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:: 23/out/2020 . 22:39

NAS ASAS DO POETA

ESTE É UM TEXTO EM HOMENAGEM AO POETA QUE TEVE SEU DIA NESTA SEMANA, MAS, INFELIZMENTE, NEM FOI LEMBRADO. CORTARAM AS ASAS DA CULTURA PARA ELA VOAR BEM BAIXO, COMO A GALINHA E A NAMBU. O COMNETÁRIO FAZ PARTE DO LIVRO “ANDANÇAS”, DE AUTORIA DO JORNALISTA E ESCRITOR JEREMIAS MACÁRIO, E PODE SER ENCONTRADO NA LIVRARIA NOBEL, NA BANCA CENTRAL OU DIRETAMENTE NA MÃO DO AUTOR.

O poeta dá sentido às coisas que somente poucos têm capacidade de ver. Tira leite da pedra e transforma um grão de areia numa bela praia de mulheres nuas. Não se contenta com o limite da linha. Quer o universo. Para ele, não existe finito. Saboreia toda essência do fruto. Viola e violenta, com suavidade e delicadeza. Penetra nos porões do misterioso e visita todos seus cômodos secretos.

O poeta é um intruso do real e do abstrato. É domador do tempo e metafísico do concreto. Transforma o subjetivo em objetivo. É o mestre da alquimia e da magia. Sua musa é bela, vestida de camponesa, ou como nobreza. Sabe como deixar uma alma nua. É o arquiteto da régua e do compasso das palavras. Sua missão é viajar nas asas da alegoria e da tristeza.  Viaja nas metáforas e revela o invisível.

É o repórter das parábolas. Sabe unir conflitos e harmonia num só cesto. O poeta não deve falar para dentro, nem ser um estranho. Sua poesia tem que ser estridente e, ao mesmo tempo, compreendida pela mente. Tem que atrair, ser social, mesmo lírica, e tocar no espírito do enigmático. O bom poeta é afinado como o “trinca-ferro” que empresta sua melodia para a viola temperar.

POR ONDE VIVE O POETA?

Como e onde vive o poeta de hoje? Falam por aí que respira o gás carbônico e é internauta. Não mete mais os pés no orvalho do sereno da manhã, nem vai ao curral tomar leite no peito das vacas. Não é mais telúrico.  O poeta de hoje se empanturra de enlatados. Come fios de aço. Não fala mais do boi puxando o arado, nem da mão que colhe e lavra. É do tempo da máquina que revira o chão com a navalha e engole de uma vez a safra. Não tem mais o ritmo nos pés da cantoria, para debulhar o feijão seco até o clarear do dia. Não tem tinteiro, nem desliza mais sua pena no papel. Conduz as letras no visor feiticeiro da tecnologia.

Nas calçadas indiferentes, está distante do luar rasgando a serra por entre as matas, que leva o caipira pelas veredas de prata.  Ao amanhecer, não tem mais em sua mesa a canjica, a abóbora e o cuscuz de milho verde com leite do pasto. Milho do plantio de São José posto em toalha feita pelas rendeiras. Poeta de hoje come empacotado e vive no trânsito engarrafado.

Como não se lembrar das prosas e dos causos de final de tarde dos homens enfadados e suados do campo!  Os meninos brincando de esconde-esconde, bambolê, pula-corda, chicotinho-queimado, baleado, cabra-cega, bola-de-gude, pião, boca-de-forno, atirei o pau no gato e cirandas no terreiro da casa e nas ruas das cidades pacatas!

A BORBOLETA DO POETA

É minha borboleta! Só o poeta tem a magia de imortalizar o passado; dar vida e vivê-la, intensamente. Ele pode voltar ao túnel do tempo e nele se fartar. O ser está sendo esmagado pela hegemonia do pensamento. O conceito subjetivo tem sua marca genética. O culto ao corpo, imagem de adoração, está hipnotizando e debilitando o espírito. São vários os deuses nossos de cada dia. No templo da falsa felicidade do consumismo, as cortinas da mídia se abrem para a livre idolatria no altar das oferendas. Ajoelhamos para venerar os bezerros de ouro. Num ato mecânico, o Natal virou comilança e troca de presentes.

