Em sua viagem de pesquisas pela Ásia, principalmente na Nova Guiné, o cientista Jared Diamond faz um relato sobre a influência dos austranésios (povos originários do sul da China) entre os povos em torno da Indonésia, da Austrália, Nova Guiné e em outras ilhas asiáticas do Pacífico até a Polinésia. Ele conta sua experiência fracassada para trilhar uma subida no deserto australiano a fim de conhecer umas pinturas rupestres, coisa que os aborígines faziam com facilidade.

De acordo com ele, a Austrália é o continente mais seco, mais plano, mais estéril e biologicamente mais pobre entre os outros. Assinala que foi o último continente a ser ocupado pelos europeus que dizimaram os nativos das terras mais temperadas e não chegaram a alcançar a parte mais desértica. Até o século XIX, ali abrigavam as sociedades humanas mais peculiares e a população menos numerosa de todos os continentes.

SEM MARCA DA CIVILIZAÇÃO

“A Austrália é o único continente onde, nos tempos modernos, todos os povos nativos ainda viviam sem qualquer marca da chamada civilização – desprovidos de agricultura, gado bovino, metal, arcos e flechas, aldeias povoadas, tribos centralizadas ou Estados”. Um explorador francês chegou a dizer que os australianos são a gente mais miserável do mundo, e os seres humanos mais próximos das bestas selvagens.

No entanto, 40 mil anos atrás, segundo Diamond, as sociedades australianas nativas levavam uma grande vantagem sobre os europeus e povos de outros continentes. Eles desenvolveram ferramentas de pedra e embarcações mais antigas do mundo. Em sua avaliação, os humanos modernos podem ter povoado a Austrália antes de habitarem a Europa Ocidental. Por que, então, os australianos não conquistaram a Europa?

Ele explica que na Era Glacial, o nível do mar baixou muito em relação ao atual (mar de Arafura) entre a hoje Austrália e a Nova Guiné. Quando as lâminas de água derreteram, há 12 e 8 mil anos, o nível do mar subiu muito. As sociedades humanas dessas duas massas de terra, antes unidas, se tornaram diferentes uma da outra. A maioria dos papuas da Nova Guiné era de lavradores e criadores de porcos. Eram politicamente organizados em tribos.

Diamond constatou que, 40 mil anos trás, essas travessias devem ter sido feitas em balsas de bambu, embarcações de baixa tecnologia, mas propícias para o alto mar, ainda utilizadas no litoral meridional da China de hoje. Só nos últimos milhares de anos encontramos indícios seguros na forma de aparecimento de porcos e cães oriundos da Ásia, respectivamente na Nova Guiné e na Austrália. Antes não existiam provas da chegada de seres humanos pela Ásia.

Quando os europeus começaram a colonizar a Nova Guiné, no final do século XIX, os nativos eram analfabetos, usavam ferramentas de pedra e não eram organizados em Estados, ou tribos centralizadas. Para Diamond, o povo australiano e o da Nova Guiné representa um enigma dentro de outro enigma. Os aborígines são diferentes dos europeus, por isso, muitos estudiosos consideraram um elo perdido entre os macacos e os seres humanos.

Milênios de isolamento, e as línguas modernas aborígines australianas e as do grupo principal da Nova Guiné (papuas) não revelam qualquer relação com outra língua asiática. “Estudos genéticos sugerem que os aborígines da Austrália e os montanheses da Nova Guiné são um pouco mais parecidos com os asiáticos modernos do que com os povos de outros continentes”.

Depois de 40 mil anos, os australianos continuavam caçadores-coletores, mas, o surpreendente é que o continente possui as mais ricas reservas de ferro e de alumínio do mundo, bem como de cobre, estanho, chumbo e zinco.

ASIÁTICOS FORA DA CHINA E O ISOLAMENTO

O pesquisador destaca que os primeiros colonos asiáticos da Grande Austrália tiveram muito tempo para se tornarem diferentes de seus primos asiáticos, que não saíram de casa, com trocas genéticas limitadas. Em sua análise, o tronco familiar original do sudeste da Ásia, do qual derivavam os colonos da Austrália, foi sendo substituído por outros asiáticos que se espalharam fora da China.

Os cabelos crespos dos papuas contrasta com o liso ou ondulado dos australianos. As duas línguas não têm relação com a asiática, nem entre elas. Todas essas divergências, de acordo com Jared, refletem o longo período de isolamento em ambientes diferentes. Estudos de pólen atestam o grande desmatamento dos vales, há cinco mil anos, indicando a destruição das florestas para a agricultura em Nova Guiné.

Como o inhame branco e a banana são nativas do sudeste da Ásia, supunha-se que outras culturas das regiões montanhosas da Nova Guiné vieram também de lá. Percebeu-se, entretanto, que os ancestrais silvestres da cana-de-açúcar, dos vegetais folhosos e dos talos comestíveis são espécies da Nova Guiné. O inhame branco é nativo da Nova Guiné e da Ásia. Admite-se agora que a agricultura surgiu nas áreas montanhosas da Nova Guiné pela domesticação local.

“A Nova Guiné, portanto, junta-se ao Crescente Fértil, à China e a algumas outras regiões como um dos centros mundiais de origens independentes da domesticação de plantas. Os três elementos estrangeiros na produção de alimentos das regiões montanhosas, conforme notaram os primeiros exploradores europeus, eram as galinhas, os porcos e as batatas-doces.