AS CORRERIAS E O FIM DO ESCRAVISMO

Fotos divulgação

As “correrias de ciganos” ocorreram por diversos fatores, como o fim do escravismo, quando muitos bandos perderam sua principal atividade econômica, principalmente no Campo de Santana, nas ruas dos Ciganos e no Valongo, no Rio de Janeiro. Com isso, a comunidade foi entrando em decadência. Muitos bandos deixaram o Rio rumo a Minas Gerais, aumentando o número deles no território mineiro. Contribuiu também para as correrias, a crise na lavoura canavieira no Nordeste no final do século XIX, junto com o êxodo de homens pobres para o Centro-Sul. Foram para Minas, ciganos caldeireiros que trabalhavam no conserto de peças e objetos de latão e de cobre nos engenhos.

Diz Teixeira que entre 1870 e 1930, intelectuais brasileiros acharam que deveriam mudar a configuração racial do Brasil. Em alguns casos, eram propostas soluções de eugenia e do extermínio de populações indesejáveis, como indígenas. Possivelmente, segundo o autor, isso inspirou as ações policiais mineiras nas Correrias de Ciganos. Surgiram ideias de integrar certas parcelas da população, tentando ordenar o espetáculo das raças. Para essa gente, formar a raça brasileira significava construir a nacionalidade.

Essas ideologias voltaram com força no governo atual, eleito em 2018. Os estrangeiros, no entanto, achavam impossível construir uma raça a partir da miscigenação. Os ciganos sempre estiveram fora do chamado espetáculo brasileiro das raças. Na Europa, eram vistos como mestiços degenerados, enquanto no Brasil como raça maldita e inferior. “Em fins do século XIX, a perseguição aos ciganos repercutia as transformações ligadas à construção da nacionalidade cada vez mais “racializada”. O projeto higienista associou os ciganos à mais baixa escória, caracterizando-os como horda, malta, manada de facínoras, desordeiros, sujos, preguiçosos e vagabundos.

A inserção dos ciganos na economia

Sobre a inserção dos ciganos na economia, um dos capítulos do livro, eles demonstraram habilidades como empreendedores e encontraram brechas no mercado para atuar na venda de escravos (séculos XVIII e XIX), de animais, arreios de prata, tecidos e roupas, relógios de ouro, consertadores de caldeiras, quiromantes (buena dicha) e até nas atividades artísticas de músicos, ilusionistas, de saltimbancos e circense. Contam que foram os primeiros artistas que atuaram em Minas Gerais. Como comediantes, chegaram a ser denunciados ao Santo Ofício, em junho de 1727, pelo bispo do Rio de Janeiro, D. Frei Antônio de Guadalupe. A acusação dizia que suas comédias e óperas eram imorais, com afronta aos preceitos da Santa Igreja.

Gilberto Freyre faz menção aos ciganos como introdutores de animais exóticos nos engenhos e nas feiras nordestinas, acompanhados de meninos que faziam acrobacias sobre cavalos. Usavam ursos verdadeiros, ou então fingidos, que dançavam ao som de pandeiros. Os macacos e macacas eram vestidos de sinhás, com laços de fitas, que dançavam e faziam graças. No interior mineiro, tornaram-se famosos os ursos ciganos. Geralmente, os ciganos que trabalhavam nessa área circense pertenciam ao grupo Rom, vindos da Europa Central.

