Este poema de autoria do jornalista Jeremias Macário é inédito e saiu agora do forno. Fala de um povo que foi e ainda é muito discriminado pelos olhos preconceituosos.

Fotos divulgação

Um dia, uma bela “buena dicha”,

Cigana do Rio Campo de Santana,

Leu as raias da minha mão,

Falou do meu passado e futuro,

E de uma nação em correrias,

De um povo livre Calon e dos Rom,

Origens de várias partes do mundo,

Visto como trapaceiro e vagabundo.

 

Reza a lenda que um grupo do Egito,

Não acolheu o Infante em sua tenda,

Quando fugia com sua Família no deserto,

E aí caiu maldição de vagar como nômade,

Viver sua gente em disparadas correrias,

Forasteira peregrina a pagar a sua sina,

Mas tudo foi engano cigano feito mito.

 

Da Grécia Antiga e dos confins da Ásia,

Na Romênia, a nação Rom foi escrava,

Falseou de imigrantes alemães e italianos,

E da Península Ibérica veio o Calon Kalé,

No galé do navio degredado por Portugal,

Para o Rio como bandidos imundos vadios,

Nos mares negreiros do Brasil Colonial.

 

Para sobreviver, negociou com escravos,

Arreios de prata, cavalos e bestas animais,

Cigano Calon do cobre, zinco e do latão,

Caldeireiro engenho da mata canaviais;

Do Nordeste, de Minas a Bahia nos jornais,

Noticiado como sujo, embusteiro sem etnia,

Pela polícia dessa sádica elite sociedade,

Como desordeiro, preguiçoso e ladrão.

 

Das correrias dos sangrentos tiroteios,

As posturas municipais de torturas,

Acusam ciganos de zíngaros imorais,

A “buena” de bruxa astuta prostituta,

Uma nação com suas marcas culturais,

Sem direito à cidadania do ir e do vir.

 

De tez morena, olhar mágico lógico,

Com seu tempo sem relógio dividido,

Não linear, de labirinto reprimido,

Curtindo na rede, a deusa do ócio,

Como um transgressor das normas,

Herege banido dessa moral religiosa,

Vai a cigana Andaluz a bailar formosa,

Nas batidas sonoras das castanholas,

A sonhar com seu reino mitológico.

 

Essa é a história de uma nação em correrias,

De cidade em cidade, província em província,

Artista amante da dança nas noites de boemias

Que com seu jogral encantou toda Corte Real.