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:: ‘Encontro Com os Livros’

“DESUMANIZADOS”

Um romance com um misto de crônica da vida cotidiana de Nelson Rodrigues, que descreve personagens com seus variados dilemas filosóficos e existenciais. Essas pessoas se encontravam num ônibus, cujo motorista (um dos personagens) perdeu o controle do veículo e bateu num muro de concreto, provocando sete mortes e outros feridos.

O livro “Desumanizados”, do conquistense Gledinélio Silva Santos – Nélio Silzantov – licenciado em Filosofia pela UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e mestre em Estudos de Literatura pela Universidade Federal de São Carlos, é um rasgo de puro realismo sobre as mazelas do ser humano e da nossa sociedade com seus baús fedorentos de hipocrisia e moralismos.

Nélio não poupa os nossos políticos com suas ambições fraudulentas de enganar os outros, e vai até as entranhas de seus personagens, deixando expostos seus problemas, manias e angústias. Em suas 186 páginas, o autor desbrava correntes de pensamentos de muitos filósofos, como Sartre, Heidegger e Schopenhauer.

A obra romanesca e cronística faz uma reflexão sobre o homem e o sentido da vida, num alinhamento com Clarice Lispector e José Saramago. O escritor usa termos fortes e até em tom de desabafo para descrever o papel da Igreja, ou da religião, e o que as pessoas pensam de Deus. Em seus textos usa muitas imagens poéticas, impressionistas, surrealistas e abstratas.

Seus personagens são uma explosão de erotismo, ternura em algumas passagens, maldades e violência como fruto de um sistema perverso e cruel em que vivemos. É um retrato da luta pela vida, o estrange for live, onde só os mais fortes sobrevivem.

Digo que “Desumanizados” deve ser lido porque tem uma linguagem aberta e escancarada, sem subterfúgios, e lhe faz pensar sobre o seu eu e o das pessoas que lhe cercam, como elas agem, muitas vezes lobos em peles de cordeiros. A obra tem como cenário Vitória da Conquista, e é todo focado no ônibus coletivo da linha R19A.

Nélio não tem rodeios e emprega termos fortes, mas realistas sobre cada um de seus personagens vilões e vítimas dessa sociedade. Por isso, é também um livro sociológico que mexe com o eu psicológico da cada um. É, antes de tudo, um trabalho de reflexão, sem medo de vomitar as nossas sujeiras e até de bons atos.

Me atrevo a citar aqui poucos nomes fictícios de seus personagens e trechos que impactam o leitor, que pode fazer seu julgamento pessimista do autor sobre a vida, ou encará-lo como realista. Na abertura, por exemplo, Nélio assinala que “temos tanto a aprender sobre os grandes mistérios, e a sede é tamanha para aliviarmos a angústia, que atropelamos as pequenas coisas sem nenhuma atenção”.

As frases de impacto do narrador Sebastião, na terceira pessoa, são fortes sobre seus personagens, como “… o coração e a mente são insondáveis, feito a imensidão do universo… E quando tudo nos escapa ao toque, lamentamos não termos uma segunda chance”.

O narrador sempre está dialogando com seu amigo fiel Van Gogh. “Voltei a ser a sujeira varrida pra debaixo do tapete. A escória do mundo que envergonha a todos. Ceifadores da escória humana, é isso o que eles são. …pois matei toda aquela gente a sangue frio…”

Sobre o trágico acidente do coletivo R19A, ele começa descrevendo que onze pessoas foram retiradas do ônibus. Quatro morreram no local, e as demais foram levadas para o HGVC, mas houve sete perdas no total.

“A ligação entre duas pessoas segue a mesma lógica. Amores, amizade, desafetos, relações de todo tipo constituem-se cada um à sua maneira, e a mensura da intensidade e duração delas independem do tempo… Ao fim de tudo, o que importa é aquilo que fica, o que atingiu a plenitude da sua existência e fixou-se na eternidade”. Ele fala de duas almas, Dolores e Elizabete, no Orfanato Lar Santa Catarina de Sena que se unem e se separam e, depois de muitos anos, se reencontram.

O escritor não segue a linha do corretamente político em termos de palavras, como foder, filho da puta e outras do tipo que ainda até hoje são vistas como palavrões e recolhidas lá num canto do seu íntimo. “Dolores retraia-se o quanto podia, ocultando seu corpo dentro do uniforme… Em resumo, estava apaixonada”. Descreve Dolores hipnotizada pelo movimento dos lábios de Elizabete.

Nélio trata das opções sexuais de cada um de seus personagens, sem nenhum pudor, e critica os preconceitos homofóbicos e racistas. São temas atuais que sempre estamos nos debatendo no dia a dia. …”lábios macios e úmidos de quem amava tanto… Luxúria e fornicação são pecados abomináveis para o Senhor, diziam as freiras, alertando as garotas do Orfanato para não caírem em tentação, permitindo que o mal se apossasse de suas almas por meio delas. … o corpo inteiro inundado de pecado. Estava suja! Uma pecadora imunda, digna dos castigos mais severos”. Das lamentações bíblicas: “Vê Senhor, e considera a escória em que me tornei! Os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Dolores queria mesmo era se perder na Memória de Minhas Putas Tristes do Gabriel Garcia Marquez”.

“Os coroinhas são servos de Deus que adoram imitar o capeta”. Essa frase me lembra muito quando eu era sacristão e depois seminarista na década de 60. “O mundo é um purgatório carente de almas, e os corpos que transitam a esmo pertencem aos desalmados desse mundo. Eles vagueiam dia e noite, na certeza de que estão vivos”… “Nenhuma conquista é obtida sem a perda de algo. … A vida é um jogo de concessões…”

No final do livro, o narrador-escritor dá voz a um dos principais personagens, o motorista do ônibus de nome Marco que diz: “Foda-se o patrão e o emprego. …Colidir contra uma parede de concreto, ou alguma carreta vinda na direção contrária seria um favor a mim mesmo e a esses miseráveis, era o pensamento que não sai da sua cabeça. Camille deixou o semblante expressar uma espécie de desejo mórbido que dominou a todos naquela manhã”.

No Posfácio, o escritor abre o texto afirmando que “um corpo, enquanto vivo, carrega em si as marcas do tempo, das horas transformadas em dias repletos de alegria e dor. Ele fala da finitude, “quando o espírito abandona o corpo, o semblante de quem morre se modifica…. A morte exerce sobre os homens toda a sua impetuosidade”. “Um bando de hipócritas é o que são todos eles”!

Em tom poético, destaca que “a brisa que agora percorre as ruas desertas, tocando levemente os ciprestes nos jardins, anuncia o inverno que vem chegando. Labaredas de fogo lambem a noite. Metamorfose de um tempo que conclui o seu ciclo de início, meio e fim”. … “Sempre soube o que você tentou me dizer, velho Van Gogh, com olhos de quem conhece a escuridão da minha alma”.

