Este texto faz parte do livro “ANDANÇAS”, lançado há pouco tempo pelo jornalista e escritor Jeremias Macário. Como diz o título, trata da maldita ditadura civil-militar de 1964 que prendeu, torturou e matou muita gente. Vamos sempre lembrar desses tempos de chumbo para que ela nunca mais retorne ao nosso Brasil. Vigilância sempre, porque os ditadores não tiram férias.

Até então era a Igreja Católica e a juventude cristã com seus movimentos libertários em defesa da justiça social. Os operários, estudantes e professores pediam melhorias nas fábricas e nas escolas; os camponeses e seus sindicatos queriam mais terras para trabalhar; os marinheiros e outras fardas lutavam para se livrar de seus opressores navios e quartéis; as esquerdas políticas e seus líderes, inspirados nos ideais das revoluções socialistas, defendiam as chamadas reformas de base; e as famílias se uniam para ver seus filhos prosperarem na educação.

As camadas mais conscientes e politizadas da população avançavam e se agitavam no terreno das conquistas. Divergiam nos métodos, mas convergiam nos objetivos, enquanto a burguesia e a elite atiravam pedras. Ai apareceu a cavalaria de 1964 com seus tanques, fuzis, lanças e metralhadoras e nos separou. O governante desistiu de encarar a luta e a grande maioria não acreditou no que estava acontecendo. Com a dispersão, não houve tempo para reunir as forças.

O golpe civil-militar de 1964 foi mesmo o ano que nos separou e nos deixou mais distantes do sonho e da esperança. Foi o ano que empurrou os brasileiros para uma longa noite de trevas e uma tenebrosa separação nos anos seguintes. Foi o ano que criou carrascos para excomungar a liberdade de opinião, prender seus opositores e dar guarida aos apoiadores. Foi o prenúncio da escuridão e o ano em que irmão dedurou irmão.

1964 foi o ano que separou as pastorais dos padres de seus militantes, os progressistas dos conservadores, o bispo do sacerdote; separou os pais de seus filhos, o aluno da sala de aula, o trabalhador do seu ofício; separou os sindicados e as associações de seus filiados, os grêmios estudantis da sociedade; separou a ação do ideal, o pensar do expressar; separou Jonas de Natália, José de Maria, o amigo do amigo, a amiga do amigo, o pedreiro do jardineiro, o soldado da sua farda, o universitário do secundarista; separou os casais e a criança dos braços; separou os namorados e dividiu o companheirismo e a camaradagem.

Foi o ano que espatifou a solidariedade e transformou o amigo em inimigo. Separou o Estado da Nação.  Foi o ano que separou a filosofia da lógica e assassinou a dialética marxista. Separou os avôs de seus netos, a viola da canção, o cancioneiro do palco, o palco do povo e o povo do show. Separou o agricultor da terra, o mestre do ensino e gestou mais de 30 organizações armadas que nasceram anos depois na clandestinidade.

Foi o ano que separou o artista da sua arte, o escritor da pena, o jornal da informação, o jornalista da verdade, a denúncia da página e o fuzil perfurou as notícias nas bancas de revistas. Foi o ano que separou o cineasta das filmagens de protesto, o ator do teatro e o fotógrafo de suas câmaras violadas no país da repressão.

1964 foi o ano que nos separou da democracia e gerou o monstro do AI-5 (Ato Institucional) e nos ofereceu depois uma amarela anistia. Foi o ano que separou o amor da filha do general pelo filho do deputado comunista cassado. Destroçou amizades e criou traidor contra grupos políticos rivais. Foi o ano que separou os anéis dos dedos e o casamento no altar.

Foi o ano que separou a UNE (União Nacional dos Estudantes) do seu povo que ficou órfão de seus pensadores maiores que logo partiram para o longo exílio em terras estrangeiras. Foi o ano em que o rouxinol e o sabiá perderam o canto e as flores amanheceram murchas. Foi o ano que separou, mas uniu os ditadores e tiranos.

Separação faz doer no peito a saudade do ente querido que parte fugido e  nunca mais retorna ao seu lar. É tristeza e melancolia. O ano de 1964 não só separou como desterrou e fez desaparecer. Foi como um cavalo de fogo que transformou a liberdade em brasas. Foi como o rasgo da espora na barriga do animal.

Não se imaginava que aquele ano fosse tanto se prolongar por mais de duas décadas de separações, de encontros e desencontros apressados, de noites sem dormir esperando o outro clarão e que fosse separar a primavera dos raios de luz e fazer as folhas caírem secas sobre o chão.  Foi o ano que nos separou e nos proibiu de marcharmos juntos cantando o hino nacional. Foi o ano que nos obrigou com mão de ferro a nos separar.