Foi brilhante a evolução do Império nos dois primeiros séculos da era cristã, num único Estado civilizado entre os países do Mediterrâneo. Só as tribos selvagens germânicas, que nunca se dobraram a Roma, os eslavos, finlandeses, os nômades do deserto, os negros da África central, os iranianos e os mongólicos da Ásia ficaram de fora. A população podia mover-se livremente, com exceção dos servos orientais presos ao solo, conforme descreve o autor de “História de Roma”, M. Rostovtzeff.

O Mediterrâneo era um grande lago romano, bem como o Mar Negro, os rios da Europa Ocidental e o Nilo, que transportavam mercadorias e passageiros. A comunicação com a Índia era segura através dos portos egípcios. Pelas estradas era fácil viajar para o Atlântico e outros mares. Uma rede de estradas semelhantes cobria a Ásia Menor, Síria, África do Norte e Grã-Bretanha. Toda segurança era garantida pelas forças armadas nas comunidades de autogoverno.

SEM ASSOCIAÇÕES SUBVERSIVAS

O Estado mantinha destacamentos especiais de polícia em Roma (brigada de bombeiros), Lião e Cartago. A vida municipal estava livre do controle do governo central, mas não aceitava clubes de caráter subversivo em seus limites. Apenas as comunidades cristãs eram perseguidas, mas não se sabe se o eram como associações (collegia illicita), ou acusadas, individualmente, por se recusarem a participar do culto ao imperador. Haviam associações fechadas como escolas filosóficas.

No Oriente, as constituições, ou cartas das cidades, variavam muito entre sí. Indiferente, o governo romano apoiava a aristocracia, e via com desagrado a democracia. Na maioria das cidades gregas, a Constituição era oligárquica. A Alexandria recebia tratamento excepcional, isto é, tinha direitos reduzidos e era controlada rigorosamente pelo governo romano.

A maioria das comunidades italianas e nas províncias tinham suas constituições dadas pelo governo central. A cartas eram padronizadas, obedecendo ao mesmo esquema, determinando a criação de instituições municipais, magistrados, conselho de anciães ou decuriones (senadores locais) e uma assembleia popular. Eram acontecimentos importantes as eleições dos conselhos e dos magistrados, com competições acirradas.

Quando eleito para o Augustales (associação de libertos) era uma honra muito disputada por recolher fundos para o culto ao imperador nas cidades. Na Ásia recebia o título de guardiões do templo do imperador. A maioria dos edifícios públicos nas cidades gregas eram construídos por meio de subscrições particulares entre os ricos. Em Roma, a coisa era mais complicada. A população, calculada em mais de um milhão de habitantes, não tinha direitos políticos e municipais. Era totalmente controlada pelo imperador, seus ministros e pelo Senado. Augusto fez de Roma a verdadeira capital do mundo e seus sucessores seguiram os passos. A capital tornou-se, aos poucos, a mais agradável para se morar.

A ordem era mantida pela polícia imperial, com sete regimentos de bombeiros. Funcionários especiais fiscalizavam os aquedutos, esgotos, o curso do Tibre, a conservação dos edifícios públicos, ruas e avenidas. Não existiam, em outro lugar, templos tão nobres e fóruns ricamente adornados, arcos triunfais e uma floresta de estátuas. Os teatros, anfiteatros e circos eram amplos. Nenhuma tinha mais bibliotecas públicas e museus, ou uma galeria de estátuas construídas por Augusto no seu fórum de famosos comandantes romanos.

200 MIL MANTIDAS PELO ESTADO

  A vida era fácil e alegre, e 200 mil pessoas das classes mais pobres eram mantidas pelo Estado, e as demais tinham trabalho em abundância. Não havia falta de distrações, principalmente no governo de Nero, Domiciano e Cômodo. Em proporções aos seus meios, as cidades das províncias recebiam também bons tratamentos, especialmente Alexandria, Pérgamo, Éfaso, Atenas, Corinto, Lião, Cartago e Tarragona. As pequenas cidades, mesmo das colônias e municipia da África, Gália e Grã-Bretanha, se destacavam pelo planejamento na limpeza e condições sanitárias.

