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:: 30/jan/2020 . 0:04

“NO ARMÁRIO DO VATICANO – PODER, HIPOCRISIA E HOMOSSEXUALIDADE”

Depois da Inquisição, iniciada no século XII, e da Reforma há mais de 500 anos, a Igreja Católica Apostólica Roma volta a protagonizar e a vivenciar sua maior crise de sua história contemporânea, com os escândalos de pedofilia (abusos sexuais de crianças e menores), atos de corrupção (desvios de recursos), resistências e divisões às mudanças em seu seio, intrigas no poder e muita hipocrisia dos prelados, padres, bispos e cardeais homofóbicos e, ao mesmo tempo, homossexuais dentro e fora da Cúria.

Sem o sentido de ódio e declarando não ser, em momento nenhum, anticlerical, o escritor Frédéric Martel publicou o best-seller do New York Times, “No Armário do Vaticano – Poder, Hipocrisia e Homossexualidade” (Editora Objetiva), uma verdadeira devassa explícita das práticas abusivas e escandalizantes perpetradas, principalmente, pelos homens homofóbicos e retrógrados que cercaram e serviram aos papados de João Paulo II e Bento XVI, este o maior inquisidor dos tempos modernos, que fracassou em todos os seus movimentos antigays, contra os casamentos homossexuais e o aborto.

Ler o livro “No Armário do Vaticano” é entrar e conhecer as entranhas dos “pecados”, das mazelas e traições cometidos pelos que se dizem representante de Cristo e da Igreja na terra. É vivenciar de perto a prior crise de sua história depois da Reforma. É acompanhar a decadência e sentir a morte lenta da Igreja, a partir de personagens terríveis, promíscuos e hipócritas, como o Ângelo Sodano, o padre Macial Maciel, Tarcísio Bertone, Afonso Lopez Trujillo que chegou a fazer acordos com narcotraficantes, entregando sacerdotes para o sacrifício e torturas, entre tantos outros, que deixam católicos estarrecidos, envergonhados e revoltados. São verdadeiros desvirtuadores da doutrina cristã.

CONTRA O CELIBATO

O cardeal Ratzinger (Bento XVI), por muito tempo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Inquisição), sentenciou e humilhou com castigos vários padres por suas ideias mais avançadas (Teologia da Libertação), como o peruano Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff e o frei Beto. Cercado de homofóbicos, como o cardeal Sarah (livro contra o celibato), colocou a Igreja numa rota de colisão com os movimentos LGBTs, os divorciados e até muitos católicos de visão mais aberta.

Para elaborar o livro, que deve ser lido por todos, não somente pela comunidade católica, o autor se aprofundou numa reportagem investigativa que durou quatro anos (entre 2015 a 2018), com várias viagens para a Itália e mais de 30 países. Foram realizadas 1500 entrevistas, sendo 41 cardeais, 52 bispos, 45 núncios apostólicos, onze guardas suíços e mais de 200 padres católicos e seminaristas, para a feitura da obra de 500 páginas. Para apurar informações, chegou a se hospedar no interior do Vaticano e em residências extraterritoriais da Santa Sé.

De acordo com o escritor, “No Armário do Vaticano” se baseia em fatos, citações e fontes rigorosamente exatas, com a maior parte das entrevistas gravadas (400 horas de gravações). Frédéric teve ajuda de uma equipe de 80 colaboradores. Seu editor Jean-Luc Barré acreditou no trabalho e ele fez um agradecimento às suas 28 fontes internas da Cúria Romana, “todos assumidamente gays comigo”. O livro foi defendido e liberado por uma quinzena de advogados.

“Além da mentira e da hipocrisia generalizadas, o Vaticano também é um local de experiências inesperadas: constroem-se lá novas formas de vida em casal; novas relações afetivas; novos modos de vida gay; tenta-se formar a família do futuro; prepara-se a aposentadoria dos velhos homossexuais” – analisa o autor, que ainda classifica cinco perfis de padres, como a “virgem louca”, o “esposo infernal”, o modelo da “louca por afeto”, o Don Juan falsificado” e o modelo “La Montgolfiera”.

