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:: 27/jul/2021 . 22:38

O BRASIL PRECISA CICATRIZAR SUAS FERIDAS QUE CONTINUAM ABERTAS

A história do Brasil é como a de um Velho Senhor que há séculos continua acamado porque não conseguiu cicatrizar suas feridas. Em seu divã de análise psicanalítica, Ele carrega marcas traumáticas do colonialismo escravocrata, do império oligárquico aristocrático burguês, da Velha República dos senhores coronéis, de uma Nova que se cansou no meio do caminho, de uma ditadura civil-militar que não fechou suas feridas, de uma redemocratização abalada pelas corrupções e o populismo de duas faces e agora por uma extrema de ódio às minorias excluídas, que está nos levando a uma caverna de trevas dos tempos primitivos.

Podemos nos ater às feridas mais recentes dos últimos 70 ou 80 anos, a começar pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, quando uma turba ignara tentou dar um golpe militar, mas foi interrompido por um general chamado Lott. Quando o ministro do Trabalho João Goulart propôs um reajuste de 100% sobre o salário mínimo, a elite gananciosa e egoísta, como sempre, mais a ala conservadora das forças armadas, mostraram suas garras afiadas. Nesse elenco, não podemos esquecer do caudilho Carlos Lacerda, como um Catilina venenoso na cata pelo poder a qualquer custo.

Na ausência de Getúlio, assumiu o vice-presidente João Café Filho que foi instigado a puxar o golpe. No ano seguinte, teve a candidatura de Juscelino Kubistchek e Jango. Mais uma vez, as forças armadas tiveram que engolir o osso, mas o rancor ficou ainda mais guardado nas entranhas malditas. Como fake news do passado, ligaram a eleição de Juscelino ao contrabando de armas para os comunistas, os inimigos satânicos da nação. JK foi eleito e aí veio a conspiração para que ele não tomasse posse.

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Foto do fotógrafo Evandro Teixeira e instalação do escultor Edmilson Santana

Mais uma vez, a tentativa de uma ditadura não colou, crescendo o ódio para uma revanche lá na frente. O golpe estava marcado para 10 de novembro de 1955. Queriam a cabeça do presidente interino Carlos Luz, substituto de Café Filho. O general Lott mobilizou seus oficiais, e a ave de rapina Carlos Lacerda fugiu a bordo do Cruzador Tamandaré. Nessa lacuna, Café Filho assumiu a presidência, mas ele também fazia parte da trama golpista e foi afastado.

Nesse interim, o Congresso Nacional aprova o estado de sítio até a posse de Juscelino, em 31 de janeiro de 1956, adiando um novo golpe. Vieram as eleições de 1960, e o destrambelhado Jânio Quadros é eleito contra o general Lott. Na vice tem o João Goulart, aquele demonizado perlo militares. O maluco renuncia no mesmo fatídico mês de agosto. Pela Constituição, o vice tem o direito de ocupar a cadeira, mas, novamente, as forças armadas, que diziam ser de ocultas, peitam sua posse. Os grupos de resistências, comandados por Leonel Brizola, furam o cerco. O homem senta no trono, mesmo enfraquecido por um parlamentarismo arranjado de última hora. As cicatrizes permanecem abertas.

Os generais recuam, guardando o revanchismo ditatorial no baú dos quartéis, com apoio de segmentos conservadores de alas civis, para 1º de abril de 1964. A promessa era ter eleições em 1965, mas em seu lugar nos mandaram um carrasco chamado Ai-5 (Ato Institucional), em 1968. No pacote de serpentes peçonhentas, vieram os anos de chumbo que assassinaram as liberdades individuais, censuraram, cassaram parlamentares, políticos, torturaram, esquartejaram, mataram e deram sumiço aos corpos dos adversários ao regime.

Foram quase 30 anos de repressão com cinco generais no governo, cometendo atrocidades, atos arbitrários e de terror até que veio uma tal de anistia tupiniquim que não puniu os torturadores, os que cometeram crimes hediondos de lesa-humanidade. As feridas do Velho Senhor, cansado de levar pancadas, não foram cicatrizadas. O Brasil continuou no divã psiquiátrico tomando doses cavalares de antidepressivos, remédios pesados para curar suas dores mentais traumáticas.

Pulamos mais 30 anos de turbulências, populismos, tramas e truques ilusionistas, e os poderosos de uma casta nababesca mandando no poder. Veio a polarização da intolerância entre o “nós e eles”, e ai se elege outro maluco, tipo psicopata, incarnado numa personagem histórica que espalhou desgraça e matança pelo mundo, com fins de selecionar uma raça pura.

Em seu governo de militares oficiais da reserva e da ativa (generais e coronéis), ávidos por vaidades, status e dinheiro, eles apoiam a linha arbitrária de um desequilibrado que também arma para implantar no Velho Brasil outra ditadura.

As investidas já foram várias, como fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (em maio do ano passado). As raposas e as hienas rondam o nosso terreiro, com carabinas e metralhadoras. Elas não desistem e querem repetir a história através da mão de ferro. Afinal de contas, são carniceiras da democracia.

Agora, o obcecado da extrema, que nos deixou sem vacina em plena pandemia da Covid-19, diz que o sistema eleitoral é fraudulento e quer, a todo custo, o retorno do voto impresso. Dá um ultimato que, caso contrário, não haverá eleições, o que significa um golpe. Como outrora, é um general que também lhe dá voz e manda um recado para o Congresso. A intenção é preparar terreno para uma intervenção militar. De legítimo, só se as urnas do próximo ano lhe derem a vitória.

Nesse jogo estão as polícias militares estaduais que são estimuladas a fazerem um motim. Elas são responsáveis pela segurança do pleito. Será que vamos ter um general Lott, como em 1955/56? Perceberam que em todas as tentativas e as consolidações de golpes nesse nosso Velho Senhor Brasil têm o rastro das forças armadas conspirando nos bastidores? Tudo isso tem uma razão de ser: As cicatrizes das feridas desse Senhor continuam abertas.





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