Os maiores circos pertencentes a famílias ciganas no Brasil (Kalderash, Robatini e outras da Hungria, Romênia e da Itália) foram Circo Orlando Orfei, Circo Norte Americano, Circo Nova York e Circo México. Conta que a numerosa família Wassilnovitch (trocaram o nome por Silva) chegou ao Brasil através do porto de Salvador, com a família François, na década de 1880. Suas primeiras apresentações foram feitas em praças públicas por falta de recursos. O capitão Zurka Sbano (Kalderasch), residindo em São Paulo, conta que sua família se tornou circense em fins do século XIX. Seu avô mascateava e fazia tachos e alambiques

Eles concorriam com o comércio dos mascates portugueses, judeus, da Itália, do Líbano e da Síria. Estes procuravam atender pedidos e criar demanda. Os ciganos tinham a facilidade de fazer trocas e criar barganhas. Era difícil enganar um cigano. Muitos tinham o truque de transformar pangarés em vistosos cavalos de raça. Por isso, eram chamados de embusteiros e trapaceiros. Eram vistos por viajantes memorialistas em Sorocaba, onde funcionou o maior centro de comércio de muares trazidos dos pampas (Província do Rio Grande de São Pedro do Sul –Viamão). Era um dos principais pontos onde os tropeiros de Minas renovavam suas tropas. Havia o estilo cigano de tratar e montar o animal.

Os ciganos não tinham suas tarefas mensuradas e realizadas de forma cíclica e rotineira. Nunca estavam sobre a égide do relógio, nem consideravam a duração dos dias e das noites, e faziam questão de ignorar o tempo abstrato e linear. Na sociedade elitizada, os ricos viam o ócio como privilégio. Os ciganos também desfrutavam do ócio, mas serviam como mau exemplo para os homens laboriosos. A concepção de vadiagem compreendia tanto a itinerância quanto a ociosidade, “comportamentos ameaçadores à estabilidade social”. O Código Criminal do Império indicava que os vadios deveriam tornar-se úteis e inserir-se no sistema produtivo (existia crise econômica de desemprego). Para os ciganos, tal legislação significava que iam sofrer ações repressivas e violentas. A imagem do nômade aliava à animalidade e à divindade, virtude e perigo. Em Minas Gerais, além de mal visto pelo ócio, o indivíduo sem eira nem beira, pé ligeiro, era associado à vadiagem.

Ressalta o autor que entre mendigos, desertores, padres infratores, negras quitandeiras, prostitutas, feiticeiras, ladrões, assassinos, falsários, bandidos e garimpeiros, os ciganos era mais um grupo social, mas diferenciado etnicamente, a tornar as ruas mais barulhentos e a promover a desordem. Os primeiros ciganos que chegaram ao continente europeu traziam consigo o hábito da pilhagem, comum em certas regiões da Ásia onde não era delito. Os Rom continuaram a exercer seu direito à pilhagem. Quando um bando chegava a uma cidade, os ladrões aproveitavam para praticar seus atos, sabendo que os ciganos iriam levar a culpa.

Acusados de roubar crianças

Além das suspeitas de roubos de escravos, os ciganos eram acusados de roubar crianças. O autor cita Cervantes que, no início do século XVII, criou o tema do roubo de crianças pelos ciganos. Ele inaugurou um dos maiores filões da literatura ficcional sobre os ciganos. Acredita-se que eles chegaram a adotar crianças que eram fascinadas pelo modo de vida cigana. Houve um caso, em Pará de Minas, que um menino fugiu junto com a Companhia Sotero e dele partiu ao descobrir que o cigano ia trocá-lo por um cavalo.

Muitos artistas pintores fizeram quadros de ciganos, como Jean B. Debret, Flumen Junius, James Wells e memorialistas, que os descrevem como de pele morena cor de cobre, cabelos pretos brilhantes, olhos vivos. Uma jovem cigana foi desenhada com cabelos longos, volumosos e cintura bem torneada. Sua sensualidade é ressaltada pelo imenso decote em seu vestido, que dá mostra de seios fartos e pés descalços. As ciganas idealizadas pelos românticos europeus eram do tipo andaluz, faces rosadas, tez morena e cabelos pretos. Nas pranchas de Debret, de 1823, os homens utilizavam roupas como quaisquer outros de suas classes sociais. Para negociar, usavam a estratégia de ocultação da identidade.

