Esta afirmativa, de deixar qualquer pessoa esclarecida irada e se sentindo ludibriada, é da ministra da Agricultura, rebatendo críticas dos países europeus, especialmente Alemanha e a França. Senhora ministra, isso soa aos ouvidos como uma mentira proposital, ou que a senhora não conhece nada da área. Não acredito em ingenuidade, e sim que a senhora cometeu uma afronta a todos os brasileiros instruídos, chamando-os de burros, idiotas e ignorantes. Senhora ministra, não diga isso porque é vergonhoso, pois os europeus acompanham e sabem muito bem de tudo o que acontece no Brasil! Não adianta tentar enganar, jogar a sujeira debaixo do tapete e querer tapar o céu com uma peneira.

Isso é muito feio, senhora ministra! Não é assim que se deve vender o produto Brasil lá fora, passando uma ideia falsificada, do tipo “coisa do Paraguai”, que perdoem nossos Hermanos do outro lado. As agressões ao meio ambiente no Brasil estão aí escancaradas para todo mundo ver, desde da aldeia em que cada um vive até a mais distante deste país continental. Mais decente seria fazer um mea culpa e se comprometer a adotar medidas para conter as transgressões, visto que o governo do capitão dos generais está fazendo o contrário. A lista das transgressões, ou o BO do meio ambiente, é extensa e a folha corrida pode ir da terra até a lua.

Desmatamentos e outras transgressões

Não sou nenhum especialista do setor, mas nem precisa ser para falar, mostrar e denunciar as depredações ao meio ambiente no Brasil, coisas ainda primitivas. Vamos começar pelos desmatamentos na Amazônia, cujas estatísticas indicam que duplicaram no último ano pra cá, tendo como fatores a ganância dos madeireiros, do setor do agronegócio (pecuária e agricultura), dos mineradores, dos carvoeiros e dos grileiros de terra, só para ficar por aí.

Senhora ministra, seu presidente quer reduzir e não mais demarcar as áreas dos quilombolas, dos índios e até extinguir as de preservação ambiental, e acabar com paraísos como Angra dos Reis para transformá-la numa Cancun mexicana para os capitalistas se esbaldarem! Ele pretende desviar o dinheiro do Fundo da Amazônia para indenizar proprietários que invadiram terras de preservação.

O Brasil é um dos países do mundo que mais usam agrotóxicos na agricultura, inclusive de produtos proibidos lá fora. No seu governo (quem manda são os generais) nunca se liberou tantas substâncias perigosas, com tanta rapidez para o uso dos produtores rurais. E a “famosa” espuma tóxica do Rio Tietê, em São Paulo, todas as vezes que chove? Não é transgressão ao meio ambiente?

Na Mata Atlântica, é o segmento imobiliário que mais derruba árvores para construir prédios, viadutos e condomínios de luxo, incluindo também as invasões nos morros, que avançam  devido a falha na fiscalização do poder público. Desde a colonização, somente 8% de toda área ainda sobrevive. Desenvolvimento sustentável aqui é um marketing dos empresários para destruir a natureza e encher os bolsos de dinheiro, dando uns minguados empregos.

No Sudoeste da Bahia

No cerrado, o agronegócio constrói barragens afetando nascentes e desviando o curso dos rios, como aqui no nosso oeste baiano e na Chapada Diamantina no caso dos hortigranjeiros (região de Lençóis, Andaraí e Mucugê). As transgressões estão lá para todos verem. Basta conversar com qualquer morador do lugar. Dos 80 quilômetros de extensão do Rio Utinga, que deságua no Marimbus (pantanal da Chapada), metade morreu em decorrência do excesso da retirada de água para irrigação. O Rio Itapicuru também está morrendo devido a derrubada das matas ciliares.

Em Caetité e Pindaí, no sudoeste da Bahia, em nossa aldeia, uma mineradora vai construir uma grande barragem de resíduos de minérios, sem prévia consulta da população que está em pânico. Em Vitória da Conquista, a Serra do Piripiri foi toda depredada ao longo dos anos para pavimentar a BR-116 e edificar prédios, matando as nascentes, só sobrando um pouco do Verruga, praticamente morto no seu leito.

Deserto no Nordeste

O Nordeste, senhora ministra, está virando um deserto de tanto extraírem madeiras para as carvoarias, sem contar as prolongadas secas em razão do aquecimento global. O “Riacho do Navio”, cantado há muito tempo pelo rei do baião, Luiz Gonzaga, não tem o mesmo cenário de outrora. A letra diz: Riacho do Navio/corre pro Pajeú/o rio Pajeú vai despejar no São Francisco/o rio São Francisco vai bater no meio do mar/lá iá,lá iá, lá iá, lá iá, lá iá. O “Riacho do Navio” está morto e agora é o mar que invade o São Francisco 50 quilômetros adentro.

E, por falar no “Velho Chico”, sempre um agoniante quando batem as estiagens, cadê a revitalização tão prometida e anunciada pelos governantes? Agora mesmo, no final de junho, estive lá visitando e fiz uma prece para que ele não morra, mas o rio está precisando muito mais de ações concretas do que orações. A barragens, como a do Sobradinho, estão com suas vasões bem abaixo do normal, chegando hoje a cerca de 500 metros por segundo. É de doer ver extensos areões onde eram ocupados por suas águas, e somente algumas partes navegáveis, com muita dificuldade. As barragens cometeram altas agressões ao meio ambiente, e o mar está virando sertão.

Ficaria aqui, senhora ministra, um ano escrevendo e pesquisando para lhe provar que o Brasil do rompimentos das barragens de minérios, um país com alto déficit no que tange ao saneamento básico, onde poucos municípios, dos mais de cinco mil, não têm aterro sanitário e sim lixões, comete sim, transgressão ao meio ambiente. Não adianta esconder isso de ninguém, quanto mais dos europeus. Por essa e outras, é que esse acordo do Mercosul não vai sair do papel, enquanto não se resolver sair do atraso e do primitivismo. Não é assim mentindo, senhora ministra, que se defende uma soberania nacional!