Vou contar pra você, seu moço!

Quando ainda ginasiano,

No declinar do verbo latino

Ouvia falar e ainda ouço

Que toda poesia

Como piano, a flauta e o violino

Que comandam a sinfonia

Tinha que ter flor, luar e amor.

 

O poeta tinha que saber imitar

O canto do sabiá e da cotovia;

Tinha que ser melancólico,

Pálido, alcoólico e doente;

Ser o pôr-do-sol poente

Pra falar da angústia,

Dor e sofrimento da gente;

Viver como um bem-te-vi;

Andar como cigano;

Ser boêmio e até insano;

Passar noites sem dormir,

Como um penado zumbi;

Ser bem íntimo da morte;

Isalar o cheiro da depressão;

Abalar todo coração

Das mulheres românticas

Doces, sensuais e platônicas;

Ser a cápsula do tempo;

Comer dos manjares dos deuses;

Ser irmão do ar e do vento;

Renegar todo sacramento;

Ser orvalho do amanhã sereno;

Conversar com Zeus;

Provar de todo veneno;

Entender os fariseus,

E pelo menos ter

Uma musa inspiradora,

Não importando,

Se obtusa, confusa ou pecadora.