Lá vamos nós outra vez nessa “gangorra desse vai e vem…” como bem expressou o poeta angustiado e profeta baiano Raul Seixas. A maior parte desses 519 de história, tivemos um Brasil proibido, violentado e censurado, no vai-vem do fechamento e da abertura de suas portas, com algumas janelas cerradas. Durante mais de 300 anos vivemos sob o jugo de Portugal que proibia até a instalação de uma gráfica nesse território de submissão e opressão.

Portugal proibia a instalação de tipografia e a publicação de qualquer material impresso, sem a permissão do rei. No entanto, em 1706, Pernambuco tentou montar máquinas tipográficas, mas sem sucesso por causa da proibição. Em 1747, no Rio de Janeiro, houve outra tentativa de Antônio Isidoro da Fonseca, que foi condenado, preso e exilado.

Veio D. João VI, em 1808, e trouxe em sua bagagem todo material tipográfico necessário para montar na colônia a Impressão Régia, visando divulgar atos e acontecimentos da corte. Aparecia aí uma réstia de luz da liberdade no fundo do túnel. A imprensa no Brasil surgiu mesmo em junho de 1808, com Hipólito José da Costa, com o Correio Brasiliense, cuja impressão era feita em Londres e entrava no Brasil de forma clandestina.

O país viveu a monarquia até 1889 e ingressou numa República atabalhoada de governantes ora liberais, ora ditatoriais, como dos 15 anos de Getúlio Vargas (1930 a 1945) e os mais de 20 do duro regime civil-militar, implantado pelo golpe de 1964. Quem ler a história vai perceber que a maior parte desses 519 anos foi de opressão e censura. O povo terminou incorporando o complexo de vira-lata de Nelson Rodrigues, e sempre baixa a cabeça para qualquer senhor-patrão.

A VOLTA DA CENSURA ESCANCARADA

Por volta de 1985 entramos numa fase da redemocratização lenta e gradual. As ideias se evoluíram e lá fomos nós se deleitar com a liberdade de expressão e criação até pintar agora, em 2019, o governo de um capitão despreparado e trapalhão que começa, aos poucos, a censurar novamente o Brasil, em nome moralizante dos bons costumes morais, da família, dos jovens e da pátria, com uma ideologia ultraconservadora, que ele próprio nega não ter.

Ai, meus amigos, volto ao nosso poeta-profeta Raul quando diz “essa estrada não tem saída”… e tem gente que “agrada a Deus, fazendo o que o diabo gosta”… “Fecha a porta, abre a porta”. …“quero saber o que você estava pensando”. …”Se você correu tanto e não chegou a lugar nenhum, bem-vindo a século XXI”. Não vou ficar aqui o tempo todo citando o poeta cantor e compositor. É só ouvir as verdades do cara, pois “quem sabe faz a hora, não espera acontecer, ” como bem desabafou Geraldo Vandré, nosso Bob Dylan do sertão que, junto com José Ramalho, falaram de povo marcado como gado, sendo conduzido para o curral da matança.

Novamente, em pleno século XXI, estamos sendo ferrados com a censura por inquisidores e defensores da tortura que acham que estão em plena Idade Média, quando milhares, a partir de 1184, pelo Papa Lúcio III, foram punidos, torturados e queimados na fogueira pela Igreja Católica, toda vez que alguém não aceitava os ensinamentos da mencionada instituição. Engana quem acha que a inquisição passou, e o pior ainda é o silêncio da grande maioria, principalmente, de artistas e intelectuais do Brasil, submisso e oprimido.

O cara começa cortando qualquer trabalho artístico que se refira à comunidade LGBT, ou, no seu conceito, seja imoral e fora do seu pensamento ideológico, cujo patrocínio venha de um órgão oficial ou empresa estatal, como se fossem propriedades dele e não do povo. Brotam, apenas, algumas meras tímidas reações. Foi dado o primeiro passo para ele introduzir, oficialmente, a censura geral a qualquer obra, mesmo que seja independente, ou promovida pelo setor privado.

NA SOLEIRA DA PORTA

Quem viver, verá a porta se fechar por completo. Alguém aí lembra do poema de Maiakovski que fala sobre o sujeito que invade seu quintal, seu jardim de flores e você nada faz, até que um dia ele entra em sua casa e leva tudo. O capitão-presidente Bozó e seus asseclas já estão na soleira da nossa porta, como fez o pastor-prefeito Crivela, censurando um quadro numa bienal de literatura, no Rio de Janeiro.

As provas do Enem não podem mais conter conteúdo ideológico, como se isso pudesse ser possível de alcançar. Como dar uma aula, ou realizar um concurso isentos de qualquer tipo de ideologia? Se não se pode expor o pensamento progressista de esquerda, socialista ou comunista, entra, então, o de direita liberal, ou o ultraconservador de extrema, que é o nosso caso atual, com viés fascista, embora o “comandante” e seus seguidores não assumem ser, ou têm vergonha de se identificar como tal, e partem para a violência verbal e até física.

O capitão-presidente quer estabelecer a barbaridade imbecil de que seu governo não tem ideologia. Isso não existe em nenhuma parte do mundo. É a filosofia do nada, o niilismo. Somos um ser, essencialmente político – como já falavam Platão e Aristóteles há mais de dois mil anos. Não podemos aceitar este absurdo de caráter falso e demagógico em nome da pátria, família e dos valores morais. Tudo isso soa a falsidade repugnante. Provavelmente ele está escondendo algo podre de nós, que um dia será revelado.

A verdade, meu caro, é que a censura está chegando para ficar, relembrando os tempos coloniais. Primeiro nas artes e na mídia, e depois na crítica política de oposição, que já está aparecendo com sua navalha cortante. O mais triste de tudo é que não está ocorrendo a indignação à altura por parte do ministério público, das entidades e instituições que se auto proclamam guardiãs da liberdade, para botar o povo nas ruas e protestar com rebeldia. Nesse barulho arrasador, o que mais nos incomoda é o silêncio dos bons.