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:: 31/jul/2020 . 22:10

CONVERSA COM OS BICHOS

Esta crônica faz parte do livro “ANDANÇAS”, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, lançado há pouco tempo e pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, ou através do próprio autor pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e pelo tel 77 98818-2902.

Oh! meu gafanhoto: Veja o estouro da boiada. Não se tem mais certeza de nada. O mundo gira depressa e a locomotiva passa. O tempo engole a gente e não se espera o retardatário nas estações. É a corrida competitiva do ouro de tolo. Até os passarinhos não conseguem fazer seus ninhos sossegados. Quase que não se cruza mais com o vizinho. Não existe mais tropa de tropeiros, nem comitiva. As muralhas separam nações, para acirrar o ódio e o pavor.

O nível dos rios baixa e suas águas não escoam livremente. Correm apertadas entre lixo e erosão. Os bancos de areia avançam e o leito seco mata o sapo perereca. É o silêncio da morte chegando. Não mais as árvores das sombras cativantes. O vermelho guará prenuncia o perigo ao se alimentar da lama do mangue terminal. Na lança dos nativos, suas penas cores de sangue lembram o ritual da dança antropofágica.  Resta navegar, com presteza, nos desvios dos vazios.

O sertão está virando carvão, e o mar em esgoto venenoso. A terra se desloca, treme e arrebenta; cospe fogo como dragão; e sai de rotação. O tufão arrasta, contorce, torce e arremessa tudo que encontra em sua frente para o alto das montanhas. As ondas surgem como monstros marinhos; engolem o litoral; e sugam gentes e destroços. Destroem as façanhas dos homens e tudo vira um roto lamaçal.

As calotas se derretem; o clima esquenta, queima e a paisagem fica cinzenta. E eu cá, meu gafanhoto, a meditar na revolução e no paraíso original, sem o ímpeto de querer seguir a vida. Sonhei um mundo de poetas, sem polícia para bater, sem censores e sem câmaras de olhos malditos a vigiar. Sonhei um mundo sem grades, sem homens bombas e sem terras divididas em fronteiras. Sonhei com o vento sem fúria e com o livre viver, sem ter que me censurar antes de falar.

Não deixe, gafanhoto, que o sol derreta sua cara, nem se consuma nos desejos do inferno de Dantes. Não negocie ideologia e ética por estética.  Esteja vigilante para as armações das mentes. Contemple a luz do dia. Cuidado com a fera que espreita. Não deixe seu amor partir, mesmo que não seja eterno. Ouve o que diz a canção do mar nas dobras das ondas virando sal. Fica se for preciso ficar, para desafiar. Se não estiver incluído entre os melhores, não use como consolo o outro por ser o pior. Nunca se acomode com seu problema só porque o outro está em situação mais difícil. Seu cérebro pode estar cheio de estrias, rugas, celulites e varizes.

Não seja o próprio lobo de si mesmo. oh gafanhoto peregrino! Não se enrosque nos clichês dos desejos fúteis e supérfluos. As mãos se estendem nos sinais das vias, mas os carros seguem velozes e fechados, levando desesperanças. Outros cortam os caminhos. Os olhos verdes, azuis, pardos, castanhos e negros não se fitam mais. É isso aí, meu gafanhoto: Tenta refletir e controlar as emoções. As armadilhas dos amores são cheios de dores.  A naja e a ninfa têm suas próprias magias. O leão ostenta seu poder superior de rei. O uirapuru tem seu encanto no canto. O tangará faz sua dança sincronizada para sua fêmea namorar. O gavião peneira para nas alturas e desafia a gravidade, na busca da sua sobrevivência. O homem vive o desespero de vencer; de domar o tempo; o envelhecimento; e alcançar a imortalidade. Perdemos nossas referências e características. Temos reis e rainhas sem poder e sem trono. Procure, ao menos, ser a fênix.

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EM TEMPOS DE PANDEMIA

Em tempos de pandemia, só o capitão-presidente pega “mofo” por ter ficado em casa 20 dias, contrariando a ciência e a recomendação dos infectologistas e epidemiologistas. Ele quis dizer, indiretamente, para os brasileiros não ficarem em casa. Seu incentivo é que haja aglomeração. Nem acredito no teste dele. Pois é, ficar em casa só pega “mofo” quem não usa a mente e o corpo para produzir algo de bom para si e para os outros, como minhas hortas em casa, escrever, ler, fazer vídeos com poemas, esculturas, exercícios físicos  e inventar outras coisas para manter a mente sã e o corpo são. Desde que começou a Covid-19, tenho procurado ficar em casa, quando possível, ocupando minhas 24 horas a que ainda tenho direito. Nesses tempos, procure ocupar sua mente mais que o corpo, inclusive com leituras que, infelizmente, é o hábito de poucas pessoas. Essa horta é um dos meus frutos em tempos de pandemia. Esse cara do” mofo”, lamentavelmente, ainda tem seguidores da morte, ou do seu próprio mofo, que utilizam o tempo para contaminar os outros com seus radicalismos, racismos, ódios, fascismos e fundamentalismos. Propagam por ai o que há de pior em termos de retrocesso humano. Na foto do jornalista Jeremias Macário





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