macariojeremias@yahoo.com.br

O grande general calculista e ardiloso Caio Júlio César combateu vários inimigos, como Pompeu; subjugou o Senado; impôs suas leis e reformas; dominou o poder com mão de ferro; e terminou sendo assassinado por gente que vivia ao seu lado. Depois da sua morte, isto por volta dos anos 40 a.C., o reino foi dividido por ambiciosos que levaram Roma a uma guerra civil. Ali nasceu a ideia de mudar o império para o Oriente.

Lépido, Marco Antônio (astuto não confiável) e Otávio, o Otaviano Augusto (sobrinho ou filho de Júlio César) formaram um triunvirato de intrigas e acordos não cumpridos que levaram Roma a uma guerra civil entre seus exércitos. Otávio levou a melhor contra Antônio que queria o trono, conservando Roma no seu nível de império mundial.

Quem conta essa história em seus detalhes, mostrando as circunstâncias políticas e econômicas da época é o pesquisador e historiador M. Rostovtzeff em “História de Roma”.  Indro Montanelli também dá a sua versão de uma forma mais empolgante, destacando as figuras ímpares de Júlio César e Otávio, com algumas curiosidades a mais. Vamos aos fatos desses personagens que se imortalizaram na história.

O ódio partidário

De acordo com Rostovtzeff, Roma e a Itália viviam o ódio partidário entre o grupo popular (democratas) e os aristocratas que odiavam o Senado. Os distúrbios eram fortes entre a multidão de escravos. A tentativa de melhorar as condições sociais e econômicas dos cidadãos foi esquecida. A Constituição do Senado e de Sila tinha muitos inimigos.

Entre aqueles que ambicionavam o lugar de Sila havia um homem jovem e hábil chamado Pompeu. Conquistara sua posição graças ao seu desempenho nos períodos revolucionários. Combateu ao lado de Sila durante a guerra civil anterior. Pela sua atuação, foi enviado à Sicília e à África para combater os exércitos democráticos.

Ao voltar, recebeu o nome de “O Grande”, e a honra da marcha triunfal, recebido como herói, mesmo sem ter direito a ela por não ser magistrado, nem ter sido vencedor do inimigo estrangeiro numa guerra justa (bellum iustum). Quando Sila morreu, Pompeu estava na Itália, comandando um exército, e o Senado o usou para esmagar a tentativa revolucionária de Lépido. Pompeu exigiu um comando na Espanha para combater Sertório. A guerra na Espanha arrastou-se por sete anos, de 78 a 72 a.C.

Diante das crises no Leste e no Oriente, Pompeu e Crasso se juntaram para enfrentar o Senado, atraindo os cavaleiros (homens de negócios) e os democratas. Isso mostra como os programas políticos e a ideia do bem comum foram superados pela ambição pessoal dos chefes militares. O Senado foi obrigado a ceder. Pompeu e Crasso foram cônsules em 70ª.C. A anarquia política que Sila contornara, voltou a reinar em Roma.

Em 67 a.C., com apoio dos tribunos, Pompeu recebeu poderes extraordinários para eliminar os piratas no Mediterrâneo e realizou a tarefa com êxito, tanto que substituiu Lúculo no comando contra Mitridates no Leste. Em pouco tempo conseguiu o controle total sobre todo o Leste. Em seguida, anexou as províncias orientais de Roma como partes do reino sírio, incluindo a Judéia e Jerusalém.

Em Roma, os democratas, cujo líder político era Júlio César, tentavam acabar com a Constituição de Sila, mas pairava a ameaça de uma segunda ditadura quando Pompeu voltasse. Ele foi um coadjutor de Sila. O Senado também desconfiava dele. Encontraram em Sérgio Catilina, aristocrata arruinado, homem de ambição que possuía grande influência sobre os jovens nobres empobrecidos e sobre a ralé da sociedade em Roma, um instrumento para aumentar a agitação. Na verdade, ele queria ser cônsul.

