Poema de autoria do jornalista e escritor

Jeremias Macário

O sol no dia de fim,

descamba rajado de se ver,

com raios de fogo no ar,

e leva minha vida de viver,

como escrito na profecia,

grudado vai ficar,

o seu cheiro de alecrim.

 

Por aqui ainda em lidas,

as folhas são sacudidas,

como caniços ao vento,

no vai-vem do arrebento,

e a água no quebra-mar,

serena a se acalmar.

 

Vou assim na vida,

lambendo a minha ferida,

tratado como genérico,

de povo africano escravo,

português de rosto ibérico,

lutando como um bravo,

nesta sociedade indiferente,

que engana e se alimenta,

do sistema desta gente.

 

Vou indo assim devagar,

com meu feijão com arroz,

no desvio dos malfeitores,

às vezes o ontem e o hoje,

o amanhã e o depois,

ora cheio de raiva,

ora tomado de amores.

 

Vou no meu devaneio,

de quem nunca teve lar,

sem carta e sem e-mail,

como perdido das ruas,

com a cara na janela,

caçador e caça da vez                            ,

criado numa gamela,

de um mercado tarado,

que todo fim de mês,

enche de contas a pagar,

toda caixa de correio.

 

Na inversão do normal,

na viagem do galopeio,

vou assim no meu trote,

firme no meu arreio,

brandindo meu chicote,

contra esta trama imoral,

que do açúcar fez sal,

fez do errado o correto,

dizendo que sou inseto.