A criatura tenta assumir o lugar do criador e acha que pode criar a si mesmo. Predominam as doses de serotonina e o humor da dopamina. O ácido das drogas dopa o neurotransmissor. A endorfina está em baixa. Quando o cara faz uma “Pós”, ou um “PHD” acha-se dono da verdade e se enrosca em teorias e códigos. Fala difícil para um círculo fechado. Sempre é glorificado. É só ter fama para sua frase ser registrada e propagada. O famoso nunca diz bobagens. Se não tiver sentido, se arranja, e ai de quem questionar. Seus versos são sempre “profundos”. O pó vira ouro. A piada da praça tem graça.

Oh borboleta! Quando era menino, parava para admirar seu bailado nos campos floridos. Pousava e levantava vôo ao sutil movimento de alguém por perto. Difícil tê-la nas mãos. Leve como uma pétala de rosa, vai e volta, caindo e ondulando no sopro criador da corrente de ar.  Encantadora e bela como o colibri. Eu corria entre as cores das asas da inocente imaginação. Espantava e não conseguia entender seu amor sincero para com a flor. O perfume era tudo para fecundar a vida.

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OS 40 ANOS DO “CRISTO CRUCIFICADO”

Carlos A. González – jornalista

No meio da terra árida, com pouca vegetação, ergue-se, magnificente, o Monumento ao Cristo Crucificado, a primeira imagem que surge aos olhos do viajante que está chegando a Vitória da Conquista pela BR-116 (Rio-Bahia interiorana). Erguida na Serra de Periperi, ponto mais alto da cidade, a obra do artista plástico Mário Cravo Júnior (1923-2018), contou com apoio logístico e financeiro da Construtora Odebrecht e da Prefeitura Municipal. Inaugurada em 9 de novembro de 1980, a escultura “contempla” a cidade que cresce, sócio e economicamente, sob seus pés. Desassistida, “lastima”, porque nada foi feito no seu entorno nesses 40 anos.

O “Cristo de Mário Cravo”, como é conhecido pelos moradores de Vitória da Conquista, retrata nos traços do rosto o sofrimento do homem do sertão nordestino, castigado pelo sol, na sua luta permanente contra a seca.

A imagem, esculpida em fibra de vidro, reforçada internamente com estrutura metálica de tubos galvanizados e aço inoxidável, tem 17 metros (a mesma altura do Cristo Redentor, do Rio de Janeiro, que está fixado a um pedestal mais alto) e 13 metros de largura. A pilastra de apoio e a cruz são de concreto armado. O principal cartão-postal de Vitória da Conquista, considerada como a maior estátua no mundo de um Cristo pregado na cruz, tem 33 metros de altura, e está situada numa altitude de 1.110 metros.

As primeiras conversas entre a administração municipal, na pessoa do prefeito Pedral Sampaio (1925-2014), e Mário Cravo Júnior, datam de 1963, motivadas pelas reclamações das pessoas que tinham o hábito de subir a serra todos os anos, através de trilhas abertas no mato. Os romeiros cobravam do gestor a recuperação de um velho cruzeiro, diante do qual se reuniam para fazer seus pedidos e orações.

Antes de ser deposto no ano seguinte pela ditadura militar, Pedral mostrou interesse em erguer, na Serra de Periperi, um símbolo cristão, em substituição ao Velho Cruzeiro, transformando, ao mesmo tempo o local numa área urbanizada, dedicada ao turismo religioso. Uma das pessoas consultadas pelo prefeito foi o então vereador Raul Ferraz, que julgou o projeto modesto (uma cruz com 10 metros de altura), sugerindo a construção de “algo impactante, que pudesse ser visto de qualquer ponto da cidade”.

Dezessete anos depois Mário Cravo voltou a Conquista para dar continuidade à conversa com a prefeitura, sob a gestão de Raul Ferraz, que havia recrutado Pedral, nomeando-o secretário de Obras. O “Cristo Crucificado” foi relacionado entre as prioridades do governo. Por sugestão do prefeito, o monumento teria as mesmas dimensões da escultura erguida no Morro do Corcovado, no Rio. Nesse sentido, foi contratado o engenheiro calculista estrutural Augusto Franklin Ferraz. O local escolhido, apesar de bastante rústico, é o ponto mais alto da serra, de frente para a Rio-Bahia, de onde pode ser visto.

