende a importância da singularidade das experiências históricas. Os africanos teriam a capacidade de gerar suas próprias normas de inteligibilidade e de interpretação, sem a necessidade da utilização de categorias criadas por outras experiências.  Classificou a lógica binária local/global ou singular/universal como uma divisão que não é totalmente absoluta.

Em seus estudos, disse que todos têm o direito de usar o conhecimento sobre o continente para construir uma identidade que pode ser compartilhada. Se para ele, sua própria experiência foi bem-sucedida, a crítica à colonização recai sobre o processo colonial falhar na conciliação entre as tradições africanas e europeias. Assim, a África e os africanos poderiam também ter êxito, se soubessem conciliar o passado colonial às suas próprias experiências históricas.

 

“LENDAS BRASILEIRAS” – CÂMARA CASCUDO

DIA DO FOLCLORE – 22 DE AGOSTO.

Quando se fala em folclore lembra-se logo do grande escritor potiguar Luis da Câmara Cascudo que se dedicou ao tema. Com o estrangeirismo na nossa língua e o complexo de se imitar tudo que vem de fora, infelizmente nossa juventude prefere incorporar, em corpo e alma, os super-heróis norte-americanos (falha da nossa educação) até em cadernos escolares e esquece dos nossos personagens folclóricos. Em meio a essa perda de identidade, poucos comemoram o dia 22 de agosto, dedicado ao nosso rico folclore brasileiro. Outros nem sabem o que seja folclore.

Primeiro vamos conhecer um pouco sobre o mestre nesse assunto, Câmara Cascudo, que veio lá do Rio Grande do Norte. O professor Osmar Barbosa nos apresenta que ele iniciou sua carreira literária como jornalista do periódico “A Imprensa”, de Natal, de propriedade do próprio pai. Iniciou seus estudos de medicina na Bahia, mas por questões financeiras, se bacharelou em Direito pela Faculdade de Recife.

Câmara nasceu em 30 de dezembro de 1898 e faleceu em 30 de junho de 1986 (coincidência do 30). Era filho do coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Ana Maria da Câmara Cascudo. Na juventude, viveu na chácara Villa Cascudo, no bairro Tirol. Em sua casa acompanhava desde criança as reuniões literárias que ocorriam entre a família e amigos. Com 19 anos ingressou no jornal do seu pai, e sua primeira crônica foi “Tempo e Eu”.

Em 1920 escreveu a introdução e as notas na antológica poética de Lourival Açucena, intitulada “Versos Reunidos”. Em 1941 fundou a Sociedade Brasileira de Folclore. Foi professor de Direito Internacional entre os anos 50 e 60. Em sua viagem pelo exterior, esteve em Angola, Guiné, Congo, São Tomé, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Com resultado, escreveu “A Cozinha Africana no Brasil” (1964) e “História da Alimentação no Brasil”, entre 1967 e 1968.

Aos 21 anos, Câmara lançou seu primeiro livro “Alma Patrícia” sobre autores do Rio Grande do Norte onde foi professor de Direito Internacional. Em sua vida, publicou mais de 50 volumes.  Sempre manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, cercado de pessoas humildes e velhos amigos, quando poderia ter gozado de grandes prestígios em outros centros culturais do país.

Diz o professor Osmar, que Câmara fez-se notável folclorista dedicando todo seu tempo a buscar conhecimento no assunto. Foi o primeiro a compor um Dicionário do Folclore Brasileiro. Entre seus trabalhos merecem destaque Vaqueiros e Cantadores, Lendas Brasileiras, Contos Tradicionais do Brasil, Geografia dos Mitos Brasileiros, Trinta Estórias Brasileiras, Vida e Conto de Cangaceiros e Tradição e Ciência do Povo.

“Lendas Brasileiras” contém 21 histórias, tais como A Lenda de Iara, Cobra Nonato, Lenda da Sapucaia-Roca e Barba-Ruiva relacionadas à região Norte. Com referência ao Nordeste, destacam-se A Cidade Encantada de Jericoacoara, Carro Caído, Senhor do Corpo Santo, As Mangas de Jasmim de Itamaracá e A Morte de Zumbi. Para o oeste, O Frade e a Freira, A Serpente Emplumada da Lapa e O Sonho de Paraguaçu. Para a região Sul, O Negrinho do Pastoreio, A Lenda da Gralha Azul, Fonte dos Amores, A Virgem Aparecida e a Lenda de Itararé. Para o Centro, Tatus Brancos, A Missa dos Mortos, Chico Rei e Romãozinho. São lendas oriundas do folclore e da poesia dos estados brasileiros.

