Manifesto minha solidariedade aos companheiros do site “Sudoeste Digital”. É o apoio de um veterano jornalista que conviveu com a censura durante a ditadura militar (1964-1985), e hoje, após quatro décadas, sente a mesma indignação ao constatar que os órgãos de imprensa continuam a ser alvo dos atos de repressão. Os métodos são diferentes, mas a finalidade é a mesma: impedir que a verdade prevaleça.

O que causa espécie, aqui, em Vitória da Conquista, é ver que a mordaça está sendo colocada por um profissional da Comunicação, que, por muitos anos, se utilizou do rádio – e ainda é assíduo visitante das emissoras da cidade – para abrir o caminho da política, edificada com elogios e críticas aos seus correligionários  e adversários.

Recordo-me que, nos primeiros meses à frente da prefeitura conquistense, Herzem Gusmão trouxe um  advogado de Salvador, o mesmo que defendeu a ditadura (1988 a 2013) no Esporte Clube Bahia. O prefeito pretendia, através da Justiça, silenciar os “jornalistas comunistas” da cidade, que, na sua opinião,  zombavam dos seus projetos, como colocar fralda nos animais que puxam as carroças.

Antes de comentar – outros colegas já o fizeram – os atos que Herzem considerou como censuráveis, vale levar ao conhecimento do gestor o artigo 220 da Constituição de 1988: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição”.

Herzem se valeu da Justiça Eleitoral para impedir que a publicação de reportagem, cuidadosamente apurada, relatando que, por um erro de planilha, o município vai colocar R$ 1,3 milhão nas obras do Terminal de Ônibus da Lauro de Freitas, orçadas inicialmente em R$ 5,6 milhões. Multado quatro vezes por infração ao Código Eleitoral, o candidato do MDB sofreu nova derrota.   Agora ele coíbe a divulgação de pesquisas eleitorais, colocando sob suspeita o trabalho de um conceituado órgão de imprensa, o centenário jornal “A Tarde”.

Os exemplares dos últimos quatro anos do Diário Oficial do município, com os atos de exoneração de sete secretários de Comunicação, são a prova inquestionável  do intolerável relacionamento de Herzem Gusmão com as pessoas que trabalham diretamente sob suas ordens. A última jornalista demitida do cargo revelou que seu chefe, chamado de rabugento pelos próprios correligionários, era de difícil convivência. O Partido Social Cristão (PSC), em nota divulgada esta semana, anunciou que não apoiaria o “irmão evangélico” no segundo turno das eleições. E justificou: ele é truculento e avesso ao diálogo.

A imprensa no Brasil, salvo os veículos que permaneceram apoiando a ditadura, viveu sete anos de angústia. Oficializada em 13 de dezembro de 1968, com a assinatura do AI-5, a censura se tornou violenta. Nos primeiros anos, os agentes da PF apreendiam jornais e revistas nas bancas, ou enviavam bilhetes, determinando, por exemplo, que não se divulgasse uma epidemia de meningite no país. Posteriormente, ocuparam as redações. Munidos de tesoura, tiravam das páginas o que eles achavam que o povo não podia ter conhecimento. Repórter do “Estadão” na época, li muitos versos de “Os Lusíadas”, do lendário autor português Luís de Camões (1524 a 1580), inseridos nos espaços de textos censurados pelos agentes da Polícia Federal.

Companheiros, continuem com a missão de divulgar Vitória da Conquista, sem se deixar intimidar por um censor provinciano.

Carlos A. González – jornalista