As linhas principais de Augusto no seu principado foram seguidas pelos seus sucessores Tibério Cláudio Nero, Calígula, Cláudio, Nero, os quatro imperadores do ano 69 a.C. (Galba, Oto, Vitélio e Flávio Vespasiano), Tito, Domiciano, Caio Nerva, Marco Trajano, Públio Élio Adriano (os dois espanhóis), Antonino Pio, Marco Aurélio e Cômodo, seu filho.

Durante o reinado de mais de 40 anos do imperator Augusto, a paz e a prosperidade se instalaram, e os homens deixaram de se interessar pelo Estado. A ideia da liberdade cívica tornar-se inseparável. O “evangelho” de submissão pregado por Horácio passou a ser uma característica nova, não bem recebida. No mundo antigo, a população nunca atingiu um modo de pensar científico e racionalista, conforme descreveu o historiador M. Rostovtzeff em “História de Roma”.

O ESTOICISMO

A filoso0fia, especialmente o estoicismo, como ressalta o autor, se adapta à religião. Dessa ligação surgiram novas doutrinas, como o neopitagorismo, com seu interesse predominante na vida futura, e até mesmo o epicurismo realista. Tanto o estoicismo como o neopitagorismo deram forma claramente religiosa a seus dogmas e reduziram a filosofia a um sistema mais religioso.

Na era Augusto, o estoicismo foi o mais difundido, por ser mais flexível, lógico e fácil de dominar. Antes, entre os romanos, havia se adaptado à crença na perfeição de sua Constituição, ou seja, no sistema que a oligarquia da cidade-Estado dominava o mundo. O estoicismo no Império Romano reformula sua doutrina política, retornando ao princípio de Zenão e Crispo.

Sustentava que a monarquia, quando o monarca fosse o melhor homem de um Estado, proporciona a melhor margem de liberdade interior ao indivíduo. O que importa é o aperfeiçoamento moral, fruto de uma disciplina rigorosa, de forte sentimento de dever para consigo mesmo e seu próximo. O ideal estoico era a ataraxia, o equilíbrio perfeito da alma. Atingindo este ideal, o homem nem temerá a morte.

Essa teoria filosófica, moral e religiosa, racionalista em sua essência, era muito difundida entre as classes superiores da sociedade romana. O pensamento dos homens voltava-se para os mistérios da vida futura, e eles buscavam na filosofia e na religião uma resposta às suas perguntas. No entanto, grande número de pessoas religiosas de origem grega se inclinava para o neopitagorismo.

A decoração de túmulos romanos do período de Augusto e, mesmo depois, mostra a influência das ideias neopitagóricas. Virgílio, por exemplo, com suas poesias, foi um grande intérprete da alma na época. Muitos, porém, procuravam mais gozar a vida, seguindo o epicurismo materialista. Uma onda religiosa invade cada vez mais corações e conquista vitórias sobre o racionalismo e a ciência.

A DIVINIZAÇÃO E O CULTO A AUGUSTO

O processo se evidencia no culto divino dos imperadores, como no caso antigo a Alexandre, o Grande. Nem a religião, nem a filosofia estabeleciam uma distinção entre o divino e o humano. Daí a crença num Messias (encarnação do poder divino em forma de homem) a fim de salvar a humanidade. Hércules e Apolo eram os salvadores lendários. Os livros sibilinos falam da possibilidade de que eles voltariam à terra.

Acreditava-se que uma crise maior faria voltar o homem-deus, o Salvador, um deus sofrendo pelo homem, ou até mesmo um conquistador divino do mal. inundando de luz a escuridão. A “Quarta Ecloga”, de Virgílio e algumas odes de Horácio mostravam isso.

Os sobreviventes da guerra civil se alimentavam dessas ideias. Aquela coisa da paz depois da tempestade denotava interferência divina. Era fácil ligar esse milagre à pessoa de Augusto e encará-lo como encarnação divina, o Salvador. Era visto como novo Apolo que dominara os poderes das trevas. Nas profecias sibilinas, o Messias voltara, trazendo nova era na história humana, nova idade de ouro (saeculum novum aureum). Augusto, como criador da paz e da prosperidade, lembrava o bondoso deus Mercúrio.