De acordo com o professor Osmar, não se faz literatura sem tradição popular. “O próprio classicismo termina se inspirando nas fontes mitológicas da velha Grécia. O folclore é um ramo da ciência antropológica que estuda as manifestações coletivas da cultura popular, abrangendo estudos e classificação de países civilizados através de contos, lendas, fábulas, canções, crendices, superstições, usos, costumes e adivinhações”, entre outras.

“Ainda hoje em todo mundo os estudiosos do tema examinam objetos, utensílios, tipos de habitação e trajes típicos regionalistas. Em todos países existem lendas, apólogos, costumes e superstições, unindo a tradição popular que faz parte da alma de um povo”. Para o professor, “os contos populares do Brasil têm o sabor de uma fruta do mato, o cheiro agreste da flor mais viçosa, a fantasia colorida com as tintas da nossa selva e o encanto de um primitivismo tropical”.

O escritor João Ribeiro dizia que “o folclore é uma pesquisa de psicologia dos povos, das suas ideias e seus sentimentos comuns, do seu inconsciente, constituindo a fonte viva donde saem os gênios…”. No folclore, a literatura encontra o veio certo para produzir obras imortais da arte que dão glória a um povo.

“Vaqueiros e Cantadores” – folclore poético do sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, de Luis da Câmara Cascudo, fala dos temas O Desafio, A Donzela Teodoro, Boi Surubim, O Padre Cícero, Pedro Malasarte, As Lendas de Pedro Cem, a Criação do Mundo, A Princesa Magalona e Sertão d´Inverno.

“Tanto pego boi no fechado como canto desafio”. Câmara afirma que neste livro ele reúne quinze anos de sua vida. Notas, leituras, observações, tudo compendiei pensando um dia neste “Vaqueiros e Cantadores”. Diz o autor que o material foi colhido diariamente na memória de uma infância sertaneja, despreocupada e livre.

“Vivi no sertão típico agora desaparecido. A luz elétrica não aparecera. O gramofone era um deslumbramento. O velho João de Holanda, de Caiana, perto de Augusto Severo, ajoelhou-se no meio da estrada e confessou, aos berros, todos os pecados, quando avistou, ao sol-se-pôr, o primeiro automóvel”.

 

“INTELECTUAIS DAS ÁFRICAS” (Final)

Este livro conta com a participação do professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Itamar Aguiar.

“África tem uma História”. Esta frase está no volume I de “História Geral da África”, de Joseph Ki-Zerbo. Era fins da década de 1970.

Silvio de Almeida Carvalho Filho e Washington Santos Nascimento, organizadores da obra, nos oferecem um apanhado geral sobre as ideias dos grandes intelectuais da África que interpretaram os conceitos do Pan-Africanismo e da Negritude do continente pré-colonial e pós-colônia.

Frantz Fanon foi um dos primeiros pensadores desse povo que por séculos viveu sob o jugo dos dominadores – assinalam.

Para elaborar o livro “Intelectuais da África”, por intermédio dos autores convidados, Silvio e Washington adotaram o significado de intelectual como indivíduo que reflete, teoriza, projeta e produz sobre as sociedades, imaginando novas formações sociais, políticas e econômicas.

Os intelectuais foram hábeis na arte de representar, seja na escrita, no cinema ou na música, como Fela Kuti, Sembène, Soyinka, Fatema e outros – escreveram.

O termo intelectuais, de acordo com os expositores do assunto, tem sua origem em fins do século XIX, na França, por conta do caso Dreyfuss, condenado injustamente por traição à pátria.

Como dizem os autores do capitulo da obra, os estudos sobre os intelectuais entraram em descrédito após a década de 1920. No entanto, o papel deles na França foi fortalecido durante a guerra da Argélia (1954-1961). Eles interferiram na história, em especial Jean Paul Sartre.

Textos de Anta Diop, Senghor e Fanon eram divulgados no bojo do Pan-Africanismo ou da Negritude, como forma de resistência à argumentação de que a África não tinha história, e seu pensamento era atrasado e selvagem – acusam os acadêmicos.

Silvio e Washington afirmaram que o surgimento dos intelectuais está ligado a três origens, como o universo (ancestral), o isolamento e a escolarização europeia. Esses processos se misturaram e se divergem em algumas regiões – afirmaram.

Formados no período do colonialismo europeu, um traço comum entre eles foi o engajamento frente a todos os problemas nacionalistas, nas lutas pela a emancipação e nos direitos das mulheres, contribuindo para a transição de descolonização do conhecimento.

