Esta crônica faz parte do livro “ANDANÇAS”, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, lançado há pouco tempo e pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, ou através do próprio autor pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e pelo tel 77 98818-2902.

Oh! meu gafanhoto: Veja o estouro da boiada. Não se tem mais certeza de nada. O mundo gira depressa e a locomotiva passa. O tempo engole a gente e não se espera o retardatário nas estações. É a corrida competitiva do ouro de tolo. Até os passarinhos não conseguem fazer seus ninhos sossegados. Quase que não se cruza mais com o vizinho. Não existe mais tropa de tropeiros, nem comitiva. As muralhas separam nações, para acirrar o ódio e o pavor.

O nível dos rios baixa e suas águas não escoam livremente. Correm apertadas entre lixo e erosão. Os bancos de areia avançam e o leito seco mata o sapo perereca. É o silêncio da morte chegando. Não mais as árvores das sombras cativantes. O vermelho guará prenuncia o perigo ao se alimentar da lama do mangue terminal. Na lança dos nativos, suas penas cores de sangue lembram o ritual da dança antropofágica.  Resta navegar, com presteza, nos desvios dos vazios.

O sertão está virando carvão, e o mar em esgoto venenoso. A terra se desloca, treme e arrebenta; cospe fogo como dragão; e sai de rotação. O tufão arrasta, contorce, torce e arremessa tudo que encontra em sua frente para o alto das montanhas. As ondas surgem como monstros marinhos; engolem o litoral; e sugam gentes e destroços. Destroem as façanhas dos homens e tudo vira um roto lamaçal.

As calotas se derretem; o clima esquenta, queima e a paisagem fica cinzenta. E eu cá, meu gafanhoto, a meditar na revolução e no paraíso original, sem o ímpeto de querer seguir a vida. Sonhei um mundo de poetas, sem polícia para bater, sem censores e sem câmaras de olhos malditos a vigiar. Sonhei um mundo sem grades, sem homens bombas e sem terras divididas em fronteiras. Sonhei com o vento sem fúria e com o livre viver, sem ter que me censurar antes de falar.

Não deixe, gafanhoto, que o sol derreta sua cara, nem se consuma nos desejos do inferno de Dantes. Não negocie ideologia e ética por estética.  Esteja vigilante para as armações das mentes. Contemple a luz do dia. Cuidado com a fera que espreita. Não deixe seu amor partir, mesmo que não seja eterno. Ouve o que diz a canção do mar nas dobras das ondas virando sal. Fica se for preciso ficar, para desafiar. Se não estiver incluído entre os melhores, não use como consolo o outro por ser o pior. Nunca se acomode com seu problema só porque o outro está em situação mais difícil. Seu cérebro pode estar cheio de estrias, rugas, celulites e varizes.

Não seja o próprio lobo de si mesmo. oh gafanhoto peregrino! Não se enrosque nos clichês dos desejos fúteis e supérfluos. As mãos se estendem nos sinais das vias, mas os carros seguem velozes e fechados, levando desesperanças. Outros cortam os caminhos. Os olhos verdes, azuis, pardos, castanhos e negros não se fitam mais. É isso aí, meu gafanhoto: Tenta refletir e controlar as emoções. As armadilhas dos amores são cheios de dores.  A naja e a ninfa têm suas próprias magias. O leão ostenta seu poder superior de rei. O uirapuru tem seu encanto no canto. O tangará faz sua dança sincronizada para sua fêmea namorar. O gavião peneira para nas alturas e desafia a gravidade, na busca da sua sobrevivência. O homem vive o desespero de vencer; de domar o tempo; o envelhecimento; e alcançar a imortalidade. Perdemos nossas referências e características. Temos reis e rainhas sem poder e sem trono. Procure, ao menos, ser a fênix.

  É, meu pobre gafanhoto!  Uns dizem que sou de Oxossi, outros que sou de Ogum, de Iansã, ou de lugar nenhum. Enquanto isso, a ansiedade e o vício químico do stress entopem as artérias. A taquicardia ainda dura para outro dia, se engalfinhando com a solidão da alma. A morte não tem pressa de bater na porta e não adianta dizer que não quer recebê-la. Ela faz a sua hora e quase nada conversa.

A sociedade de martelo e caramelo, também é feita de foice, coice e açoite. Cada um faz o seu elo como pode. O sangue aguado corre na veia magra do favelado da boca-do-lixo.  A violência nos esmaga, e a paz desaparece na fumaça. Tudo é mito e lenda neste meteorito que rola no espaço e depois vira detrito. Até os amantes do capitalismo adoram o quixotismo de Cervantes.

Enquanto isso, o coração acelera, e as células do cérebro se entorpecem com as noites regadas de muito porre.  As idéias se perdem no labirinto e nos laços traiçoeiros da história. Os neurônios se desligam e tudo se esquece.  Temos a mania doentia de só arrotar vitória, para não encarar a canalha corrupta que só destila fel. A ética virou tralha velha idiota. A ideologia foi para o monturo nesse país do futuro.

Cada um carrega seu segredo sagrado, e o medo é uma lembrança que não se apaga e uma dor que não tem cura. Nos fascinam as fantasias ocultas da imaginação. Muitos transbordam e se embriagam. Outros oprimem, se reprimem e torturam. Não há como fugir do embate moral e imoral. Cada um tem que fazer sua própria história, boa ou ruim, amarga ou doce. A amarga pode ser doce e vice-versa. Você pode ficar ou ir embora, com ou sem memória.