A grandiosidade da obra exigia uma base de sustentação capaz de garantir a segurança da imensa cruz e a imagem do Cristo, expostas aos ventos, tempestades e raios solares, “por muitos anos ou séculos”, afirmou Ferraz, revelando que o pedestal, “a parte “invisível” do trabalho, foi a de maior desembolso para a prefeitura”. O contrato com Mário Cravo foi assinado em maio de 1980, mas a base de apoio começou a ser construída em 9 novembro de 1979, com o lançamento da pedra fundamental, ato que foi acompanhado por uma multidão.

O preço total dos serviços, objeto do contrato firmado entre as partes, foi fixado em 2,8 milhões de cruzeiros (moeda da época), dividido em quatro parcelas, sendo a última em 30 de outubro, na entrega da escultura.

O município se comprometeu a fornecer torres metálicas para içamento da imagem; hospedagem e alimentação para o contratado e dois operários especializados; instalação de quatro refletores no local de trabalho; transporte dentro da cidade; disponibilizar cinco trabalhadores. O autor da obra, segundo o contrato, ficou responsável pelo fornecimento e guarda do material e ferramentas necessários à operação; aos honorários de dois auxiliares qualificados; e com as despesas de viagens a Salvador.

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A GANÂNCIA DO AGRO!

É, meu amigo, até nas feiras e mercados populares, os preços dos produtos estão caros, como na “hora da morte”, como diz o ditado popular. Além do arroz, outro vilão é o óleo de soja, tudo por causa da ganância do agronegócio que, ao invés de levar comida à mesa dos brasileiros, principalmente os mais pobres, prefere exportar seus produtos para o exterior, especialmente para a China. A soja, por exemplo, é transportada para aquele país para servir de ração para os animais. Como os preços internacionais estão altos com a subida do dólar, os brasileiros são obrigados a pagar por esses custos.  Se o Brasil tivesse um governo sério, priorizaria primeiro o mercado interno, para depois exportar os excedentes. No entanto, temos um governo que privilegia os grandes ruralistas, que ainda derrubam e queimam nossas matas, para expandir suas plantações. Cinicamente, ainda dizem que botam o alimento na mesa dos brasileiros. A mesma coisa acontece com o arroz, cujos agricultores deveriam ser proibidos de exportar o produto, para atender a demanda do mercado interno. O paradoxo é que todo arroz é exportado, e o mesmo grão é importado por um alto preço para abastecer as necessidades internas. O maior absurdo ainda acontece com a importação da soja, quando o país tem uma produção de sobra com relação ao consumo.

EU ESTAREI LÁ

Recente poema do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quando o planeta se aquecer,

Com as elevadas temperaturas,

As florestas virarem savanas,

Subirem as ondas das águas do mar,

Arder em fogo as linhas humanas,

Eu estarei lá para te amar.

 

Quando as fronteiras se abrirem,

As pedras das muralhas caírem,

Para cada um construir o seu lar,

Que o homem facínora fez ruína,

Desde as eras sumérias e romanas,

Eu estarei lá para te afagar.

 

Quando teu ser perdoar meu ser,

Vamos todos um dia nos irmanar,

E o sonho de uma igualdade una,

Pode preencher essa vazia lacuna,

De um existir sem sentido de viver,

Eu estarei lá só para te beijar.

 

Quando você estiver triste e depressivo,

Andar por aí como se fosse morto-vivo,

Violentado pela sua raça, gênero e nação,

Em seu caminho escuro sem um futuro,

Eu estarei lá para estender minha mão.

 

Quando estiver com fome a roncar,

Refugiado por aí como um cão,

Minha viola catingueira sonora,

Vai rogar ao Pai e a Nossa Senhora,

Pra do alto mandarem o teu manjar,

E eu estarei lá com a minha canção.

 

Quando tudo for ódio e intolerância,

Não mais houver a social democracia,

Os brutos te negarem a fé e a ciência,

Trocarem a semente da cura pela dor,

Com o tóxico veneno da ganância,

Eu estarei lá para te dar uma flor.

 

Quando o tempo resolver parar,

A porta se fechar para tua saída,

Não mais tiver esperança na lida,

Seja na tempestade ou na calmaria,

Tentar abandonar a tua amada Maria,

Eu estarei lá, seja em qualquer lugar.

 

 

 

 

 





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