Nos textos do livro, existem fortes influências de matrizes pré-coloniais. Esses pensadores, conforme apontam, foram tragados pelo Pan-Africanismo e a Negritude. Como estrangeiro, Fanon escreveu sobre os efeitos do colonialismo na África e participou da luta pela independência da Argélia. Essa intelectualidade viveu o processo do fim da colonização, da descolonização e da emergência dos novos Estados.

O Pan e a Negritude foram dois importantes movimentos de resistência político-ideológico. O primeiro foi na questão da ancestralidade que levaria a um sentimento racional gerador da solidariedade entre os povos.

A Negritude tratou da questão específica do orgulho de ser negro e adoção da sua cultura. Esse movimento surgiu em fins da década de 30 no poema lírico “Diário de um Retorno ao País Natal, do antilhano da Martinina Aimé Césare. Senghor desenvolveu essas ideias em diferentes obras, servindo de base para outros intelectuais.

O orgulho da África, a luta, não contra o sistema, mas seus abusos, foram marcas do Pan, segundo Silvio e Washington. Somente depois do Congresso Pan-Africano (1945) e da invasão da Etiópia por Mussoline, em 1935, a luta pela independência entra na agenda dos intelectuais – relatam.

Tudo isso contribuiu para a obra cinematográfica do senegalês Sembène. A partir daí, formou-se uma rede de solidariedade contra o colonialismo. Dentro dessa ideia de coparticipação, o pan-africanista Amílcar Cabral, líder da independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, na década de 60, postulava que a libertação na África não poderia caminhar apenas na linha da independência de cada colônia, mas de toda África.

Esse Pan-Africanismo passou a estimular a unificação de toda a África em um único Estado, mas esbarrou nas divergências e nos sentimentos de soberania de cada território. Nkrunah, líder de Gana (1957 -1966) foi um dos difusores da ideia. O Pan também foi prejudicado pela xenofobia entre os estrangeiros africanos, pelas distâncias geográficas, pela a esquerda e direita, pelas prioridades econômicas e interesses de cada governo.

“Os dirigentes africanos se dividiram em dois grupos, os que queriam uma união política forte e os que desejavam uma confederação com soberania. A ideia caminhou para uma união entre os estados independentes, visando combater o imperialismo. Dessa forma, surgiu em 1963, a Organização da União Africana (OUA).”

Sobre este ângulo, a escritora nigeriana Adichie faz um de seus personagens lembrar de que o negro é uma criação branca, impregnada de autoritarismo e corrupção. Com as bandeiras do combate ao racismo e da negritude, o Pan obteve a simpatia de vários intelectuais africanos. Os dois se caracterizaram por sua face racial, de provar a não inferioridade da raça negra.

Adichie em seu livro Meio Sol Amarelo (2006) fez uma personagem sustentar que os negros foram e são emparelhados pela mesma opressão branca. Porém, a crítica à branquitude teve suas reservas nas falas de Pepetela, Soyinka e Mia Couto. O próprio Soyinka propôs uma valorização das culturas do continente, sem a negação de qualquer porte. Pepetela e Mia também não defenderam uma idealização da raça negra, se colocando abertos às misturas das culturas, não acreditando numa raiz pura e intocada.

Um Rio Chamado Tempo e Uma Casa Chamada Terra, Mia narra numa conversa entre família onde um membro se espanta que nela haja tantos mulatos. “Nesse mundo, todos somos mulatos”. “Ao longo dos séculos, as culturas africanas sempre se aproveitaram de traços culturais entre si e de outras fora do continente.”

Na década de 60, o músico Fela-Kuti propôs uma arte voltada para a solidariedade negra. Tanto Amílcar Cabral, Sembène e Adichie rejeitaram a ideia homogeneizante de uma única identidade africana, Admitiram a existência de uma pluralidade cultural. Adichie fez um personagem sua declarar que o negro era em grande parte uma criação branca.

Para Mbembe, o importante não é a volta ao passado, mas a autocriação e a auto explicação realizadas pelos africanos em cada lugar da sua história através de seus instrumentos, como a religião, a música, a literatura e das artes em geral.

“Em linhas gerais, os intelectuais africanos procuraram exercer influencias sobre a opinião pública em relação a fatos, como o colonialismo, a descolonização ou os Estados e as questões sociais emergentes no pós-independência, interpretando as realidades do continente”.

Os autores desse capítulo citam a nigeriana Adichie que questiona a subalternização das mulheres africanas, testemunhas das injustiças que, diante das quais, as mulheres se calavam. Ressaltam também a luta de Soyinka contra as ditaduras nigerianas, sendo preso durante a guerra da Biafra (1967-1970).

