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:: 19/dez/2019 . 22:43

A BANALIZAÇÃO DO ANORMAL E DA MORTE NUM PAÍS SEM INDIGNAÇÃO

Feliz natal e boas festas já virou uma saudação maquinal no país que institucionalizou a banalização do mal, do anormal, da contravenção, do imoral, do crime e do ilegal. Com rimas fracas, não é uma linguagem redacional apropriada e recomendada nas escolas, mas é a força da minha profunda indignação para justificar e expressar meu sentimento com o que vem acontecendo de violência, injustiças sociais, atitudes e atos de barbáries contra o povo que, infelizmente, só tem demonstrado passividade e submissão.

Sei que meus textos são um brotar de revolta com tintas vermelhas, e confesso que tenho tentado me calar diante de tanto fanatismo e fundamentalismo de extrema que só tem engrossado o caldo que queima como soda cáustica a imagem do Brasil lá fora como um país do retrocesso e da desconstrução dos grandes pensadores das ideias libertárias no campo da cultura, da educação e da ciência. Até o meio ambiente tem sido dessa agressão criminal.

NÃO POSSO FICAR AQUI PARADO

Não consigo ver tanta gente morrendo nos hospitais por falta de atendimento médico, tanta gente a derramar lágrimas pedindo justiça para uma Justiça que não faz justiça, tantas chacinas de inocentes pelos brutos das botas de ferro, tanta misoginia, tantas agressões homofóbica e racistas, tantos conceitos medievais inquisitoriais, tanta destruição da natureza, tantas chamas da esperança e da fé se apagarem, tanto assassinato da cultura e da educação e ficar aqui “parado com a boca escancarada esperando a morte chegar”.

Difícil desejar a todos um feliz natal, quando nestes tempos sombrios e obscuros, as ” boas ações” de presentes e cestas básicas de final de ano soam como hipócritas diante do gosto amargo das desigualdades sociais tão alarmantes e que tendem a se agravar com o aumento da concentração de renda egoísta do capitalismo. Parafraseando o poeta “Boca do Inferno”, triste Brasil, oh quão dessemelhante!

Em um ano o país avançou numa linha do fascismo retrógrado, com manifestações integralistas do Plínio Salgado, numa falsa moral de pátria, família e tradição, num governo que joga na fogueira a ciência e a cultura, com pronunciamentos e palavras exóticas e bizarras nunca vistos na nossa história, “mas tiramos o PT” – foi o contra-argumento chulo de uma pessoa com quem falava semana passada. Essa cabeça e tantas outras irracionais querem dizer que pouco importa o Brasil regredir no conhecimento e no saber, daí a banalização do anormal numa mídia acrítica. Quo Vadis? Para aonde vamos?

QUEM É MESMO O ENERGÚMENO?

Quem é este cara que chama o educador e pensador Paulo Freire, cultuado pelas melhores universidades do mundo, de energúmeno? Donde vem este cara psicopata destrambelhado que demite um cientista renomado do Inpe, de reconhecimento internacional, só porque revelou o tamanho abismal do desmatamento da Amazônia? Quem é este, e de qual planeta saiu, que chama a menina ativista Greta, pejorativamente, de pirralha? Não esperava que depois desta idade fosse ver meu país tão achincalhado lá fora!

Quem é mesmo o energúmeno, o idiota e imbecil? Quem é este cara sem compostura que agride outros povos irmãos, dizendo que eles votam errado? Quem é este cara que chama a mulher de um presidente de feia? Que trata os negros de arroba que não servem nem para reproduzir? Quem é este cara que não mais reconhece a profissão de jornalista e manda extinguir o seu registro? Quem é este estrume que quer acabar com a União dos Estudantes e com os sindicatos, escravizando ainda mais os trabalhadores? Quem é este elemento que está plantando ervas venenosas em terreno árido? Quem é este cara que está aos poucos matando a democracia para implantar seu autoritarismo medieval?

