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:: 22/out/2019 . 11:28

DISTOPIA, BARBÁRIE E RESISTÊNCIAS NAS INSTALAÇÕES DE EDMILSON SANTANA

A instalação de quatro exposições de nível nacional e internacional do escultor conquistense, Edmilson Santana, no Museu Pedagógico Padre Palmeira, expressou e resumiu tudo do que foi discutido no XIII Colóquio Nacional e VI Colóquio Internacional, realizado nas dependências da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, na semana passada, com o tema principal “Distopia, Barbárie e Contraofensivas no Mundo Contemporâneo”.

Seu trabalho, que deve ficar pouco tempo no local (uma pena), que faz uma forte crítica sobre a educação no Brasil “Ducação” como está lá exposto e também nos dizeres “Fexado pra Balansso”, e cadeiras escolares quebradas, amarradas por cordas no teto, mostram como o ensino está sendo “pisoteado e machucado” por anos de governantes relapsos, corruptos, inconsequentes e incompetentes. Ao visitar, deixe, livremente, seu recado no grande mural da liberdade.

UM “SOCO” EM NOSSA SOCIEDADE

A mostra causa um impacto logo na entrada e tem uma sinergia muito forte. É um “soco” bem dado em nossa sociedade que só visa o consumismo, como bem desabafou o artista. Pela sua ousadia e criatividade, merece ser visitada, principalmente, por jovens estudantes, professores, artistas, intelectuais e por todo cidadão, pela sua mensagem política e social de distopia, barbárie e contraofensivas.

Edmilson tocou no âmago sensível da educação, que homenageia ainda os educadores Anísio Teixeira e Paulo Freire, mas também apresentou as distorções e anormalidades da nossa contemporaneidade, como a mídia das Fake News, especialmente nas redes sociais, entupidas de raivas e intolerâncias. Mostra o passado das máquinas de datilografia. O visitante ainda tem o privilégio de ouvir e refletir a narração de uma mensagem poética e crítica, gravada no texto do artista-compositor Arnaldo Antunes.

O escultor, com sua peculiar sensibilidade artística, escancarou as feridas abertas da ditadura através das fotos imortais do fotógrafo Evandro Teixeira, que se fez presente aos colóquios e ao Museu, quando falou da sua trajetória de coberturas jornalísticas no Brasil (Jornal do Brasil), no Chile, na morte do poeta Pablo Neruda, e em várias partes do mundo, retratando povos excluídos, sem uma pátria própria, como os curdos, zapatas e palestinos.

CONTRAOFENSIVAS

As imagens de Edmilson, que nasceu em Itapetinga, mas veio para Vitória da Conquista ainda criança nos braços da sua mãe, dizem tudo e valem a pena serem visitadas, porque estamos ficando inerte e precisamos nos indignar e reagir contra as barbáries e os retrocessos, como as ditaduras e as tiranias que roubam de nós a liberdade de expressão e a democracia. Muitos povos, inclusive da América Latina, já estão fazendo suas contraofensivas, não aceitando a ultraconservadora fascista que quer impor a barbárie social, como está figurada nas instalações de Edmilson Santana.

Ainda dentro do tema dos colóquios, a montagem do escultor Santana apresenta em sua arte uma exposição de contraofensivas da humanidade contra a estupidez. Destaca a realização da 3ª Internacional Comunista que está completando 100 anos, onde os trabalhadores do mundo foram convocados para se unir em oposição ao capitalismo explorador e ganancioso dos patrões.

Seu trabalho mostra também a reação dos estudantes e dos brasileiros contra o regime ditatorial na célebre “Marcha dos 100 MIL”, em 1968, fotografada por Evandro Teixeira, com quem tive uma rápida conversa em visita à minha casa. Suas fotos hoje têm o reconhecimento nacional e internacional, e Edmilson soube bem captar a mensagem através das botas militares de extensos cadarços, complementando as imagens do que foi aquele regime opressor de mais de 20 anos em nosso país.

