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:: ‘De Olho nas Lentes’

O CALDO E O PASTEL

Fotos do jornalista Jeremias Macário

Como e bom e gostoso um caldo de cana e um pastel (com moderação por causa da fritura) numa feira livre que faz lembrar o velho hábito dos nossos ancestrais! A feira é um comércio milenar desde os tempos mais antigos onde os povos iam trocar seus produtos quando não havia inventado a moeda. Era uma forma também socialista de sobrevivência do homem do campo e das cidades. Mas, vamos deixar de lado essa história, porque estamos falando da Feirinha do Bairro Brasil, na qual sempre estou lá aos domingos e me deleito com aquela gente simples diferente da dos supermercados, mais caros e com menos calor humano. A feira também me faz lembrar dos meus pais e seus compadres e comadres/amigos e amigas que aos sábados e domingos marcavam encontro para prosear depois das vendas e das compras. Ainda tem a cara de um ambiente familiar, por mais que seja nas médias e grandes cidades como Vitória da Conquista. Um caldo e um pastel são sempre boas combinações para muita gente, mas há também que adora uma buchada, um mocotó, um sarapatel ou uma rabada com uma gelada ou uma pinga da pura. De qualquer forma, feira sempre tem sua face poética e literária. Feira é cultura onde se encontra cantadores, trovadores, cordelistas e repentistas. Viva a feira e seus caldo de cana com pastel!

NOSSOS RIOS ESTÃO MORRENDO

Há uns dois anos, ou pouco mais que isso, o nosso cansado Rio São Francisco, mais conhecido como o “Velho Chico” ocupava manchetes na mídia em geral pelo seu estado terminal de falência de seus órgãos devido a uma prolongada estiagem, mas a causa principal era a mão destruidora e facínora do homem que dele tudo tira e quase nada repõe para sua proteção. Era grande o clamor dos ambientalistas, ribeirinhos e defensores dos nossos rios, exigindo dos governantes a realização de projetos de revitalização. Foi só São Pedro mandar cair chuvas dos céus e não mais se ouviu cobranças em favor do “Velho Chico”, que deu uma revigorada, mas vulnerável a qualquer seca. Com a crise hídrica batendo na porta dos brasileiros onde nossos rios estão morrendo, com os reservatórios em níveis mais baixos dos últimos tempos, volta-se à mesma questão que logo pode ser esquecida com novas enchentes. O homem, a maior praga do planeta, é mesmo cruel, perverso e ingrato, mas um dia tudo vai se acabar porque os desmatamentos, as queimadas, as retiradas da vegetação e areias de suas nascentes e margens avançam pelo vil lucro de se ganhar mais dinheiro. Novamente, o nosso “Velho Chico” pede socorro, e ainda tem parlamentar baiano que nega aprovação de recursos para que ele continue a viver, mesmo nas adversidades do tempo. Suas margens, como a de outros rios pelo Brasil a fora, estão depenadas pela ação humana. Suas águas baixaram, e o país pode sofrer apagões, o que significa ficar às escuras. Não é só a falta de energia, mas também a escassez de alimento quando os nossos rios começam a morrer, caso específico do “Velho Chico” onde grande parte da sua foz é de água salgada. É o mar invadindo e empurrando o rio de volta até a morte.

AS NUVENS E O TEMPO

Do meu quintal cercado de plantas (algumas floridas), pássaros a cantar, o beija-flor a bailar e entre hortas da terra viçosa, fico a mirar as nuvens e o tempo que sempre estão mudando de posições, de acordo com a direção do vento, ora forte e fraco, do sul, do oeste, leste e norte como se fossem nossas vidas cotidianas. A depender do tempo, as nuvens mudam, ficam leves esparsas e pesadas, cuspindo suas rajadas como que anunciando tempestade, como nas imagens captadas pelo jornalista e escritor Jeremias Macário. São imprevisíveis como os seres humanos dos tempos atuais, que sempre mudam de roupagem. É a metamorfose ambulante como na canção do poeta compositor Raul Seixas. Com as bruscas mudanças climáticas, decorrentes da intervenção humana na natureza, o vento quente, repentinamente, se torna frio. Assim vivemos no Brasil de hoje onde predominam as incertezas, com nuvens sombrias e tempos de medo e falta de esperança. Quando o céu está limpo, dizem que é céu de brigadeiro, de se voar tranquilo. Na atualidade, quando olhamos para o alto, só enxergamos nuvens carregadas, ventos incertos de trovoadas de correntes elétricas, num tempo de divisões, com imagens e figuras estranhas como as nuvens que cortam nossas cabeças.