Os mortos recebiam os mesmos cuidados dos vivos. “Nenhuma época da história do mundo pode ser comparada ao Império Romano pelo número de belos monumentos, erguidos em memória dos mortos “, incluído a África, Grécia, Ásia Menor e Síria. “Milhões foram gastos com os mortos, dezenas e centenas de milhões com o conforto dos vivos” – comenta o autor do livro.

“Podemos dizer que nunca na história da humanidade, com exceção talvez dos séculos XIX e XX na Europa e na América, um número maior de pessoas desfrutou tanto conforto, e que nunca os homens viveram em meio a edifícios e monumentos tão belos como no Império Romano nos dois primeiros séculos da Era Cristã”.

Nas cidades, especialmente na capital, vivia a parte da população que dirigia a vida social e econômica do Império. Os sucessores de Augusto tornaram-se cada vez mais liberais e admitiam como cidadãos das classes superiores os naturais de qualquer cidade do Império. Nas fileiras do exército muitas pessoas subiram à classe de cidadãos, e o processo ampliou-se cada vez mais até incluir a maioria das classes superiores e média da população urbana da Itália e das províncias.

SÓ O PROLETARIADO CRESCE

A velha nobreza senatorial desaparecera em fins do século I, em parte devido à perseguição dos imperadores, e também por motivos naturais, isto é, quando se casavam não tinham filhos. Essa modificação se evidencia nos casos dos imperadores Júlios e Cláudios que pertenciam à velha aristocracia patrícia, com os Flávios originários de uma família municipal italiana, e os Antoninos vindos das classes superiores das províncias romanizadas. Nas cidades da província observa-se o mesmo fenômeno. A classe equestre aumenta, mas seus membros são recrutados fora dos quadros tradicionais. A única classe que cresceu foi a do proletariado.

As classes superiores passaram a não ter interesse em preservar a espécie. Pouco se importavam com o que aconteceria aos seus bens quando morressem, Normalmente davam ao imperador, aos amigos e bajuladores.. Os senadores ainda eram a classe mais rica, mas não tinham muito interesse em aumentar a riqueza pelo cultivo das terras. O objetivo do homem rico era receber uma renda segura e permanente, com o mínimo de esforço, daí o investimento em terras, administradas por escravos e libertos, trabalhadas por arrendatários a prazo longo.

No período,  houve uma estagnação, uma paralisia até mesmo pelo desejo de lucro. A composição das classes mais elevadas modificou-se. Homens mais inferiores substituem os representantes da cultura tradicional e depois desaparecem. As camadas mais baixas nas cidades disputavam das mesmas vantagens que estavam ao alcance dos ricos. No entanto, as coisas eram piores nos bairros pobres, se bem que podiam gozar das praças, basílicas e banhos. Os escravos viviam em pior situação, mas tinham certa benevolência dos legisladores.

Nas épocas agitadas dos fins do século II e início do III, o campo adquire voz e usa isso para reclamar contra as durezas ao imperador. Houve uma rápida destruição da prosperidade do Império, que possuía férteis distritos agrícolas, florestas virgens, minas e pedreiras, rios e mares ricos de pesca. A prosperidade baseava-se na agricultura e na pecuária.

Na África (Argélia e Tunísia) e na França, as cidades eram densamente povoadas e cultivadas nos dois primeiros séculos. As riquezas das províncias ocidentais eram atestadas pelas ruínas de muitas cidades, cujos habitantes eram alimentados pelo campo que não existiam antes. No Egito, o aumento da área cultivada foi comprovado por documentos ali descobertos e pelo conhecimento dos esquemas de irrigação colocados em prática por Augusto. As épocas modernas pouco poderão orgulhar-se de conquistas semelhantes.

Decadência dos processos científicos

Apesar do aumento da área cultiva da vinha e das oliveiras, não houve progresso na questão da técnica empregada, e sim retrocesso. O escritor Columela queixa-se da decadência dos processos científicos de cultivar a terra na Itália. A causa maior foi o grande crescimento da pequena agricultura que seguiu o desenvolvimento das grandes áreas. O trabalho escravo já não era de fundamental importância, porque passaram a custar caro, enquanto o livre era mais barato, em razão do aumento do proletariado.

