Mesmo com algumas mesas de plateias vazias, como na de sábado, no final da tarde, em “Um dedo de prosa, poesia e lançamento de livros”, mediada pela professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb e coordenadora do Páginas Formando Leitores, Marvione Borges, onde contou com a participação de menos de dez pessoas, a palavra resistência contra a política de retrocesso do governo federal na área cultural foi a marca de força durante a IV Festa Literária Internacional do Sertão de Jequié (Felisquié).

O evento, cujo curador foi o escritor Domingos Ailton, autor do livro “Anésia Cuaçú”, foi aberto no dia 28 de novembro e encerrado em 1º de dezembro com mesa redonda “Devir e Ancestralidade em Poéticas Negras”, tendo como palestrante o escritor Jocevaldo Santiago e mediação da professora Karla Carvalho. No mesmo dia, pela manhã, foi ainda desenvolvido o tema “Leituras no Cárcere”, com a professora da Uneb, Kátia Barbosa. O jornalista, poeta e escritor jequieense Wilson Novaes foi o homenageado.

Escritores regionais e poucos recursos

Os escritores regionais que se deslocaram até Jequié para apresentação de suas obras e a venda das mesmas ficaram frustrados com a pouca procura, já que só tiveram a cobertura da hospedagem e alimentação, tendo que arcar com o transporte e não tiveram um cachê para cobrir os custos. O organizador Ailton justificou que teve recursos limitados da Secretaria de Educação do Estado e da Uesb, por isso não teve condições de contemplar os artistas regionais.

Neste momento atual, quando o problema é grave em se tratando de recursos para financiar a cultura, que virou inimiga do Estado, os escritores regionais são a parte mais sacrificada da história pela falta de maior visibilidade e porque não dispõem de recursos para bancar suas despesas e participar dessas feiras literárias. Por estes motivos, muitos, que gostariam de estar presentes, terminam por desistir de viajar e ficando de fora.

Esses novos talentos regionais da arte literária precisam de mais espaço e serem melhor tratados pelos curadores, mesmo diante da escassez de recursos. Tenho observado que estes eventos, ainda realizados por algumas cidades do Brasil e da Bahia, têm sido muito elitizados e fechados para autores famosos e mais conhecidos. Os curadores precisam dar mais espaço para os regionais, mesmo diante das dificuldades de se conseguir apoio de patrocinadores do setor público, tendo em vista que o empresário praticamente não ajuda a cultura neste país.

Outro problema é o esvaziamento do público local. Em Jequié, por exemplo, os participantes são, na maioria, parentes (pai, mãe, avós, tios) ou amigos mais próximos dos palestrante e escritores convidado. Quando termina aquela mesa, todos pegam suas pastas e bolsas e vão embora, ficando apenas os organizadores e alguns minguados interessados para quem é de fora da cidade.

Vazios nos debates

Alguns debates ficaram vazios na Festa de Jequié, o que demonstra a falta de interesse pela cultura, que pede socorro em estado terminal, numa clara contradição quando se fala em resistência contra o retrocesso no país. Ainda tem gente que critica quando uma mesa de discussão foca na questão da resistência, como foi a formada na sexta-feira, 29 de novembro, em “Um Dedo de Prosa, Poesia e Lançamento de Livros”.

Participaram desta mesa, mediada pela professora Ana Fagundes Marcelo, os escritores Carvalho Neto, com o livro “Plástico Bolha”, Marcio Nery, com a obra “O Assassino dos Números”, Luís Rogério Cosme, escritor de “Democracia Golpeada”, Dirlei Bonfim, poeta, compositor e professor, com “Alquimia das Palavras”, Sandro Suçuarana, poeta de “Diferencial da Favela – dos contos as poesias de quebrada”, poeta e escritor Antônio Ribeiro e o jornalista, escritor e poeta Jeremias Macário, com seus livros “Terra Rasgada”, “A Imprensa e o Coronelismo”, “Uma Conquista Cassada” e seu último “Andanças”.

A Festa Literária de Jequié também contou com a presença do músico, poeta e compositor Walter Lajes, na companhia de Macário, que não teve a oportunidade de apresentar suas cantorias musicais por falta de espaço apropriado. O evento teve uma grande variedade de temas, como “Leitura na América Latina”, com a historiadora Maria Teresa Toríbio, “Leitura e Mídias Sociais”, com vários palestrantes, “Literatura de Autoria Feminina”, com a professora Adriana Abreu, dentre outros.

Walter Lajes (direita), Domingos Ailton e a família Cuaçús Fotos de Jeremias Macário

No sábado, dia 30, pela manhã, houve o encontro da família dos “Cuaçus”, tendo como maior representante Vírginia Fernandes, com a mesa de comentários do escritor Domingos Ailton, mediada pela jornalista e cineasta Carolini Assis, que falou sobre literatura e cinema. Ela está à frente da produção cinematográfica do livro “Anésia Cuaçú”.

Ainda no sábado houve uma mesa redonda sobre “Irmã Dulce, a santa dos pobres”, tendo como palestrantes Graciliano Rocha, escritor e jornalista, frei João Paulo, representante das obras de Irmã Dulce. A mesa foi mediada pelo escritor Domingos Ailton e ainda teve o lançamento do livro “Irmã Dulce, a Santa dos Pobres”, de Graciliano Rocha. Aconteceu também Um Dedo de Prosa e Lançamento de Livros, com Valdeck Almeida de Jesus, com “Garoto de Programa: 5000 tons de sexo”, Rosana Viana Jovelino, com “Patuá”. O debate, que contou com a presença de cerca de dez pessoas na plateia, foi mediado pela professora Marvione Borges.