“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” – (Final)

A PUNIÇÃO POR SER PRISIONEIRO

“A NKVD prendeu meu marido e me diziam que ele era um traidor. Eu tinha trabalhado na resistência com meu marido. Era um homem corajoso e honesto. Tinham feito uma denúncia contra ele. Uma calúnia. Fui falar com o investigador e mandou que calasse a boca, me chamando de prostituta francesa. As pessoas que viveram a ocupação foram presas e levadas para Alemanha, num campo de concentração fascista. Todas eram suspeitas. Até os mortos eram vistos como suspeitos”.

De outra entrevistada do livro “A Guerra não Tem Rosto de Mulher”, da escritora russa Svetlana: “ O povo venceu e Stalin não confiava no povo. Foi assim que a pátria nos agradeceu. Por nosso amor, por nosso sangue. Meu marido voltou da guerra inválido. Estava envelhecido. Meu filho estava acostumado a pensar que o pai era branquinho, bonito, e veio um homem velho e doente”.

“Em 1931 me tornei a primeira mulher maquinista. Todo mundo se juntava nas estações para olhar a mulher maquinista. Quando começou a guerra pedimos para ir para o front. Meu marido era maquinista-chefe e eu maquinista. Passamos quatro anos viajando em um vagão, e nosso filho conosco. Sofremos vários bombardeios”.

“Meu marido tinha passado por vários países, tinha condecorações, mas estava com medo. Já tinha sido interrogado por ter sido prisioneiro, e sua obrigação era ter se matado com um tiro, mas não tinha mais cartuchos. O comissário partiu a própria cabeça com uma pedra diante dos olhos dele. Não tínhamos prisioneiros, tínhamos traidores”. Foi o que disse o camarada Stalin. Ele renegou o próprio filho que foi capturado. Os investigadores diziam: Por que ficou vivo?

“Eu e meu filho passamos quatro anos esperando que ele voltasse da guerra, e depois da Vitória mais sete do campo de trabalho. Aprendi a me calar. Não confiavam em mim nem para limpar o chão. Agora podemos falar de tudo. Nos primeiros meses da guerra, milhões de soldados e oficiais foram feitos prisioneiros. De quem é a culpa? Quem decapitou o exército antes da guerra, quem fuzilou e caluniou os comandantes vermelhos, como espiões dos alemães e japoneses? Até hoje é terrível! Temos medo”.

Depois de aprender a odiar, era preciso amar de novo – destacou uma mulher que esteve no front e pisou em terras alemãs. “Acumulamos tanto ódio no peito. Tinha vontade de ver as esposas deles, as mães que tinham parido filhos como aqueles. Como eles iam olhar em nossos olhos? Tudo quanto os soldados tinham quando já estavam em terras alemãs dividiam um pedacinho com as crianças. Fui até a Alemanha… Desde de Moscou andando”.

“Cheguei à Alemanha, e entrei logo em combate. Como não me mandei do campo de batalha. Em terras alemãs, conta uma tenente enfermeira que viu um cartaz com os dizeres: “Ai está ela, a maldita Alemanha.  Goebbels tinha convencido a todos que, quando os russos chegassem, iriam cortar, trucidar e matar. Nas casas, todos estavam mortos. As crianças jaziam mortas”.

As pessoas culpavam Hitler pela guerra – assinala uma combatente, mas a tenente respondeu para uma senhora que ele não decidia sozinho. Foram seus filhos e maridos. Segundo outra entrevistada, “você não imagina os caminhos da vitória! Andavam os presos recém-libertos, com carretas, trouxas, bandeiras nacionais. Russos, poloneses, franceses, techecos… todos se misturavam, cada um ia para o seu lado. Todos nos abraçavam. Beijavam…”

“Encontrei jovens russas e uma delas estava grávida. Tinha sido estuprada pelo patrão do lugar onde trabalhava. Ela andava e chorava, batia na barriga: Não vou levar um fritz para casa. As outras tentavam convencê-la, mas ela se enforcou, junto com o pequeno fritz”.

Uma sargento narra que um dos oficiais russos se apaixonou por uma grota alemã. A notícia chegou aos superiores. Ele foi degredado e mandado para a retaguarda. Se tivesse estuprado… É a lei da guerra. Os homens ficam tantos anos sem mulher e, claro, havia o ódio.

“Eu me lembro de uma alemã estuprada. Ela estava deitada nua, com uma granada enfiada no meio das pernas… Cinco jovens alemãs vieram falar com o nosso comandante. Elas tinham feridas lá… Todas as calcinhas ensanguentadas. Tinham sido estupradas por toda noite. Os soldados faziam filas…Disseram para as garotas: Vão lá e procurem, se vocês reconhecerem alguém, fuzilamos na hora. Temos vergonha! Mas elas entraram e choraram. Não queriam mais sangue”.

“Nos mostraram o campo de Auschwitz… As montanhas de roupa feminina, de sapatinhos infantis…As cinzas acinzentadas… Levaram-nas para o campo, para servir de adubo para o repolho… Para a alface…”

Uma operadora de artilharia cita que um dos seus soldados estava bêbado, pois quanto mais perto estava a vitória, mais bebiam. Nas casas e nos porões sempre se achava vinho. “Ele pegou o fuzil e correu para uma casa alemã. Descarregou toda munição. Ninguém teve tempo de ir atrás dele. Corremos, mas dentro da casa todos já estavam mortos. Deixem que eu mesmo me dou um tiro. Foi preso e julgado: Fuzilamento”.

Sobre antes da guerra, uma testemunha revela que estava no teatro quando começou umas salvas de palmas. “No camarote do governo estava Stalin. Meu pai estava preso, meu irmão no campo de trabalhos forçados e, apesar disso, senti entusiasmo que dos meus olhos jorraram lágrimas. Aplaudiram de pé por dez minutos”.

“E fui para a guerra, e lá escutava as conversas de voz baixa. Milhares desapareceram! Milhões de pessoas. Para onde foram? Como Stalin organizou uma onda de fome, eles mesmo chamavam de Holodomor. Mães enlouquecidas comiam os próprios filhos. As conversas não eram em grupos, sempre entre duas pessoas. Três é demais, o terceiro te denuncia.

No final, o livro descreve como foi o terror ao cerco em Stalingrado entre 1941 e 42 quando muitos morreram de fome e pela artilharia pesada dos alemães. A reação do povo russo foi fundamental para que as tropas de Hitler recuassem. São cenas terríveis e chocantes contadas por testemunhas mulheres que lutaram  durante a II Guerra Mundial.

 

“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” – (Parte III)

TORTURAS E EM TERRAS ALEMÃS RUMO À VITÓRIA

As mulheres russas prisioneiras que lutaram na II Guerra Mundial contam como foram torturadas pelos alemães, e o que viram quando atravessaram a fronteira da Alemanha em direção a Berlim, em 1945, no livro “A Guerra não Tem Rosto de Mulher”, da escritora Svetlana Aleksiévitch.

Recomendo sua leitura por se tratar de uma obra inédita que mostra a atuação das mulheres durante a Grande Guerra.  Esse livro e outros, como “O Fim do Homem Soviético”, lhe renderam o prêmio Nobel de Literatura de 2015.