“Alguns desses intelectuais participaram de governos, como Senghor que foi presidente do Senegal (1960-1980) e Pepetela vice-ministro da Educação angolana (1976-1982). “Tiveram de lidar frequentemente no mundo ocidental com um desconhecimento ou uma visão estereotipada dos problemas africanos. Levantaram questões embaraçosas para o colonialismo ou para os regimes autoritários ou sociedades conservadoras em África. Lutaram contra diversas formas de poder, suas estruturas estatais autoritárias no período colonial e nos pós-independência”.

“Uns engendraram no campo político e outros, como Pepetela, na literatura após deixar a cena político-partidária. Enfim, lutaram pela promoção da liberdade dos africanos e pelo conhecimento crítico das realidades vivenciadas pela África. Muitos acreditaram que a independência era o início do processo de emancipação, chegando alguns, a pensarem realidades novas, às vezes, utópicas, enquanto outros acharam que era a sua conclusão”.

“Em geral, permaneceram críticos do poder, marginais ou exilados, não sendo cooptados por governos e empresas. Poucos renegaram essa vocação. Muitos, ao assumirem governos, abandonaram a posição extremamente crítica mais fácil aos intelectuais de oposição, tendo de justificar regimes ao lado dos quais passaram a assumir a liderança ou a defesa, traindo, consequentemente, companheiros”.

“Muitos, após a independência, com o assumir de regimes autoritários e corruptos, passaram a denunciar que todas as dificuldades atuais da África, tais como ditaduras, guerras, genocídios, machismo, fanatismo e poluição não podiam ser só atribuídas à colonização. Entre estes, “podemos apontar Soyinka, Pepetela e Fatema Mernissi”.

 

 

“INTELECTUAIS DAS ÁFRICAS”

O livro “Intelectuais das Áfricas”, organizado por Silvio de Almeida Carvalho Filho e Washington Santos Nascimento, é uma obra elaborada e comentada por várias cabeças intelectuais, inclusive conta com a colaboração do acadêmico e professor Itamar Pereira Aguiar, que nos adiantou já ser um sucesso de leitura, colocado como o 12º mais procurado no Amazon.

Não resta dúvida ser um trabalho inestimável em termos de contribuição para o conhecimento humano sobre o continente africano, e de grande valia para estudantes, professores, cientistas políticos e outros interessados pelo assunto, principalmente em salas de aulas.

Como o próprio título já diz, acadêmicos e estudiosos se debruçam em traduzir o pensamento de grandes intelectuais da África que abriram o desconhecido e construíram pilares culturais mais sólidos rumo a novas mudanças políticas continentais, especialmente no pós-colonialismo europeu.

“Intelectuais das Áfricas” é prefaciado pelo filósofo Renato Nogueira que abre o texto com Anta Diop, citando o professor Leakey na questão do povoamento do mundo onde viviam os primeiros seres na região dos Grandes Lagos. “Isso quer dizer que toda raça humana teve sua origem, exatamente como supunham os antigos, aos pés das montanhas da Lua” –

No quesito civilizações humanas, de acordo com Nogueira, a África é o continente mais antigo do planeta. Em referência aos intelectuais, objeto de abordagem do estudo, o filósofo destaca o senegalês Cheikh Anta Diop que, de uma forma ou de outra, influenciou o mundo acadêmico africano.

Para o prefaciador do livro, Diop foi o primeiro grande intelectual africano do século XX. Foi ele que deu voz em favor do protagonismo investigativo de africanas e africanos para contarem sua própria história, apresentando suas teses sobre os fenômenos filosóficos, sociais, artísticos, científicos e políticos – disse. Diop abriu caminho para todos os outros que vieram depois.

Em seguida, Nogueira aponta Achile Mbembe, Valentim Mudimbe, Paulim Jidneu, Malek Chebel, Fatema Mernissi (marroquina), Osmane Sembene, Fela Kute e o afrobeat Wole Soynka, Uanhenga Xitu, Mia Couto, Chimamanda Adichie (feminista nigeriana), Pepetela, Amílcar Cabral e Frantz Fanon. Todos eles “usam um sotaque africano para expor o que pensam”.

Nogueira fala de Isabelle Christine de Castro que faz um retrato de Fatema como uma das pioneiras no projeto de fazer uma tradução sociológica e jurídica do lugar feminino no mundo do islamismo, com uma crítica do lugar patriarcal.

Outro que fez uma incursão na cultura árabe-islâmica foi o argelino Chebel, ao argumentar que o islã  não se opõe ao ocidente. Nesse capítulo do livro, quem faz a apresentação de Chebel é o acadêmico Murilo Sebe Bon Meihy. Quem traduz o pensamento do filósofo Valentim é Regiane Augusto de Mattos. Na sua visão, Valentim é um intelectual feito no mundo colonial, herdeiro de uma tradição cultural africana, formado pela cultura católica beneditina.

