A escorcha dos impostos para sustentar os soldados mercenários; um exército corrompido que indicava e derrubava imperadores; a divisão do reino em dois, Oriente e Ocidente; o desgaste do povo (não mais acreditava no estoicismo racional greco-romano)  com os governos e os deuses que não mais satisfaziam seus desejos, preferindo aderir à pregação de uma nova religião chamada cristianismo que prometia vida e esperança além-túmulo; a debandada dos grandes proprietários de terras levando a agricultura ao atraso; a rebeldia de muitas províncias se tornando independentes; as lutas entre tribos e as invasões de bárbaros,  foram, entre outros, os principais fatores que contribuíram para o declínio do Império Romano a partir do século III da era cristã.

O livro “História de Roma”, do autor M. Rostovtzeff, faz uma análise profunda sobre o Império Romano, desde a sua formação tribal com lendas, mitologias e verdades, a época dos grandes reis, o tempo republicano, a revolução dos irmãos Gracos que buscaram implantar uma reforma agrária e foram assassinados, a tomada do poder imperial pelo grande general Caio Júlio César, a consolidação do império por Augusto, o chamado divino filho de César, as depravações e tiranias cometidas por imperadores como Calígula, Nero, Cômodo, Domiciano e outros, as divisões, a escravidão cruel imposta por Roma, a bonança nos séculos I e II, a evolução religiosa e a vida nas províncias até o declínio do Império e suas causas.

O DECLÍNIO

Destaca o escritor no final da sua obra que, após a época de Diocleciano e Constantino, o Império Romano continuou existindo por muitos séculos, dividido, porém, em duas partes, o Ocidental, tendo como capital Roma, e o Oriental, comumente chamado “Bizantino”, porque sua capital Constantinopla, ou Roma dos romaioi, fora fundada por Constantino no local da antiga Bizâncio. A estrutura que esses dois imperadores construíram era nova em seu todo, diferente das concepções greco-romanas, e mais de acordo com as teorias políticas do Oriente iraniano e semita.

Relata Rostovtzeff, que o Império Ocidental foi gradualmente se fragmentando em várias partes, que eram a Itália e as antigas províncias, governadas, em alguns casos, por chefes de diferentes tribos germânicas que haviam tomado alguma parte do mundo romano. Na época de Diocleciano, Constantino e seus sucessores, os germanos se sobressaiam no exército e na corte imperial. No Oriente, o processo de dissolução é mais lento e as velhas tradições são mantidas. A influência do Oriente é mais forte, e o governo tende a adaptar-se aos regimes mais despóticos. O centro de gravidade passa da península balcânica para a Ásia Menor.

QUEDA NA TÉCNICA AGRÍCOLA

Os países, de acordo com o autor, que haviam sido os principais centros da política entram em decadência, sendo substituídos pelas regiões da Ásia e Europa, com importância decisiva na história da humanidade. Antes desempenhavam papel secundário. Os antigos centros começam a entrar em declínio. As condições mais primitivas no âmbito social, econômico e intelectual tomam lugar das velhas instituições. Há modificação dos métodos agrícolas, passando do capital e do científico para rotinas primitivas do atraso. O solo passa a ser tratado por pequenos proprietários, cultivadores ou arrendatários.

Naquela época, o Império possuía muitas terras, mas o problema era encontrar agricultores que pagassem arrendamento, e trabalhadores que cultivassem o solo. A escassez de mão-de-obra era uma prova de que a população deixara de crescer. O baixo índice de natalidade e extinção das famílias se estendiam a outras camadas sociais. A migração da força de trabalho foi interrompida pelo declínio do comércio e da indústria. O lugar era preenchido por estrangeiros do Reno, do Danúbio, germanos, iranianos e eslavos. A inundação da força de trabalho de fora penetrou nas partes centrais do Império, aumentando ainda mais a queda da técnica agrícola e da produtividade.