“Chegamos na primeira frente Bielorrúsia… Vinte e sete garotas… O sentido geral era que as meninas fossem comoventes como rosas de maio, que a guerra não mutilasse suas almas. De acordo com um depoimento colhida em entrevista, “antes não tínhamos tido tempo nem de dar um beijo. Encarávamos essas coisas com mais severidade que nos tempos de hoje”.

“Beijar alguém, para nós, era se apaixonar por toda vida”. A testemunha conta que o amor no front era proibido. Se o comandante soubesse, via de regra, separava os casais e transferia para outras unidades. Mesmo assim, elas se ariscavam e se apaixonavam. “Eu era esposa de campo e campanha. Esposa de guerra. Quem não falou disso foi por vergonha. Ficaram caladas”.

Para os homens numa guerra é difícil passar quatro anos sem uma mulher. “No nosso exército não havia bordeis, nem pílulas. Só os comandantes podiam se permitir a algo, mas os soldados, não”. “Eu o amava. Ia com ele para a batalha, mas ele tinha uma mulher que amava, dois filhos. Sabia que ele não seria feliz sem mim. No fim da guerra eu engravidei. Criei nossa filha sozinha. Ele não me ajudou. Acabou a guerra. Acabou o amor. Deixou uma foto de lembrança e não queria que a guerra acabasse”.

“Eu o amei por toda vida. Já estou velha e não me arrependo” – de uma enfermeira instrutora. De outra, “eu não queria juntar amor com aquilo. Naquelas circunstâncias, o amor morreria num instante. Sem triunfo, sem beleza, como pode haver amor”?

Sobre a solidão de uma bala e de uma pessoa: “A bala é uma só. O ser humano é um só. A bala voa para onde quiser. O destino manipula uma pessoa para onde quiser. Não nos é permitido penetrar no mistério. Gritaram para nós, Vitória! Lembro do primeiro sentimento de alegria e também medo e pânico. Sobramos mamãe e eu, duas mulheres. Antes tínhamos medo da morte, e agora da vida. Era igualmente assustador”. Depois da guerra gritavam para nós: “Sabemos o que vocês faziam lá. Seduziam nossos homens. Putas do front, Cadelas militares. Nos ofendiam de várias maneiras. Eu precisava aprender ser carinhosa. Meus pés se alargaram de tanto usar botas. Na guerra não há cheiros femininos, são todos masculinos. A guerra tem cheiro de homem”.

“Hitler, depois de Napoleão, reclamava com seus generais que a Rússia não segue as regras de combate. Até hoje tenho nos ouvidos o grito de uma criança quando foi atirada dentro de um poço”. Essa é uma referência aos alemães. “Ver um rapaz jovem ser esquartejado por uma serra. Um partisan dos nossos”.

“A Gestapo prendeu minha mãe. Foi torturada e interrogada. Ficou dois anos lá. Os fascistas mandavam minha mãe e outras mulheres na frente quando saíam para as operações. Víamos umas mulheres andando e atrás delas os alemães. Em 1943, os fascistas fuzilaram minha mãe. Em vez de morrer por nada, é melhor morrer, mas não por nada”. Ela (sua mãe) usava um lencinho branco. “Eu atirava para o lado de onde ela estava vindo”.

Sobre os massacres nas aldeias, uma testemunha contou como eles tinham sido fuzilados. Enquanto eram levados para o galpão, mataram as crianças. “O fascista sinalizava: Jogue para cima, vou atirar. A mãe jogou a criança de forma que ela mesma a matasse, para que o alemão não tivesse tempo de atirar.

“Os feridos se alimentavam de colheradas de sal. O que seria de nós sem a população? Éramos um exército inteiro na floresta, mas sem eles teríamos morrido. Eles semeavam, lavravam a terra quando não havia tiros. As pessoas estavam apodrecendo em vida, morrendo de fome. Tinham comido todas as folhas das árvores”.

“Sempre acreditei em Stalin… Acreditei nos comunistas… Eu mesma era comunista. Vivia por ele. Depois do discurso de Khruschóv no XX Congresso, em que ele contou os erros de Stalin, adoeci, cai de cama. Não conseguia acreditar que era verdade”.

“Lutei dois anos na resistência. Perdi as pernas. Fui salva ali mesmo na floresta. A operação foi feita nas condições mais primitivas. Me puseram na mesa de operações, e não tinha nem iodo. Serraram minhas pernas com uma serra simples, sem anestesia”.

Sobre as torturas, uma prisioneira narra que nos interrogatórios da Gestapo, todo dia esperava que a porta se abrisse  e entrassem seus parentes. “Eu sabia onde tinha ido parar, e estava feliz porque não traíra ninguém. Mais do que morrer, tínhamos medo de trair. Só quando tudo acabava e me arrastavam para a cela é que eu começava a sentir dor, e aparecia a ferida. Eu virava uma grande ferida. Batiam em mim, me penduravam, sempre completamente nua. Elas estavam morrendo nos porões da Gestapo. Era um inferno! A minha vontade de viver me salvou”.

A escritora cita a história de uma mulher que decidiu ir para a resistência com a filha e lá, como mensageira, tinha que levar uma máquina de escrever. Mesmo em perigo, em meio ao tiroteio, ela levava a criança e não soltava a máquina. Nem todos os homens conseguiriam fazer isso. O comandante ficou estupefato com aquilo. Quando saímos do cerco, estava coberta de furúnculos, a pele caiando.

“Quando me levaram para a prisão, me chutaram com botas, me açoitavam com chicotes. Aprendi o que era manicure dos fascistas. Colocavam sua mão sobre uma mesa, e uma espécie de máquina espetava agulhas debaixo de suas unhas. É uma dor infernal. Você perde a consciência na hora. Você escuta seus ossos estalando e se deslocando”.

“Fui condenada à pena de morte com outras 20 garotas. Nos arrastaram para uns barracões e lá tinha uma mulher dando de mamar ao bebê. O comandante tirou a criança dos braços da mãe. Tinha uma bica de água, e ele ficou batendo a criança contra o ferro. O cérebro começou a escorrer”.

“Em 1945 me mandaram para os trabalhos forçados dos fascistas. Fui parar no campo de concentração de Croisette, na margem do canal da Mancha. No Dia da Comuna de Paris, os franceses organizaram uma fuga. Sai e me juntei aos maquis”.

“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” (Parte II)

O AMOR NA GUERRA, AS TORTURAS E OS ESTUPROS

Os depoimentos em forma de entrevistas com as mulheres que lutaram durante a II Guerra Mundial – a Guerra Patriótica para os russos – são chocantes, e num dos capítulos do livro “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, a escritora Svetlana Aleksiévitch, fala da guerra e do amor, com impressionantes histórias que mais parecem filmes de ficção.

Em outras passagens, ela relata testemunhas que foram torturadas pela Gestapo de Hitler, dos prisioneiros russos que eram considerados como traidores por Stalin, e terminavam em campos de trabalhos forçados. Em terras alemãs, a caminho da vitória final, o ódio se mistura com a compaixão. Os estupros contra as mulheres foram inevitáveis dos dois lados, com a justificativa de que os soldados passavam muito tempo sem sexo, numa guerra de muitas atrocidades.

