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:: 9/jan/2020 . 9:32

TRISTE SINA DO NOSSO SÍMBOLO NORDESTINO

No sol escaldante, na chuva ou na lama com sua cangalha, lá estava ele com meu pai transportando mandioca da roça para o processamento, sacos de farinha, feijão e milho para as feiras da cidade de Piritiba e o distrito de Andaraí. Eu ainda era menino e, mesmo assim, nós três éramos colegas inseparáveis de trabalho. Poucas vezes reclamava do peso e do cansaço, só era meio atrevido e, às vezes, fujão.

Nunca imaginava na triste sina da sua raça, de que um dia seria abatido em frigoríficos da Bahia e do Nordeste, e que seu escalpo e sua carne seriam vendidos para os chineses. Sua pele é aproveitada para produção de um tal Ejiao, uma gelatina usada na medicina e em cosméticos chineses, que movimentou o equivalente a 22 bilhões de reais em 2018. A carne, de acordo com reportagem de Alexandre Guzanshe, produzida pela WideAvenues em parceria com a Repórter Brasil (Joana Suarez), é um subproduto consumido no norte da China.

“DESENVOLVIMENTISTA”

Triste sina do nosso jumento, do jegue ou asno da espécie asinina, trazido para o Brasil pelos portugueses há 500 anos, e que se adaptou muito bem no semiárido nordestino, sendo o sustento e o braço forte do catingueiro e do sertanejo, principalmente nos tempos mais difíceis das secas, bem antes do aparecimento do ronco dos “gafanhotos motorizados” (as motos) que tomaram conta das cidades, das estradas e veredas da zona rural.

Esse símbolo nordestino, que está em extinção, é personagem histórica do Novo Testamento na travessia da Família Sagrada pelo deserto da Palestina ao Egito, para salvar o menino Jesus de uma perseguição. Aqui no Brasil, foi tema do filme “O Pagador de Promessa”, premiado no Festival de Canes na década de 60. O “Zé do Burro” fez de tudo e foi humilhado para pagar a sua promessa que fez à santa que salvou seu jumento de um raio.

O nosso jegue de carga, ou o nosso colega, morreu de velho, naturalmente, no pasto, mas não foi para o abate como era o destino de muitos que pereceram cruelmente num frigorífico lá em Senhor do Bonfim, na Bahia, há mais de 50 anos. Portanto, a prática da matança não é de hoje.

Lembro que meu pai escorraçou um sujeito malvado atravessador que queria levar o mano de trabalho para o escalpo macabro. “O meu morre no pasto, seu cabra assassino de jumentos” – bradou o meu pai, com muita raiva e revolta.  “Isto é o fim do mundo”

O símbolo do trabalho pesado no interior nordestino é “o maior desenvolvimentistas do sertão” – assim cantou o rei do Baião, Luiz Gonzaga. Como narra a reportagem, financiada por uma bolsa da The DonkeySanctuary, uma Ong britânica dedicada a promover o bem-estar dos jumentos, eles são populares na região do sisal (Cansanção, Euclides da Cunha, Serrinha e Valente). Foram eles os responsáveis por transformar Valente em capital do sisal. Eles carregam a folhas até a máquina de processamento, e dali até o varal onde os fios secam.

Estão também ajudando o homem do campo na labuta de outras culturas de subsistência, como da mandioca, do feijão, do milho e da mamona, O professor de veterinária da USP, Adroaldo José Zanella está tentando implementar estratégias de bem-estar dos jegues. Ele acha que um animal que está aqui há 500 anos não pode acabar em cinco.

UM ACORDO ESQUISITO E OS ATRAVESSADORES

A China não atende sozinha a demanda de criar 10 milhões de jumentos por ano para o abate, por isso importa esses animais de países da África e da América do Sul, principalmente o Brasil, num acordo esquisito. Aqui não tem nenhuma estrutura para aumentar a produção, e o destino do jegue é se acabar em pouco tempo.

Existe um “faroeste” na cadeia de atravessadores de asininos no Nordeste para o mercado chinês, conforme constatou a reportagem de Alexandre e da Repórter Brasil. Eles percorreram quase três mil quilômetros no sudoeste da Bahia e só avistaram 15 jumentos. Milhares estão sendo submetidos a condições degradantes e abatidos nos frigoríficos de Simões Filho (Cabra Forte), Amargosa (Frinordeste) e Itapetinga (Frigorífico Regional Sudoeste). Devido aos maus tratos houve uma liminar judicial proibindo o abate, mas retornaram às atividades.

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NA CAATINGA É ASSIM

No árido do sertão de pedregulhos e garranchos cinzentos, só o mandacaru ainda é o sobrevivente da bonita e triste paisagem. Muitos abandonam a terra no tempo da sequidão na procura do sustento para a família em outras paragens. Os governos e políticos prometem melhoras, mas tudo continua no mesmo tempo de séculos passados. O sertanejo sofre, ora ao Supremo Senhor e vai vivendo, ou vegetando como pode, olhando sempre aos céus quando a chuva virá para molhar o chão e plantar suas lavouras, muitas vezes perdidas com a estiagem. Ele é enganado até pelo tempo. Esqueceram dele aqui nesta terra de ninguém, ou aliás, só deles, os coronéis do poder. A imagem é mais um flagrante nas andanças do jornalista Jeremias Macário; Na caatinga é sempre assim há mais de 500 anos.

QUEM ESTÁ NU?

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O ministro é mais um sinistro,

político tem o seu aplicativo,

o povo pede socorro a Cristo,

e tudo fica na base do relativo.

 

Pra gente fica o osso sem o angu,

ou uma nesga do recheado bolo,

uma esmola serve como consolo,

e acusam o rei Zulu de estar nu.

 

Nu está o jornalismo brasileiro,

a educação sem eira nem beira,

onde o errado se tornou o certo,

como a ética política do esperto.

 

Criaram um negócio da China;

a paranóia virou uma coisa real,

da sociedade que é geléia geral,

que confunde ouro com platina.

 

Nu está o cabra pobre mortal,

do sistema que carimba sua cor,

se você provar ser nobre castor,

ou consumidor de nível social.

 

Nu vai ficar o rio São Francisco,

cada um tirou dele o seu petisco,

ainda chamaram o frei de alienado,

e apontaram Corisco como culpado.

 

Só conta quem tem poder e tutu,

pra financiar o estouro da boiada,

manipular e fazer muita cachorrada,

e deixar o povo espiar a praia do nu.

 

Sindicato é plataforma de pelego

pra quem não gosta fica com o sal,

se esbalda no futebol e no carnaval,

e vive em cavernas como morcego.

 

 

 





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