Muitos já devem ter assistido o famoso filme “Spartacus”, de Stanley Kubrick, baseado numa história real da escravidão romana pelos idos dos anos 71 a.C., do livro de Howard Fast (1914-2003), um judeu que foi militante político contra a opressão e as injustiças. O livro foi adaptado para o cinema em 1960.

Numa linguagem dinâmica e poética, a narrativa da obra prende o leitor do início ao fim, com passagens fortes sobre os escravos que se rebelaram contra seus senhores opressores. Seu líder “Spartacus”, um trácio, conseguiu reunir mais de 70 mil escravos para guerrear por uma Roma livre e justa onde todos teriam os mesmos direitos.

Prisioneiros de guerra

Diferente da escravidão no Brasil, mais de mil anos depois, cujos negros eram apanhados e comprados no continente africano e transportados em navios negreiros, os escravos romanos eram, na verdade, povos das províncias da Europa (celtas, gauleses, germanos e outros), Ásia Menor e do Oriente, como do Egito, que se tornaram prisioneiros de guerra, ou foram subjugados durante a formação do Império Romano.

Tanto aqui como lá, os escravos eram duramente castigados, e fica difícil avaliar a dimensão maior ou menor das torturas impostas. No Império Romano muitos deles eram levados acorrentados para as minas escuras de ouro e cobre, e passavam muito tempo sem ver a luz do dia, nus e pouco se alimentando, inclusive crianças obrigadas a entrarem em lugares estreitos. Nem precisa dizer que milhares delas morriam, tais como os adultos.

Em Roma daquela época, aqueles que se rebelavam eram crucificados e pendurados nas cruzes, geralmente às margens das estradas para servirem de exemplo para os outros. O autor do romance narra, poeticamente, com detalhes, essas cenas degradantes e horríveis numa viagem feita por amigos, de Roma para Cápua, uma cidade muito bonita e cobiçada pela fabricação de seus finos perfumes.

Como relata Howard Fast, os escravos mais fortes e de alto vigor físico eram comprados por treinadores de gladiadores e levados para as arenas romanas, para lutarem, como forma de divertir e entreter o povo que era servil ao governante ou imperador. Numa luta de espadas entre dois gladiadores, ou através de bigas, só um deles sobrevivia. Existiam também negros escravos trazidos da região de Cartago (Tunísia) que usavam redes nas lutas.

Além de Spartacus, sua mulher e seus companheiros lugares-tenentes (Judéia, África e da Gália), de propósito para a obra se tornar mais realista com o tempo, o autor utiliza jovens em viagem, um general, um treinador de gladiador, um tribuno, o próprio Cícero e gentes pobres do povo como principais personagens, mostrando, cada um, seus pontos de vista sobre a política romana, orgias da época, corrupções e as canalhices daqueles que estavam no poder.

“A estrada foi aberta em março e dois meses depois, na metade de maio, Caius Grassus, sua irmã Helena e a amiga Cláudia Marius prepararam-se para passar uma semana com parentes em Cápua”… “As duas moças viajavam em liteiras abertas, cada uma carregada por quatro escravos estradeiros que podiam fazer 15 quilômetros num andar suave, sem descansar.”

Souberam antes de partir que iam passar por alguns pontos de punições, que, na verdade, eram as crucificações de escravos. “Nós olharemos apenas para a frente” – disse Helena. Mal se notava um corpo nu masculino pendurado nela.

Acompanhe nos próximos capítulos as narrações fascinantes do autor que descreve as penúrias dos escravos nas minas da Núbia, e a revolta deles, comandada por Spartacus que, com seu exército, venceu muitas batalhas contra os romanos e, por pouco, não invadiu e derrubou o Senado e todo o poder de Roma.