NA LITERATURA EUROPÉIA E BRASILEIRA

Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis faz referência à cigana na pessoa de Capitu. Desde a Farsa dos Ciganos, escrita por Gil Vicente, em 1521, os ciganos sempre estiveram presentes no teatro português. No século XIX, no Brasil, os ciganos foram retratados como figuras românticas. Tomando como exemplos os modelos inglês e francês, os autores brasileiros se inspiravam na literatura europeia, valorizando a figura cigana.

A virtude substitui o escândalo em óperas, como a Ciganinha, executada na Casa de Ópera de Ouro Preto, em 1771, A Vingança da Cigana, escrita por um brasileiro e apresentado em Lisboa, em 1794.

Segundo Rodrigo Teixeira, a peça A Ciganinha, de autoria desconhecida, se inspirou na novela do mesmo nome, La Gitanilla, de Miguel de Cervantes, escrita em 1607 e publicada em 1613. Nela, os ciganos são qualificados como astutos, ladrones e embusteiros. Em Ouro Preto, foi acentuada a habilidade romântica da cigana “buena dicha”.

A expressão mais famosa deste mito literário é a personagem Carmem, do conto de Prosper Mérimée, publicado em 1847. O escritor já demonstrava seu interesse pelo tema cigano desde 1825, publicando o Théatre de Clara Gazul. Na peça, o autor utiliza inúmeras palavras do Romani, que eram usadas pelos Rom dos Balcãs e da Europa Central. Carmem é amoral, prostituta, ladra e cúmplice de assassinatos.

Os ciganos apareceram na literatura brasileira a partir de 1845, com Martins Pena (a peça O Cigano), e em 1852, com Manuel Antônio de Almeida, não com aquele romantismo europeu de glamourização. Considerado por muitos como o criador da comédia nacional, Luis Carlos Martins Pena (1815-1848) escreveu sobre os costumes da sociedade brasileira durante o primeiro e o segundo reinados. Naquela época, os espetáculos apresentavam uma pequena comédia após um drama longo.

A presença de personagens ciganas proporcionava ótimos espetáculos, com músicas, danças e roupas exóticas. Abordava-se a corrupção do poder, dos costumes e os valores morais sociais. Martins frequentou a Academia de Belas Artes, na Corte. Fala-se que ele se inspirou nas pranchas de Debret para escrever O Cigano, mas também teve a influência de Gil Vicente em A Força das Ciganas.

O texto de Martins apresenta o cigano integrado ao cotidiano do Rio de Janeiro. O personagem Simão é um embusteiro, contrabandista e ladrão. Gregório é um vigia alfandegário, mas corrupto. Tomé um comerciante de objetos usados e roupas de segunda mão. Os negócios dos três trambiqueiros incluem o comércio de escravos roubados. A comédia foi apresentada pela primeira vez em 15 de julho de 1845, no Rio de Janeiro.

Pouco tempo depois, apareceu a obra Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, com clara visão depreciativa dos ciganos, principalmente através da vidente “a cigana”. “Ociosos, trambiqueiros e sem nenhuma característica louvável, eis os ciganos para o autor, que coloca tais palavras na boca do narrador, um velho sargento de milícias”. O único traço, não tanto negativo, é de que os ciganos são festivos e alegres. Manuel de Almeida (1831-1861) nasceu no Rio, com passagem pela Academia de Belas Artes e sofreu influência do teatro pitoresco de Gil Vicente. Trabalhou no Correio Mercantil onde teve contato com Antônio César Ramos, um ex-militar português, que se tornou seu principal informante para as “Memórias”, contando sobre a vida do Rio no tempo de D. João VI.

Outros autores que trataram sobre os ciganos foram João do Rio (Pequenas Profissões e A alma encantadora das ruas); De Guimarães Rosa (o conto Zingaresca); Gabriel Garcia Marquez (o Melquíades, de Cem anos de solidão); D.H. Lawrence (A Virgem e o Cigano); Stephen King (romance A Maldição do Cigano); e Bartolomeu Campos de Queiroz (Ciganos).