ESTE É UM TEXTO EM HOMENAGEM AO POETA QUE TEVE SEU DIA NESTA SEMANA, MAS, INFELIZMENTE, NEM FOI LEMBRADO. CORTARAM AS ASAS DA CULTURA PARA ELA VOAR BEM BAIXO, COMO A GALINHA E A NAMBU. O COMNETÁRIO FAZ PARTE DO LIVRO “ANDANÇAS”, DE AUTORIA DO JORNALISTA E ESCRITOR JEREMIAS MACÁRIO, E PODE SER ENCONTRADO NA LIVRARIA NOBEL, NA BANCA CENTRAL OU DIRETAMENTE NA MÃO DO AUTOR.

O poeta dá sentido às coisas que somente poucos têm capacidade de ver. Tira leite da pedra e transforma um grão de areia numa bela praia de mulheres nuas. Não se contenta com o limite da linha. Quer o universo. Para ele, não existe finito. Saboreia toda essência do fruto. Viola e violenta, com suavidade e delicadeza. Penetra nos porões do misterioso e visita todos seus cômodos secretos.

O poeta é um intruso do real e do abstrato. É domador do tempo e metafísico do concreto. Transforma o subjetivo em objetivo. É o mestre da alquimia e da magia. Sua musa é bela, vestida de camponesa, ou como nobreza. Sabe como deixar uma alma nua. É o arquiteto da régua e do compasso das palavras. Sua missão é viajar nas asas da alegoria e da tristeza.  Viaja nas metáforas e revela o invisível.

É o repórter das parábolas. Sabe unir conflitos e harmonia num só cesto. O poeta não deve falar para dentro, nem ser um estranho. Sua poesia tem que ser estridente e, ao mesmo tempo, compreendida pela mente. Tem que atrair, ser social, mesmo lírica, e tocar no espírito do enigmático. O bom poeta é afinado como o “trinca-ferro” que empresta sua melodia para a viola temperar.

POR ONDE VIVE O POETA?

Como e onde vive o poeta de hoje? Falam por aí que respira o gás carbônico e é internauta. Não mete mais os pés no orvalho do sereno da manhã, nem vai ao curral tomar leite no peito das vacas. Não é mais telúrico.  O poeta de hoje se empanturra de enlatados. Come fios de aço. Não fala mais do boi puxando o arado, nem da mão que colhe e lavra. É do tempo da máquina que revira o chão com a navalha e engole de uma vez a safra. Não tem mais o ritmo nos pés da cantoria, para debulhar o feijão seco até o clarear do dia. Não tem tinteiro, nem desliza mais sua pena no papel. Conduz as letras no visor feiticeiro da tecnologia.

Nas calçadas indiferentes, está distante do luar rasgando a serra por entre as matas, que leva o caipira pelas veredas de prata.  Ao amanhecer, não tem mais em sua mesa a canjica, a abóbora e o cuscuz de milho verde com leite do pasto. Milho do plantio de São José posto em toalha feita pelas rendeiras. Poeta de hoje come empacotado e vive no trânsito engarrafado.

Como não se lembrar das prosas e dos causos de final de tarde dos homens enfadados e suados do campo!  Os meninos brincando de esconde-esconde, bambolê, pula-corda, chicotinho-queimado, baleado, cabra-cega, bola-de-gude, pião, boca-de-forno, atirei o pau no gato e cirandas no terreiro da casa e nas ruas das cidades pacatas!

A BORBOLETA DO POETA

É minha borboleta! Só o poeta tem a magia de imortalizar o passado; dar vida e vivê-la, intensamente. Ele pode voltar ao túnel do tempo e nele se fartar. O ser está sendo esmagado pela hegemonia do pensamento. O conceito subjetivo tem sua marca genética. O culto ao corpo, imagem de adoração, está hipnotizando e debilitando o espírito. São vários os deuses nossos de cada dia. No templo da falsa felicidade do consumismo, as cortinas da mídia se abrem para a livre idolatria no altar das oferendas. Ajoelhamos para venerar os bezerros de ouro. Num ato mecânico, o Natal virou comilança e troca de presentes.

A criatura tenta assumir o lugar do criador e acha que pode criar a si mesmo. Predominam as doses de serotonina e o humor da dopamina. O ácido das drogas dopa o neurotransmissor. A endorfina está em baixa. Quando o cara faz uma “Pós”, ou um “PHD” acha-se dono da verdade e se enrosca em teorias e códigos. Fala difícil para um círculo fechado. Sempre é glorificado. É só ter fama para sua frase ser registrada e propagada. O famoso nunca diz bobagens. Se não tiver sentido, se arranja, e ai de quem questionar. Seus versos são sempre “profundos”. O pó vira ouro. A piada da praça tem graça.

Oh borboleta! Quando era menino, parava para admirar seu bailado nos campos floridos. Pousava e levantava vôo ao sutil movimento de alguém por perto. Difícil tê-la nas mãos. Leve como uma pétala de rosa, vai e volta, caindo e ondulando no sopro criador da corrente de ar.  Encantadora e bela como o colibri. Eu corria entre as cores das asas da inocente imaginação. Espantava e não conseguia entender seu amor sincero para com a flor. O perfume era tudo para fecundar a vida.

