Nasci no espinhaço do sertão,

No profundo agreste nordestino,

Com rapadura, farinha e carne seca,

Ouvindo o estrondo do trovão,

No sol escaldante de matar,

Que até inseto morre no ar,

E carrego no meu embornal,

A faca, a foice e o martelo,

E da minha primeira lição,

Estudei o latim no Seminário,

O grego, o francês e o português;

Labutei duro e fiz histórias no jornal.

 

As angústias e a vida em vendaval,

As coisas boas e ruis do passado,

Todas as alegrias e o choro calado,

Até o soro que tomei lá no hospital,

A solidão das vagas madrugadas,

Os acordes da mulher doce amada,

As cores do meu país maltratado,

Onde o roubo é tratado como normal,

Está tudo no meu velho embornal.

 

O conhecimento, as intrigas e brigas,

Os momentos de tantas fadigas,

As certezas e a vida de incertezas,

O sonho de ver irmão igual irmão,

Viver num país de igualdade social,

Sem o preconceito religioso racial,

O saber de saber que nada sei,

Que sou simples ser e não um ter,

Tudo está no meu surrado embornal.

 

Carrego tudo no meu embornal,

Muita coisa boa nesta sacola,

Coisas que não se aprendem na escola,

Como as noites etílicas sagradas,

Os segredos dos frios dos invernos,

E as floridas cores das primaveras,

Muita gente de caras mascaradas,

Nas eras das ditaduras severas,

Tudo está lá guardado no embornal.

 

O clarear do verão seco e quente,

Batendo nos rostos de tanta gente,

Indo e vindo nas bancas de jornais,

De corpos sofridos e espíritos fatais,

Em linhas tortas arrombando portas,

Tudo está lá no meu velho embornal.