“O amor é o único acontecimento pessoal da guerra. Todo o resto é coletivo – até a morte” – ressalta a escritora em sua obra. Conta que, para sua surpresa, as mulheres que participaram da guerra falassem de forma menos franca do que sobre a morte. “Elas se defendiam das ofensas e das calúnias”.

De uma testemunha, “a guerra tirou o meu amor de mim… meu único amor”. Em terras alemãs, em algum povoado, ela conta que viu duas alemãs sentadas no pátio, com suas toquinhas, bebendo café, como se não estivesse acontecendo guerra nenhuma. Pensei: “Meu Deus, do nosso lado está tudo em ruínas, nossa gente está vivendo debaixo da terra, comendo grama…”

“Saídos, não sei de onde, dois prisioneiros alemães se aproximaram de nós e começaram a pedir para comer. Pegamos uma bisnaga de pão, partimos e demos a eles. Um dos nossos soldados comentou: Veja quanto pão as médicas deram para o nosso inimigo. Será que elas sabem o que é a guerra de verdade, ficam só nos hospitais de onde vieram. Depois, eles mesmos temperaram o mingau com sal e deram para eles em latas de conserva.  Esta é a alma do soldado russo”.

Depois de se alistar e tirar sua carteirinha de militar, uma capitã médica contou que ela e seu marido foram juntos para o front. Tinham saído em grupo para uma prospecção. “Esperamos dois dias… Eu não dormi por dois dias… Então cochilei… Acordei com ele sentado ao meu lado, olhando para mim. Durma. Fico com pena de dormir.”

“Estávamos atravessando a Prússia Oriental, e todos já estavam falando em vitória. Ele morreu por estilhaços. Eu o abracei e não deixei que o levassem para enterrar. Na guerra faziam os enterros logo em seguida. Às vezes só com areia seca que sacudia e se movia. Para mim, ainda havia gente viva”. Ela, então, lutou para que ele não fosse enterrado ali. Queria ter ainda uma noite deitada ao seu lado.

“De manhã, decidi que o levaria para casa. Todos achavam que eu tinha ficado louca de tanta dor. A testemunha narra que foi de um general a outro para que o corpo do seu marido fosse levado para sua terra natal. Assim, terminou chegando ao comandante. Ela implorou e, se fosse possível ficaria de joelhos. De tanto insistir, deram um avião especial por uma noite, para que seu marido fosse enterrado a milhares de quilômetros de distância.

Em outro caso, a escritora entrevistou uma sargento fuzileira que foi obrigada a se separar do marido durante a guerra. Ela foi para um front e ele para outro. Ela, então, passou a procurá-lo sem parar em todos lugares. “Estava determinada: “Se o encontrasse sem braços, sem pernas, inválido, eu o pegaria e levaria para casa imediatamente. Viveríamos de alguma forma”.

Quando começou a procurar o marido, ela não sabia nem o que era um front. Nisso, recebeu uma carta do marido, e fazia dois anos que não sabia nada dele. Em todos locais por onde chegava, ela pedia que a mandassem para onde estava seu marido, até que alguém o localizou. “Está louca, o lugar onde está seu marido é muito perigoso”.

“Fiquei sentada, chorando, e então ele se compadeceu e me deu uma autorização. Ele me pôs num carro e fui. Quando cheguei na unidade, todos se surpreenderam. Todos à minha volta eram militares”. Para conseguir, ela disse que era sua irmã. Andou seis quilômetros até chegar onde estava seu marido Fodossenko.

Ele estava na linha de frente, e um colega lhe avisou que sua irmã, uma ruiva, estava lhe procurando. Só que a irmã dele era morena. Mesmo assim, Fodossenko apareceu, “e então nos reencontramos”. Depois deram uma declaração que a esposa encontrou seu marido na trincheira, que é esposa legítima e tem documentos. Todos queriam ver que mulher era aquela tão destemida e corajosa.

“Vou me lembrar daquela noite pelo resto da minha vida. Me alistaram como auxiliar de enfermagem. Eu ia com ele nas missões de reconhecimento. Um morteiro atirava, eu via que ele tinha caído. Pensava: Está morto ou ferido. Corria para lá, o morteiro atirava, e o comandante dizia: Para onde está indo, mulher dos demônios? Me deram a Ordem do Estandarte Vermelho. No dia seguinte, meu marido foi ferido gravemente. Corríamos juntos, nos arrastávamos juntos. As metralhadoras atiravam, atiravam. Ele foi ferido por uma bala explosiva. Acompanhei meu marido até o hospital.

O médico se aproximou e disse que ele havia morrido. Respondi: “Quieto, ele ainda está vivo. Meu marido abriu os olhos e disse: O teto ficou azul. O vizinho de cama disse; “Fedossenko, se você sobreviver, deve carregar sua mulher nos braços”. “Não sei, talvez ele sentisse que estava morrendo, porque pegou minha mão, se inclinou e beijou. Como se beija pela última vez. Eu queria morrer, mas sob o coração carregava nosso filho, e só isso me fez aguentar…”

 

“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” – (Parte I)

Um livro que fala da guerra, mostrando um outro lado desconhecido, não das batalhas heroicas, das vitórias, das estratégias dos grandes generais e dos heróis. É uma obra de sacada jornalística da autora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, vencedora o Prêmio Nobel de Literatura de 2015, onde ela entrevista as mulheres russas que participaram da II Guerra Mundial.

Mesmo com a rejeição da editora (aqui no Brasil é da Companhia das Letras), a escritora se manteve em seu propósito de apresentar uma outra face praticamente nunca explorado numa guerra. Essa face é das mulheres com suas cargas de sentimentos, sofrimentos e garras nos campos de batalha. Ela entra também no âmago do ser humano existencial.

Em “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” estampa cenas e depoimentos chocantes das mulheres, todas jovens adolescentes entre dezesseis e vinte anos, que foram para a linha de frente e resistiram com bravura. Tem também o seu lado de ternura, de muitos choros e até de amor contido. É uma obra que encanta pela sua narração e passagens comoventes, num estilo jornalístico de entrevistas. São mulheres que se transformaram em homens.

“Passei três anos na guerra… E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita… Quando meu futuro marido me pediu em casamento… Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag… Ele disse: “A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo”. Eu queria chorar”.

É um dos trechos comoventes do livro, que a editora diz ser impressionante, de uma história pouco conhecida, contada com minucias pelas próprias personagens, incríveis soldadas soviéticas que lutaram com violência, mas sem perder a ternura. Trata-se de “um capítulo obscuro que agora ganha luz do dia e promete trazer novo entendimento sobre um dos eventos mais trágicos da história humana”.

Numa conversa entre a escritora e um historiador, este cita que no século IV a.C, em Atenas e em Esparta, havia mulheres lutando nas tropas gregas. Depois elas participaram das campanhas de Alexandre, o Grande. Segundo o historiador russo Nikolai Karamzin, as eslavas iam para a guerra com seus pais e maridos… no cerco a Constantinopla, em 626.

