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A PESTE NEGRA, AS VACINAS E OS EMBATES ENTRE A CIÊNCIA E A FÉ (Parte I)

O surto de uma doença no século VI foi o mesmo que atingiu os filisteus no século XI a.C. com tumores pelo corpo.  Na época, disseram ter sido um castigo de Deus por eles terem roubado a Arca da Aliança dos israelitas. Na Roma de 590, do Papa Gregório I, católicos caiam mortos durante a procissão enquanto seguiam o Sumo Pontífice, rogando a Deus para pôr fim a tamanha aflição.

Tudo isso nos indica que a Peste Negra do século XIV (manchas negras pelo corpo) não foi o primeiro surto na Europa que ceifou a vida de milhares e milhões de pessoas. Naquele tempo, a medicina era precária e, praticamente, não existiam higienização, saneamento; viviam-se entre os lixões e os esgotos a céu aberto. A fé e a oração eram maiores apegos, e a Igreja delas se servia até para tirar proveitos materiais dos grandes proprietários de terras.

OS CÉTICOS E A CORRUPÇÃO

Diante da doença, e na esperança de encontrar uma salvação nas rezas, muita gente se voltou para a Igreja, e os mais abastados deram suas propriedades para a instituição. No entanto, haviam os céticos que viram que o clero também morria e passaram a ver a Igreja como corrupta.

A Peste Negra, também conhecida como Bubônica por causa dos bubões, com vômitos, febre e morte, começou por volta de 1347/48 e ainda apareceu nas Américas do Sul e do Norte (Flórida) no início do século XX. Ela se manifestava no corpo humano como pneumônica (transmitida pela tosse) e na forma septicêmica (no sangue) que matava em questão de um dia.

Fala-se muito que essa peste viajou na rota da seda (China), mas era mesmo entre o linho e a lã, por terra em camelos, cavalos e carroças e por mar em barcos. Pelas rotas comerciais, ela começou na Ásia Central pela China, onde uma grande população de ratazanas facilitou a proliferação da doença. Os animais viviam em navios.  Conta a história que em 1347, os tártaros cercaram o porto de Caffa, na Criméia, onde habitavam mercadores italianos.

Para tirar proveito comercial, os bárbaros, chefiados por uma tal de Janibeg, lançaram cadáveres contaminados por cima das muralhas para infeccionar os habitantes. Sem saída, os italianos fugiram às pressas para Gênova, Messina e Veneza. Como era de se esperar, essas cidades foram logo contaminadas pela peste proveniente das pulgas das ratazanas.

No século XIII, toda a Europa experimentava um grande crescimento econômico. Os agricultores, por exemplo, produziam colheitas abundantes. Com isso, houve um aumento da população urbana, com cidades entre 10 a 100 mil pessoas que viviam aglomeradas, sem maiores problemas sociais. No entanto, ao lado das catedrais, existiam os casebres miseráveis convivendo entre esgotos e lixos, locais ideais para os ratos e as pulgas.

Somente em 1348 (naquela época os meios de comunicação de transporte eram demorados), a doença chegou a Paris, na Península Ibérica e na região do Volga. No ano seguinte, entrou em Londres através dos barcos (locais de muitos ratos) de vinho. Daí passou para a Escócia e assolou toda Escandinávia, em 1350.

De 1300 a 1600, a fome, a guerra e a peste foram os maiores flagelos da Europa, com visões apocalípticas, retratadas em “O Triunfo da Morte” por Bruegel. Os sintomas eram mesmo de terror, como descrevia o poeta galês Gethih, “vemos a morte caminhar para nós como fumaça negra”, a respeito do crescimento do bubão. Segundo ele, “tem a forma de uma maçã, como a cabeça de uma cebola… grande é a sua ardência, como uma brasa que queima”.

NINGUÉM ESTAVA A SALVO E OS FLAGELANTES

Como na Covid-19, que já matou mais de 266 mil brasileiros, ninguém estava a salvo (pobres, ricos, homens, mulheres, brancos e negros eram suas vítimas fatais). Metade dos 90 mil habitantes de Florença morreram. Da Europa de cerca de 70 milhões de pessoas, mais de 25 milhões se foram.

Os coveiros, mesmo sabendo dos perigos, enterravam os mortos em troca de pagamentos. Os laços de sentimentos que uniam a sociedade foram se desfazendo, e muitos se juntaram a grupos austeros de ódio e intolerância, como nos dias de hoje no Brasil.

Outros negacionistas se entregavam à devassidão e às orgias como válvula de escape das angústias. Pais abandonavam filhos, e as aldeias nos campos foram devastadas e abandonadas. Em meio a todo aquele caos, surgiu o bizarro movimento dos flagelantes. Eles se açoitavam três vezes por dia durante 33 dias que era a idade de Cristo. Em procissões de até mil flagelantes, centenas morriam dos altos ferimentos pelo caminho.

Aos moldes atuais do nosso país, as cidades publicavam leis para controlar o comércio, mas quando os dirigentes adoeciam ou se iam, ficava impossível manter a ordem e evitar as aglomerações. Muitas obras tiveram que parar suas atividades, como a Catedral de Siena, que ficou inacabada.

Com a peste, a Ordem dos Franciscanos perdeu 125 mil membros. Um monge de um mosteiro teve que enterrar todos seus irmãos de congregação e, no final, sobraram somente ele e o cão. O continente europeu entrou em ruínas, e um em cada três faleciam. Veneza perdeu três quartos da sua população, e a Inglaterra um milhão dos seus 4,5 milhões.

ISOLAMENTO

Como forma dura de distanciamento, um marroquino de nome Ibu Abu Madyan foi o primeiro em seu país a se isolar em sua casa. Quando existiam doentes numa residência, as pessoas de fora emparedavam janelas e portas com tábuas e pregos, como ocorreu em Milão. Os doentes morriam no interior, sem nenhuma ajuda.

Com isso, descobriram as vantagens do isolamento social. Em 1374, Veneza baniu os viajantes. Em 1382, os navios ficavam em quarentena em Marselha. As medidas permitiram um controle parcial, uma vez que as ratazanas e as pulgas não foram combatidas. A peste de 1347 a 1352 tornou-se endêmica no século XVIII.

Em 1362 outro surto dizimou crianças e adolescentes, e recebeu o nome de “Peste das Crianças” No século XV ela reapareceu em Portugal onde D. Duarte foi uma das vítimas. Em 1569, a peste matou 600 num só dia, e mais de 60 mil no ano. O Egito, a Índia e a China sofreram duras perdas durante o século XIX. Na década de 1890, a bactéria chegou até a América do Sul, proveniente da China. Na Flórida houve outro surto no ano de 1922.

A MEDICINA

A situação só foi controlada através dos calçamentos das ruas nas cidades e serviços de saneamento, que serviram para manter os ratos e as pulgas distantes dos humanos. Também, a medicina e a desinfecção tornaram-se mais eficientes, derrubando a doença aos poucos.

Naquela época, não se sabia as causas e como a peste se propagava. Os médicos não tinham prevenção e a cura. Muitos acreditavam que a propagação era pelo ar, no que não estava errado no caso da pneumática. Foi aí que se atentou para o isolamento como solução.

Para tratar dos doentes, os médicos usavam caixas com substâncias aromáticas, com um vestuário protetor e máscara em forma de bicos cheios de especiarias para purificar o ar. Com uma tocha de fumigação, cauterizava os bubões, mantendo uma certa distância dos pacientes. Não era nada fácil excluir as pulgas

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