Na obra aparece o professor Itamar Aguiar que descreve o pensamento do costa marfinense Paulim Jidenu. “Aguiar tem a felicidade de fazer uma bela radiografia da trajetória e interesses intelectuais de Jidenu”. Trata-se de “um filósofo influente que abriu várias linhas de investigação, incontornável quando o assunto é história da filosofia africana contemporânea” ´ressalta Nogueira.

Do nigeriano Soynka, o autor do prefácio cita seu livro “O Leão e a Jóia”. Para ele, é um trabalho onde a modernidade e a tradição disputam protagonismo na África do presente. Quem fala da literatura de Soynka é Divanize Carbonieri.

Sobre Antônio Emílio Leite Couto, Mia Couto, muito conhecido no mercado literário de língua portuguesa, Tânia Macedo abre seu texto tecendo comentários sobre uma entrevista dado pelo intelectual moçambicano onde declara que deixou a militância política para continuar fazendo política através da sua escrita.

Quem também passou a fazer militância política através da literatura foi o angolano Uanhenga Xitu. Quem se debruça sobre ele no livro é Washington Nascimento. Xitu esteve ligado às missões cristãs, inicialmente ligadas à Igreja Católica, e depois acolhido por grupos protestantes. O intelectual chegou a ser membro do Movimento Popular de Libertação de Angola.

O historiador Silvio de Almeida Carvalho Filho escreveu sobre o escritor angolano Artur Carlos Maurício dos Santos, conhecido como Pepetela. O capítulo escrito por Amilton Azevedo apresenta Fela Kuti, um dos grandes nomes da cena musical mundial, “uma reinvenção da África imersa no contexto daquilo que passou a ser chamado de renascimento africano”

Amílcar Cabral, de Guiné-Bissau, foi uma figura marcante no processo político de descolonização africana. Fábio Baqueiro deixa explícito que Cabral, apesar de ter vivido pouco (assassinado aos 48 anos), foi um ativista e líder político que influenciou todo o continente.

Muryatan Barbosa escreve sobre Frantz Fanon, que viveu apenas 36 anos, mas que foi um divisor de águas para os estudos pós-coloniais, segundo Renato Nogueira. Fanon foi um pensador muito lido pelo Movimento Negro no Brasil, nos anos 70.

E, finalmente, José Rivair Mecedo, apresenta o camaronês Achile Mbembe, um dos maiores intelectuais públicos do mundo contemporâneo. “Este livro cumpre o papel de provocar com a devida qualidade, mobilizando leitoras e leitores para descolonizar a África, abandonar ficções míticas sobre o continente, injetando em nossos corações e mentes, doses largas de elementos críticos para releitura da realidade” – finaliza Nogueira.

 

 

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (Final)

A COMUNIDADE DE REMANSO

Os autores acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar consideram a obra como um ensaio antropopoético e identificam o povoado de Remanso, em Lençóis, não como um quilombo, mas como uma comunidade de Jarê, com duplo pertencimento religioso católico e do candomblé orixá caboclo indígena-afrodescendente.

Trata-se de um grupo com profundas marcas, vistas como tribais, envolta na ambiência cultural das Lavras Diamantinas, miscigenada, com suas crenças, símbolos e rituais peculiares.

Narram os escritores e professores, que Remanso nasceu de uma propriedade localizada às margens esquerdada dos Marimbus, no município de Andaraí, na primeira metade do século XX. Essas terras pertenciam e ainda pertencem a membros da família Gondim que consentiu a instalação de um grupo negro de etnia angolana, isto a julgar pela quantidade de vocabulário banto. Eles nasceram nas Lavras Diamantinas.

A comunidade, conforme pesquisadores, foi fundada em 1920, habitada por aproximadamente 350 pessoas. As habitações eram simples choupanas feitas com paredes de barro (sopapo) e cobertas com folhas secas de palmeiras e tabuas. Esse quadro se modificou nos tempos atuais com o uso de paredes de tijolos de cerâmica, tetos de telhas, energia elétrica, água encanada e fogão a gás (antes era a lenha).

Os moradores de Remanso ainda praticam uma agricultura de subsistência (mandioca, feijão e milho), um pouco de pecuária e pesca. Esses produtos servem para o sustento das famílias, e a outra parte que sobra é vendida nas feiras. A área está localizada no Parque da Chamada Diamantina, criada em 1985, e é uma APA Marimbus Iraquara, fundada em 1993 por decreto estadual.