A atividade industrial que abastecia o mercado local diminuiu sua produção, enfraqueceu e acabou morrendo, e com ela desapareceu o intercâmbio dentro do Império. Embora o Estado cuidasse do transporte do que era necessário à corte, o comércio se ocupava de vender artigos de luxo importados do Oriente, passando às mãos dos mercadores daquela região (sírios, levantinos e judeus). O esplendor oriental tinha grande atração para os germanos e iranianos que ocupavam altas camadas da sociedade.

A prosperidade das cidades foi minada por essas condições econômicas. As grandes resistiram por mais tempo. Ainda no século IV eram erguidos grandes edifícios em Roma, mas no século seguinte acontece a decadência. A nova capital, Bizâncio-Constantinopla, transformou-se na capital do mundo, de luxo abundante, adornada de uma arquitetura imponente nos palácios e igrejas. Alexandria, Cartago, Éfeso, Antioquia ainda sobreviviam, bem como Ravena, Mediolano (Milão),Trèves, Nicomédia e Nicéia, onde os coparticipantes do poder real mantinham suas cortes.

Desaparecimento da classe média

As igrejas cristãs e os mosteiros eram os únicos prédios novos. O mato começou a crescer nas cidades e os antigos edifícios entraram em deterioração. O aspecto social e econômico permaneceu o mesmo dos tempos de Diocleciano e Constantino, ou seja, conservou as mesmas feições do século III. O imperador com sua família e cortesãos, oficiais, altos prelados e a burocracia constituíam as classes superiores. Todos tinham bens, em proporções variáveis, principalmente de terras.

Na escala social vinham depois os negociantes e especuladores, na maioria semitas. A classe média urbana estava desaparecendo com suas antigas famílias se misturando à ralé que trabalhava para o Estado, ou entre a população rural (serva do poder ou dos grandes senhores). A escravidão, mesmo como instituição, foi perdendo sua importância econômica.

Cita o autor do livro, que a capacidade de trabalho decaiu, os gostos se vulgarizaram e um pequeno grupo de privilegiados foi entrando em decadência, como o nível intelectual. As escolas existiam, mas já não atraiam quase ninguém, a não ser entre as classes superiores que cuidavam de preparar seus alunos para o serviço público. A educação básica se resumia no aprendizado do grego, do latim e do conhecimento dos principais clássicos. Uma educação superior incluía a retórica (falar, escrever e estudar assuntos jurídicos).

A LEI DO MUNDO

O Direito Romano tornou-se, aos poucos, a lei de todo o mundo civilizado, destacando nomes, como Paulo, Papiniano e Ulpiano. Houve um progresso da condição de escravos. A filosofia estava viva, mas restrita a um pequeno círculo. Depois de Plotino não apareceu mais nenhum gênio. A reformulação do platonismo tornou-se no último refúgio do pensamento pagão. Os escritores produziam para si mesmos, ou para um estreito público de aristocratas e gente mais culta.

Presos à repetição de fórmulas e técnicas do passado, grandes nomes surgiram por volta do ano 400 da nossa era, como Cláudio Claudiano, Rutílio Namaciano e Ausônio com seus poemas, discursos e cartas. Na mesma época, no Oriente tivemos o imperador Juliano e Libânio de Antióquia. Também, a História não morreu na pessoa de Amiano Marcelino.

Somente a literatura cristã estava viva. O número de leitores só aumentava e obtinha forças na luta sangrenta contra os defensores do velho mundo e os dissidentes em suas próprias fileiras. Ela tudo fazia para proporcionar uma educação cristã para os súditos do Império. As estrelas mais brilhantes do cristianismo, no século IV, foram Ambrósio (bispo de Milão) e o culto Jerônimo que viveu de 335 a 420.

Literatura e artes cristãs

No Oriente, o cristianismo também encontrou terreno fértil com a literatura. As bases da teologia e poesia cristãs foram lançadas por Atanásio da Alexandria, Eusébio de Cesaréia, Gregório de Nazianzo e João Crisóstomo. A arquitetura ainda florescia com as obras de Diocleciano, Domiciano, Trajano e Constantino. Foi sob o governo de Justiniano que se ergueu a maravilha arquitetônica que chamamos de Igreja de Santa Sofia.