AS PALMEIRAS E A CULTURA

As nossas centenárias e imponentes palmeiras da Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista já fazem parte da nossa cultura, mas quantos não passam por ali todos os dias e nem param para admirá-las e refletir o quanto a natureza é bondosa conosco? Da Casa Regis Pacheco, bem em frente da bela praça, as lentes da máquina do jornalista e escritor Jeremias Macário registrou essa imagem que se eleva aos céus e se une à nossa cultura. Lá estão elas, as palmeiras, numa intimidade com o vento e as nuvens a balançar suas folhas para lá e pra cá, refrescando os que passam apressados pelos afazeres do dia a dia, principalmente em épocas de muito calor. Felizmente, ainda é o local mais conservado e aprazível da cidade porque também todas as outras praças deveriam ganhar os mesmos privilégios. Praça, não é somente lazer e turismo para adultos e crianças. É também cultura porque é nela que se troca ideias, que uma pessoa rever a outra que há muito tempo não se via e é parada para um bom bate-papo entre amigos. É ainda onde namorados se encontram para a troca de beijos e carícias. É reconciliação e, acima de tudo, uma benção e um presente da natureza que merece toda atenção e cuidados, sem essa de jogar lixo no chão. Quem apenas só quer ser servido e não serve ao outro, é um ignorante ingrato que nem merece continuar a existir.

CHAPADA DIAMANTE

Fotos de Jeremias Macário

Nos lajedos e nas montanhas de pedras de Mucugê, os primeiros garimpeiros de Minas Gerais começaram a extrair o diamante, partindo depois em suas aventuras para Andaraí, Lençóis dos coronéis e Palmeiras do Capão. Nelas deixaram impregnadas suas culturas, numa mistura afro-brasileira com índios e portugueses, Eles cultuaram e reverenciaram o orixá caboclo do Jarê, para serem donos dos diamantes. Foram escravos dos patrões fornecedores, capangueiros e lapidários das pedras. Veio a decadência e nasceu o Parque da Chapada Diamante, criado em 1985, com suas áreas de preservação ambiental, como do Marimbus. Hoje, sua economia vital é o turista que vem de todas as partes do Brasil e do mundo para conhecer suas belezas naturais. As águas em suas corredeiras e cachoeiras, os picos, cavernas e grutas fazem o espetáculo da vida, mas o garimpeiro deixou seu legado histórico que não pode ser esquecido.

“BRASIL: NUNCA MAIS”

Fotos de Evandro Teixeira

Entre milhares delas pelo mundo a fora, essas duas fotos do meu amigo e grande fotógrafo Evandro Teixeira são também marcantes e históricas que dizem tudo da ditadura civil-militar de 1964, e que essa maldita nunca mais volte como está registrado no livro “Brasil: Nunca Mais”, organizado pelo arcebispo de São Paulo D. Paulo Evaristo Arns, em conjunto com igrejas protestantes.  Nesta semana, nos causou calafrios ver aqueles tanques desfilando na Esplanada dos Ministérios, num ridículo circo armado para entregar um convite ao capitão-presidente e intimidar a Câmara dos Deputados que votou contra a volta do voto impresso. Mais ridículo ainda foi ver aqueles generais de pijama subservientes ao “chefe”, envergonhando a imagem das forças armadas brasileiras. Não deveriam se prestar a esse papel de oportunismo barato. Ficaram feios na foto e se foram calados. Foi uma passagem melancólica, mas devemos ficar vigilantes 24 horas para que ela nunca mais no Brasil. Não vamos mais deixar passar essa boiada de carrascos que prenderam, torturaram e mataram.  Todas essas ameaças ainda acontecem porque as feridas da ditadura ainda continuam abertas, quando a anistia de 1979 não puniu os torturadores, como fizeram nossos países vizinhos. O dia dele vai chegar, sem intervenção militar como quer um grupo de nazifascistas que há anos viviam no armário porque não tinham ninguém para dar voz a eles, e nem havia espaço para tanta loucura.

“OS MASCARADOS”

Há mais de um ano e meio que fazemos o papel de “os mascarados” (nem todos), como se fossemos guerrilheiros de alguma facção política ideológica, criminosos, testemunhas que não podem ser reconhecidas ou policiais em missões de risco de vida, tudo por conta da pandemia da Covid-19, que já ceifou a vida de mais de 600 mil brasileiros. Hoje as máscaras estão por todas as partes, em farmácias, lojas de materiais de saúde e nas esquinas sendo vendidas até por camelôs, como na foto do jornalista Jeremias Macário. É uma forma de proteção contra o perigoso vírus que mata e deixa sequelas no ser humano. É altamente contagioso, mas, infelizmente, ainda tem muita gente negacionista da ciência que se recusa usar a máscara, que já faz parte da nossa indumentária. Essas pessoas, que não respeitam a vida dos outros, são as mesmas que escolhem qual vacina tomar, e desclassificam outras como imprestáveis, ou que são apenas água. Para a Covid, temos a vacina como saída única para a cura, mas para tratar a mente dessas pessoas, não há vacina que cure e salve.