A “virgem louca” segue o código dos filósofos católicos Jacques Maritain, François Mauriac e Jean Guitton, e de alguns papas recentes homossexuais homofóbicos, que não são praticantes, mas adeptos da linha do amor platônico. Escolheram a religião para não cederem à tentação; e a batina para escaparem à sua orientação.  O “esposo infernal” é o padre “não assumido”, ou em dúvida, mas consciente de sua homossexualidade e com medo de vivê-la. A “louca por afeto” tem sua identidade. O “Don Juan” não pode ver um rabo de calça. O modelo Montgolfiera é o da perversão que tem redes de prostituição, os tipos cardeais indecentes Alfonso López Trujillo, da Colômbia, de Ângelo Sodano, de Platinette, do padre Macial Maciel, do México e tantos outros da Cúria.

VIDA DUPLA DOS PRELADOS

O escritor enaltece a posição do Papa Francisco que, em suas homilias, fala da hipocrisia e da vida dupla dos prelados, como no prólogo do livro. Ele hoje vive imprensado entre os que apoiam e os tradicionais mais empedernidos. Existe dentro do Vaticano uma “guerra de foice”. Assim aconteceu a enxurrada de escândalos de denúncias divulgadas na mídia sobre casos homossexuais e de corrupção na Cúria. Uma turma queria mesmo era se vingar; passar o sarrafo no cardeal Tarcísio Bertone, o vice Papa durão de Bento XVI, que mandava e desmandava.

Frédéric diz que as aparências de uma instituição talvez nunca tenham sido enganadoras em suas profissões de fé sobre o celibato (agora defendido novamente por Bento XVI), e nos votos de castidade, que escondem uma realidade diferente. Quanto a Francisco, destaca sua frase de que por trás da rigidez, há sempre alguma coisa escondida, referindo-se a uma vida dupla dos prelados.

No capítulo “Domus Sanctae Marthae”, o escritor da obra fala da existência, no Vaticano, de um “código do armário”, que consiste em tolerar a homossexualidade dos padres e dos bispos; desfrutar dela, mas mantê-la em segredo. Sobre esta questão, enfatiza que dezenas de milhares de padres italianos julgaram que a vocação religiosa era a solução para seu problema. O sacerdócio foi, durante muito tempo, a escapatória para os jovens homossexuais, não bem vistos e não engajados em suas aldeias.

Martel cita padres que viveram a Teologia da Libertação e participaram da militância gay, e até morreram de aids, sozinhos, sem o amparo de colegas e da Igreja, o que demonstra a hipocrisia dentro e fora da Cúria. “Os gays foram deixados quase sozinhos perante o Vaticano. Mas talvez seja melhor assim: deixem que fiquem juntos! A batalha entre gays e o Vaticano é uma guerra entre bichas”.

NA FILA DA HOMOFOBIA

No capítulo “A Teoria de Gênero”, o autor tece comentários duros em relação ao cardeal norte-americano Raymond Leo Burke, porta-voz dos tradicionalistas, que encabeça a fila da homofobia. Como exemplo, cita frase do cardeal, em janeiro de 2014: “Não se deve convidar casais gays para jantares de família em que estejam presentes crianças”.

O cardeal comparou casais gays como criminosos que assassinaram alguém, e que tentam ser amáveis com os outros homens. Denunciou que o Papa não tem a liberdade de alterar os ensinamentos da Igreja em relação à imoralidade dos atos homossexuais. O escritor assinalou que em Roma a sua homofobia é tamanha que incomoda os cardeais mais homofóbicos. Para Burke, o casamento homossexual é uma provocação a Deus.

Seu amigo mais próximo, Benjamim Harnwell, dirigente do Dignitatis Humanae Institute (associação ultraconservadora), que reúne prelados mais extremistas, está ligado às ordens mais obscuras como a Ordem de Malta e a Equestre do Santo Sepulcro. Segundo testemunhos ouvidos, parte dos membros da Dignitatis seria constituída por homossexuais praticantes.

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