Não à cultura e viva o besteirol e à mediocridade no país onde os brasileiros estão mais preocupados com o acesso à internet do que com o acesso à educação e à justiça social.

No início e durante a ditadura civil-militar de 1964 (negada pelo capitão destruidor da pátria), o alvo das manifestações era a repressão contra o regime militar do “Abaixo a Ditadura”. Mais de 50 anos depois vivemos o Brasil da regressão, com ideias nazifascistas.  Do outro lado, escutamos um discurso arcaico de um líder que se diz ferrenho opositor, cujo símbolo virou ideologia, direcionado a uma população combalida e sonolenta que fala baixo e manso diante das agressões do dedo em riste de um facínora.

Entramos na era das nuvens pesadas do “Bozula”, do cara ou coroa. Um da criminalização dos defensores dos direitos humanos, do livre abate pelo fuzil do soldado com autorização para matar e da depredação do meio ambiente. Com sua tropa que desaprendeu tomar a “cachacinha”, um Lula que sai da prisão injetando mais raiva nos extremistas “canalhas” que só pregam pátria, família e tradição. A esquerda que se deslumbrou com o luxo da burguesia tem uma grande parcela de culpa por esse ciclo funesto e incerto que nos ameaça com um AI-5 do fecha o legislativo, prende, tortura e mata.

O barulho dos vizinhos

Todo este caldeirão contraditório vive em ebulição, justamente num Brasil sonolento, dominado pela imbecilidade das redes sociais. O povo dividido nem consegue ouvir a turbulência e o barulho ensurdecedor de seus vizinhos que lutam por mudanças e melhorias de vida, numa corajosa batalha entre fumaças, tiros e cacetadas contra as heranças malditas das desigualdades sociais que deixaram ao longo da história dos povos latinos uma multidão de miseráveis, vagando sem rumo.

Não vou rezar, nem pedir ao Supremo Todo Poderoso que acorde este gigante adormecido, ou que nos una numa terceira saída para escorraçar a volta das trevas e do obscurantismo da Idade Média. O velho discurso falastrão incita ainda mais e nos separa da direção por um país ideal de pensamento iluminista. Confesso que me sinto atordoado com tantos ruídos e vozes roucas berrando em meu ouvido. Todos eles falam em reformas do atraso. mas não fazem a reforma política deles de cortar suas benesses e mordomias.

Temos um Congresso Nacional mais reacionário de todos os tempos, e um Brasil que está virando uma Venezuela ao contrário, descambando para o autoritarismo através do cerco moralista em nome da família contra os homossexuais, contra a mulher (aumento das agressões e do feminicídio), do racismo, da depredação ao meio ambiente e da intolerância religiosa. Há quase um ano a educação não tem um plano de atuação e simplesmente deixou de existir, conforme constatou uma comissão da Câmara. O nome do ministro é impronunciável.

Mamando nas tetas do povo

O Congresso destampou a panela dos recalcados e frustrados onde um deputado vandalizou uma exposição contra o racismo. Outro falou em “negrinhos bandidinhos”. Existe lá dentro o que há de pior na pior extrema-direita, com o discurso das armas assassinas contra os pobres e negros. Os políticos de todos os naipes, inclusive os ditos de esquerda, que hoje só tomam uísque 20 anos e vinho da região de Bordeaux, de 10 e 20 mil reais, continuam mamando nas tetas do povo, e viram o diabo se alguém falar de reforma política para cortar verbas, o número de parlamentares ou suprimir o Senado, mas estão prontos para acabar com municípios pequenos.

O Supremo Tribunal Federal com suas decisões ditatoriais abre as portas do inferno para soltar os ladrões de colarinho branco, com a derrubada da prisão em segunda instância e acabar de vez com a Operação Lava Jato. O presidente incompetente Dias Toffoli faz o jogo duplo, soltando Lula e a turma do “Petrolão” e mandando segurar o processo do filho do “Bozó”, o Flávio. No morde e assopra, age contra a limpeza da sujeira, num sórdido esquema de sigilo para que os crimes prescrevam.

Que democracia é essa?

O capitão-presidente com seus traços de psicopata fala que o país vive a maior normalidade democrática, quando trama para acabar de vez com a União dos Estudantes e associação de secundaristas, inventando a carteira grátis para o aluno; condena o movimento no Chile dizendo ser terrorista; faz ameaças de recriar o AI-5 no Brasil se a onda de revolta lá bater por aqui;  insiste em aprovar o “excludente de ilicitude”, um palavrão que autoriza o policial matar sob qualquer circunstância; manda vigiar professores que  deem aulas de orientação sexual; e impede a discussão sobre gênero.

Que democracia é essa onde se mutila os direitos humanos e quase ninguém reage porque temos hoje uma mídia que só dá o factual feijão com arroz e não questiona o avanço lento e gradual do autoritarismo vindo lá dos postos maiores da República, ocupados por evangélicos fanáticos, coronéis, generais e ruralistas, os quais são defensores da liberação sem limites dos agrotóxicos e do desmatamento indiscriminado para plantar e criar mais bois nos pastos?

Que democracia é essa onde a nação dá passos para trás, ao invés de andar para frente?  Um país que viola os direitos humanos, é inimiga da cultura, da educação, da pesquisa e tem uma política externa de apoiar as ditaduras de direita, não é uma democracia. É uma falsa e mentirosa democracia, pertencente a uma classe média que abriu sua panela de pressão para apoiar o armamentismo, o racismo e a homofobia.

No Brasil inculto, analfabeto, sem educação, individualista, egoísta e sem consciência política, tudo está bom quando a inflação está em baixa e a economia dá sinais de recuperação, com um emprego de salário mixuruca que mal dá para matar a fome. O resto que se lasque, e a grande maioria nem quer saber de falar em liberdade de expressão. Muitos, pelo contrário, apoiam uma ditadura de AI-5. Palmas para o retrocesso, a mediocridade e a sonolência do Brasil!

É uma população que tem medo e preguiça de pensar e engrossa a caravana de apoiadores adeptos do proibir o contraditório.  É um Brasil sonolento e, quanto mais você xinga os canalhas fascistas, mais os seguidores tomam raiva e se divide. Esse discurso raivoso do xingamento e do ataque agressivo só fazem alimentar o retrocesso, que deve ser o alvo contra essa onda de ideias medievais que isolam o Brasil do mundo mais civilizado.