Numa noite de muito calor eu acordei lá pela madrugada todo suado e apavorado com um terrível sonho, que depois fui perceber se tratar de um pesadelo. Acho que comi alguma coisa indigesta.  Voltei a me deitar, mas nada de sono recuperador da minha cansada mente.

Lá fora só as luzes neon e as folhas das árvores a farfalhar. Uma sombra de medo tomava conta das ruas abandonadas. Uns falam de fantasmas que aproveitam o silêncio para passear e outros de alguns viventes humanos na espreita prontos para dar o bote de assalto, como uma cobra traiçoeira.

No outro dia, ainda zonzo e mal dormido, tentei recapitular algumas passagens daquele pesadelo. Lembrei do saudoso roqueiro Raul Seixas que fala em sua canção que um sonho que se sonha junto se torna realidade, só que não foi um sonho e estava sozinho. No entanto, só para contrariar, meu pesadelo se tornou concreto.

Em meu pesadelo labiríntico grego via o Pantanal do meu Brasil em chamas, e a floresta Amazônica sendo derrubada por ambiciosos lenhadores, e depois sendo queimada. A flora ardia em choros, e a bicharada gemia em dores de morte. Os índios que sobreviveram àquela tormenta foram expulsos de seus lares. Tudo depois eram cinzas, e um deserto sem ar para respirar.

Em meio a toda aquela destruição, um homem com cara de monstro aterrorizador, com outros tantos ao seu lado que mais pareciam zumbis saídos da terra, gargalhava e mandava seus seguidores cobrir o chão de lavouras e gado. Outros avançavam com máquinas para minerar a terra. Os rios ficaram envenenados, e outros simplesmente sumiram. Não existiam mais barqueiros para transportar as almas para as outras margens.

No pesadelo, o homem, com feições psicopáticas de armas na mão, esbraveja contra jornalistas, com palavrões, xingamentos e ameaças. Condenava os cientistas, ambientalistas e pesquisadores que previam um futuro avassalador. Falava coisas malucas e dizia que era o novo dono de tudo aquilo.

Pelas ruas ele jogava seu séquito de apoiadores contra qualquer um que lhe opunha. Propunha investigar e prender os contrários. Às vezes se disfarçava em pele de cordeiro e falava até em democracia e liberdade, mas era mesmo um lobo que queria impor nova ditadura e, para isso, se cercou de generais e coronéis. Espalhava terror em cada pronunciamento, ameaçando fechar os poderes constituídos para ficar só com o dele.

Desde o início do seu surgimento inesperado, ora em forma de animal mitológico e gente, avisou que tinha vindo para destruir, e não para construir. Para tanto, condenou todas as ideias avançadas e evolutivas. Seria o anticristo? Mandou logo cortar a cultura, para ele coisa de comunista comedor de criancinhas. Arregimentou seus ajudantes para sucatear as universidades, para ele lugar de maconheiros e intelectuais pervertidos pecaminosos.

O pesadelo ficou ainda pior e aterrorizante quando apareceram na escuridão tenebrosa da noite uns monstros invisíveis em forma de coroa atacando e matando nosso povo, principalmente os mais pobres e famintos. Levaram os diabinhos para o laboratório e lá deram o nome de Covid-19. Vieram voando da China. Foi logo a primeira versão. Invadiram todo planeta e matavam por sufocamento, com morte dolorosa e sofrida.

Muitos irmãos do meu país começaram a perder a vida. Só choro, ranger de dentes e lágrimas dos parentes e amigos pela perda de seus entes queridos. Mesmo diante daquele horror, daquela desgraça que se abateu entre nós humanos, o homem genocida debochou; chamou o visitante assassino contaminador de uma gripezinha de fresco; e ainda humilhou as pessoas classificando-as de maricas.

O estrago foi aumentando. Os hospitais ficaram superlotados, numa agonia desesperadora diante de tantos seres humanos sendo dizimados pelo redondo coroado de espinhos venosos. Mesmo assim, aquele homem pestilento do meu pesadelo condenou todas recomendações científicas para controlar o danado invasor. Saia por aí a cavalo, de moto, de barco e a pé transmitindo a letal doença e ainda receitando uma tal cloroquina para derrubar o invisível.

Vi em meu pesadelo, naqueles escombros e ruínas, muitos lamentos de dor, como se fosse um inferno de Dantes. Tentava acordar para me livrar daquelas imagens macabras, mas não conseguia me desvencilhar dos tentáculos pegajosos em torno de mim. Nas cenas, via feições de caveiras e risos sarcásticos, dizendo sou eu que mando, tudo é meu, meus soldados, meus ministros, meu Brasil.

Em meio àquela aflição perturbadora, enxerguei na penumbra das trevas uma nave extraterrestre que pousava e abduzia o cara do mal e, rapidamente, levantou voo, riscando o universo numa velocidade alucinante. Os seguidores do ceifador de vidas tentaram impedir seu rapto planetário, mas nada puderam fazer. Ficaram até berrando palavras de ordem, mas sumiram depois do sumiço repentino do seu chefe maior, como nas guerras indígenas.

A cabeça doía quando, finalmente, acordei atormentado por nunca ter visto em toda vida aquelas figuras asquerosas. De lá para cá, outros pesadelos parecidos sempre voltam, como num trauma que gruda em nossa alma para sempre. Não foi um sonho para se levantar animado e otimista com a roda da vida. Foi mesmo um pesadelo que deixa o seu dia pesado e nunca dá para se esquecer dele.