No ano de 48 a.C. César tornou-se o chefe do Estado romano, posição que manteve até 44 a.C. Não procurou destruir todos os que haviam lutado contra ele. Julgou que o reino de terror era um meio inadequado para sustentar o poder. Convocou a cooperação de todos os adversários, como alguns políticos atuantes, como Cícero, Cássio, Marco Antônio e Décimo Bruto.

O novo chefe nunca pensou em restaurar o poder do Senado, nem reconhecer a soberania da plebe. Sua atividade durou menos de dois anos e foi interrompida pela campanha espanhola de 45 a.C. Estava convencido de que era preciso proteger as fronteiras contra os inimigos externos antes de lançar as bases de um novo sistema de governo.

As fronteiras das novas províncias orientais da Síria, Palestina e da Bitínia tinham de ser garantidas contra os trácios, ilírios e celtas. Crescia no Danúbio um novo reino trácio que ameaçava engolir as cidades gregas na costa oriental do Mar Negro. Na Mesopotâmia, os romanos sofreram uma derrota dos partos.

Com uma grande expedição, estava disposto a pôr em prática o plano de Mário quanto à composição do exército romano. Como Estado mundial incluiu soldados de todos os povos capazes de lutar, como da Gália, da Espanha e da Ásia Menor. Em Roma deixou apenas pequeno destacamento da guarda pretoriana.

César considerava a Constituição existente como inútil e obsoleta e pretendia fazer modificações radicais. As formas externas e as denominações foram conservadas, mas o Estado romano por ele governado era diverso do Estado governado pelo Senado. Seu poder supremo lhe conferia o título de ditador que usou em 49 e 47 a.C. Os gregos chamavam de tirania e o Oriente de monarquia.

Colocou em prática a ocupação de vários cargos, como fez Pompeu em 52. A partir de 48 a.C. foi eleito cônsul, anualmente, e recebia do povo o poder tribunício, ou seja, sem ser tribuno, gozava de todos os direitos do posto, inclusive das imunidades que o povo lhe concedera por uma resolução de 47. Em 63 fora eleito pontífice máximo e em 48, membro de todos os colégios sacerdotais patrícios. A acumulação de títulos era contrária às políticas romanas, mas o povo tem o direito de criar novas formas de poder. Muitos outros poderes foram criados. Uma lei especial dava a ele a supervisão dos costumes morais (praefectura morum), que era função dos censores. Nomeava magistrados para as províncias. Podia concluir a paz e declarar guerra; votar em primeiro lugar no Senado; comandar o exército e dispor dos fundos públicos.

O Senado passou a funcionar como um conselho. A assembleia popular reunia-se apenas para votar leis antecipadamente aceitas. O tribunato do povo não mostrava sinais de vida. César era de fato um monarca e podia até aceitar o título de rei.

Acreditava-se que ele queria mudar a capital de Roma para o Oriente. Os boatos corriam que desejava desposar Cleópatra, a rainha do Egito, e adotar Cesarion, o filho que dela tivera. Trouxe Cleópatra de Alexandria pra Roma, dando-lhe uma residência.

Ele considerava seu poder hereditário, tanto que, poucos antes de partir para o Oriente fez um testamento, adotando o sobrinho Caio Otávio, legando-lhe o maior poder de sua fortuna. Otávio estivera com César na Espanha e foi depois enviado à Ilíria para completar sua educação geral e preparo militar.

Para as massas, César não era apenas um gênio militar, mas um ser superior, um super-homem, um herói no antigo sentido religioso. César gostava e estimulava o endeusamento do culto à personalidade. Construiu um templo a César e à deusa Clemência, com um sacerdote especial para o novo culto, modificando o nome do mês Quintilis para Iulius, ou Julho.

Noutro aspecto, pretendia estender a cidadania romana e latina a todos habitantes das províncias. A Gália Cisalpina e a Narbonense deveriam tornar-se parte da Itália. Colônias romanas foram fundadas na Espanha e África. A cidadania latina era concedida às comunidades provinciais, como na Sicília. Restaurou Cartago, na África e Corinto, na Grécia.

