Carlos A. González – jornalista

Parabéns, prefeito! Vitória da Conquista – na verdade, sua administração – acaba de ganhar mais uma medalha (de latão), ao ser incluído entre os quatro municípios – os outros são Indaiatuba (SP), Uberaba (MG) e Fortaleza (CE) – que apresentam os índices de contaminação da covid – 19 mais altos do país. A possibilidade de ficar mais quatro anos num emprego agradável transportou Herzem Gusmão para outra galáxia, onde todos gozam de ótima saúde. Esse mimo também é cobiçado por 295 gestores dos 417 municípios baianos. Entre os mais de 500 mil – um recorde – candidatos a vereador, 80% deles buscam um novo mandato, ou seja, continuar na “doce vida”

O quê há de comum entre Donald Trump, Jair Bolsonaro e Herzem Gusmão?  Pergunta fácil: todos eles priorizaram, neste trágico ano de 2020, o instituto da reeleição, hoje condenado, no Brasil, pelo seu mentor intelectual, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Simplesmente, não deram o suporte necessário para o combate ao vírus, que facilmente se propagou, tirando a vida de milhares de brasileiros e norte-americanos.

Os dois presidentes e o prefeito criaram uma espécie de corrente, cada um usando métodos diferentes, mas com o objetivo de se manterem no poder. Os elos desse grilhão, que une Washington, Brasília e Vitória da Conquista, só podem ser quebrados pelos eleitores, utilizando a força do voto.

Herzem Gusmão, o elo mais frágil dessa corrente, cometeu nos últimos nove meses o erro de acompanhar os passos do presidente Bolsonaro  no enfrentamento da crise sanitária, privilegiando a economia em prejuízo da saúde da população mais pobre. Liberou totalmente as atividades comerciais, mostrando, claramente, que estava agindo em benefício do seu eleitorado: o empresariado, que pôs uma das suas lideranças, a presidente da CDL local, na chapa situacionista.

Nesses oito meses de dor e sofrimento, Estado e município travaram uma guerra de palavras, que já é do conhecimento de todos.  A última batalha se deu há poucos dias. Diante das taxas de transmissão do vírus em Conquista, superiores às do Estado, o secretário estadual de Saúde, Fábio Vilas-Boas manifestou sua preocupação, declarando que “é lamentável que o prefeito não tome nenhuma providência para combater o coronavírus. A cidade está abandonada do ponto de vista de dosagem. Nós temos oferecido o RT-PCR (método usado para detectar o vírus) para utilização em toda a região, mas a prefeitura não tem feito a parte dela”.

A prefeitura não respondeu até o momento. Também tem se mantido em silêncio sobre a vacina, não acompanhando o presidente Balsonaro na sua caótica condução da emergência sanitária. Há poucos meses Herzem se deixou levar por decisões ilusórias vindas do Planalto: incentivo às aglomerações, críticas ao uso de máscara, negação ao distanciamento social e prescrição da cloroquina, medicamento que abarrota o almoxarifado municipal.

Nesse afã de permanecer no poder, Herzem cometeu deslizes, punidos com multas pela Justiça Eleitoral, entrou em rota de colisão com os professores da rede municipal, que ameaçam denunciá-lo à Organização Internacional do Trabalho (OIT). Por fim, foi acusado de estar usando a estrutura do Hospital Esaú Matos em troca de votos

“O trabalho deve continuar”. O slogan da campanha da chapa situacionista tem levado moradores da periferia e da zona rural a perguntar: “Que trabalho?”. Convivendo com a poeira e a lama, eles reclamam do fechamento de escolas, da falta de médicos e medicamentos nos postos de saúde, da ausência de saneamento básico, do transporte coletivo inconstante. Quando muito, com a chancela de algum vereador, a rua do desvalido ganha um maldito quebra-mola, uma praga que se alastra por toda a cidade.

Revolta da Vacina

Trinta mortos, 110 feridos, 945 presos na Ilha das Cobras e 461 deportados para o longínquo Acre. Este foi o saldo da Revolta da Vacina, um motim popular ocorrido no Rio de Janeiro entre 10 e 16 de novembro de 1904. Um grupo de militares do Exército tentou se aproveitar do clima de anarquia para invadir o Palácio do Catete, sede do governo federal, sendo repelido pelas tropas leais ao presidente Rodrigues Alves (1848-1919).

A rebelião foi associada à obrigatoriedade da imunização contra a varíola, a peste bubônica e a febre amarela, doenças infecciosas, causa das mortes dos moradores das áreas mais pobres do Rio. Os insurgentes e negativistas interpretaram o ato imperativo presidencial, executado pelo sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917), como uma invasão de privacidade.

Estamos vivenciando hoje uma conjuntura parecida com a de 1904, com variantes diferentes. No começo do século passado o Brasil era governado por um estadista, um líder político, que exerceu seu mandato, segundo os historiadores, sem a influência de partidos e ideologias. A firmeza de caráter de Rodrigues Alves não é uma característica dos políticos atuais.

Os que não aprovam a vacinação, obrigatória ou não, contra a Covid-19, são os ideólogos do fascismo, devotos de Jair Bolsonaro. São os insanos que manifestam nas redes sociais a repulsa a tudo que vem da China, inclusive a vacina, ignorando que o país asiático é o maior comprador do que produzimos.

Quando 160 mil brasileiros já morreram, vítimas do coronavírus, pesquisa feita pela revista científica Nature revela que 83% dos brasileiros aguardam ansiosos a chegada de uma vacina, independente do país fabricante.

O Brasil é uma referência mundial em imunização. O Instituto Butantã e a Fundação Oswaldo Cruz, responsáveis pelos programas de testes, gozam da confiança da maioria da população. Anualmente, os dois respeitáveis laboratórios produzem mais de 300 milhões de doses de vacinas contra dezenas de doenças.

O primeiro rompimento na corrente deve acontecer no próximo dia 3, quando será conhecido o futuro presidente dos Estados Unidos. As pesquisas mostram uma ligeira vantagem do democrata Joe Biden. O sistema eleitoral americano é complexo, porque nem sempre o voto popular prevalece sobre dos delegados democratas e republicanos – no pleito de 2016, líder em todas as pesquisas, Hillary Clinton, com 3 milhões de votos a mais, perdeu para Trump.