Ronaldo e Itamar chegaram a entrevistar o seu Anísio, de 83 anos, na data, sócio da Sociedade União dos Mineiros, nascida em 1930. Ele era filho de garimpeiro e informou que do outro lado do Marimbus (Andaraí) vivia um grupo de pessoas já organizado em comunidade, sob a liderança do negro “Manezim do Remanso”.

Disse seu Anísio que, do lado de cá, em Lençóis, existiu um terreiro de Jaré, cujo curador se chamava de “Manezim Bumba”. Lembra que, quando ainda menino, ia a mando do pai, à casa desse Manezim abrir “revista” e buscar remédios que ele fazia quando era procurado por garimpeiros que desconfiavam estar enfusados. ou seja, não conseguiam extrair pedras.

Seu Anísio confirmou que a casa de “Manezim Bumba” era um terreiro de Jarê onde existia festa todas as semanas, batia atabaques, tinha filhos de santo, abria revista, reza para mordida e espantar cobras do pasto e fazia remédios.

O pesquisador Gonçalves, em seu livro “Garimpo, Devoção e Festa”, em Lençóis, cita no capítulo Medicina, receitas usadas pela comunidade para curar doenças, como hortelã miúdo, das dores, Imburana, batata de purga, quebra pedra, capim lanceta, fedegoso, arruda do mato, raízes de caiçara e xiquexique, dom bernardo, dentre outras plantas. Destaca ainda a pele de sapo, usada para curar vários tipos de câncer.

Quando foi mesmo que a comunidade de Remanso mudou-se para o lugar onde se encontra hoje? Seu Anísio respondeu que foi em 1950, acreditando ter sido por causa do terreiro de seu “Manezim Bumba”, e para ficar mais perto de Lençóis. Afirmou que a comunidade vivia mesmo da pescaria e das roças que plantava. Também, muitos trabalhavam no garimpo, inclusive o Manezim, como o do Calderão, e o de  Cabaá – nome popular porque quando aprendia a ler sempre colocava o polegar na letra “A” que, com o tempo, se apagou.

Seu Anísio chegou a ser presidente da Sociedade União dos Mineiros por várias vezes quando trabalhava por conta própria no garimpo. Ela foi fundada em 1920 quando a Sociedade de Socorros Mútuos foi extinta. O velho Anísio informou que umas das atividades da Sociedade era organizar a festa em louvor a Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, cuja imagem chegou em 1855, trazida do Rio São José.

“Então o coronel Filisberto Sá reuniu os garimpeiros mais fortes, pegaram Nossa Senhora do Rosário, que é a padroeira da cidade (para as autoridades eclesiásticas é Nossa Senhora da Conceição), fizeram uma procissão e foram pegar Bom Jesus dos Passos lá no porto.  Tempos depois uns portugueses doaram um terreno onde foi construída uma igreja. Daí nasceu a relação entre Senhor dos Passos e os garimpeiros”.

Contam Itamar e Ronaldo que, no ano de 2014, o pároco da cidade entrou em desentendimento com os filiados da Sociedade União dos Mineiros, boa parte da população e o poder público municipal. O sacerdote julgou que a Sociedade não tinha o direito de participar da organização da festa, tentando modificar uma tradição centenária. Foi um embate jurídico movido pelo advogado Alexandre Aguiar onde a comunidade saiu vitoriosa. As pessoas de Remanso sempre participavam da festa com reis e marujadas.

O Hino dos Garimpeiros foi trazido de Mato Grosso por Samuel Salles, avô do cineasta Orlando Senna, segundo seu Anísio, que também apontou o nome do sr. Isaias Malaquias da Ressurreição, um grande comprador de diamantes. De acordo com os autores do livro, a letra do hino foi feita por Sá de Carvalho, com música composta por J. Toledo, de Uberlândia. A canção foi executada pela primeira vez em 1º de fevereiro de 1927, na Festa do Senhor dos Passos, e reconhecida pela Prefeitura como hino municipal, em 2010. Quanto ao hino de Senhor dos Passos, foi elaborado por Dilson Cunha, em 1954.

A comunidade se localiza à margem direita dos Marimbus, formado pelo encontro das águas dos rios Utinga, Santo Antônio e seus afluentes. Esses rios desembocam na margem esquerda do Rio Paraguaçu. O povoado é circundado por uma grande mata secundária, fronteirizada pelos Marimbus e pelos rios Roncador e São José, afluentes da margem direita do Santo Antônio.

O Remanso dista 18 quilômetros da cidade de Lençóis e se constitui no que se pode chamar de comunidade afrodescendente, num sistema tribal.  Entre os personagens do povoado, os autores da obra citam Nusenço, Aurino (músicos) e Salvador do Remanso, ator de cinema, cantador de chula, rezeiro e marujo, um típico Griô.

