Em tempos de pandemia do coronavírus, para quem aprecia uma boa leitura, recomendo ler o autor de “Armas, Germes e Aço”, de Jared Diamond, fisiologista e biólogo, professor e membro da Academia Americana de Artes e Ciência que, em sua obra, faz uma viagem de 13 mil anos de história dos continentes. Concluiu que a dominação de uma população sobre outra tem fundamentos militares, ou nas doenças epidêmicas que dizimaram sociedades de caçadores-coletores e agrícolas.

Antes de entrar na parte terceira do livro “Do Alimento às Armas, aos Germes e ao Aço”, Diamond faz um relato científico sobre a evolução dos animais, incluindo o homem através dos tempos desde seus ancestrais gorilas e os chipanzés, passando pelo homo sapiens e o de neandertal. Mostra a viagem do homem para outros continentes e sua evolução através dos tempos.

Até o Novo Mundo e a Covid-19

A partir do ano 11 mil a.C. e, principalmente, oito mil no Crescente Fértil (Ásia), maior celeiro do mundo na produção de alimentos, o autor descreve a domesticação das plantas silvestres e dos animais mamíferos pelos agricultores e caçadores-coletores nos diversos continentes, a começar pela África, Eurásia, Ásia, Polinésia até o Novo Mundo das Américas.

Depois de uma longa introdução científica sobre as diversas formas de domesticação, suas causas e efeitos do surgimento agrícola dos grãos, legumes, fibras, tubérculos e a expansão da produção de alimentos (“Vastos Céus e Eixos Inclinados”), o autor entra no capítulo “O Presente Letal dos Animais Domésticos”, a parte mais interessante por nos remeter ao presente atual em que vivemos com o mortal Covid-19.

Você vai ter uma visão geral das formas de contaminação do homem pelos diversos germes, bactérias, micróbios e vírus que já mataram milhões nos últimos quatro ou cinco mil anos. O leitor vai descobrir como os germes, os micróbios, as bactérias e os vírus são inteligentes durante seu processo de reprodução e evolução. São bem mais inteligentes que os humanos que não acreditam em suas existências e negam a ciência, se deixando contaminar e infectando os outros.

Comparando os caçadores-coletores com os agricultores, o biólogo diz que estes tendem a expirar germes piores, possuir armas melhores e tecnologias mais poderosas, além de ter governos centralizados capazes de empreender guerras de conquistas. Para ilustrar os elos que interligam a criação de animais e culturas agrícolas aos germes, ele conta o caso de um casal doente no hospital com uma enfermidade misteriosa onde depois o médico descobriu que o marido havia mantido relações sexuais com ovelhas. Com isso, Diamond quis mostrar a importância das doenças humanas de origem animal.

Os principais assassinos da humanidade

De acordo com ele, a maioria ama platonicamente seus bichos de estimação, citando o carinho exagerado por ovelhas. Um censo na Austrália constatou mais de 17 milhões de habitantes contra quase 162 milhões de ovelhas. “Muitos de nós, crianças e adultos, chegam a contrair doenças infecciosas dos animais de estimação”.

Destaca que a varíola, a gripe, a tuberculose, malária, peste bubônica, sarampo e cólera foram os principais assassinos da humanidade ao longo de nossa história. Essas doenças infecciosas foram transmitidas por animais, “embora a maioria dos micróbios responsáveis por nossas próprias epidemias agora esteja restrita aos seres humanos”.

“Até a Segunda Guerra Mundial, segundo ele, uma quantidade maior de vítimas morreu por causa de micróbios trazidos com a guerra do que dos ferimentos das batalhas”. Em sua conclusão, os vencedores das guerras passadas nem sempre foram os exércitos com os melhores generais e as melhores armas, mas quase sempre aqueles que carregavam os piores germes para transmiti-los aos inimigos.

Aponta que os exemplos mais terríveis do papel dos germes na história vêm da conquista das Américas pelos europeus a partir de Colombo, em 1492. “Mais numerosos que os ameríndios vítimas dos conquistadores espanhóis foram as inúmeras vítimas dos micróbios espanhóis assassinos. Muitos outros povos nativos foram dizimados por germes eurasianos e o inverso aconteceu com os conquistadores europeus nas regiões tropicais da África e da Ásia”.

Em sua observação, assinala que para um micróbio, a propagação pode ser definida matematicamente como o número de novas vítimas contaminadas por cada paciente original. “Esse número depende de quanto tempo cada vítima permanece capaz de infectar novas vítimas, e da eficácia com que o micróbio é transmitido de uma vítima para a seguinte”.

Os micróbios e as maneiras de passar para outros

Eles, os micróbios, desenvolveram diversas maneiras de passar de uma pessoa para outra, e de animais para as pessoas. O que melhor se propaga deixa mais “filhotes”, ou bebês, e acaba favorecido pela seleção natural. “A melhor maneira do germe se alastrar é esperar que seja transmitido passivamente para a próxima vítima. Essa é a estratégia de aguardar que um hospedeiro seja comido pelo próximo hospedeiro”. Um exemplo por ele descrito, é o caso da bactéria salmonela. Outro caso ocorre com o verme responsável pela triquinose, que passa dos porcos para nós, esperando que se mate o animal e seja comido sem o cozimento adequado.

“Esses parasitas passam para uma pessoa quando ela ingere carne de um animal. No entanto, o vírus do kuru nas regiões montanhosas da Nova Guiné era transmitido para pessoas que se alimentavam da carne humana. Alguns micróbios, porém, não esperam que o hospedeiro morra e seja comido. Eles pegam carona na saliva de um inseto que pica o hospedeiro e sai voando para achar um novo”.

Um dos exemplos são os mosquitos, pulgas, piolhos ou moscas africanas tsé-tsé, que transmitiam malária, peste bubônica, tifo e a doença do sono. Existe o micróbio que passa de uma mulher para o feto e contamina o bebê no nascimento.

As lesões da pele causadas pela varíola também transmitem micróbios por contato corporal direto ou indireto – assinala o cientista. O autor do livro cita, como exemplo, a ação criminosa dos homens brancos dos Estados Unidos que, para exterminar os índios nativos, enviaram-lhes de “presente” cobertores usados antes por pacientes com varíola.

“A bactéria do cólera provoca em sua vítima intensa diarreia que espalha bactérias no sistema de abastecimento de água das novas vítimas potenciais, enquanto o vírus responsável pela febre hemorrágica coreana propaga-se através da urina dos ratos. O vírus da hidrofobia (raiva) se aloja na saliva de um cão contaminado e ainda provoca no animal o furor de morder”.

Pelo esforço físico do próprio micróbio, os campeões, conforme aponta o biólogo, são vermes como o ancilóstomo e o esquistossoma que penetram na pele de um hospedeiro em contato com a água e a terra na qual suas lavras foram excretadas nas fezes de uma vítima anterior. “Do ponto de vista de um germe, são estratégias evolutivas inteligentes para se disseminar”.

Afirma o autor que os anticorpos específicos desenvolvidos contra um micróbio que nos contamina reduzem a probabilidade de uma reinfecção depois de curados. Por experiência, sabemos que há certas doenças, como a gripe e o resfriado comum, contra as quais nossa resistência é apenas temporária. “Podemos acabar contraindo a malária outra vez. No entanto, contra o sarampo, caxumba, rubéola, coqueluche e a varíola, nossos anticorpos conferem imunidade permanente”.