A minha interrogação é para onde caminha a humanidade? Não bastam as doações e as campanhas de cestas básicas quando se fixa somente no socorro material daquele momento de catástrofe, se não houver uma renovação dos espíritos. Ainda estamos num estágio muito atrasado quando ainda discutimos a cor da pele, a questão de gênero, as origens de cada indivíduo e quem é de direita ou de esquerda. Ainda estamos muito atrasados quando defendemos a opressão no lugar do livre pensar, sem atacar e violar o direito e a liberdade do outro.

Até há pouco tempo, e ainda hoje, mais raramente, tenho ouvido pessoas otimistas comentarem e dizer que a humanidade caminha para um termo de vivência solidária, com irmandade de fronteiras abertas para todos. Sinceramente, não é a paisagem que vejo, mas uma outra sombria, de governos extremistas, negacionistas da ciência, neonazistas, xenófobos, moralistas, racistas, fundamentalistas e nacionalistas.

Nem é preciso falar muito, mas quem ler e acompanha atentamente o passado tenebroso da história mais antiga e a recente, tudo parece nos levar àqueles tempos de trevas da Idade Média, do terror que foi o nazifascismo das primeiras décadas do século XX e do medo nuclear da guerra fria na polarização entre Estados Unidos e a União Soviética.

Violação dos direitos humanos

Pode até ser exagero, mas basta olhar para o comportamento segregacionista e extremista de um Donald Trump, de governos de linha dura e nacionalistas que estão se implantando na Europa, na Ásia, no Oriente Médio e no próprio Brasil, seguindo a mesma toada, para se chegar à conclusão de que estamos nos distanciando do humanismo desejado. Estamos sim, regredindo no tempo para um isolamento entre as nações, com o fim das liberdades e a violação dos direitos humanos.

Não consigo entender do porquê dessa onda mundial da negação da ciência, como na era da Inquisição, de tanta propagação de ideias retrógradas, atitudes racistas, desse nacionalismo de ódio e intolerância e radicalismo fanático religioso. Com a chegada desse coronavírus, a impressão que temos é que esse caminho extremista ao retrocesso se alargou e se escancarou mais ainda. Não acredito que o nosso planeta vá ser mais humano quando tudo isso passar.

Quando vejo um monte de gente dizer que as quase 90 mil mortes no Brasil pela Covid-19 é mentira da mídia, que o aumento dos desmatamentos e das queimadas no Pantanal e na floresta Amazônica é invencionice dos contras esquerdistas comunistas, que deve haver intervenção militar no Brasil e apoiar as mesmas posições preconceituosas e racistas do governo do capitão-presidente, em nome de uma falsa moral familiar e patriótica, não dá para pensar num futuro melhor.

Não se trata aqui de uma questão de que o grupo “A” ou “B” (outra divisão idiota e desanimadora criada no país), esteja com a verdade e a razão. Não dá para se conceber que o racismo, a xenofobia, a homofobia, as ideias de negação da ciência, o menosprezo pelas liberdades de expressão e o autoritarismo estejam num caminho correto. Do outro lado, não se pode também dizer que “é nós contra eles”, nem desrespeitar o pensamento de direita, contanto que não seja de discriminação, de ferir a liberdade do outro com xingamentos, nem de exclusão e de retrocesso humanitário.

Isolamento humano

Quando tudo isso passar, seja por imunidade e mortalidade de rebanho, como está ocorrendo no Brasil, ou por vacina, vejo avançar ainda mais esse individualismo egoísta de isolamento humano. Não creio que as coisas vão melhorar e que vamos ter um mundo bem melhor.

Vejo as fronteiras se fecharem mais ainda e os muros de arames farpados dividirem mais ainda os povos, tendendo a eliminar os mais pobres, como está agora acontecendo com o coronavírus no Brasil, um verdadeiro genocídio por falta de uma liderança central, de gestão pública e porque vivemos numa sociedade de profundas desigualdades sociais, as maiores do mundo.

Lamentavelmente, ainda tem gente que despreza esses números de mortandade em nosso país, fazendo comparação com as mortes por acidentes, homicídios, por problemas de coração, do câncer, do diabetes e outras doenças epidêmicas, como se o vírus fosse apenas mais uma calamidade sem muita importância em nossas vidas.

Não posso esperar coisas tão maravilhosas entre os seres humanos quando vejo os mais poderosos, como os Estados Unidos, comprando todos os estoques da anunciada vacina de uma empresa multinacional e ainda praticando piratarias na interceptação de aparelhos e equipamentos respiratórios. Não posso ser tão esperançoso quando vejo tanta ganância pelo capital prosperar na terra.

Me desculpem, mas não posso ser otimista quando vejo nações tentando roubar pesquisas de outros e superfaturando equipamentos e remédios, adquiridos a duros sacrifícios sociais pelos países mais pobres. Mais do que nunca, vejo prevalecerem, com mais força, a lei do mais forte, a lei da selva e o estrangulamento da vida dos mais fracos. Não vejo sinais de se priorizar a colaboração entre os humanos no lugar da competição avarenta. O que está ainda em jogo é a máxima do cada um por si.