O historiador Indro Montanelli classifica o general Aníbal como o único militar que conseguiu vencer os romanos por quatro vezes consecutivas. Perdeu somente seis mil homens, dos quais quatro mil eram gauleses, não confiáveis. Seu maior segredo era a superioridade de sua cavalaria. Na época, muitos jovens romanos decepcionados pensaram em fugir para a Grécia.

O jovem Cipião reagiu. O povo aceitou novos impostos e sacrifícios. As nobres matronas levaram suas joias para o Tesouro e foram varrer o chão dos templos com seus cabelos. O governo ordenou o sacrifício de quatro vítimas e enterrou vivos dois gregos e dois gauleses. Os soldados recusaram o pagamento de seus soldos.

Voluntários de 13 e 14 anos se apresentaram para combater Aníbal que, ao invés de usufruir dos sucessos, preferiu descansar. Mandou para casa os prisioneiros não-romanos e exigiu em troca uma indenização. O Senado rejeitou e, como resposta, o general enviou para Cartago muitos deles como escravos. Outros foram ser gladiadores para diversão dos soldados. Esteve nas portas de Roma e depois marchou para o leste, em direção a Cápua.

Os romanos não o perseguiram e foram organizar um exército de 200 mil homens. Uma parte ficou com Cláudio Marcelo para colocar ordem na Sicília, outra ficou na cidade, como segurança, e a outra foi entregue aos dois Cipiões para combater Asdrúbal, na Espanha.

No ano seguinte, Marcelo conquistou a Siracusa que traíra a aliança e tentara resistir com a astúcia de Arquimedes, o maior inventor da antiguidade, como “as mãos de ferro” (guindastes) que levantavam os navios romanos, e os espelhos ustórios que incendiavam os navios com a concentração de raios solares.

Os dois Cipiões derrotaram Asdrúbal na Espanha, bem como a reconquista de Càpua, em 211 a.C., justamente quando Aníbal se afastara, fingindo marchar contra Roma. Os dois morreram em combate e Públio Cornélio Cipião, o fomentador da resistência, com apenas 24 anos, teve que substituí-los, mesmo contra a lei.

Quando chegou a Cartagena sitiada, teve que atravessar a nada um pântano que se ligava ao mar, devido a profundidade da água. Para convencer os soldados da empreitada inventou uma lenda de Netuno, de que este se apresentou a ele em sonho e prometeu baixar o pântano. Não houve milagre algum. Os pescadores de Tarragona lhe explicaram sobre o jogo da alta e da baixa maré que seus veteranos ignoravam. Cipião dizia ser filho de uma serpente monstruosa na qual Júpiter se metamorfoseara.

 Com esse golpe, quase toda a Espanha caiu nas mãos de Roma. Asdrúbal conseguiu fugir e lançou-se ao encalço do irmão através da França e dos Alpes. Uma mensagem caiu nas mãos dos romanos que descobriram seu plano. Dois exércitos foram armados, um com Cláudio Nero e o outro com Lívio Salinator que matou Asdrúbal.

Conta que sua cabeça foi jogada além das muralhas onde Aníbal, que já havia perdido um olho, estava refugiado. O cartaginês sentia-se um homem acabado. Seu maior erro foi não ter entrado em Roma. Um lugar-tenente dissera que os deuses não entregam todos os seus dons a um só homem. Você sabe buscar as vitórias, mas não sabe usá-las.

Cipião marchou contra Cartago que, cercada, apelou para Aníbal. Mas, aquele que voltou depois de 36 anos de ausência, já estava cansado e meio cego. Não era mais o demônio de 28 anos. Metade de suas tropas recusou-se a segui-lo. Dizem que ele matou 20 mil homens por desobediência. Com os outros desembarcou, em 202 a.C. Pouco reconheceu a cidade da qual partiu com nove anos e foi-se alinhar nas planícies de Zama.

O Barca de 45 anos enfrentou Cipião num duelo individual e o feriu. Usou todas suas táticas, mas não havia mais nada a fazer. Vinte mil de seus homens pereceram. Para ele, só restou montar num cavalo e galopar rumo a Cartago. Anunciou que perdera a guerra.

Cornélio Cipião mostrou-se generoso. Exigiu a entrega de toda frota cartaginesa, a renúncia a qualquer conquista na Europa e uma indenização de dez mil talentos. Deixou para Cartago suas possessões tunisianas e argelinas. Renunciou a entrega de Aníbal que o povo romano queria ver subjugado atrás do carro do vencedor.

No entanto, o povo cartaginês não foi tão complacente com Aníbal. Passou a informar que ele pensava numa desforra. Na verdade, ele pensava apenas recolocar em ordem sua pátria e, à frente do partido popular, tentou acabar com os privilégios da corrupta oligarquia senatorial e mercantil.

O general tentou impedir que a cabeça de seu inimigo fosse entregue aos romanos. Para escapar da prisão, Aníbal fugiu de noite a cavalo. Galopou por mais de 200 quilômetros até Tapso e dali para Antióquia. O rei Antíoco hesitava entre a paz e a guerra com Roma. Aníbal aconselhou a guerra e se tornou um de seus militares mais experientes.

Por infelicidade, Antíoco perdeu e os romanos impuseram a entrega de Barca. Novamente fugiu para Creta e depois para Bitínia. Os romanos foram ao seu encalço e o cercaram em seu esconderijo. O velho general preferiu a morte a se entregar.

Ao levar o veneno à boca disse: “Devolvemos a tranquilidade aos romanos, já que não têm a paciência de esperar o fim de um velho como eu”. Estava com 67 anos. A segunda guerra púnica deu a Roma a Espanha, a África do Norte, o domínio do mar e a riqueza.

Quanto a Roma, no total haviam sido mortos 300 mil homens, a fina flor da agricultura e do exército. Foram destruídas 400 cidades. Metade das fazendas saqueadas, especialmente na Itália do Sul. Para se recuperar, Roma partiu para o comércio internacional e a exploração de ferro e ouro na Espanha.

A pilhagem de povos vencidos havia abarrotado os cofres do Tesouro. Os tributos que os estados subjugados pagavam tiraram dos romanos a vontade de trabalhar. Passaram a viver de rendas. Começou a se formar uma nova burguesia de traficantes e empreiteiros. A fé nos deuses enfraqueceu-se, como na democracia. Nos momentos mais difíceis, passou-se a recorrer aos ditadores.