  É minha borboleta, descobriram que o hemisfério esquerdo do cérebro cria a lógica, e o direito as emoções. Parece que perdemos o esquerdo. Para se aliviar dos tormentos, uns usam a música, outros massagens e banhos, e ainda o yoga, a meditação e a religião. Correm atrás do sentido da vida, tentando fugir da agonia da morte.

O homem brinca de robô em Marte, mas enquanto a tecnologia e a biotecnologia avançam, os pobres ficam mais distantes do seu alcance. Estão dedetizando nossa gente e modificando a semente. Pagamos o máximo e recebemos o mínimo. Criaram a paranóia do preconceito para esconder a inoperância no social. Negaram o ensino, e deixaram milhões despreparados.  Tratam os mais vulneráveis como coitadinhos. Neles injetam ilusão e jogam todos na universidade, como se fossem volumes imprestáveis. Não importa o mérito. Devolvem depois a incompetência para o mercado. Isso ainda vai dar em diarreia e caganeira.

“CANTÁ MIÓ”

Oh meu pássaro preto! Como diz a canção: “furaram teus “óio” para puder cantá mió”. Sua sinfonia foi sentenciada à prisão pela mente assassina. O pássaro canta na gaiola o lamento da natureza do homem perverso, como cantava o escravo lembrando da sua mãe África. Não escuto mais sua cantoria na campina, nem seu assovio e sua voz divina. Enquanto canta a sua dor, o mundo se cala diante da fome e das atrocidades imperialistas. Os palestinos são encurralados por Israel como caça. O mundo fica mudo e se separa em raça. Terra malvada, menino malcriado.

É meu pássaro preto! Seu canto é de um carpido triste cheio de saudades. É como a angústia interna que vara o peito de um preso na solitária. A tempestade não passa nessa noite de trevas! Mas passam o rei, o imperador e a rainha. Passa a multidão apressada. Passa o andarilho enigmático. Passam os carros nos sinais. Passa a boiada para os currais e matadouros. Passa o mendigo e ninguém sabe que passa. Passa o tempo e muita gente correndo atrás. Lá vai a elite montada no privilégio da burguesia, que não dá passagem. Passam desfilando os corruptos engravatados. Passa o poder, sem autoridade.  Passa a criança que não sabe para onde vai. Passa veloz a estupidez dos tiros nos vitrais. Passa o retirante batido em retirada. Passos passam anônimos nas marcas dos viadutos e das calçadas. A bela morena entra em cena e passa. Passa a morte na sua viagem de ida e volta.

Ainda há tempo para ouvir a melodia do sabiá, que diz que a vida é para quem sabe apreciar. Seu canto estalado lembra a saudade da partida. Aqui estou a chorar. Oh majestade sabiá! Leva logo minha alma para o outro lado de lá.  Não consigo cicatrizar a minha ferida. Ensina-me a espantar as mágoas e arrancar esta dor que não para de latejar. Faz de mim a lanterna para clarear o caminho de pedra nesse túnel da vida. Os conflitos continuam a triturar o espírito, e a carne está sempre dando as ordens. Preciso limpar o corpo e não deixar que a razão da mente se vá.

Oh misteriosa coruja!  Muitos a chamam de feia e agourenta como o corvo, o mais inteligente dos pássaros. Como a cauã, que prenuncia tragédias e morte, dizem que nasceu das trevas, e que é uma bruxa queimada pela inquisição. Que só você gaba o toco! Sempre calada e meditativa, parece que vive em sono profundo e eterno. Entendo que vigia o tempo e os pensamentos. Na visão sensível e oculta de um raio, é exímia caçadora da noite. Na verdade, somente os mais sensitivos penetram em sua beleza.

Para o humano, você tem a áurea do medo porque prevê as catástrofes e as destruições das almas. Voa suave e pousa nos lugares mais sombrios e solitários. Princesa dos castelos, da Pensilvânia e das longínquas terras da Romênia. Dizem que já dormiu com os vampiros nas tumbas dos cemitérios! Pode ser, mas a tudo escuta e sofre com o seu chiado de piedade, como se estivesse a alertar o homem do perigo que se aproxima.

Conta-me como será o final dos tempos. Leva-me para conhecer o infinito. Arranca-me daqui para o além do universo e revela a minha origem. Responde donde veio, e para onde vai. Ensina-me a viver. Quem sou, e para onde vou. Mostra-me onde está a verdade, mística coruja, amante do silêncio! São tantos os caminhos: limpos, estreitos, de cravos e espinhos. Não somos nada sábios como julgamos ser. O medo de morrer nas engrenagens da violência do progresso nos acompanha. É a parte que nos cabe nesta herança.

Rasgando o céu da escuridão, a coruja parece nos pedir para salvar o peixe-boi, a tartaruga-marinha, a baleia, a onça-pintada, o lobo-guará (200 reais) e o mico-leão. Estamos virando comida dos monstros que criamos. Estamos criando sociedades congeladas.  É minha coruja, se extravaso, e se meu fio for afiado, corro o risco de ser fatiado. Mas, não desisto de contrariar. Prefiro não concordar a ter que respirar desse mesmo ar.