Existe ainda a Associação dos Pescadores de Remanso, criada em 1959, e registrada em cartório de Lençóis em 1969, sob orientação de Paulo da Silveira, que nos anos 70 foi eleito prefeito. Os moradores da cidade ainda participam da festa em louvor a São Francisco de Assis e Divino Espírito Santo, em Andaraí. Também frequentam terreiros de Jarê.

“ A julgar pelos ritos religiosos, Remanso seria uma comunidade católica semelhante a inúmeras outras existentes no sertão brasileiro, levando em conta a descrição dos aspectos físicos da comunidade. O que solta aos olhos são os símbolos do catolicismo”.

Remanso fica dentro da Área de Proteção Ambiental dos Marimbus Iraquara, na junção dos rios Utinga e Santo Antônio, onde existe uma grande variedade de peixes, como a piranha, a traíra, piaba, crumatá, tucunaré, apanhari, o martim pescador, dentre outros, sem contar os animais silvestres, como o quati, veado e tatu. Além da pesca, a comunidade também extrai mel de jataí, mandaçaia, uruçu, tubi, arapuá e italiana.

 

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (v)

O JARÊ, O GARIMPEIRO E OS DIAMANTES EM LENÇÓIS

“O Jarê é uma religião de base angolana, bastante influenciada pela cultura jeje e com muitas faces das aquisições que compõem as encantarias, entre as quais destacamos a caboclarização dos orixás” – ressaltam os autores da obra, Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, que descrevem a formação histórica do município de Lençóis, que contou com a colaboração cultural do garimpeiro, a grande maioria vinda das Minas Gerais.

Na introdução desse capítulo, os acadêmicos dão ao leitor uma visão político-administrativa sobre o município de Lençóis, antes pertencente a Mucugê (Santa Isabel do Paraguaçu), tornando-se cidade em 20 de maio de 1864, e comarca das Lavras Diamantinas até 31 de dezembro de 1937.

Em seguida, citam os nomes dos intendentes e prefeitos, inclusive do famoso coronel Horácio Queiroz de Mattos, dentre outros que contribuíram para o desenvolvimento socioeconômico do município, hoje uma referência no turismo, tanto no âmbito nacional, como internacional.

Falam da grande presença dos católicos na formação religiosa da população, assinalando, no entanto, que muitos também eram adeptos do Jarê, incorporando orixás, caboclos e encantados. Essas pessoas sempre evitaram declarar dupla pertença religiosa.

Por outro lado, conforme pesquisadores figurados no livro, existia também essa dupla pertença do povo de santo ao catolicismo e ao culto dos orixás, responsável pelo sincretismo afro-brasileiro. Segundo os professores, esse referencial procede, pois “na realidade é uma composição de crenças tribais africanas, que se dividem em nações, que indicam a procedência do culto e o tipo de deus que o rege” (Epega, p. 160).

Ao localizar a área onde o Jarê viceja, Ronaldo e Itamar observam que ela foi constituída por brasileiros vindos de diversos lugares, como Minas Gerais, principalmente da região do Grão Mongol, e da cidade de Diamantina, como também do Vale do São Francisco e da Zona do Recôncavo. Contou ainda com a presença de estrangeiros árabes, judeus, franceses e africanos.

Na comparação com a agricultura e a pecuária, mais ou menos de previsibilidades, os autores dizem que a garimpagem de gemas orienta-se, na realidade, por regras do jogo, sendo o próprio garimpo um jogo. Mais adiante falam sobre a prospecção e o comércio.

Nesse quadro tem o dono da serra (proprietário de um trecho de terra), o dono do garimpo que arrenda a área por uma quantia fixa anual, ou faz um acordo com o dono da serra pela subdivisão do quinto, e o capangueiro, que é um tipo de comprador. Existe ainda o chamado meia-praça, a parte dividida entre o garimpeiro e o fornecedor (o empresário).

Itamar e Ronaldo detalham o papel de cada um dentro da garimpagem, e afirmam que o garimpo pode ser classificado como seco ou molhado, isto é, aquele em que os garimpeiros têm de deslocar água até o seco. No caso dos molhados, são garimpos de grunas de olhos d´água, ou leitos dos rios.

Existem também os garimpos equipados com infraestrutura de tanques. Neles ocorrem várias formas de pagamento e relações entre as partes, terminando no lapidário que transforma a pedra num brilhante, o qual é revendido a outros comerciantes, como ourives e joalheiros.