O templo de Apolo no Palatino, ao lado da sua residência; o tempo de Venux Genetrix no fórum de César (origem divina da Casa Juliana); o tempo de Marte, o Vingador, no fórum de Augusto (história da origem de Roma); a cerimônia dos Jogos Seculares (fim da confusão e início de nova era); os altares da Paz e da Fortuna, no Campo de Marte, tudo se adequava às ideias de esperança de Roma na idade augustina. Em toda parte, se via a figura de Augusto como pessoa, religião e Estado. Era o culto ao poder divino do Estado

A estas representações divinas, acrescenta-se mais uma fonte de grandeza de Roma, o genius, o poder criador divino pertencente a Augusto, o chefe da família romana. Dessa crença mística num Messias e a de um genius, nasceu o culto de Augusto, ligado ao do Estado. No Oriente, Augusto passou a ser a encarnação da divindade, como imagem da deusa Roma. Na Itália e nas cidades das províncias, o culto do genius de Augusto incluía-se entre os objetos de veneração das famílias e nas uniões das comunidades romanizadas da Espanha, Gália e África.

Nas classes governantes, entretanto, essa tendência não era considerada como porto na terra. Os contemporâneos de Augusto estavam mais voltados para encontrar a Idade de Ouro no passado do que no presente ou no futuro. A poesia de Virgílio idealiza, por exemplo, a época distante em que Roma estava firme. A grande história de Lívio, “Da Fundação da Cidade” mostra o mesmo espírito das obras sobre a constituição primitiva de Roma.

A PRESERVAÇÃO DOS RITOS PRIMITIVOS

Ao lado do movimento literário estava o ato de Augusto restaurando os santuários em ruínas e salvando do esquecimento os ritos primitivos. Ele iniciou também a restauração da moralidade pública e as leis sobre o casamento. A educação dos jovens nobres e o treinamento físico militar era copiados do passado. Os jovens mostravam suas habilidades nos jogos troianos. Os exercícios dos moços eram realizados no Campo de Marte, como na Roma antiga

As construções novas surgem lado a lado com as restaurações, uma nova arte para ao Império, triunfo para a cidade imperial. Roma, a cidade de um povo soberano, torna-se a verdadeira capital do mundo onde o passado republicano combina-se com o monárquico. Augusto deu atenção ao coração da velha cidade, ao Fórum, ao Capitólio com seus templos. Dominando o Fórum, foi construída a residência no Palatino para o princeps, perto de Apolo e no santuário de Vesta. Eram preservadas as relíquias de Roma sob os reis.

Lá estavam a cabana de Rômulo, a caverna das Lupercais. Augusto perpetuou sua própria memória e a de seu pai divinizado em vários edifícios novos. O principal centro de operações de construção do imperador foi o Campo de Marte, uma nova cidade onde predominavam os edifícios sagrados. Ficavam ali, o Altar da Paz, da Fortuna e o Mausoléu do Imperador e sua família. Próximos estavam o Panteão de Agripa, os banhos palacianos para o povo e os teatros de Marcelo, seu sobrinho, e o de Pompéia.

A idade de Augusto produziu dignos rivais de Cícero e Catulo, entre os quais se destaca o grupo do imperador através de Mecenas, amante da literatura e da arte. Eram os poetas da corte, como Virgílio com a “Eneida” e Horácio que glorificam Augusto. A grandeza de Roma e Augusto foi o principal tema do poema. Horácio reconhece no imperador um criador de uma nova era.

A maioria dos poetas procurou evitar poemas longos e sérios sobre assuntos políticos. Preferiram os detalhes pessoais e fazer críticas ao resto do mundo em tom de desprezo e ironia, como em “Sátiras” e “Epístolas”, de Horácio. Ninguém escreveu algo para concorrer com o hino dedicado a Venus, feito pelo crítico Lucrécio. Toda obra desses poetas repete o mesmo refrão – vive e goza tua vida, com exceção de Virgílio. A Roma augustana viveu uma grande atividade criadora.