O declínio foi mais acentuado na escultura e na pintura. Os bustos-retratos de muitos imperadores, com sua imponência, refletem a tendência característica do Império para as formas maciças e pesadas. A arte continuou seu curso individual, refletindo a vida ao seu redor e o sentimento dos contemporâneos. Os arquitetos se empenharam em construir as igrejas cristãs, ou casas de oração, com todos adornos de pintura, mosaico e escultura.

Com o passar do tempo, a nova arte cristã se distanciava da antiga. As figuras naturalistas e os ornamentos sutis do estilo greco-romano, com todo simbolismo e impressionismo, foram afastados no esforço de encontrar formas que representassem as pessoas e símbolos caros a todos os cristãos. A Igreja passou a exigir que as velhas formas e técnica se adaptassem às necessidades do culto cristão.

O Oriente podia atender a tais exigências, principalmente o iraniano, inferior à Síria e ao Egito em elegância e refinamento. As artes aplicadas do Irã e da Ásia Central chegaram a Roma por diferentes caminhos e derrotaram todos os concorrentes. O mundo antigo envelheceu. Uma nova vida cresceu entre as ruínas, e o novo edifício da civilização europeia levantou-se obre o antigo alicerce.

Mesmo envelhecido, o antigo não morreu. Continuou vivo em nós, como base do nosso pensamento, de nossa  atitude para com a religião, nossa arte, nossas instituições sociais, políticas e materiais – segundo o autor  do livro.

CAUSAS DA DERROCADA

Quando observamos esse processo ao primitivismo, nos deparamos com as transformações psicológicas nas classes da sociedade, até então, criadora das culturas. A capacidade de criação e sua energia se esgotam. O homem perde o interesse de criar. Seu espírito passa a se ocupar das coisas materiais ligados à vida terrestre. O centro de atração se desloca da terra para o céu, ou da terra para o mundo do além-túmulo.

O escritor aponta os declínios da civilização helênica e romana. Na história do Oriente, são muitas as quedas, provocadas por causas externas, como uma conquista estrangeira. Os cassitas conquistaram a Babilônia e os hicsos o Egito. Os persas destruíram a Assíria. O império hitita foi derrubado pelos trácios. Em alguns casos, aconteceu o declínio ser apenas temporário. A transferência de uma civilização para outra é uma característica do Oriente. Os assírios herdaram a cultura da Babilônia, que passa aos persas e depois aos partos.

Em sua análise, no Oriente não existe aquela modificação geral e permanente, que é característico do Ocidente. A razão é que a cultura oriental se baseia numa interpretação religiosa permanente, resistente a todas as mudanças. A cultura nascia da luta contra inimigos estrangeiros, pertencente a pequenos grupos separados, na formação de uma cidade-estado. Essa cultura era propriedade comum de todos os cidadãos, sem exclusão dos escravos.

No entanto, o desenvolvimento econômico dividiu a população das cidades gregas em seis grupos opostos – os melhores e os piores (ricos e pobres). Após a morte de Alexandre, a cultura grega conquistou a cultura oriental. A civilização grega floresceu, pois a atividade intelectual encontrou um campo mais amplo com a expansão do número de suas cidades.

Grécia perde os melhores espíritos

Quando a Grécia foi conquistada pelos romanos, a cidade-estado perdeu sua liberdade, vindo em seguida um longo período de anarquia política e social. Apear da sua cultura superior, a Grécia tornou-se escrava dos homens que considerava bárbaros. As principais vítimas foram os melhores espíritos, os que mantinham vivos os ideais da liberdade. Passaram a duvidar da razão, e mergulharam no materialismo vulgar, e buscaram a salvação nas religiões místicas.

Os gregos encontraram sucessores no Ocidente. A cidade-estado foi substituída pela cidade de Roma. Diz o autor, que a aristocracia romana tomou o facho da civilização grega e continuou a sua missão, acrescentando as qualidades que lhe eram peculiares. Logo que Roma se tornou dona do mundo, o poder dos melhores homens, foi assaltada pelos cidadãos em geral. Seu grito de guerra era uma distribuição melhor e mais justa da riqueza e uma forma mais democrática de governo.