O mediador entre o Senado e os cavaleiros (homens de negócios) foi M. Túlio Cícero, advogado brilhante que atacava os juris senatoriais e a má administração nas províncias. Era um homem perigoso e se colocou contra Catilina que tentou, por várias vezes, conquistar o consulado, como em 64 a.C., ao lado dos democratas.

Tinham necessidade dele porque tentavam aprovar um projeto apresentado pelo tribuno Servílio Rulo que reafirmava a lei agrária de Caio Graco, a qual determinava o estabelecimento de um fundo para aquisição de terras na Itália a serem distribuídas aos veteranos e ao proletariado da capital.

Foi formada uma comissão de dez membros para confiscar e vender tudo o que fosse considerado propriedade do Estado. Pela cláusula, poderia dispor de todos os distritos da Grécia e Ásia Menor, reconquistada por Roma, através de Sila, ao derrotar Mitridades, bem como outras possessões conquistadas por Pompeu no Oriente. Feita a operação, a comissão deveria iniciar a compra de terras na Itália, principalmente daqueles com títulos duvidosos. A distribuição deveria começar pela Campânia onde seriam formadas colônias de cidadãos romanos favorecidos pelos membros da comissão.

De acordo com o historiador Rostovtzeff, o que a lei propunha era o sacrifício nas províncias em troca de um benefício duvidoso para a plebe romana. Até os pequenos camponeses da Campânia seriam sacrificados. Para contestar esta proposta, o Senado apresentou Cícero para o consulado contra Catilina.

Cícero foi eleito, e sua primeira tarefa foi derrotar, em 63 a.C., a lei de Rulo. Ai, César e Crasso retiraram o apoio a Catilina que insistiu e foi novamente derrotado. Então, ele recorreu a um grupo de aventureiros políticos e iniciou uma forte campanha em Roma em favor da anarquia. Convocou adeptos na Etrúria. Seu plano era levantar uma revolta.

Seus partidários em Roma deveriam começar o massacre dos magistrados e senadores, atear fogo na cidade e assumir o controle. Os veteranos de Sila deveriam marchar da Etrúria e organizar um novo governo. Descoberta a trama, Catilina foi obrigado a deixar Roma a fim de formar seu exército. Os demais cabeças foram presos e executados sem julgamento, por proposta de Catão e apoio de Cícero. O pequeno exército de Catilina foi derrotado e ele tombou em batalha.

Pompeu era esperado em Roma e julgavam que retornaria como ditador, só que entrou na cidade, em fins de 62 a.C., como cidadão e sem exército. Ao chegar, sua decepção foi grande quando percebeu que os partidos (senadores e democratas) eram seus inimigos. Seus principais rivais eram Júlio César e Crasso. O primeiro resolveu desaparecer e ser propretor na Espanha.

Ao voltar, em 60. a.C.,  formou com Pompeu e Crasso, um acordo que se tornou conhecido como o Primeiro Triunvirato. César eleito cônsul, em 59 a.C.,  deveria ser parte executiva da coalizão. Colocou em prática todas as medidas determinadas pelos três. Os veteranos de Pompeu ficaram nos domínios do Estado, em Campânia, ou em terra italiana, comprada com o dinheiro trazido do Oriente.

César ficou com o governo das Gálias Cisalpina e Transalpina pelo prazo de cinco anos. Para ele, foi de importância vital. Foi lá que conseguiu reputação militar, um exército devotado e recursos materiais ilimitados. Como sucessor de Mário, se pôs à grande tarefa de destruir os bárbaros ocidentais que ameaçavam Roma.

O novo “Dionísio” e novo “Alexandre” penetrara no Oriente e foi glorificado pelos historiadores gregos da época. Sua missão era por fim à luta com os celtas que haviam tomado Roma no passado.  A anexação da Gália exigiu de César nove anos de guerra difícil. Primeiro foi contra os helvécios da Suíça e depois os germanos, no Reno. Dominados, surgiu um movimento nacional na Gália. Os rebeldes perceberam que a amizade com Roma significava escravidão.