Na Inglaterra, nos anos de 1560 a 1650, começaram a se formar hospitais militares em que mulheres-soldados serviam. Na I Guerra Mundial, a Inglaterra já aceitava mulheres na Força Aérea Real. Na II Guerra, em muitos países, as mulheres serviam em todas as forças armadas. Nas tropas inglesas eram 225 mil, nas americanas, 450 mil e nas alemãs, 500 mil.

A obra traz narrações de mulheres que prendem o leitor do início ao fim dos depoimentos, como “eu era tão pequena quando fui para o front que, durante a guerra, até cresci um pouco”. “Para nós, a dor é uma arte. Quase do outro lado de lá… Não há por que enganar os outros e enganar a si mesmas”.

Do diário do livro, a escritora afirma que o ser humano é maior que a guerra. Ela mesma diz que não escreveu sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra, “Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos, Construo templos a partir de nossos sentimentos… De nossos desejos, decepções. Sonhos. Não se pode arrancar uma flor sem motivos”.

“Os homens se escondem atrás da história, dos fatos, a guerra os encanta como ação e oposição de ideias, diferentes interesses, mas as mulheres são envolvidas pelos sentimentos”. “A guerra delas tem cheiro, cor, o mundo detalhado da existência. E é ainda mais insuportável e angustiante matar, porque a mulher dá a vida”.

Svetlana ressalta em seu livro que “penso no sofrimento como o grau mais alto da informação, diretamente conectado ao mistério da vida. Toda a literatura russa fala disso. Nela se escreveu mais sobre o sofrimento do que sobre o amor. E é a respeito disso que mais me contam… – destaca.

Em uma de suas entrevistas, a autora ouviu de uma ucraniana a respeito da terrível fome: Já não encontravam nem sapos, nem ratos. Tinham comido tudo. Metade das pessoas do povoado dela tinha morrido. Da família, somente ela sobreviveu porque à noite roubava estrume de cavalo do estábulo do colcoz e comia. Melhor congelado, tem cheiro de feno. Quente não entra.

Para editar o livro, ela confessa que passou dois anos recebendo recusas das editoras. “Procuro pelo pequeno grande ser humano”. A escritora descreve sobre o que a censura cortou da sua obra, mas foi mantido na publicação. Narra sobre a conversa que teve com o censor.

Sobre a Grande Guerra, Svetlana fala de situações chocantes e até dos prisioneiros condenados a trabalhos forçados pelo regime sangrento de Stalin, como nesse trecho: “Quando fugiam do campo de trabalho, eles levavam um jovem para isso… A carne humana é comestível… Era assim que se salvavam…

Existia um decreto que dizia que os soldados soviéticos não se rendiam ao inimigo. Como disse o camarada Stalin, não temos prisioneiros, temos traidores. Os rapazes levaram a mão à pistola… O instrutor político ordenou que os jovens ficassem vivos, e ele mesmo se matou com um tiro. São revelações da autora do livro que deveria ficar de fora.

Em 1943, Svetlana narra de uma testemunha que, quando o exército estava avançando pela Bielorrússia, um menino apareceu de algum lugar gritando: Matem minha mãe… Ela amava um alemão. No começo, os alemães desfizeram os colcozes (cooperativas coletivas), deram as terras para as pessoas.

JOSÉ DE ALENCAR-SUCESSO DE PÚBLICO (Final)

UM ESCRITOR MUITO CRITICADO E POLÊMICO

Como vimos na coluna anterior, além de advogado e escritor romancista, José de Alencar foi também político como deputado e ministro da Justiça. No Rio de Janeiro, como advogado a partir de 1851, Alencar foi convidado pelo seu colega Francisco Otaviano a colaborar no jornal “Correio Mercantil” onde escreveu sobre diversos assuntos numa coluna intitulada “Ao Correr da Pena”.

Como jornalista estreou com sucesso em 1854, tanto que no ano seguinte torna-se redator-chefe do “Diário do Rio de Janeiro” onde publica seus folhetins de fatos variados. Em 1856, o poeta Domingos Gonçalves de Magalhães, que oficialmente lançou o romantismo no Brasil”, com o livro “Suspiros Poéticos e Saudades”, publica o poema “A Confederação dos Tamoios”, sem o consentimento do Imperador D. Pedro II.

CONTRA E A FAVOR

No “Diário do Rio de Janeiro”, Alencar faz uma série de críticas ao poema de Gonçalves, fazendo com que várias pessoas se manifestassem contra e a favor. Um dos defensores foi o próprio imperador com quem Alencar travou vários conflitos. Em 1856, o advogado e jornalista escreve “Biografia do Marquês de Paraná”, “A Constituinte Perante a História” e seu primeiro romance “Cinco Minutos”.

No ano seguinte começa a publicar “A Viuvinha” e logo depois o famoso “ O Guarani” que primeiro apareceu em folhetim no “Diário” e depois virou livro. Foi um total sucesso lido por boa parte do Rio de Janeiro. Os leitores logo se comoveram com os amores entre Ceci e Peri, envolvidos com os perigos dos bugres selvagens.

Em São Paulo os estudantes e demais interessados pela literatura ficavam na expectativa de receber o “Diário do Rio” para ler em voz alta os folhetins de “O Guarani”. O sucesso da obra levou Alencar a experimentar a área teatral e escreve a opereta “Noite de São João” e mais duas comédias “Verso e Reverso” e “O Demônio Familiar”.

Em 1858 ele tenta o drama com a peça “As Asas de um Anjo”, que é proibida pela censura por ser considerada imoral por ter como heroína uma prostituta. Em 1860 estreia o drama “A Mãe”. Logo depois segue para o Ceará onde tenta a carreira política do pai que havia falecido.

Naquele estado nordestino, candidata-se a deputado pelo Partido Conservador e é eleito, deixando um pouco à sua atividade literária. Em 1861 estreia na tribuna como parlamentar e, em 62, escreve “Lucíola”, bem como o primeiro volume “As Minas de Prata”.

No ano de 1864 casa-se com Ana Cochrane da mesma família do Almirante que foi herói da luta pela independência. Nesse mesmo ano, sai a edição de “Diva” e, em três meses, redige os cinco últimos volumes de “As Minas de Prata”. No ano seguinte faz “Iracema”, seu segundo maior sucesso, e no final de 1865 começa a publicação de “Cartas de Erasmo ao Imperador”.

Aos 39 anos de idade, em 1868, Alencar torna-se ministro da Justiça. No mesmo ano o “Correio Mercantil” publica uma carta de Alencar apresentando Castro Alves a Machado de Assis. Em 1869 candidata-se ao Senado e é eleito em primeiro lugar. Deixa o Ministério e retorna à Câmara para fazer oposição ao imperador, que veta seu nome ao Senado.

Sobre os conflitos entre esses dois personagens, Taunay escreve que D. Pedro teria dito ao político e romancista para ele não se apresentar ao Senado por ainda ser moço. Alencar teria respondido: “Por esta razão, Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal”. O veto do imperador encerra a carreira política do escritor.

