Há seis meses de governo e só temos factoides e decretos de desmantelamento da educação, das leis do meio ambiente, do estatuto do desarmamento, das políticas públicas voltadas para o social, do combate da corrupção com o enfraquecimento da Força Tarefa da Lava-Jato e agora da legislação nacional do trânsito, fazendo com que mais gente morra nas estradas que já ceifam por ano 65 mil almas.

Está faltando decretar o fim da Lei Seca, com o slogan “Se beber, Dirija”, e criar o “Bolsa Armas” para quem não pode comprar uma. Não existe nenhum planejamento sério de recuperação da economia, e a única coisa que se fala é da reforma da previdência social como salvação da pátria e a ilusão de que vai ser boa para os pobres, mesmo com as castas mantendo seus privilégios de polpudas pensões.

O Congresso Nacional ainda mais conservador de extrema-direita bate cabeça e vai aprovando projetos e leis que desmantelam muitas conquistas. O alvo é desfazer tudo que foi construído pela esquerda, não importando o que seja positivo e benéfico para o país. A impressão que passa é daqueles antigos coronéis prefeitos do interior que quando ganhava a eleição quebrava e destruía tudo que foi feito pelo adversário, numa atitude de terra arrasada. Isso nunca foi patriotismo. É a imbecilidade acima de tudo.

Enquanto os poderes lá de cima propõem um pacto, o povo se divide em pedaços, em ódios e intolerâncias. As ruas se infestam de camisas amarelas da seleção brasileira para apoiar o desmantelamento e acusar as esquerdas que deixaram o Brasil destruído. As cenas são lamentáveis e tristes porque o país continua se derretendo como cera quente na frigideira, sem perspectiva de se erguer dos desastres e do caos que já perduram por cinco anos.

O orgulho da ignorância e da imbecilidade

Há poucos dias li um lúcido artigo do jornalista e escritor Thales de Aguiar intitulado “Quando a Imbecilidade é mais Importante do que a Educação” onde cita na abertura que, de acordo com alguns filósofos, estamos vivenciando momentos em que os ignorantes se sentem orgulhosos de suas imbecilidades. Para esses, a ficha só vai mesmo cair quando começarem a ser atingidos diretamente em suas vidas.

Pelas suas maluquices e falatórios destrambelhados, o capitão-presidente, como aponta o articulista, tem conseguido convencer até gente instruída de que o conhecimento científico nada vale, e até nega a existência de uma ditadura que torturou e matou. Para o “Bozó”, o diploma é uma bobagem, e a pesquisa é um atraso, negando trabalhos de instituições que ainda são referências no Brasil e no exterior, como da Fiocruz e do IBGE.

A pregação é a de que o trabalhador deve abrir mão de seus direitos, trabalhar mais e ganhar menos; que o racismo não existe, mesmo sendo o último pais a libertar os escravos na América Latina; que a homofobia é uma conversa fiada; e ainda defende milicianos e grupos de extermínio como policiais bem formados. Ele prefere colocar uma arma na mão de cada cidadão a apresentar um plano nacional de segurança pública. A igualdade de gênero é uma besteira, e acha que a mulher tem que receber menos porque perde tempo engravidando. O feminicídio é uma baboseira.

Sinceramente, não consigo acreditar no que estou vendo, com tanta gente, inclusive “esclarecida”, apoiando estas barbaridades, simplesmente para descarregar suas raivas no PT e nas esquerdas que estão calados. É uma tremenda irracionalidade continuar seguindo cego como se ainda estivéssemos em plena campanha eleitoral, olhando pelo retrovisor! Quando essas pessoas vão cair na real de que é o Brasil que está sendo penalizado aqui e lá fora?

Essa turma, sem planejamento de governo, entende que a saúde pública deve ser privatizada, num país onde a renda de grande parte da população não alcança um salário mínimo. O capitão acredita que a natureza e seus recursos naturais devem ser cada vez mais explorados, inclusive em áreas de preservação permanentes. Quer transformar Angra dos Reis num lixo capitalista brega da Cancun mexicana.

Seu guru é um “filósofo” charlatão que conseguiu transformar o Ministério da Educação numa babel de barro, e incentiva cortar verbas das universidades, somente por achar que elas são ninhos das esquerdas. Quando estudantes e professores são chamados de “idiotas úteis” é sinal de que a educação não tem nenhuma serventia pra o progresso.

É o antipatriotismo, e não o Brasil acima de tudo. Pelo andar da charrete desgovernada, ainda não estamos no fundo do poço. Só vejo em minha frente figuras exóticas e sem conhecimento. O mais triste ainda é ver o povo aplaudindo os extremismos políticos. Como disse o escritor francês Victor Hugo, “Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há uma certa cumplicidade vergonhosa.