O considerado ditador queria acabar de vez com a distinção entre Itália e as províncias, e criar em todas as partes do império uma classe que gozasse dos mesmos direitos dos cidadãos romanos na Itália. O Senado deveria representar todo o império. Corrigiu o calendário; reformou parte dos tribunais civis e criminais; e instituiu uma lei regulamentando a organização do governo local.

A nomeação de arrivistas para o Senado, a generosa distribuição da cidadania romana, a recusa em reconhecer os privilégios das classes dominantes, segundo o autor do livro, contribuiu em proporções para o fim de César. Os senadores nobres não aceitaram abandonar sem luta os privilégios que a classe desfrutava há séculos e terminaram vencendo esta luta.

A CONSPIRAÇÃO

Em 44 a.C. foi organizada uma conspiração, e em 15 de março foi assassinado numa reunião do Senado por um grupo de insatisfeitos, dos quais Marco Antônio, Décimo Bruto e Cássio eram os líderes. Tinham a maioria do Senado, mas não a simpatia do povo e do exército, e nem da população da Itália. A transferência do poder para o Senado não se consubstanciou.

Marco Antônio e Lépido, chefe da cavalaria possuíam uma força militar dedicada e suprimiram qualquer movimento ameaçador da parte do Senado. A população da capital se colocou contra eles. A ralé foi comprada pelas doações que César lhe fez num testamento divulgado por Antônio. Na época, Otávio tinha apenas 18 anos e estava com o exército na Ilíria. Antônio tinha mais energia e visão.

Com a posse do tesouro e dos papéis do morto fez aprovar uma lei onde ele deveria ficar com a Macedônia, ao passo que a Síria com Dolabela, o outro cônsul. A lei dava a Antônio a Gália. Bruto foi transferido da Gália para a Macedônia, mas sem exército. Contrariando a intenção de César, o mandato de Dolabela e Antônio foi ampliado de dois para seis anos. Antônio assegurou a guarda da Espanha enviando Lépido para lá a fim de fazer guerra ao filho de Pompeu.

Os ex-pretores Marco Bruto e Cássio foram afastados do caminho e enviados pelo Senado para organizar o abastecimento de cereais na Itália e Sicília. Os dois conseguiram escapar para o Oriente onde conquistaram parte da Macedônia e deram fim a Dolabela.

Na Itália, o jovem Otávio aceitara a posição de herdeiro e exigiu que Antônio repusesse o dinheiro que havia tomado do espólio de César. Como Caio Júlio César Otaviano requereu uma participação no governo do Estado. Antônio rejeitou, e Otaviano reagiu. A situação complicou quando grandes grupos de veteranos de César apoiaram Otaviano e a ele se uniram duas das quatro legiões. O acordo entre Otaviano e o Senado foi apoiado por Cícero, chefe do partido senatorial em Roma, que achava que depois poderia manobrar o jovem.

O Senado ficou desguarnecido quando os cônsules Hírcio e Pansa foram mortos. Aproveitando, Otaviano marchou sobre Roma quando lhe havia recusado o consulado e a recompensa em dinheiro para seus homens. Com um exército nas muralhas de Roma, Otaviano foi eleito cônsul com Quinto Pédio. De imediato aprovaram uma lei que convocava a julgamento dos assassinos de César em revelia.

Enquanto isso, Décimo Bruto marchava contra Antônio, esperando apoio de Lépido e de Planco, governador da Gália Narbonense. O primeiro ficou do lado de Antônio. O segundo recusou ajudar Bruto, cujos exércitos se dissolveram. Bruto foi morto pelos bárbaros quando se dirigia para o Oriente. O sonho do Senado desapareceu para sempre.

Os líderes Antônio, Lépido e Otaviano encontraram-se em Bolonha, norte da Itália, e fizeram um acordo pelo qual os três se fizeram comissários da reorganização do Estado (tresviri reipublicae constituenda), com poderes ilimitados. A reorganização começou com um reinado de terror que repetiu todos os horrores perpetrados por Mário e, posteriormente, por Sila.

