UM CIGANO NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

O Brasil já teve presidentes nordestino (pau-de-arara), gaúcho fazendeiro, mineiros, paulistas, marechal das Alagoas, generais da ditadura civil-militar, agora um sádico capitão, mas poucos sabem de um presidente-cigano, Juscelino Kubitschek que construiu Brasília, que virou um covil de ladrões, mas não por culpa da nação cigana.

Quem revelou esta curiosidade, que eu nem sabia, foi o autor do livro “Ciganos no Brasil – Uma Breve História”, de Rodrigo Corrêa Teixeira. Já vimos que os Calon, ou Kalé, vieram da Península Ibérica e aqui se aportaram desde o início do século XVI.

O grupo Rom, ou Roma

No entanto, na primeira metade do século XIX, o Brasil recebeu o grupo Rom, ou Roma, da Europa do Leste, com suas famílias. De acordo com informações, o Rom que mais cedo chegou ao território mineiro foi Jan Nepomuscky Kubitschek, que trabalhou comO marceneiro no Serro e em Diamantina.

Sua alcunha era “João Alemão”, um imigrante vindo da Boêmia, parte do Império Austro-Húngaro, que deve ter entrado no Brasil, segundo Teixeira, por volta de 1830-1835, casando-se pouco depois com a brasileira Teresa Maria de Jesus, que teve dois filhos, João Nepomuceno Kubitschek, um destacado político (chegou a ser senador). O segundo filho foi Augusto Elias Kubitschek, um comerciante com escassos recursos que viveu toda sua vida em Diamantina.

Augusto foi primeiro suplente de subdelegado de polícia em 1889 e teve uma filha de nome Júlia Kubitschek, que viria a ser a mãe de Juscelino Kubitschek (1902-1976) e se tornou presidente da República no período de 1956 a 1960, com o apelido de JK. Com sua boemia e veia artística, foi um cigano, ou descendente de ciganos Rom.

O fato é que a partir de 1865, quando foi abolida a escravidão cigana na atual Romênia, na década de 30, “havia entrado em Minas Gerais um cigano Rom”. Os historiadores não citam essa passagem de que Juscelino era um cigano imigrante do Leste Europeu.

De acordo com o autor da obra, somente a partir da segunda metade do século XIX, os Rom vieram em número significativo para o Brasil, provenientes da Itália, Alemanha, dos Balcãs e da Europa Central. O escritor James W. Wells, em seu livro publicado, em 1886, identifica como sendo romenos (Rom) os ciganos de Contendas, que entraram em 1873. Aponta ainda que em maio de 1899, chegou à cidade de Palmyra um bando de cerca de 40 ciganos, composto de indivíduos de nacionalidade italiana e grega.

Acredita-se que esses Rom vieram em maior quantidade no final do século XIX, juntamente com a primeira onda migratória de italianos, alemães, poloneses, russos e gregos, apesar da polícia portuária ter proibido o desembarque de ciganos em território brasileiro. Eles se disfarçavam e entravam como imigrantes, com nomes diferentes.

Saltimbancos e criminosos

 Muitos tornaram-se saltimbancos, apresentando animais amestrados (ursos, macacos, cães). O chefe de um dos grupos, homem alto e corpulento de cabelos cumpridos chegou a ser detido. Não sabendo se explicar em português e outra língua, terminou por fazer exibições no pátio da cadeia. Existem referencias também a ciganos oriundos da Sérvia, da família Anovich, Ivanovich e Petrovich.

Nas páginas policiais dos jornais, as notícias consideram os ciganos como criminosos, ladrões e zíngaros (velhacos), e as ciganas como “bruxas” trambiqueiras que enganam o povo praticando a quiromancia, furtando e mendigando. Até os intelectuais foram preconceituosos em seus escritos. Um recorte do Diário da Bahia, de janeiro de 1935, informa que a cidade estava infestada de ciganos e cita, nominalmente, as famílias Michlos e Ducas, de origem não declarada.