Como este cara vai ser recebido nos países mais civilizados? Vai entrar pelas portas do fundo e sair escondido como persona non grata? Que país é este de mortos-vivos que não reage e só faz chorar pelas misérias, matanças, tragédias e apelar a Deus, como se Ele fosse responsável e culpado por tudo de ruim? Que nação é esta que incorpora cada vez mais o fundamentalismo, e as religiões de varejo se apropriam dos ignorantes, pobres e incultos para fazer neles a lavagem cerebral do ódio e da intolerância?

Estamos virando monstros insensíveis que só sabem dizer “feliz Natal e boas festas”? Banalizaram também o Feliz Natal, quando só se fala em Papai Noel, em noite de comilanças e empanturramento. Banalizaram a morte com requintes bárbaros. A violência virou coisa banal, comum e natural nos noticiários do dia a dia. O tempo não para, e as barbaridades aumentam em escala matemática. Infelizmente, não dá para falar coisas bonitas e de próspero ano novo. No momento, não consigo ser otimista no sentido da elevação humana, se nossa liberdade sofre ameaças.

“VIVA O POVO BRASILEIRO”

Para encerrar meu desabafo, cito aqui um trecho do livro “Viva o Povo Brasileiro”, do baiano intelectual e imortal João Ubaldo, que já foi e deve estar horrorizado com o que está vendo lá do além. “Faço revolução, meu pai –respondeu Lourenço – desde minha mãe, desde antes de minha mãe até, que buscamos uma consciência do que somos. Antes não sabíamos nem que estávamos buscando alguma coisa, apenas nos revoltávamos. Mas à medida que o tempo passou, acumulamos sabedoria pela prática e pelo pensamento e hoje sabemos que buscamos essa consciência e estamos encontrando essa consciência (-).

Nosso objetivo não é bem a igualdade, é mais a justiça, a liberdade, o orgulho, a dignidade, a boa convivência. Isto é uma luta que trespassará os séculos, porque os inimigos são muito fortes. A chibata continua, a pobreza aumenta, nada mudou. A Abolição não aboliu a escravidão, criou novos escravos. A República não aboliu a opressão, criou novos opressores. O povo não sabe de si, não tem consciência e tudo que faz não é visto e somente lhe ensinam desprezo para si mesmo, por sua fala, por sua aparência, pelo que come, pelo que veste, pelo que é”.

O CINZENTO DO AGRESTE

Como o próprio título já diz, a paisagem cinzenta do agreste, de galhos retorcidos pela sequidão do sertão nordestino, retrata o sofrimento do sertanejo que labuta o ano todo e sempre está à espreita de uma chuva para salvar sua lavoura. Fica na espera da graça com as mãos postas para o alto. Quando perde as esperanças se retira com a família para outras terras estranhas. Já ouvi dizer que é uma paisagem “bonita”, mas não é não. É triste. Bonito é quando tudo está verde. A imagem saiu das lentes do jornalista Jeremias Macário lá em Carnaíba, Juazeiro da Bahia.

OH TEMPO, TEMPO, TEMPO!

Tempo, tempo, tempo!

Sempre me pedem um momento;

Do sofrimento, sou curandeiro,

Risco e rugas da sua lisa face;

Dos deuses suprema criatura;

Tempo da criança que nasce;

Procura na corrida do dinheiro;

Dono senhor de seus sinais;

Amor e ódio na jura dos casais.

 

Tempo, tempo, tempo!

Desse povo a me decifrar,

Que louco quer só me devorar;

Sou o vento que chega e vai;

Mandamentos do Monte Sinai.

 

Tempo, tempo, tempo!

Dos reis filhos dos sumérios;

Carrasco dos gregos e romanos;

Das lendas, mitos e mistérios;

Cruel dos sanguinários tiranos;

Inspiração dos poetas cantadores;

Chibata nas costas do escravo!

Tempo do tinteiro dos escritores;

Coragem libertária do bravo.

 

Tempo, tempo dos escândalos!

Roda sideral que nunca para!

Cadê o tempo do viver e amar?

Cadê o tempo do sentido do existir?

Tão levando o meu ar de respirar!

Não deixe o “Velho Chico” sumir!

Degole as cabeças desses vândalos;

Enterre na Vala dos Desconhecidos

Essa gente de tanta cara e tanta tara.

 





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