UM CENTRO CULTURAL NO “PAU DA BANDEIRA”

Na foto do jornalista Jeremias Macário, quase todos conquistenses conhecem muito bem a popular Praça “Pau da Bandeira” onde funciona uma feirinha com um amontoado de barracas de corredores apertados, uma área de artesanato, também nos mesmos moldes, algumas lojinhas nas laterais do quarteirão, e o Teatro Carlos Jheová. Nesses tempos de pandemia, é um local perigoso por ser muito fechado, de pouca circulação. Há uns cinco ou oito anos, no Governo do PT, se cogitou derrubar esse “monstrengo” de prédios, salas e barracas, para no lugar se implantar um Centro Cultural, só que houve resistência dos usuários com apoio de vereadores da Câmara Municipal. O projeto, na sua concepção, em parceria com o Banco do Nordeste, que bancaria todo investimento, era um presente para a cultura de Vitória da Conquista. Nele funcionariam espaços que iriam beneficiar todas as linguagens artísticas, como audiovisual, literatura, teatro, dança, artes plásticas, artesanato, oficinas de treinamento e um auditório multiuso para eventos diversos e cinema. O “Pau da Bandeira” é um local que só enfeia a cidade.  O projeto ficou no papel, mas ainda se fala nele, como ouvi de um amigo dia desses. No próprio Centro poderia ser construído um teatro em homenagem ao nosso saudoso Jheová. Uma obra desse porte marcaria a gestão de qualquer prefeito. Existe ainda o antigo Cine Madrigal que está lá se deteriorando com o tempo e nada se faz.

UMA NAÇÃO EM CORRERIAS

Uma nação milenar, alegre e dançante, como da fotografia de arquivo, que como os mouros, influenciou a criação da dança flamenga, em Andaluzia, na Espanha, sempre viveu em correrias pelo mundo a fora, desde antes de Cristo. Na Europa foi perseguida por reis, nobres e imperadores, vista com preconceito como ladrões, trambiqueiros, sujos e marginais. Na Romênia, por exemplo, por quase um século, foi escrava como os negros, e eram vítimas de atrocidades. Muitos usavam de malandragens, e até cometiam crimes para a própria sobrevivência do seu povo e de suas famílias.  Pela Espanha e Portugal, a partir do século XVI, foram deportados em navios como criminosos. No Brasil, os calons e o rum (romeni –senti) viviam em correrias e sendo empurrados pela polícia de estado em estado. Bandidos aproveitavam para cometer seus crimes e colocar a culpa nos ciganos. Acossados e encurralados, muitos revidavam na troca de tiros e ocorriam matanças dos dois lados. Bem, o que muitos não sabem é que o Brasil teve um presidente cigano, o boêmio JK – Juscelino Kubistchek, que governou o país de 1956 a 1960.

UMA SONECA NA AGITAÇÃO

Em meio a todo o corre-corre da cidade agitada e desumana, com pessoas pra lá e pra cá nas calçadas e lojas, o cachorro, que não é escravo do tempo e vai vivendo do que encontra em seu presente, resolve, tranquilamente, tirar a sua soneca para depois seguir sua jornada em busca da sua sobrevivência.  Ele já é um morador de rua como muitos seres humanos, porque vivemos numa sociedade cruel, egoísta e desigual onde só existe lugar para os mais fortes. Com certeza ele foi abandonado pelo seu dono, como um José, uma Maria ou João que não tiveram o direito à cidadania, como reza uma Constituição, dita democrática. Muitos podem até dizer que se trata apenas de um cão no sossego do seu sono, sem estar aí para o barulho dos motores, a poluição sonora e a confusão de uma gente na luta pela vida do cada vez mais consumir. O flagrante registrado pelas lentas da máquina do jornalista e escritor Jeremias Macário também demonstra nossa desumanidade, porque os animais também são nossos irmãos, e fazem parte do nosso cotidiano. Além do mais, sempre foi um fiel amigo, sem nada cobrar em troca, apenas o seu alimento. Não tem outras ambições e nem é egoísta e individualista. A sua soneca, em plena calçada, sem um lar ou alguém que lhe cuide como deveria, é uma imagem triste de abandono, e de que ainda não somos uma sociedade civilizada como pensamos ser.





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