Os objetivos eram destruir todos os oponentes e levantar recursos para realizar uma campanha contra Bruto e Cássio. A última luta do Senado contra a tirania militar ocorreu na Grécia. Em 42, Antônio e Otaviano enfrentaram os exércitos de Bruto e Cássio, em Filipos, na Macedônia. Os dois não resistiram e caíram. Ambos deram cabo da própria vida.

A luta com o Senado terminou, mas a guerra civil continuava. Não poderia haver três senhores nos domínios romanos. Estabelecido na Sicília, Sexto Pompeu interceptava o transporte de cereal da África para a Itália. Antônio continuou no Oriente para obter dinheiro. Só o Egito oferecia algumas possibilidades.

Ao encontrar com Cleópatra, Antônio preferiu a riqueza do Egito através de meios pacíficos, tornando-se marido da rainha. Na Itália, a situação de Otaviano não era muito boa, e Pompeu continuava senhor da Sicília numa relação com Lépido. Otaviano não permitia que Antônio voltasse à Itália. Quando o rompimento parecia inevitável, os amigos dos dois triúnviros e os veteranos da guerra civil planejaram um encontro dos rivais, em Brindisi, em 40 a.C. para estabelecer novo acordo. Pompeu foi incluído nele.

A Sardenha, a Sicília e a Grécia foram entregues a Pompeu. Antônio ficou com o Oriente e Otaviano com o Ocidente, com exceção da África, que foi entregue a Lépido. A Itália continuaria a ser governada pelos quatro. Acontece que as condições estabelecidas no acordo não foram, cumpridas.

Depois do choque, novo acordo foi celebrado em Tarento, em 37 a.C., renovando os poderes do triúnviros por mais cinco anos. Nesse mesmo ano, entretanto, Otaviano impôs a Pompeu uma série de golpes, expulsando-o para a Ásia Menor, onde ele perdeu a vida. Em seguida, destituiu Lépido do poder e tomou suas tropas na Sicília..

Lépido viveu o resto de sua vida no exílio, numa das cidades italianas. Otaviano se tornou senhor do Ocidente. Antônio não desejava novos acordos e, em 36, rompeu com Otaviano e declarou Cleópatra sua mulher se tornando senhor do Oriente. A Armênia foi tomada à traição e saqueada. Suas docilidades para com a mulher foram prejudiciais às suas intenções. Seria um golpe de morte se Cleópatra passasse para Otaviano.

Para agradar à mulher, Antônio transferiu províncias romanas para seus filhos, com total indiferença pelos interesses do Estado. Pretendia transferir o centro do Império da Itália  para o Oriente. Otaviano procurou mostrar à Itália em Roma que Antônio era um escravo de Cleópatra, homem sem desejo próprio e senso de honra, traidor dos ideais romanos.

Para provocar, Otaviano divulgou o testamento de Antônio e parte da sua correspondência particular. Suas afirmações fizeram efeito e oficiais romanos e a Itália acreditaram nelas. O Senado ficou ao lado de Otaviano. Os cônsules partidários de Antônio exigiram fim do triunvirato, e prometeram restabelecer a Constituição.

Sentindo-se ameaçado, Otaviano convocou as províncias e a Itália para lhe jurarem fidelidade contra Cleópatra. Antônio conseguiu mesmo juramento de seu exército, dos cidadãos romanos no exterior e dos naturais das províncias governadas por ele. A guerra começou em 32. Antônio tinha uma frota poderosa e esperava uma oportunidade de passar da Ilíria para a Itália. Só que Otaviano começou primeiro. Para isolar Otaviano, seu rival, resolveu travar uma batalha no mar. A tentativa de eliminar a frota de Otaviano foi um fracasso. O dois exércitos se encontraram frente à frente na Grécia. A frota de Antônio foi destruída e todas as esperanças de vitória desapareceram. Os soldados de Antônio estavam com ânimo abatido e grande parte havia desertado para o lado do conquistador.

Antônio e Cleópatra procuram refúgio no Egito. A tentativa de organizar o exército não teve êxito. Quando Otaviano aproximou-se, Antônio pôs fim à vida, e Cleópatra, após uma tentativa fracassada de conquistar a simpatia de Otaviano, suicidou-se  quando Alexandria foi tomada no ano 30. Otaviano se tornou senhor do Império Romano.