Um artigo de jornal do Rio de Janeiro, de 1936. destaca que, em razão do serviço da polícia na capital, muitas colônias se transferiram para o interior, mas ainda existem alguns núcleos de zíngaros da Grécia e da Iugoslávia. Estes ficavam num botequim da Rua Senador Pompeu, na maior ociosidade. Só as mulheres trabalhavam, iludindo a boa fé das pessoas à custa da “buena dicha” (leitura das raias das mãos). Os da Grécia viviam no Meyer e são mais prestativos. Os homens trabalham como consertadores de caldeirões e panelas. As mulheres se ocupam com a leitura da sorte. Suas casas não têm mobília, mas tapetes velhos e imundos e dormem no chão.

Ciganos em Minas e as posturas

As Posturas Municipais regulamentavam o alinhamento das construções, a saúde pública, a assistência social e outras leis. A partir desse modelo, as prefeituras organizavam seus códigos de acordo com suas próprias necessidades. Em Minas, apesar das posturas elaboradas desde o início do século XVIII, como as de Ouro Preto, é a partir das reformulações nas câmaras, implantadas em 1828, que elas são organizadas sistematicamente. As de Mariana, Sabará e Queluz, as posturas foram feitas em 1829.

Afirma o autor, cuja pesquisa contemplou todo o conjunto de posturas, que o artigo do código de Parahybuna, de 1857, relaciona os ciganos. O último código de que se tomou conhecimento é o de Dores da Boa Esperança, de 1895, que já apresentava menções aos ciganos. “Assim totalizaram-se 61 Posturas Municipais com artigos contra os ciganos, até o final do século XIX.

O Código de Mariana (17/09/1829), apontado por muitos como modelo, não citava os ciganos, bem como as Posturas de Ouro Preto, de 1720-1826 e de 1830-1837. No entanto, apareceram artigos contra ciganos nas Posturas de Sabará e Queluz. Nos códigos da metade do século XIX, os municípios colocam os ciganos como indivíduos suspeitos por barganhar escravos e animais adquiridos ilicitamente. No final do século, a presença deles nas cidades é ameaçadora à saúde pública. As medidas eram cada vez mais repressivas, buscando retirar os ciganos das ruas e enviá-los para outras cidades vizinhas.

Os ciganos sempre ocupavam os espaços mais insalubres e fora do perímetro urbano por causa do cerceamento à liberdade de movimentação e do controle de suas ações. A presença deles era uma afronta à ordem médica e à saúde, e a sociedade os associava à irracionalidade, aos modos rudes, ao atraso cultural e ao analfabetismo. “Perambulando por ruelas e becos malcheirosos, ciganos pobres com suas crianças esfarrapadas, compõem a feiura da cena urbana”.

Dentro do projeto civilizatório, não era concebível a movimentação dos ciganos, a pé e a cavalo pelo espaço público. Fixar-se num determinado lugar era um dos primeiros objetivos da disciplina. Como indica o artigo 111 das posturas da Câmara de Sabará (1829), os ciganos também acampavam em fazendas próximas à cidade, onde havia mais liberdade e espaço para a convivência familiar e comunitária.

Explica o autor, que os espaços privados deles se confundiam com o público devido ao modo de vida ao ar livre, onde as barracas deixavam ver seu interior. Por isso, eram associados à imundice e à imoralidade. Desde a colônia, a mulher cigana tinha um comportamento oposto ao da mulher branca das camadas superiores que vivia confinada em casa. A cigana ia e vinha pelas ruas para ler a sorte e disputava, como a negra, a atenção dos pedestres. Os homens iam para barganhar e fazer seus negócios. Aproveitavam o espaço para se informar de prováveis ações policiais. A maioria caracterizava-se pela pobreza. Nunca eram considerados pobres, mas um grupo étnico diferenciado, uma raça de ladrões, sujos e preguiçosos – destaca Rodrigo Teixeira.

Em seu estudo, observa que o artigo 295 do Código Criminal do Império (1830) referia-se aos vadios de forma geral, mas as Posturas Municipais especificavam a preocupação com os ciganos. Mesmo assim, os ciganos nômades continuaram vagando de cidade em cidade, pelas ruas durante todo século XIX. Sempre queriam ter o direito de ir e vir, em qualquer parte, em busca de subsistência.

