Ao estilo tirânico estalinista, Fidel Castro entrou triunfal, em Havana, em primeiro de janeiro de 1959. Assumiu o poder com mão de ferro e sempre eliminava qualquer um que atravessasse seu caminho, por mais próximo que fosse. Apropriou-se de muitos imóveis, casas de luxo, de uma ilha, iates e outros bens do Estado para viver suas mordomias.

Uma revista norte-americana citava ele como dono de uma das maiores fortunas do mundo. Sempre negou, mas ostentava vida de um rico milionário, cercado de mulheres (machista) e outras regalias. Foi um grande general estrategista que tentou exportar sua revolução para outros países da África e da América Latina, com alguns sucessos. Montou uma estrutura de segurança pessoal invejável e impenetrável que nem os cubanos sabiam de sua vida particular, nem o que acontecia nos bastidores. Sua vida sempre foi um mistério a desvendar.

Essas e outras narrações da sua vida íntima e pública, como a administração no papel de el comandante no comércio clandestino de armas, drogas e outros produtos para o exterior, principalmente em momentos de maior crise econômica e social da ilha, para manter viva a revolução, estão no livro de Juan Reinaldo Sánchez, “A Vida Secreta de Fidel – as revelações de seu guarda-costas pessoal”.

“Traidor da Pátria”

O autor foi preso como “traidor da pátria” e depois de solto fugiu para a Flórida, nos Estados Unidos, onde publicou a obra. Juan qualifica seu chefe como dissimulado, cínico, maquiavélico e um drácula. Todas suas acusações, verdadeiras ou não, são de sua responsabilidade, mas confessa que viu tudo de perto. Acreditava piamente na revolução e era um fiel escudeiro do comandante.

Em dezembro de 1991, Cuba mergulhou na pior crise econômica de sua existência, e Fidel decretou o “período especial em tempos de paz”, permitindo a particulares abrir paladares (restaurantes em domicílio). Não foi suficiente como a crise dos balseiros, em 1994, quando 30 mil cubanos fugiram em suas balsas para Miami.

Fui promovido a Chefe da Avanzada (preparava as viagens do el comandante para as províncias, ou exterior), como a posse de Fernando Collor de Mello, em 1990, para a Cúpula Ibero-Americana, em Guadalajara (México), em julho de 1991 e para Espanha. Era o melhor atirador de Cuba.

Nesse tempo, escolhi esquecer o “Caso Arnaldo Ochoa” (fuzilado) e o expurgo de altos escalões, que desestabilizaram o Ministério do Interior, comandado pelo general Abelardo Colomé Ibarra. O chefe da escolta do comandante estava a cargo de José Delgado.

Os ventos começaram a soprar contra mim a partir de 1994. Minha filha Aliette casou-se com um venezuelano e foi para Caracas. Meu irmão, cozinheiro do Conselho de Estado, fugiu para Flórida. Desde 1968 prestava serviços ao comandante, sendo dezessete na escolta, a partir de 1977 – conta Juan Sánchez.

Com 45 anos, em 1994 dispensaram meus trabalhos na escolta e, então, pedi minha aposentadoria através de uma carta à segurança social. O general Humberto Francis, chefe da Segurança Pessoal (departamento encarregado da proteção de todos altos dirigentes) não aceitou. Exigi passar por um conducto reglamentário (recurso que permite dirigir-se a um superior).

Torturas na cela

  Logo depois fui preso pelo coronel Laudelio, da Contrainteligência Militar, e levado para o Centro de Detenção de Havana, conhecido como “Cien y Aldabó”. No interrogatório me explicaram que eu era um “traidor da pátria”. Na cadeia fedorenta, sofri a tortura, praticada como em todas as ditaduras latino-americanas – continua sua descrição no livro.

Numa sala pequena, o ar-condicionado era ligado no máximo, vestindo apenas uma camiseta sem mangas. Depois de quatro horas minhas unhas e lábios tinham cor violeta. Passaram uma semana tentando que eu confessasse ser um contrarrevolucionário. “Você com certeza deve saber que está aqui por ordem de Fidel”.

Durante todo tempo, não tive acesso a Fidel. “Ele tratava os seres humanos como objetos a serem jogados no lixo depois que não serviam mais”. Mesmo assim, pensei que seria poupado – relatou.

Fui colocado em isolamento numa cela imunda onde não vi a luz do dia por dois meses. Lá, as celas são infestadas de baratas, concebidas para feder a urina e excrementos. Havia apenas um buraco para fazer as necessidades. A torneira, a dez centímetros da latrina, só dava vazão a dois copos de água por dia. O café da manhã era servido às duas horas da tarde e a refeição principal às oito horas da manhã.

Os guardas me deram um colchão contaminado de fibra de arroz. Tive uma erupção cutânea, com feridas de pus em toda parte inferior do corpo, inclusive nos testículos. Felizmente, conheci um médico condenado que trabalhava na enfermaria do Centro de Detenção e consegui me curar. A intenção era me matar. Ao fim de dois meses passei de 83 para 54 quilos.