Quanto a decadência, descrevem que esta fase motivou o comportamento de não pagar o quinto, sob alegação de não ser roubo. Houve também a época de pagamentos de diárias por donos de garimpo e garimpeiros, relação que dispensa o fornecedor. Isso era muito usado nos tempos da florescência (corrida do diamante).

“O passado é uma referência constante; o presente, um lamento impregnado do sentido de perda; e o futuro, algo difuso, confuso, ausente como projeto, fugidio” – assinalam os autores do livro, fazendo pontuação sobre as lutas políticas dos coronéis e jagunços, durante a República Velha.

 

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (IV)

A GARIMPAGEM E A CULTURA DIAMANTINA NA BAHIA

Nesse capítulo, os autores e acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar e Aguiar falam da Chapada Diamantina como polo produtor e comercial das pedras, atraindo indivíduos de etnias e culturas diferentes. Essa cultura garimpeira, como já foi dito, prosperou mais em Mucugê, Andaraí, Lençóis, Iraquara e Palmeiras onde foram criadas as áreas de proteção ambiental, o Parque Nacional da Chapada e a APA Marimbus Iraquara.

Os autores citam no livro que os pesquisadores alemães Spix e Martius percorreram o interior da Bahia, entre os anos de 1817 e 1820, indo de Malhada de Pedras à capital. Os estrangeiros descreveram os aspectos do solo e as atividades agrícola, pecuária e a mineração, além dos costumes e hábitos dessa gente. Na Villa do Rio de Contas encontraram semelhanças com a região do Tijuco (Diamantina) Minas Gerais.

Como em Minas Gerais, também se verificou a presença do diamante no cascalho aurífero, caso de Rio de Contas. Na obra “Remanso”, ainda são citados os pesquisadores e estudiosos da região, como o engenheiro Teodoro Sampaio e o escritor Afrânio Peixoto.

O primeiro percorreu o Vale do São Francisco e da Chapada pelos anos de 1979 a 1980, tendo visitado Mucugê (Santa Isabel do Paraguaçu) onde teve início a garimpagem do diamante, predominando a etnia mestiça. A Serra do Sincorá foi onde se encontrou grandes quilatagens das gemas (Andaraí, Mucugê, Lençóis, Palmeiras e a Villa de Xiquexique-Igatu).

Os autores constataram em seus trabalhos, que o ciclo do ouro (um século) foi bem mais longo que do diamante (um quarto de século). Em Lençóis, a decadência foi extrema, não se encontrando diamantes de mais de uma oitava, mas os carbonatos (utilizados na indústria de perfuração de túneis) eram mais abundantes.

O segundo indicado no livro foi o romancista e escritor de Lençóis, Júlio de Afrânio Peixoto (1876-1947), membro da Academia Brasileira de Letras, com vários livros que falam da Chapada, narrando costumes e hábitos do povo.  A obra “Bugrinha”, inclusive, serviu de argumento para o roteiro de “Diamante Bruto”, do diretor Orlando Senna, em 1977, filmado em Lençóis.

De acordo com os acadêmicos, a cultura garimpeira se organizou através da economia do diamante e do carbonato. Itamar e Ronaldo descrevem sobre a consciência mineral da magia, com seus mitos, códigos e mitemas, apontando os aspectos folclóricos das festas populares (sacerdotes, brincantes e músicos). A população do município acompanha com fervor a dois principais calendários, de 20 de dezembro a seis de janeiro (reisados) e o 2 de fevereiro, que é a festa do Senhor Bom Jesus dos Passos.

Esses eventos sempre tiveram uma grande participação dos garimpeiros, moradores do município e de vizinhanças da Chapada. Dois hinos neste calendário, o dos garimpeiros e do Senhor dos Passos são citados no livro. “No mês de abril, também era comum alguns terreiros realizarem toques para os caboclos de pena, em função da data do descobrimento do Brasil. Nestes dias, rendem-se homenagens aos índios”.

“Nos dias 7, 17 e 27 de setembro soam os tambores de pau cavalo, herança dos atabaques de feituras dos candomblés nagôs… Os tambores de homens livres ecoam dos quatro cantos da cidade, em louvor aos santos Cosme e Damião. No mês de outubro, algumas casas de Jarê batem atabaques para os meninos, os Êres”.

“Os anos 70 foram uma década importante para o processo de mudanças culturais na cidade, uma vez que nela registra-se a criação da Casa de Cultura Afrânio Peixoto. A cidade foi tombada e transformada em Monumento Histórico, Artístico e Cultural Nacional”. Ainda nesta década aconteceu a filmagem de “Diamante Bruto” e tiveram início as primeiras medidas para a criação do Parque Nacional da Chapada (1985).





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