“Em geral, a forma mineira cigana de apropriação do espaço seria guiada por uma racionalidade civilizatória sedentária, enquanto a do cigano direcionada por uma racionalidade comunitária e pelo nomadismo”, que facilita a estratégia de invisibilidade e da fluidez entre as brechas que a sociedade deixa em aberto. Uma estratégia para a manutenção da identidade étnica.

Na visão do autor do trabalho, a territorialidade cigana se manifesta em diversas escalas, como as tendas, o acampamento, a cidade, os itinerários e as regiões como espaços com os quais os ciganos estabelecem diferentes e complexas relações. Onde acampavam, eles chegavam e saiam sazonalmente (havia algumas famílias sedentárias). Muitas vezes procuravam locais de difícil acesso, para evitar que a polícia os encontrassem. Pelos caminhos mais isolados, não encontravam com a ocasional hospitalidade dos donos das fazendas e sítios.

“Correrias de Ciganos” em Minas

No capítulo “Correrias de Ciganos” em Minas Gerais no século XIX, Rodrigo Teixeira relata as invasões, e cita o dicionário de Antônio de Moraes Filho que traduz correria como sendo uma assaltada repentina de inimigos, que vão correr a terra, e as autoridades encaravam eles como perturbadores da ordem. Na última década do século XIX e início do XX, a polícia mineira executou várias operações de combate aos ciganos e informa que teve o maior número de baixas em serviço durante os confrontos. De Ouro Preto partiam as Brigadas Policiais.

O chefe de polícia do estado os transcrevia como desligados das agremiações partidárias, como fora dos sentimentos patrióticos e divorciados das mais rudimentares noções de dever cívico. Assim, são tratados como apolíticos, sem pátria, sem religião, sem lei e incivilizados. Como “forasteiros”, são vistos com extremo temor, pois se apresentam “de armas na mão, conduzindo munições de guerra”, semeando o “terror por toda parte”, “vivendo até aqui dos roubos e pelos roubos”.

Ser cigano era estar sob suspeita para a polícia– assinala o escritor. Por isso, eram presos, torturados; tinham seus bens confiscados e enfrentavam tiroteios apenas por serem ciganos. Cita que, na localidade de Fonseca, “invadida e saqueada” por ciganos, morreram o bravo alferes Symphoriano Alves dos Passos e uma praça. Não foi feita referência a ciganos vitimados.

Ao comentar a morte do alferes, o chefe de polícia não poupa preconceitos, chamando os ciganos de vândalos, chefiados por criminosos de homicídios. Conta que o confronto contra a “horda de ciganos”, foi capitaneado por Deolindo de Souza, desertor da Brigada do Rio de Janeiro, mas existe controvérsia. Há a possibilidade de Deolindo ser cigano de nascimento e de ter se casado com uma cigana.

Outro lugar que recebeu grande contingente da força policial foi a Zona da Mata, desde que os ciganos “infestavam diversas localidades, cometendo “toda sorte de depredações”. Muitas perseguições surgiam gratuitamente, sem acusação de delitos. A polícia ia ao encalço deles por serem ciganos, como ficou comprovado em vários episódios. Quando realizavam diligências, eram convocados paisanos. A intenção era expulsá-los para fora dos limites do município, fazendo uso da violência, como ocorreu em São João Nepomuceno, Ubá, Muzambinho e Ponte Nova. A polícia tocava eles para o Rio de Janeiro.

Quando presos e escorraçados, os bens eram confiscados e leiloados em benefício dos cofres do Tesouro. A apreensão era feita sob a alegação dos bens serem roubados. Eram encontrados relógios de ouro, arreios de prata e até roupas. Revela o autor em sua pesquisa, que os jornais, a partir de 1881 até 1897, divulgaram uma série de notícias intituladas “Correrias de Ciganos”, “Bandos de Ciganos” e “Ciganos”, com acusações de sequestro de uma ingênua moça e roubos de animais. Nestas matérias, o texto aproximava-se bastante dos textos policiais. Sempre elogiavam as atuações das forças policiais. Em 1886, por exemplo, o Liberal Mineiro acusa “uma troça de ciganos, que tem percorrido diversos pontos da província”