“Uma esmola envergonha o cidadão”. Quem não se lembra desse verso na canção do rei do baião Luiz Gonzaga? Pois é, por mais que seja duro, é uma verdade em nosso país, principalmente nesses tempos de pandemia quando houve um grande aumento da pobreza e, consequentemente, da fome. Segundo pesquisas, uns 30 milhões vivem nessa linha da miséria.

Claro que também existe o ditado de que a fome não espera e tem pressa. Não estou aqui para condenar os auxílios emergências, as bolsas famílias e as doações incentivadas e praticadas por grupos isolados, pessoas e organizações do terceiro setor. O que argui é que há 30 anos, ou mais, existe o chamado bolsa família e, de lá para cá, a situação só tem piorado.

Todos os dias acompanhamos nos noticiários os atos de solidariedade ou caridade (muitos evitam falar nesse termo por achar pejorativo) na forma de doações de alimentos, roupas, agasalhos de frio, sapatos e brinquedos para as crianças nas épocas de Natal, mas pouco se ouve em mutirões de emprego e oportunidades no mercado de trabalho para que o nosso cidadão se sinta digno como gente partícipe da construção social.

O Brasil precisa criar pessoas amadurecidas para que vislumbrem novos horizontes, e não que fiquem a vida toda dependentes de doações, bolsas e esmolas.  Achar que elas só necessitam de pão e água, é o mesmo que escravizar suas dignidades. Só a educação, a saúde, a segurança e o emprego podem tirar a população desse abismo da pobreza.

Nem é necessário dizer que o papel dos governantes é fundamental para que o ser humano resgate sua dignidade e se livre de uma vez por todas das esmolas escravizantes. No entanto, o que temos é uma política do assim é melhor em nome do poder.

Enquanto grande parte da sociedade se mobiliza para socorrer a fome dos mais necessitados, eles lá de cima cada vez mais se acomodam e cruzam os braços. Na urgência de matar a fome, o cidadão acaba duplicando o seu papel social porque ele já paga escorchantes impostos que deveriam ser revertidos em benefício das camadas mais carentes.

Como não há reação, cobrança, conscientização política e mobilização daqueles mais esclarecidos que poderiam atuar nesse sentido com relação aos poderes públicos, esse ciclo vicioso das doações e auxílios em forma de esmolas nunca termina. No fundo, estamos também contribuindo para que essa camada tão baixa e tão pobre continue escrava do próprio poder por ela constituída. Por incrível e irônico que pareça, é desse fel que se banqueteiam os governantes e políticos para se manterem no poder. E assim caminha o nosso Brasil.