Como no poema de Maiakovski em que o sujeito invade o seu quintal, quebra suas flores e a pessoa nada faz, o capitão-presidente Bozó nega que  houve ditadura, e a sociedade fica calada. A ministra da Mulher e dos Direitos Humanos diz que menino veste azul e menina veste rosa, e a sociedade não reage. O ministro das Relações Exteriores declara, em Israel, que o nazismo foi um movimento de esquerda, e só alguns pronunciamentos de contestação. Agora vem o ministro da Educação, o gringo que não fala português, anuncia que vai mudar os livros didáticos para ensinar nas escolas que não houve golpe militar, nem ditadura, e sim uma “democracia de força”, e a sociedade fica calada. Só apenas alguns ruídos contrários.

Do quintal, eles vão entrar em nossas casas à força e levar tudo que ainda nos resta de dignidade, de princípios, de conhecimento, de conquistas igualitárias, e nos impor a negação da história, nos deixando nas trevas. É este o caminho que estão traçando para um nazifascismo, segundo os próprios, de esquerda, fazendo o Brasil voltar pra trás. É um massacre lento e compassado de ideias retrógradas, selvagens e primitivas, atingindo, principalmente, as minorias, com seus preconceitos homofóbicos, xenófobos e racistas.

Diante do que ele já falou de impropérios no passado contra mulheres, gays, negros e outros segmentos da sociedade, o próprio capitão nem imaginaria que seria eleito. Entrou como um aventureiro e tomou um susto quando começou a ser carregado nos braços do povo. Eleito, deve hoje reconhecer que não tinha nenhum preparo para o cargo, e que o maior culpado foi o próprio povo que, tomado de raiva, o escolheu para se vingar do outro.

Em toda a minha vida nunca esperava que iria ouvir este termo destrambelhado de “democracia de força”; que fossem negar uma ditadura de torturas e mortes só porque, a princípio, o golpe contou com apoio dos civis e até da Igreja Católica! Nunca esperava ouvir que o nazismo foi um movimento de esquerda. Que regime é esse de democracia de força quando um Ai 5 oprimiu, censurou, fechou Congresso, torturou e matou nos porões escuros e sujos de sangue, dores e gemidos? Agora estão querendo negar tudo isso e ensinar aos nossos jovens outra história falsa e mentirosa!

Num artigo da imprensa da capital, “O País do Carnaval”, o arquiteto e professor Paulo Ormindo de Andrade, diz num dos trechos que as canções e a ironia são trincheiras da resistência. “Vencemos a ditadura de 64 embalados pelas músicas de Vandré, Chico Buarque e outros”. Cita o Barão de Itararé (1895-1971), crítico de Vargas, depois de ser espancado pelos agentes do Dops, colocou na porta: “Entre sem bater”, que ganhou a mídia censurada.

Acrescenta o professor que são dele frases como “o voto deve ser rigorosamente secreto, só assim o eleitor não terá vergonha de votar no candidato”; “a crítica diz o que faz, o velho o que fez e o idiota o que vai fazer”; “nunca desista de seu sonho, se acabou em uma padaria, procure em outra”; “este mundo é redondo, mas está ficando muito chato (terraplanistas)”.

Mais adiante, o articulista lembra Millor Fernandes (1923-20120), autor das máximas sempre atuais, como: “O Brasil é, sempre foi, uma empresa unifamiliar”; “nos últimos e dramáticos acontecimentos, perdi magnífica oportunidade de ficar calado”; “se seus princípios são rígidos e inabaláveis, você, pessoalmente, já não precisa ser tanto”; “o Brasil é os Estados Unidos, onde eu vivo”; “as pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”; “quem sabe tudo, é porque anda muito mal informado”; “antigamente, os animais falavam, hoje, escrevem”; “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Algumas eu concordo, e outras não.

Ainda sobre Millor, “Viva o Brasil/onde o ano inteiro/é primeiro de abril”; “errar é humano, botar a culpa nos outros também”; “jamais diga uma mentira que não possa provar”; “quando disseram que o crime não compensa, você tem de lembrar que isso é porque, quando compensa, não é crime”; “o dinheiro não só não fala como faz muita gente calar a boca”; “isto é que é Congresso eficiente, ele mesmo rouba, ele mesmo investiga e ele mesmo absolve; “o Brasil foi condenado à esperança”.

Sobre declarações patéticas de políticos e ministro, vamos citar Sérgio Porto, que assinava Stanislaw Ponte Preta, quando publicou em 1966 e 1968, em plena ditadura, três livros que foram destaque editorial. Chamavam-se “Febecapá, Festival de Besteiras que Assola o País”. Sebastião Nery, meu amigo que também estudou no Seminário de Amargosa como eu, publicou entre 1973 e 2002, cinco volumes de “Folclore Político”.

Estamos cada vez mais adentrando nas trevas da ignorância, da falta do saber e do conhecimento, sendo forçados a negar a nossa história, muitas vezes manchada de sangue, de dor e de lágrimas, como na escravidão e nas ditaduras. Não podemos aceitar calados esta farsa dos brutos e dessa bicharada de hienas, de lobos e ratos. Não somos obrigados a aturar e ouvir essa enxurrada de declarações esquizofrênicas e fraudulentas de negação da nossa história.