Com 41 anos ele já se considera velho, mas tenta retomar a literatura, tanto que em 1870 publica “A Pata da Gazela” e o “Gaúcho”, com o pseudônimo de Sênio. Sobre as fortes críticas que recebe redige “Advertência Indispensável Contra Enredeiros e Maldizentes”, incluída no primeiro volume de “Guerra dos Mascates”, uma sátira à personalidade do Império.

Em 1871 publica “O Tronco do Ipê” e, em 72, “Til e Sonhos d´Ouro”. Ele sofre pesadas críticas, mas continua a escrever, tanto que em 1873 nasce “Guerra dos Mascates e Alfarrábios” que reúne: “O Garatuja”, que se passa no Rio colonial, e o “Ermitão da Glória” e “Alma de Lázaro”. No mesmo ano estreia a peça “O Jesuíta” que foi um fracasso de público. Em “O Globo”, Alencar critica a indiferença do público que, segundo ele, tem desinteresse pelo texto nacional.

No mesmo jornal, Joaquim Nabuco faz uma série de artigos sobre a obra de Alencar, criando uma longa polêmica entre os dois. Em 1874 escreve “Ubirajara”, o segundo volume de “Guerra dos Mascates” e “Ao Correr da Pena”. No ano seguinte aparecem “Senhora” e “O Sertanejo”, últimos livros de sua vida até o seu falecimento, em 12 de dezembro de 1877, aos 48 anos, deixando um grande legado para a literatura, sobretudo “O Guarani” que se tornou ópera de autoria de Carlos Gomes, que percorreu meio mundo.

JOSÉ DE ALENCAR – SUCESSO DE PÚBLICO (I)

Filho do ex-padre José Martiniano de Alencar, casado com a prima Ana Josefina, o escritor José de Alencar nasceu em 1º de março de 1829, em Mecajura – Ceará. Seu pai torna-se senador em 1832 e presidente da província do Ceará entre 1834 a 37, seguindo depois para o Rio de Janeiro no ano seguinte. Alencar, então, contava com apenas nove anos de idade.

A viagem do menino por terra, do Ceará até a Bahia, causou profunda impressão no futuro escritor, conforme relata o biógrafo e historiador, José Luiz Beraldo, em “Literatura Comentada”.  Por volta de seus 45 anos, José de Alencar faz referência a essa viagem em seu livro “O Sertanejo”.

No Rio de Janeiro, Alencar completa sua instrução primária, em 1840, e em 1844, aos 15 anos, inscreve-se nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São Paulo, no mesmo ano da publicação de “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo.

O adolescente ficou bastante impressionado com o primeiro romance brasileiro de sucesso. Como estudante, começou a ler os clássicos Balzac, Alexandre Dumas, Alfredo de Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo. Foi em São Paulo onde ele começou a lançar seus primeiros escritos e funda a revista semanal “Ensaios Literários”, na qual publicou um artigo de crítica “Questões de Estilo” sobre o índio Camarão.

Seu primeiro romance “Os Contrabandistas” saiu em 1848, aos 18 anos. Tempos depois o escritor conta que os originais da obra foram destruídos por uma colega que usava suas folhas para acender o cachimbo, na república dos estudantes. Ainda aos 18 anos transfere-se para a Faculdade de Direito de Olinda, e a literatura continua sendo sua principal preocupação, além das leis e dos estudos de Direito.

Em Olinda interessa-se pelas crônicas do período colonial, como fonte de personagens e enredos. Nessa época começa a redigir dois romances “A Alma de Lázaro” e “O Ermitão da Glória”. Em fins desse mesmo ano (1848), manifestam-se nele os primeiros sinais de tuberculose e retorna para São Paulo onde se forma em 1850.

Aos 22 anos (1851), Alencar inicia-se na profissão de advogado exercida até o final da sua vida, com raras interrupções. O escritor chegou a viajar para Europa, para tratamento de saúde, em 1877, mas de volta ao Rio morre aos 48 anos, em 12 de dezembro do mesmo ano.

Na literatura ele é muito conhecido pelo seu gênero indianista, como “O Guarani”, marca do seu maior sucesso. Em sua vida, também atuou como jornalista. Chegou a ser deputado e ministro da Justiça. Desiludido com a política, passou a se dedicar à literatura quando aumentou seu sucesso, mas também sofreu terríveis ataques da crítica.

 

RUBEM BRAGA – O MAIOR CRONISTA BRASILEIRO EM CONSTANTE ATIVIDADE

Conterrâneo do cantor e compositor Roberto Carlos, o cronista Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 12 de janeiro de 1913, véspera da I Guerra Mundial. O menino travesso era filho de Francisco Carvalho Braga e Raquel Coelho Braga. Começou seus estudos no colégio de dona Palmira Wanderley.

Sua biografia, história e crítica são contadas em “Literatura Comentada” por Paulo Elias Allane Franchetti e Antônio Alcir Bernardez Pecora. Tempos depois de muita curtição no interior, de férias na fazenda e na praia, Rubem Braga foi morar em Niterói onde terminou os estudos secundários em 1928.

No ano seguinte ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, mas em 1931 transfere-se para Belo Horizonte onde concluiu o curso. Trocou a advocacia pelo jornalismo. Seus primeiros ensaios literários foram em “O Itapemirim”, no Grêmio do Colégio.

Em Cachoeiro, manteve uma crônica regular o “Correio Maratimba”, no Correio do Sul, jornal fundado pelo seu irmão Armando.   Em Minas, ainda como estudante, entra em contato com a imprensa e faz suas crônicas na redação do “Diário da Tarde”.

Em 1932, no Governo de Getúlio Vargas, ele já tinha 19 anos e enfrentou uma aventura durante a revolta dos paulistas. Com a Revolução Constitucionalista, Braga é enviado pelos “Diários Associados” para fazer uma reportagem na frente de guerra da “Mantiqueira”, do lado getulista.

Como o jornal era favorável à Revolução, o repórter foi preso em Manacá, sob suspeita de espionagem e enviado de trem para Belo Horizonte onde foi libertado. As notícias referentes às vitórias paulistas eram censuradas e as que expunham insucessos eram barradas pelo jornal.

De Belo Horizonte, Rubem Braga foi para São Paulo e, em fins de 1933 torna-se cronista e repórter do “Diário de São Paulo” onde estavam Alcântara Machado e Mário de Andrade. Segundo um jornalista, “há plantas que nascem e crescem depressa; outras que são tardias e secas”.

A amizade de Rubem com Antônio se assemelha às primeiras, e a com Mário às últimas. Quando Alcântara foi para o Rio de Janeiro, em 1935, convidou o amigo para trabalhar no “Diário da Noite”. Rubem também escreveu para “O Jornal”.

Depois da morte de Alcântara Machado, ainda em 1935, Rubem vai para Recife onde dirige a página policial do “Diário de Pernambuco”. Pela primeira vez consegue publicar uma notícia de suicídio, contrariando a filosofia do jornal. Com o desentendimento, funda a “Folha do Povo”, apoiando a Aliança Nacional Libertadora.

