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:: 29/mar/2019 . 22:31

“PERDOAI, SENHOR, PORQUE ELE NÃO SABE O QUE DIZ”

Se não foi uma ditadura civil-militar o período de mais de 20 anos dos generais no poder a partir de 1964, conforme sempre negou o capitão-presidente Bozó, então ele mesmo deveria explicar qual foi o regime da época. Foi uma democracia, plutocracia, autocracia, teocracia ou uma oligarquia? Uma democracia, com certeza é que não foi. Será que foi uma “militocracia”? Não importa se o golpe contou com apoio dos civis (nem todos) e até da Igreja Católica. Portanto, “perdoai, Senhor, porque ele não sabe o que fala”.

Agora, dentre muitas outras destrambelhadas nestes quase 100 dias de brincar de governar, o capitão ordena que os quarteis comemorem o golpe de 64 (na concepção deles uma revolução) no dia 31 de março (amanhã). Na verdade, a derrubada oficial do governo constitucional de João Goulart foi no dia 1º de abril, e não 31 de março, quando houve aquela presepada do general Mourão Filho. Os militares não aceitam o 1º de abril porque é conhecido como o dia da mentira. Querem evitar gozações e o ridículo.

Mas, vamos deixar a data de lado e falar de coisas sérias. É verdade que de início o movimento contou com boa parte da população e de segmentos conservadores da sociedade que, naquela época, achavam que toda gente de esquerda era comunista que matava velhos, deficientes e comia criancinhas vivas. Era a propaganda da guerra fria, comandada pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais capitalistas.

Naquele turbilhão de ideias e posições socialistas, a promessa de quem tomou o poder constituído, tendo à frente o marechal Castelo Branco e outros, era que haveria eleições em 1965, só que a linha dura do generalato traiu o povo e não deixou. O cerco foi se fechando com prisões, cassações de políticos e vários outros tipos de perseguições contra quem pensava diferente. O pior aconteceu em 13 de dezembro de 1968 com a decretação do Ato Institucional número 5.

Ai sim, minha gente, esse abominável Ato aprisionou de vez a nossa liberdade de expressão com o fechamento do Congresso Nacional; censura a todos os veículos de comunicação; mais prisões, torturas e mortes; proibição de reuniões; exílio de políticos e mestres que não puderam mais lecionar; e institucionalização da tortura, com tropas das forças armadas nas ruas para reprimir qualquer manifestação justa de estudantes e trabalhadores.

A partir dai, o país passou a viver os chamados anos de chumbo com os generais Médici e Geisel, com o Doi-Codi e os CEIs nos porões, torturando, matando e fazendo desaparecer corpos. A vida de todos que militavam foi devassada, e a própria Igreja, os civis e a mídia que apoiaram o golpe passaram a contestar o autoritarismo. Padres, freis, freiras, jornalistas, estudantes e professores mais progressistas foram presos e colocados no pau-de-arara, sem contar outros inúmeros métodos bárbaros de tortura aprendidos através da escola dos oficiais norte-americanos.

Agora eu pergunto: Tudo isso foi uma democracia? Se não foi uma ditadura, então foi o quê? Eu só queria saber. Não importa se no Chile, de Pinochet, na Argentina, de Videla, no Paraguai, de Alfredo Strossner, em Portugal, de Salazar, na Espanha, de Franco e na Cuba, de Fidel Castro  foi bem mais brutal. Não importa quem torturou e quem matou mais, ou menos. Não importa se aqui foram 500 mortos e mais 500 desaparecidos, e por lá foram 10 mil, 20 mil, 50 mil ou mais de 100 mil.

Ditadura é ditadura em qualquer lugar do mundo, seja de direita ou de esquerda. Sem essa de quantidade de vidas ceifadas. O criminoso pode assassinar apenas um, ou 50, mas não é o um que ele deixa de ser criminoso. Trata-se de vidas humanas. É um argumento de quem é desprovido de argumento e não conhece a história, que pode se repetir quando ela é ignorada pelos incultos. O capitão Bozó critica a ditadura da Venezuela e comemora a do Brasil que ele nega. Vá entender!

Infelizmente, temos hoje uma juventude que não acredita que houve ditadura no Brasil e são, principalmente, esses jovens que são atraídos pela negação louca do capitão Bozó, que se atrapalha todo quando inquerido sobre sua ordem de comemorar um regime que envergonha a nós e ao mundo. Ele quer mudar a história quando deveria governar. É um despreparado.

É uma afronta, não somente aos presos políticos que ainda vivem, aos mortos desaparecidos, como no massacre da guerrilha do Araguaia quando o major Curió mandou esquartejar os presos e jogar numa vala qualquer na floresta Amazônica (alguns foram para o fundo dos rios), aos familiares e parentes perseguidos que não puderam enterrar seus entes queridos e a todos os brasileiros de ontem, os de hoje e os do futuro.

Pelo menos, os generais de hoje, especialmente os que se dizem mais moderados, deviam, pelo menos, respeitar este sentimento, a dor e o choro dos que sofreram e ainda sofrem. Essa ordem de um capitão-presidente, que não sabe o que diz, deveria ser desrespeitada em nome da família e da nação brasileira, enquanto as feridas da ditadura (ele nega e não explica qual regime foi) continuam abertas, porque os torturadores não foram punidos como em outros países da América do Sul.

Não dá para entender como ele elogia os ditadores como estadistas e, ao mesmo tempo, fala de democracia e liberdade para o nosso povo. É uma tremenda contradição e enganação. É uma mentira. Na cabeça dele, ditadura só existe de esquerda. A de direita é democracia, é gentileza e mimo. Nessa tremenda confusão, ele ainda diz que democracia e liberdade só se as forças armadas quiserem, e a sociedade tem que ouvir mais esta blasfêmia calada. “Perdoai, Senhor, porque ele não sabe o que diz”.





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