A Perda da Razão

Por oito anos arrastou-se esse conflito, e a aristocracia saiu derrotada. Seu lugar foi tomada pela classe média italiana, que procurou manter o elevado padrão da civilização e pagou caro pela sua vitória. Com o poder imperial, a liberdade diminuiu e foi rebaixada até ao nível da submissão voluntária.

As classes superiores, com exceção das casas senatoriais, destruídas pelos imperadores, levavam uma vida calma e fácil. Sob a proteção do imperador, não precisavam se preocupar com o futuro. Roma não tinha competidor. A opinião geral era que sua civilização e seu sistema político eram imortais.

Nessa atmosfera indolente, os mais privilegiados encontraram seus ideais no prazer, na procura do lucro e na consecução das vantagens materiais. O homem tornou-se egoísta e ocioso. Em tal era de estagnação, os melhores espíritos ficaram descontentes com a vida e perderam a fé na força da razão, enquanto a censura se acentuava. A pena e o lápis produziram trabalhos inteligentes, mas incapazes de elevar o espírito.

Muitos procuraram refúgio na religião, contemplando Deus em comunhão com um mundo invisível. Voltaram-se para dentro de si mesmos, adotando a auto perfeição. “Sentimos o cansaço e a indiferença que minaram não apenas a cultura do Estado, mas também seu sistema político, sua força militar e seu progresso econômico. Um dos sintomas dessa indiferença é o suicídio da raça”.

A cultura passou a se limitar a uma minoria, mas novas cidades surgiram entre os celtas, iberos, ilírios, trácios e berberes, no Ocidente, bem como na Ásia Menor, Síria e nas planícies da Arábia. O proletariado urbano de escravos e libertos cresceu com a mesma rapidez. O mesmo ocorreu com a população rural. Seu quinhão era o trabalho. A cultura não chegava até essa gente, vivendo de migalhas.

A ociosidade e a apatia

Dessa forma, a ociosidade da classe dominante provocou uma nova crise social e econômica no Império. Os imperadores de maior visão compreenderam o perigo, mas era arriscado despertar as classes superiores da apatia.

Do outro lado, se deparava com o descontentamento entre os pobres, principalmente quando o Império foi obrigado a defender-se contra os inimigos externos, depois de dois séculos de paz. Exigia-se entusiasmo, mas os ricos não podiam ser despertados de sua indiferença. Vendo aquilo, os pobres encheram-se de ódio e inveja. Os governantes tentaram forçar seus súditos a defender o Império.

A população foi esmagada

Então, a mão da autoridade caiu de forma pesada, tanto sobre os ricos como sobre os pobres. Para salvar o reino, começou a esmagar a população. Daí surgiu a catástrofe social e política do século III, quando o Estado, apoiando-se no exército, derrotou as classes superiores, deixando-as na miséria. Foi um golpe fatal na civilização aristocrática e urbana do mundo antigo.

No seu sofrimento, o homem procurou abrigo no além-túmulo. As classes inferiores nada lucraram com a vitória. A escravidão e a ruína foram seu quinhão. Também, eles encontraram refúgio na religião e na esperança de felicidade na vida futura.

O Estado, mesmo diante das ruínas, continuou existindo enquanto sua cultura e organização foram superiores às de seus inimigos. Quando isso desapareceu, novos senhores tomaram conta daquilo que se tornara um organismo exangue.

Segundo o escritor, a derrocada do Império Romano não pode ser atribuída à decadência física, a qualquer enfraquecimento do sangue entre as classes superiores, nem às condições econômicas e políticas, mas a uma modificação na atitude do espírito dos homens. De acordo com ele, o processo foi o mesmo da Grécia. Uma dessas condições foi a natureza aristocrática e exclusivista da civilização antiga.

“A reação mental e a divisão social privaram o mundo antigo do poder de conservar sua civilização, ou de defende-la contra a dissolução interna e a invasão externa da barbárie”.