Em setembro vai para Porto Alegre e depois para o Rio onde trabalha no jornal “A Manhã”. Com a reação à tentativa de golpe comunista, o jornal é fechado, e o repórter desempregado. Braga deu a volta por cima. Em 1936, a editora José Olympio edita “O Conde e o Passarinho”, o primeiro livro do jornalista com as melhores crônicas, com boa aceitação.

No mesmo ano retorna a Belo Horizonte e trabalha na “Folha de Minas”. Logo que se casou, voltou ao Rio e depois São Paulo onde fundou a revista “Problemas”. Em 1937, em 10 de novembro é decretado o Estado Novo. Ele acompanha a notícia pelo rádio da casa de Oswaldo de Andrade com o amigo Sérgio Buarque de Holanda.

Em 1938 já está no Rio de Janeiro escrevendo para o jornal “O Imparcial”. Com Samuel Wainer e Azevedo Amaral, funda a revista “Diretrizes”. Perseguido pelo regime Vargas, se refugia no sítio de Carlos Lacerda. Quando Ademar de Barros é nomeado interventor em São Paulo, é para lá que Braga vai. Irrequieto, de lá segue para Porto Alegre, em 1939, onde trabalha no “Correio do Povo” e na “Folha da Tarde”.

Quando começa a II Guerra, Braga entrevista um membro da colônia polonesa que, com júbilo comemora o episódio, entendendo que dessa vez a Polônia teria a oportunidade de esmagar a Alemanha e a Rússia, mas só que ocorreu o contrário. Como comentarista político, chegou a ser preso e enviado de navio para Santos. Acontece que ele consegue desembarcar em Paranaguá, no Paraná, e de lá vai para São Paulo onde trabalha em “O Estado de São Paulo”.

Braga deu uma grande guinada em sua vida e, entre 1941 e 42, passa a vender pedras semipreciosas e a trabalhar em publicidade. Foram épocas de amarguras, ameaças, censuras e temores. Em 1943, Rubem ocupa o cargo de chefe de publicidade do Serviço Especial de Saúde Pública. No ano seguinte publica, em São Paulo, pela Editora Brasiliense, sua segunda coletânea de crônicas “O Morro do Isolamento”.

Nesse ano o Brasil envia tropas para a Itália, para combater os nazistas. Braga foi designado pelo “Diário Carioca”, para fazer a cobertura das atividades da Força Expedicionária Brasileira e seguiu para o front em setembro. Todos acontecimentos foram anotados para suas crônicas de guerra. No final, Rubem volta para o Brasil e publica “A FEB na Itália”, reunindo as melhores crônicas enviadas ao “Diário Carioca”. Com essa obra, Braga se torna um sucesso na nossa literatura moderna.

Em 1946, no “Correio da Manhã” e em “O Estado de São Paulo”, Rubem vai a Buenos Aires cobrir a eleição de Peron. Em 1947 trabalha ao lado de José Lins do Rego no jornal “A Manhã”. Depois, como correspondente de “O Globo”, foi por alguns meses correspondente em Paris.

Rubem escreve seu terceiro livro “Um Pé de Milho”, em 1848. No ano seguinte veio “O Homem Rouco”. Em 1950 retorna a Paris como correspondente do “Correio da Manhã”. Na volta ao Brasil, em 1951, escreve “50 Crônicas Escolhidas”. Em 1952 funda “Comício”. Faz mais uma escala em Paris. A partir de 1953 escreve para a “Manchete”. Em 1954, ano do suicídio de Vargas, o Serviço de Documentação do Ministério da Educação edita o livro de Braga, intitulado “Três Primitivos” (vida e obra de três pintores).

Em 1955, Braga é nomeado chefe do Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil, no Chile, cargo do qual desiste logo cedo. No mesmo ano publica “A Borboleta Amarela”. Em 1956 é enviado aos Estados Unidos pelo “Diário de Notícias” e “Manchete”, para cobrir as eleições do general Eisenhover. Entre 1957 e 60 publica mais três livros “A Cidade e a Roça”, “100 Crônicas Escolhidas” e “Ai de Ti Copacabana”.

Nessa época, torna-se embaixador e vai para Marrocos onde permanece até 1963 quando pede sua exoneração do cargo. Dois anos mais tarde viaja para Índia. Em 1967 funda com Fernando Sabino a Editora “Sabiá” que publicou seu livro “A Traição das Elegantes”. No ano seguinte trabalha no “Diário de Notícias” e “Última Hora”.

Em 1977 escreve “Crônicas Escolhidas” e colabora na coletânea “Para Gostar de Ler”, com Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Nesse ano começa a atuar na Rede Globo de Televisão.  Morre em 19 de dezembro de 1990, depois de um câncer, como o maior cronista brasileiro de todos os tempos.

 

 

 

O LIVRO IMPRESSO NUNCA VAI MORRER

Há 20 anos os “profetas” da internet anunciaram o sepultamento do livro impresso com o advento do chamado e-book pelo tablete e pelo computador. Até agora quebraram a cara, e vão continuar assim porque o livro impresso nunca vai morrer, muito pelo contrário.

Neste 23 de abril, “Dia do Livro”, o que podemos lamentar é que no Brasil, devido ao baixo índice educacional e cultural, se lê muito pouco em relação a outros países, inclusive se fizermos uma comparação com nossos vizinhos da América do Sul, como Argentina, Uruguai, Colômbia, Peru e outros. É até uma covardia colocar aqui nesta lista Estados Unidos e nações europeias.

Uma prova do baixo índice de leitura é a pequena quantidade de editoras e livrarias brasileiras. Nos últimos tempos, as maiores foram fechadas. Não precisamos ir muito longe. Aqui mesmo em nossa casa, em Vitória da Conquista, uma cidade de 230 mil habitantes, só temos dois estabelecimentos, se não me engano, dessa natureza. Para quem quer um preço mais em conta, felizmente ainda temos “ Sebo o Livreiro”, de Rai, no centro (Beco dos Artistas), com 60 mil exemplares. Esperamos que nunca venha a fechar as portas.

PÚBLICO REDUZIDO

Do início da computação para cá, podemos dizer que o livro emagreceu e tornou-se mais enxuto porque o seu público é cada vez mais reduzido. Além da baixa qualidade na educação e o surgimento do sistema eletrônico (redes sociais), outros fatores de valor menos relevantes, como a baixa aquisição financeira da nossa população e a falta de investimentos dos setores público e privado em novos talentos de escritores, influenciaram para a queda na produção literária.

No entanto, o livro vai continuar em seu devido lugar na preferência daqueles que adoram viajar pelo mundo da leitura, não importando se impresso ou na forma do e-book. Quando falavam que o impresso iria desaparecer, sempre respondia que aquele que não desenvolveu o hábito de ler não usa nenhum dos dois formatos.

É verdade que em nosso país o livro já teve seus bons tempos e era um veículo até citado em mesas de bares. Conheci um colega que lia até nos botequins quando estava só. Foi a saudosa época da nossa efervescência cultural, entre os anos 50 e 60, onde não somente o livro estava na onda, mas também outras linguagens artísticas, como o teatro, a boa música, o cinema, as artes plásticas e a escultura.

