Houve transferência de técnicas chinesas de fabricação de papel para o Islã quando o exército árabe derrotou o chinês na batalha do rio Talas. O Islã encontrou alguns artífices entre os prisioneiros de guerra e os levou com a intenção de montar uma fábrica de papel. Existia difusão de ideias proteladas, como foi o caso da porcelana inventada na China por volta do século VII. Chegou à Europa pela Rota da Seda no século XIV.

A narração consta do livro “Armas, Germes e Aço”, do cientista Jared Diamond, no capítulo que trata de “A Mãe da Necessidade”, destacando as questões das transferências tecnológicas e as interferências geográficas e ecológicas na difusão das ideias.

AS INVENÇÕES E LOCALIZAÇÕES GEOGRÁFICAS

Só em 1707 o alquimista Johann Bottger, depois de demoradas experiências, encontrou a solução e iniciou a fabricação das famosas porcelanas de Meissen. Do mesmo modo, os oleiros europeus tiveram que reinventar os métodos chineses de fabricação, por conta própria.

No caso da difusão, de acordo com Diamond, as sociedades diferem na rapidez com que recebem a tecnologia de outras comunidades, dependendo da localização geográfica. Os povos mais isolados da Terra na história recente eram os aborígines tasmanianos, que viviam em embarcações para atravessar oceanos em uma ilha a cerca de 160 quilômetros da Austrália, o continente mais isolado. Durante dez mil anos, os tasmanianos não tiveram nenhum contato com outras sociedades e não adquiriram nenhuma tecnologia diferente.

As sociedades localizadas nos principais continentes evoluíram a tecnologia mais depressa porque acumulavam suas próprias invenções e as de outras comunidades. O Islã medieval, localizada na Eurásia, absorveu invenções da Índia, da China e ainda herdou a cultura grega.

As tecnologias úteis persistem até serem substituídas por outras melhores. Qualquer sociedade passa por movimentos sociais, ou por modismos onde coisas economicamente inúteis se tornam valorizadas, e as úteis perdem, temporariamente, sua importância. Hoje quando todas sociedades estão conectadas umas às outras, não podemos imaginar que um modismo se perca ao ponto de uma tecnologia fundamental ser descartada.

Um exemplo foi o abandono de armas pelo Japão quando elas chegaram em 1543 por dois aventureiros portugueses com arcabuzes. Os japoneses ficaram impressionados e deram início a uma produção, aperfeiçoando a tecnologia. Por volta de 1600 possuíam armas melhores e em maior quantidade que qualquer outro país.

No entanto, existiam fatores contra a aceitação de armas, como a numerosa classe de guerreiros samurais para quem as espadas eram símbolos de status e consideradas obras de arte. A guerra japonesa envolvia combates isolados entre samurais que se orgulhavam de lutar elegantemente. Soldados camponeses atiravam deselegantemente. Além disso, as armas eram invenção estrangeira e passaram a ser menosprezadas. O governo começou a limitar a produção de armas através de uma licença para fabricação. Depois limitou a licença só para armas produzidas para o governo. Esse processo só terminou em 1853 quando uma frota americana cheia de canhões convenceu o Japão da necessidade de retomar a fabricação de armas.

Outros retrocessos desse tipo ocorreram na pré-história, como no caso dos aborígines tasmanianos que abandonaram até as ferramentas feitas de osso. A cerâmica foi abandonada em toda Polinésia. A maioria deixou de usar arcos e flechas na guerra.

A DIFUSÃO DA INVENÇÃO

Diamond também mostra em seu livro a importância da difusão de uma invenção e como ela ultrapassa a outra em termos originais, o que se chama de processo autocatalítico (avança a uma velocidade que aumenta com o tempo). A explosão da tecnologia desde a Revolução Industrial impressionou, como também foi o avanço medieval comparado ao da Idade do Bronze.

No Crescente Fértil e na China, objetos de ferro só se tornaram, comuns depois de dois mil anos de experiência com a metalurgia do bronze. Por que a impressão se difundiu de modo explosivo na Europa medieval depois que Gutemberg imprimiu sua Bíblia em 1455, mas não depois que um impressor gravou o Disco de Festos em 1700 a. C?

Em parte, como explica o biólogo, porque os impressores europeus conseguiram combinar seis avanços tecnológicos, como o papel, o tipo móvel, a metalurgia, as prensas, as tintas e os sistemas de escrita. A prensa de Gutemberg derivava das prensas comuns, utilizadas para fabricação de vinho e azeite. O autor do Disco de Festos contava com técnicas menos eficazes e toscas, sem vantagem em relação à escrita feita à mão. Havia pouca demanda e falta de incentivo para investir. Já o mercado de massa para impressão na Europa induziu muitos investidores a emprestar dinheiro para Gutemberg.

O cientista coloca que a tecnologia humana evoluiu dos primeiros instrumentos de pedra, há 2,5 milhões de anos atrás. A impressora a laser de 1996 substituiu a ultrapassada de 1992. Hoje os avanços ocorrem depressa. No desenvolvimento, dois saltos podem ser identificados: as mudanças genéticas em nossos corpos que permitiram a fala e o estilo de vida sedentário. Esse fato estava ligado à nossa escolha pela produção de alimentos que exige que se ficasse preso às lavouras.

Assinala que a vida sedentária foi decisiva para a história da tecnologia, pois permitiu que as pessoas acumulassem bens não-portáteis. A cerâmica e a tecelagem só se evoluíram depois que as pessoas se tornaram sedentárias. Outra razão fez da produção de alimentos um passo decisivo na história da tecnologia. A tecnologia local depende também da tecnologia de outro lugar. Essa foi a causa da evolução mais rápida da tecnologia em continentes com poucas barreiras geográficas e ecológicas.

O início da produção de alimentos, obstáculos à difusão e o tamanho da população acarretaram as diferenças intercontinentais na evolução tecnológica. E Eurásia é a maior massa de terra do mundo, com maior número de sociedades rivais. Foi onde a produção de alimentos começou mais cedo (Crescente Fértil e a China).

AS BARREIRAS GEOGRÁFICAS E ECOLÓGICAS

As Américas do Sul e do Norte são vistas como continentes separados, que mostram problemas históricos semelhantes. Formam a segunda maior massa de terra. No entanto são fragmentadas pela geografia e pela ecologia, como o istmo do Panamá e o deserto mexicano ao norte, que separam as sociedades humanas adiantadas da Mesoamérica daquelas da América do Norte. O istmo separou as sociedades adiantadas da Mesoamérica daquelas dos Andes e da Amazônia. A roda foi inventada na Mesoamérica  e a lhama foi domesticada na região central dos Andes por volta de 3000 a. C., mas cinco mil anos depois o único animal de carga e as únicas rodas das Américas ainda não haviam se encontrado, embora numa distância de 1900 quilômetros.

A África Subsaariana é a terceira maior massa de terra, mais acessível à Eurásia do que as Américas, mas o deserto saariano ainda é uma barreira ecológica que separa a África da Eurásia e do norte da África. A Austrália é o menor continente e o mais isolado. A produção de alimentos nunca surgiu de modo autóctone. Essa combinação fez da Austrália o único continente desprovido de artefatos.

A população da Eurásia é quase seis vezes maior que a das Américas, quase oito vezes maior que a da África e 230 vezes maior do a da Austrália. Para Diamond, “populações maiores significam mais inventores e mais sociedades rivais. A considerável superioridade inicial da Eurásia traduziu-se em uma forte liderança a partir de 1492 por causa da sua geografia característica e não de um intelecto humano peculiar”.