Em meio a todo o corre-corre da cidade agitada e desumana, com pessoas pra lá e pra cá nas calçadas e lojas, o cachorro, que não é escravo do tempo e vai vivendo do que encontra em seu presente, resolve, tranquilamente, tirar a sua soneca para depois seguir sua jornada em busca da sua sobrevivência.  Ele já é um morador de rua como muitos seres humanos, porque vivemos numa sociedade cruel, egoísta e desigual onde só existe lugar para os mais fortes. Com certeza ele foi abandonado pelo seu dono, como um José, uma Maria ou João que não tiveram o direito à cidadania, como reza uma Constituição, dita democrática. Muitos podem até dizer que se trata apenas de um cão no sossego do seu sono, sem estar aí para o barulho dos motores, a poluição sonora e a confusão de uma gente na luta pela vida do cada vez mais consumir. O flagrante registrado pelas lentas da máquina do jornalista e escritor Jeremias Macário também demonstra nossa desumanidade, porque os animais também são nossos irmãos, e fazem parte do nosso cotidiano. Além do mais, sempre foi um fiel amigo, sem nada cobrar em troca, apenas o seu alimento. Não tem outras ambições e nem é egoísta e individualista. A sua soneca, em plena calçada, sem um lar ou alguém que lhe cuide como deveria, é uma imagem triste de abandono, e de que ainda não somos uma sociedade civilizada como pensamos ser.