Nesse meio tempo de acentuado crescimento intelectual, veio o regime ditatorial com suas censuras, prisões e supressão da liberdade de pensamento e expressão. Toda aquela evolução foi interrompida. Não fosse esse triste episódio, talvez teríamos outro Brasil bem mais desenvolvido e menos desigual. Naquele tempo, muitos livros tiveram como destino a fogueira.

Depois disso, veio uma nova geração com outra mentalidade de não dar muita importância para o saber e o conhecimento. A isso, muitos deram o nome de alienação. O baixo nível de ensino também colaborou para essa decadência. Hoje, todo mundo só faz correr atrás do capital e esquece de alimentar o espiritual.

Os estilos e gêneros mais procurados são os livros de autoajuda, os infantis e de ficção. Ainda bem que muitas crianças têm pegado o gosto pela leitura. Nessa pandemia de muitas mortes e incertezas, a ansiedade e a depressão poderiam ser mais aliviadas se as pessoas ocupassem mais o seu tempo com um bom livro na mão, colocando a imaginação para voar. Tenho certeza que o livro é um bom remédio para a mente e o corpo, principalmente nesse período tão conturbado em que estamos atravessando.

Nesse “Dia do Livro” (23 de abril) quero aqui prestar uma homenagem aos grandes escritores brasileiros e estrangeiros, como Jorge Amado, Euclides Neto, João Ubaldo Ribeiros (baianos), Machado de Assis, José Lins do Rego, Lima Barreto, José de Alencar, Suassuna, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, George Orwell, Jack London, Ernest Hemingway e os brilhantes russos Vladímir Maiakóvski, Leon Tolsltói, Dostoiévski, dentre muitos outros.

BOCAGE – “AQUELE QUE VIVEU INTENSAMENTE”

A Abril Educação, em “Literatura Comentada”, numa seleção de textos biográficos e históricos de Marisa Lajolo e Ricardo Maranhão, desnuda a vida do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage, falecido em 1805, que ficou conhecido como um desbocado de boa vida, fazendo o povo sofrido rir, mas que rompeu com as tradições ao falar a verdade, mesmo numa época onde era preciso agradar aos poderosos e seguir as regras clássicas acadêmicas.

Um jornal de Lisboa, de 22/12/1805, noticiou o falecimento de Bocage com 40 anos de idade, vítima de um provável aneurisma. Diz a nota que nos últimos anos ele vivia em companhia de sua irmã Maria Francisca e uma filha desta, sustentando ambos com traduções de livros didáticos.

Ex-membro da Armada Real Portuguesa, Bocage esteve na Índia, viajando num navio que fez escala no Brasil. Ele prestou serviços à Coroa nas colônias ultramarinas de Goa e Damão, dirigindo-se depois para Macau à revelia de seus superiores. Em sua vida, sempre foi um rebelde e debochado.

No retorno a Lisboa publicou suas primeiras poesias com o título de “Rimas”. Diante do sucesso, foi convidado a ingressar na Academia de Belas-Artes onde adotou o pseudônimo de Elmano Sadino. De temperamento forte e violento logo se desentendeu com vários poetas da Academia, desligando-se da agremiação. Foi acusado de heresia e perseguido, julgado e preso por algum tempo.

Ao recuperar a liberdade, segundo o jornal, com a promessa de converter-se, o poeta abandonou sua antiga boemia, vivendo o resto de sua vida como homem exemplar. A Abril Educação simulou uma entrevista como furo de reportagem, indagando se lá embaixo você é considerado um grande boa-vida, desbocado e briguento. Será que você não pode se apresentar aos nossos leitores de um jeito mais descontraído?

Bocage responde que “posso sim…Ponha aí então: Aqui dorme Bocage, o putanheiro/Passou a vida folgada e milagrosa/Comeu, bebeu”. O poeta nasceu em 15 de setembro de 1765, em Setúbal, Portugal. Em 1781 foge de casa e assenta praça como soldado, no Regimento de Infantaria, em Setúbal. Em 1783 muda-se para Lisboa e engaja-se na Armada Real Portuguesa.

O poeta foi autor de piadas e poemas pornográficos, sempre censurado e proibido, com ampla circulação clandestina. Escreveu versos desenxabidos e convencionais, cheios de alusões mitológicas e paisagens bucólicas? Ou foi o poeta que rompeu com o arcadismo, mergulhado em si mesmo que fez poemas de morte, amor e sofrimento? Ou o satírico irreverente que ironizou a sociedade e funcionários corruptos? Sabe-se, de acordo com a crítica, que ele é o avesso do Bocage popular. Para os mestres, foi um poeta sublime, herdeiro direto do soneto camoniano. A fama de boêmio e a tradição da poesia erótica só fizeram lhe comprometer.

Para outros que não dão ouvidos a professores, Bocage é uma espécie de mito. É quase uma metáfora: “Seu nome acoberta tudo o que de pornografia e libertinagens corre por aí”. Comentam os críticos da literatura que a censura portuguesa deste Bocage é paralela à tradição crítica, que considera qualquer obra satírica inferior a qualquer lírica.

A biografia do poeta apresenta um Bocage pecador arrependido, contrito e confesso no final da vida, reconciliado com Deus e com os homens. “Este Bocage oficial, portanto, é um poeta cuja trajetória de vida é exemplar, do ponto de vista de uma sociedade moralista e repressora, que encara prisão, doença, miséria e morte como castigo justo de uma vida violenta e inconformada”.

Boa parte da poesia de Bocage, conforme comentários dos autores da sua biografia e história, é composta de longos poemas circunstanciais e desinteressantes, que celebram acontecimentos do seu tempo, como as poesias dedicadas ao nascimento da rainha Maria Teresa, filha de D. João e Carlota Joaquina, ou os versos que choram a morte de um cidadão importante, como D. José, em 1777 (ele assumiu o torno em 1750, tendo como Secretário do Estado, o marquês de Pombal).

Em muitas vezes, o poeta se autocondena, falando de seus poemas como incultas produções da mocidade/Escritos pela mão do fingimento/Cantados pela voz da Dependência. Em “Já Bocage não sou… no final o poeta renega, aparentemente, todo seu passado de boemia e irreverência e se faz defensor de valores tradicionais e cristãos, quando diz “Se me creste, gente ímpia…/Rasga os meus versos…Crê na Eternidade”

A obra de Bocage é fruto de uma Academia douta e esnobe a exigir frieza de composição. No entanto, fora da Arcádia, no calor das ruas, o clima era propício para denúncias da hipocrisia social, da corrupção e da politicagem. Temas que não apareciam nas normas conservadoras do Arcadismo.

Fora dela, existiam os ecos da Revolução Francesa e a ascensão da burguesia. A poesia se transforma em mercadoria, e precisava agradar ao público que a pagava. “Fruto de tudo isso… é a poesia censurada de Bocage, irrompendo de improviso em botequins e estalagens”. “Era preciso falar a verdade”. “Era preciso voltar-se para o homem”





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