César cercou os gauleses, em Alásia, e impusera uma derrota decisiva. Sua missão foi cumprida e conseguiu reputação militar, exército e dinheiro. Enquanto César estava na Gália, Roma “pegava fogo” com violentas revoltas políticas. Suas vitórias inquietavam o Senado e aos seus amigos Pompeu e Crasso que lutava para esmagar os motins de ruas.

Em 56 a.C., César convocou uma conferência, em Luca, no norte da Itália, onde reconciliou os dois rivais e reforçou o triunvirato. Pompeu e Crasso seriam cônsules, em 55, e depois governariam as províncias da Espanha e Síria. César ficou com a Gália por cinco anos. Crasso foi derrotado numa campanha contra os partos na Síria. Seus soldados foram mortos em Carras, feitos prisioneiros e ele próprio assassinado.

As relações entre César e Pompeu se complicaram. Em 54 a.C., com o falecimento da sua mulher  C. Júlia, Pompeu permaneceu em Roma. O Senado foi forçado a aprovar sua eleição como cônsul, único com poderes de ditador. Pompeu trouxe suas tropas para a cidade e restaurou a ordem.

O dilema de Pompeu era ser o primeiro homem de Roma para evitar uma luta armada se entrasse em choque com a oligarquia governamental. Sua posição se tornou mais difícil pela necessidade de partilhar seu poder com César, e o receio de que ele viesse algum dia tomar o primeiro lugar no Estado.

Quando terminou a tarefa de César na Gália e ele queria voltar a Roma e concorrer as eleições consulares, as relações com Pompeu tornaram-se agudas  César desejava um novo comando, e ai Pompeu, que tinha consciência de sua inferioridade, não seria mais o primeiro homem. O exército de César estava no norte da Itália, e o de Pompeu longe na Espanha. César era abertamente contra o Senado que não era popular entre os soldados, e apelou para Pompeu.

Quando, em 49 a.C. ocorreu o rompimento, a vantagem militar estava a favor de César. Ao atravessar o Rubicão, o rio que limitava sua província, Pompeu foi obrigado a deixar a Itália e tinha como opção retornar à Espanha, ou organizar um exército no Oriente, e trazê-lo de volta à Itália.

Caso fosse para o Leste, colocaria César entre dois fortes exércitos, com esperança de cortar o abastecimento da Itália, deixando seu inimigo à fome, utilizando da grande frota do Senado, tanto na Itália como no Oriente. O plano não teve êxito. César foi mais rápido no gatilho; tinha poder dentro do seu partido, e não fazia caso dos poucos senadores que permaneciam em Roma. Aproveitou do tempo que Pompeu se preparava no oeste da Grécia, e destruiu seu exército na Espanha, mas não aconteceu o mesmo na África.

Em 49 a.C., a vantagem estava com Pompeu com imenso exército, recursos pecuniários e uma poderosa frota. César, então, resolveu transferir a guerra para a Grécia. Desembarcou seu exército em Apolônia. Pompeu rompeu as linhas e César foi obrigado a retirar-se para as planícies de Tessália. Com a insistência do Senado na batalha, Pompeu foi derrotado, mas dispunha de uma frota na África e apoio do Egito através de Ptolomeu XIV. O rei, temendo complicações, mandou matá-lo à traição.

César seguiu seu rival até Alexandria. Foi então que o conquistador, por pouco não foi destruído ao participar de uma luta dinástica entre o rei e sua irmã Cleópatra que teve apoio de César de olho em suas carícias e no abastecimento. O exército e a população de Alexandria ficaram com o rei e sitiaram César no Palácio. Este fugiu e foi para Ásia Menor acertar contas com Farnaces, filho de Mitridates.

Enquanto isso, os remanescentes de Pompeu e a frota senatorial se reuniram na África. Foi este exército que César enfrentou, em 47 a.C. Seu gênio militar decidiu a batalha de Tapsos e a resistência do Senado foi quebrada. Uma tentativa dos filhos de Pompeu, de formar um exército na Espanha, obrigou César a uma nova batalha em Munda, em 45, onde os últimos sobreviventes das forças senatoriais foram derrotados e mortos. César ficou sem rival e escolheu um novo Senado, e ainda com um exército bem treinado.