Os grandes senhores abandonaram o cultivo por conta própria e arrendaram as terras aos pequenos. Foram para as cidades, como no Oriente. O mesmo aconteceu com a exploração de outras riquezas naturais. Porém, o número de minas e pedreiras cresceu, razão pela qual alguns territórios novos foram anexados. Isso levou Cláudio a conquistar a Grã-Bretanha.

Na mineração e na metalurgia, os romanos não aperfeiçoaram os métodos da Idade Helênica. Os imperadores operavam as minas através de empreiteiros que utilizavam os escravos. Devido a isso, os grandes centros perderam sua posição econômica. O pior destino foi da Grécia, cujos produtos desapareceram quase que totalmente do mercado mundial. Poucos artigos eram ainda produzidos por distritos e exportados. Alguns constituíam especialidade enviados pela Ásia Menor, Itália e Gália, como as vasilhas de cobre da Campânia. O Egito era senhor do mercado de artigos de linho e papel.

A manufatura da louça de barro existia em quase todos os centros, e foi iniciada na Grécia e Ásia Menor, passando depois para a Itália que aprimorou a técnica e não tinha rival no mundo. No século seguinte atingiu o Reno. No século II todas as províncias produziam quantidades enormes de lâmpadas de barro. Com o tempo, a qualidade caiu. Na joalheria, por exemplo, bastava comparar os brincos e broches da Idade Helênica com as grosseiras imitações românicas. Os produtos do Império eram inferiores aos das monarquias orientais, ou da Grécia.

Artigos mais caros saíram do mercado

A causa dessa degeneração deve ser procurada na difusão da produção já mencionada. Os artigos melhores e mais caros foram saindo do mercado, e as fábricas e oficinas ficaram inativas. O sistema de grandes fábricas, iniciado em Atenas, atingiu algumas cidades italianas no século I, mas declinou após meados do século II. Relações comerciais eram mantidos com os mercados mais distantes, como China, Índia, África, Arábia, Ásia central, Rússia, Germânia e até com a Suécia e Noruega.

A África mandava ouro, marfim e madeiras; a Arábia especiais; pérolas e pedras preciosas vinham da Índia; a seda da China; peles da Ásia central e Rússia; e âmbar da Germânia e Escandinávia. O comércio dentro das fronteiras assumiu grande importância. O aumento era constante e a classe dos comerciantes cresceu, com destaque para os semitas, sírios, judeus e arameus.

No final do século III, o imperador Diocleciano divulgou uma tarifa dos preços fixados para as mercadorias, destinada às províncias orientais, mas incluindo também grande número de produtos do Ocidente, como da Gália. À medida que as províncias se tornavam autossuficientes, reduzia-se de importação, e o mercado de toda cidade ou aldeia abarrotava-se  de produtos locais.

Nas cidades, a maioria das oficinas vendia diretamente seus artigos, e a maioria dos comestíveis à venda era produzida dentro do território pertencente à cidade. Essa situação era menos acentuada quando o transporte se realizava através de um rio, como na Gália, Grã-Bretanha, Reno Danúbio e Egito.

Os pequenos proprietários

O custo e a demora do transporte pelas estradas isolaram os mercados e os forçaram a buscar cada vez mais a autossuficiência. As mesmas causas impediram o desenvolvimento de grandes empresas capitalistas na esfera do comércio local, exceto para os produtos transportados por mar, caravanas ou rios. Fato interessante foi do imperador Adriano que passou a favorecer os pequenos proprietários na agricultura e empreiteiros da mineração, impedindo o intermediário e colocando o comprador em contato direto com o produtor.

Os mercadores e os grandes proprietários eram os homens mais ricos da época através de importantes companhias e associações. Interessados na navegação, eles (navicularii), organizavam-se em companhias do gênero e se tornaram uma das mais poderosas alianças econômicas do Império. O intercâmbio foi facilitado por um melhor sistema de estradas e pela proteção contra os piratas do mar. Os impostos não eram escorchantes.

Todos os imperadores legislaram no sentido de elevar o nível legal e social dos escravos. A existência da escravatura e sua aplicação à indústria impossibilitavam aos trabalhadores livres reunirem-se para combater os empregadores. As propriedades aumentaram de tamanho e a agricultura sofreu um retrocesso científico, voltando a métodos primitivos, praticados pelos pequenos arrendatários. Houve declínio da agricultura intensiva na Grécia e na Itália.