OS COLÓQUIOS

Sua mostra retratou justamente a forma de resistência na história dos povos, que também passam pela utopia (o sonho de suas realizações), a distopia (as anormalidades dos órgãos), e a resistência encorajadora para alcançar os objetivos pretendidos, na base da luta, como bem explicou o professor Cláudio Felix, organizador dos colóquios, realizados na Uesb e no Museu Padre Palmeira, que debateram Educação em Tempos de Barbárie e Distopias –um olhar para o suicídio, drogas e gêneros.

Esse capítulo e os  colóquios tiveram mesas redondas, conferências e temáticas sobre religião, repressão e resistência na formação social e política no Brasil; educação pública brasileira; as evidências da ditadura militar; o debate atual sobre a desconstrução e construção das identidades do gênero e feminismo; história, trabalho, educação e cultura camponesa – modos de luta pela terra; democracia, violência e anti-intelectualíssimo; infância e educação infantil; preto de cabelo feio: vivenciando o racismo; diálogos conexos – linguagem, arte e cultura como resistência à barbárie contemporânea, dentre outras discussões, captadas e interpretadas nas instalações impactantes do escultor Edmilson Santana.

For de resistência à ditadura civil-militar na foto de Evandro Teixeira – instalação de Edmilson Santana

Instalação de Edmilson Santana, no Museu Pedagógico Padre Palmeira

“PRESENTE DE GREGO”

Carlos Albán González – jornalista

Era o dia 18 de maio de 2011. No luxuoso e prazeroso Hotel Transamérica, em Comandatuba, na Bahia, estavam reunidos alguns dos maiores pesos pesados do empresariado nacional, convidados pela Odebrecht para ouvir uma palestra do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a política econômica dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT). Ninguém poderia imaginar que naquele instante estava sendo “embrulhado” um “presente de grego” de um torcedor de futebol ao seu clube de coração.

Entre goles de uísque importado 12 anos, Lula, que havia completado oito anos na Presidência da República, levou para uma sala reservada do hotel Emílio e Marcelo (pai e filho) Odebrecht. Sem rodeios, na presença de Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, pediu que o gigantesco conglomerado construísse, na distante região de Itaquera, em S. Paulo, um estádio para o seu clube, o Corinthians.

Aquele encontro no litoral baiano aproximava os interesses das duas partes: Lula pretendia ampliar o leque de apoio ao seu partido, visando futuras eleições, abraçando a numerosa torcida do seu “Curintia”, na dicção do petista; a Odebrecht olhava com bons olhos o volume de construções anunciadas pelo governo de Dilma Rousseff, o que incluía as Olimpíadas de 2016.

Mas Lula tinha outros planos, que começaram a ser costurados um ano antes, com a visita do francês Jérôme Valcke, secretário da FIFA, ao Brasil, para inspecionar os estádios que receberiam os jogos do Mundial. Influenciado pelo petista e pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que não escondia sua antipatia ao São Paulo F. C., Valcke, que, depois da Copa, acusado de corrupção, foi banido do futebol, vetou o “Cícero Pompeu de Toledo”, o Morumbi, na época, o estádio mais moderno do país, com capacidade para mais de 100 mil pessoas, localizado numa região de fácil acesso da capital paulista.

Estava decretado: o estádio dos paulistas na Copa seria o “Itaquerão”, cujo orçamento inicial de R$ 450 milhões aumentou, no transcurso da obra, executada às pressas (um “poleiro” provisório foi colocado para a partida inaugural, em 14 de junho, a fim de atender uma das exigências da FIFA), para R$ 1,2 bilhão, dinheiro emprestado pelo BNDES e Caixa Econômica Federal (CEF).

No dia 31 de agosto de 2016, a Câmara dos Deputados afastou a petista Dilma Rousseff da Presidência da República. Começava um processo de transição na filosofia política do Brasil, concluído no dia 1º deste ano com a posse do palmeirense Jair Bolsonaro.

Os corinthianos, evidentemente, não esperavam essa drástica mudança  nos gabinetes do governo, em Brasília, incluindo seu torcedor mais famoso, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente do clube, o espanhol-andaluz e deputado federal (PT-SP) Andrés Sánchez. De um dia para o outro o Corinthians se viu responsável por uma dívida bilionária, reputada pela revista “Exame” como “o maior golpe do dinheiro publico do país”.

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