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:: 17/jun/2021 . 22:49

DUAS CRISES; DOIS PRESIDENTES

Carlos González – jornalista

Há exatamente 100 anos o Brasil perdeu cerca de 40 mil vidas (os números são imprecisos), numa população de 29 milhões de habitantes, para a maior pandemia do século XX, que ficou conhecida como gripe espanhola, matando 50 milhões no mundo; hoje, a Covid-19 já fez 500 mil vitimas num universo de 211 milhões de brasileiros. Apesar do longo período transcorrido, as particularidades das duas crises sanitárias são semelhantes, como a profilaxia, a terapia e a medicação popular. As diferenças mais significativas estão na instabilidade administrativa e emocional dos presidentes Delfim Moreira (1868-1920), que governou o país de 15 de novembro de 1918 a 28 de julho de 1919, e Jair Messias Bolsonaro, chamados, respectivamente, de louco e de psicótico genocida.

O mineiro Delfim Moreira continuou o trabalho de enfrentamento do vírus iniciado pelo seu antecessor Wenceslau Braz (1868-1966), e retomado pelo seu sucessor, o paraibano Epitácio Pessoa (1865-1942). Vale destacar que Delfim assumiu a Presidência da República devido à morte de Rodrigues Alves, contaminado pela gripe antes de tomar posse para um segundo mandato, de 1918 a 1922. Nos seus primeiros quatro anos no cargo (1902 a 1906), o paulista Rodrigues Alves, com o auxílio do sanitarista Oswaldo Cruz, eliminou um surto de varíola e venceu a “Revolta da Vacina”, promovida por centenas de irresponsáveis – como hoje -, contrários à campanha de imunização.

A exemplo de Oswaldo Cruz, um especialista em infectologia – não se pensou em nomear um intendente do Exército – foi indicado pelo governo para coordenar os trabalhos contra o H1N1. Alçado a herói nacional, o médico Carlos Chagas estabeleceu isolamento e quarentena para os navios que chegavam aos portos do Rio de Janeiro, Salvador e Recife, por onde desembarcavam os passageiros contaminados vindos da Europa; criou ambulatórios de campanha (não havia hospitais públicos no país); aconselhou repouso absoluto aos primeiros sintomas da doença, sem direito a visitas; cuidados higiênicos com o nariz e a garganta e uso de máscaras. Fechou escolas e repartições públicas, e proibiu as chamadas festas populares.

A cloroquina, “menina dos olhos” do capitão-presidente, rejeitada até pelas emas do Palácio do Planalto, mas aceita por neopentecostais e devotos fanáticos do bolsonarismo, teve similares na época, mas nenhum produzido pela indústria farmacêutica. O povo em pânico recorria a inalações de vaselina mentolada, chás e infusões à base de quinino, gargarejos com água e sal, água iodada, tanino e outros “remédios”. Um deles, ganhou o título de bebida nacional, a tradicional caipirinha, conhecida mundialmente.

Por uma questão de justiça com a Espanha, país que me deu a segunda nacionalidade, o H1N1, segundo os pesquisadores, se originou no Fort Riley, nos Estados Unidos, transmitida para a Europa pelos soldados que foram combater na 1ª Guerra Mundial (1914-1918). As grandes potências estabeleceram um pacto de silêncio sobre a propagação do vírus para não criar pânico entre os soldados que lutavam nas insalubres trincheiras. Por não ter adotado a censura, a Espanha herdou uma imagem distorcida.

No Brasil, a gripe “desembarcou” do Demerara, em 9 de setembro de 1918, com 562 passageiros a bordo e 170 tripulantes, após uma viagem de 25 dias desde o porto de Liverpool, na Inglaterra, Após aportar no Recife, seguiu para Salvador. O jornal “A Tarde”  noticiou na época que 15 dias depois da chegada do “Navio da Morte” centenas de infectados lotavam os quartéis, escolas, igrejas e hospitais particulares da capital baiana.

Copa América

Uma das “loucuras” praticadas pelo presidente Delfim Moreira foi a de suspender os campeonatos de futebol do Rio e São Paulo e adiar a Copa América, de  novembro de 1918 para maio de 1919, disputada no estádio do Fluminense, nas Laranjeiras, construído para o torneio. Pesou na decisão das autoridades governamentais e esportivas a morte de jogadores, técnicos e dirigentes dos clubes cariocas e paulistas. O Rio, particularmente, chorou a perda, aos 22 anos de idade, do atacante French, do Fluminense.

Um século depois, um presidente irracional, num desrespeito aos familiares das 500 mil vítimas da covid-19, contraria a ciência e pirraça a Rede Globo, autorizando a realização da Copa América. Uma decisão tresloucada, que já colocou em quarentena, nos primeiros dias da competição, 52 membros das delegações, entre atletas, técnicos e cartolas.

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PATRIMÔNIO ABANDONADO

Na Avenida Integração, esquina com a Regis Pacheco, um patrimônio público que já foi sede do DNER (extinto) e do Ibama, órgão que está sendo sucateado no atual governo do capitão-presidente, negacionista da ciência e destruidor do meio ambiente, está totalmente abandonado, com lixo por todos os lados e muito mato, conforme imagens fotográficas do escritor e jornalista Jeremias Macário.

Entre tantos outros no Brasil a fora, é mais um caso de dinheiro do povo jogado no lixo, sem a devida punição dos irresponsáveis governantes. Por ironia, o patrimônio abandonado, em Vitória da Conquista, já abrigou as dependências do Ibama, inauguradas no Governo Lula. O local me recorda quando atuava como jornalista da Sucursal do Jornal A Tarde, e na época entrevistei muitos técnicos sobre questões do meio ambiente, especialmente o transporte clandestino de carvão extraído de madeiras da caatinga no sertão do sudoeste.

Há anos que a casa se encontra em estado deplorável, caindo aos pedaços dentro de um matagal que mais serve para usuários de drogas e marginais à noite, sem falar da sujeira que atrai todo tipo de insetos, ratos e até mosquitos da dengue. Pelo que demonstra pela placa, trata-se de um patrimônio federal, mas não se sabe qual a ingerência do estado e do município. O local podia muito bem está sendo útil para ocupar uma repartição pública, uma escola, creche, uma entidade ou associação em benefício da população.

 

SOU MAIS AS CAPELAS

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

Bendito seja nosso oratório!

Sou mais as capelas,

Com suas rezas e velas,

Do que a ostentação das catedrais,

Com seus bispos, papas e cardeais.

 

Sou mais as capelas,

Sem estilos gótico, ou barroco,

Feitas pelos braços dos mutirões,

Na pisada do samba e do coco,

E nelas não se fez inquisições.

 

Sou mais as capelas,

Do sincero nordestino de fé,

Onde tem Maria, João e José,

O compadre, a comadre e você,

Sem o falso senhor do poder,

Que só quer pousar pros jornais,

Entre luminárias dos castiçais.

 

As catedrais dos imponentes sinos,

Das mitras, báculos e anéis,

Com seus seculares painéis,

E crucifixos banhados a ouro,

São da nobreza, reis e rainhas,

Coroados como deuses divinos,

Que saquearam o tesouro dos latinos.

 

Capelas não têm vitrais nas janelas,

Nem antigos imperiais azulejos,

Só seu vigário e seus fiéis sertanejos,

Que oram Pai Nosso, Santa Senhora,

Mandai chuva pra molhar esse solo,

Pra matar a fome da criança que chora.

 

 

 

 





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