Por fim, ameacei fazer greve de fome e me transferiram para a prisão de La Condesa, na cidade de Guines, 30 quilômetros ao sul de Havana, onde muitos detentos eram criminosos perigosos. Na estação fria, os guardas nos faziam sair nus para o pátio às três horas da manhã e ali passávamos o resto da noite. “Para o mundo, os irmãos Castros sempre disseram que não havia tortura em Cuba”.

Três meses depois da minha transferência me levaram ao Tribunal Militar de Playa. Meus direitos foram desrespeitados e o presidente do Tribunal não ouvia meu advogado. Alguns antigos colegas me acusaram de desvio contrarrevolucionário. Como meu dossiê estava vazio, comecei a fazer minha própria defesa, lembrando que não tinha nada a fazer na frente dos juízes e atrás das grades. Meu único erro foi ter pedido afastamento.

O procurador requereu oito anos de detenção que passaram para dois e meio e depois reduzido para dois anos de reclusão. Em La Condesa recebi a visita do antigo chefe da escolta, Domingo Mainet. Perguntou se eu estava ali por vontade pessoal de Fidel. Conhecia muito bem o sistema cubana. Caso atacasse el comandante minha situação só pioraria.

Tentaram me matar como fizeram com o antigo ministro do Interior, José Abrantes, condenado a 20 anos de reclusão, em 1989, e morto por um ataque “cardíaco”, em 1991. Foi em La Condesa que decidi escrever o livro “A Vida Secreta de Fidel – as revelações de seu guarda-costas pessoal”. Resolvi revelar ao mundo a verdadeira natureza de Fidel Castro – disse Juan Reinaldo Sánchez, autor da obra, cuja ideia nasceu num dia ensolarado de 1995.

Liberdade e fuga

Dois anos depois de ser detido, Juan recuperou a liberdade e se apresentou à direção da Segurança Pessoal, para regularizar sua situação. Descobriu que sua aposentadoria já havia sido liberada há dois anos. Logo que saiu foi posto sob vigilância dos agentes do Estado, o G2. Sempre se abstinha de criticar el comandante ou falar sobre a situação política.

Depois de um ano, dois oficiais lhe ofereceram emprego para lhe vigiar melhor, pois os espiões estavam em todos os lugares, como nas escolas, nas administrações, nos hotéis, restaurantes e mercados. Ao invés de criticar Fidel, ele fazia comentários elogiosos, como do tipo, “o comandante precisa tomar cuidado ao visitar tal país, pois lá os inimigos da Revolução são legião”. Juan sabia que suas palavras seriam repetidas.

Enquanto isso, se preparava, às escondidas, para fugir, mantendo-se informado sobre as redes de emigração clandestina que, a partir dos anos 90 se multiplicaram. Os serviços de um passador custavam 10 mil dólares e ele começou a vender diversos objetos. Sua filha já estava lá na Flórida.

Libertado da prisão, em 1996, o guarda-costas levou doze anos para conseguir sair da ilha, em 2008, depois de dez tentativas frustradas. Em 2008 recebeu um aviso de uma passagem para o México. O encontro foi marcado na província de Pinar del Rio, logo onde duas tentativas haviam fracassado.

O encontro foi marcado ao lado de Los Palacios. No dia marcado ele ficou escondido numa zona pantanosa perto de uma casa que ele já conhecia, La Desecada, um chalé de madeira. Sempre frequentou o local com Fidel para caçar patos. Juan conta que eram 45 fugitivos, mas o barco só podia levar 30 por causa do excesso de peso. Tinha que descer 15, mas ninguém aceitou.

Depois de tentativas de negociações, o capitão resolveu ligar os motores. Com o peso além da conta, uma hélice bateu em alguma coisa, mas alcançaram as águas territoriais internacionais. Depois de trocas de barcos, o grupo conseguiu chegar ao largo de Cancún, no México, duzentos quilômetros a oeste de Cuba. Um caminhão conduziu todos até uma casa em terra firme.

Divididos em grupos, foram levados ao aeroporto com destino a Nuevo Loredo, uma cidade fronteiriça com o Texas. Em Loredo era só fingir um ar despreocupado e cruzar a fronteira a pé com a horda de moradores que todos os dias atravessavam a ponte do Rio Bravo.

Depois que colocam os pés nos Estados Unidos, os cubanos, desde 1966, se beneficiam da lei de ajuste cubano, que automaticamente lhe confere asilo político. Deu tudo certo até ser chamado pelo Serviço de Imigração onde disse que tinha sido guarda-costas pessoal de Fidel. Em pouco tempo, o funcionário apresentou um dossiê completo sobre toda sua vida. Foi o único membro da escolta do comandante a ter desertado.

O resto foi o encontro com os familiares, como o tio, a filha, sua mulher e seu irmão que já estavam lá. Juan confessou que não sentia rancor e ressentimento do seu chefe, mas raiva dos homens que lhe acusaram no Tribunal, como o procurador, juízes, dos oficiais da Contrainteligência e antigos colegas de trabalho.

Disse ter se arrependido de ter prestado serviço a um homem que admirava em sua luta pela liberdade do país, antes de vê-lo tomado pela febre do poder absoluto e pelo desprezo do povo. Em sua opinião, ele traiu milhões de cubanos. Ele mesmo indaga: Por que as revoluções sempre acabam mal° E por que seus heróis se transformam em tiranos piores que os ditadores que eles combateram?