A primeira guerra púnica, nome usado pelos romanos que chamavam os cartagineses de “Poeni”, ou fenícios, durou de 264 a 241 a.C.. Findou quando em 242 Lutácio Catulo derrotou os cartagineses no mar. A Córsega e a Sardenha tornaram-se romanas em 238 a.C. Logo os gauleses foram definitivamente destruídos. Dos embates com Cartago, Roma saiu mais fortalecida política e em termos econômicos com a expansão de seu território no sul da Itália (Sicília), na África e na Gália.

Mas, de 218 a 201acontece a segunda guerra púnica com o general cartaginês Aníbal que, com seus “tanques de elefantes”, atravessa os Alpes e encurralou os romanos em Ticino e Trébia. Por pouco não entrou na capital. Foi o calcanhar de Aquiles de Roma. Duas lutas de titãs da história que só teve um final em 202 a.C.. com a derrota de Aníbal por Cipião, em Zama.

PRIMEIRA UNIFICAÇÃO DA ITÁLIA

Dois historiadores Indro Montanelli, “História de Roma” e M. Rostovtzeff, com o mesmo título falam desse período de guerras que deixou milhares de mortes e consolidou a primeira unificação da Itália. Cada um ao seu estilo em suas pesquisas mostra a grande habilidade do general cartaginês que enfrentou os exércitos romanos ao lado de seus leais soldados e aliados.

Rostovtzeff relata a árdua guerra que levou à criação da confederação italiana, Roma tornou-se uma das mais fortes potências do mundo civilizado. Não tanto em números, o exército romano se destacava pela sua organização, solidariedade, capacidade e o orgulho patriótico do seu povo. Quando Roma derrotou Pirro, um dos mais bem dotados reis helênicos, os estadistas começaram a observar a força da Macedônia.

O Egito foi o primeiro a estabelecer relações diplomáticas com Roma, em 273 a.C., e na Grécia, a liga das comunidades livres passou a ver na nova potência uma possível aliada. Cartago foi afetada pela política externa de Roma no Mediterrâneo. Por isso, renovou, em 348 a.C., o tratado comercial com  Roma, celebrado em fins de do século VI. O acordo foi transformado em 279 a.C. durante a guerra com Pirro numa aliança militar contra o inimigo comum.

A situação modificou quando todos os portos do sul da Itália foram anexados ao império romano e quando os interesses de Nápoles e Tarento, rivais de Cartago, tornaram-se também os de Roma. É claro que Roma já estava de olho nos gregos sicilianos que sempre lutaram contra Cartago. Massília era outra inimiga grega que Cartago temia.

Diante do quadro de beligerância, as relações entre gregos sicilianos e tribos nativas italianas, bem como a tomada de Messana pelos mercenários samnitas, levaram a um choque entre Roma e Cartago. As forças eram quase idênticas. Seus poderios eram baseados numa comunidade de cidadãos, num exército numeroso e bem treinado com seus aliados.

De um lado estavam os etruscos, samnitas, úmbrios e gregos italianos, enquanto Cartago contava com os berberes, ou líbios, e os númidas, vizinhos tributários. Os cartagineses tinham cavalaria melhor e em maior número. Sua infantaria também estava bem armada. Possuía ainda um bom número de mercenários treinados na escola helênica e “elefantes armados”, coisa que Roma desconhecia.

Em táticas, passadas pelos generais helênicos, Cartago era superior a Roma. Tinha uma frota poderosa de navios e muita riqueza. No entanto, na luta em terra, os romanos gozavam de várias vantagens e não tinham mercenários em suas fileiras, os quais podiam falhar e trair nos momentos críticos.

A guerra começou em 264 a.C., com um pretexto sem relevância, conforme relata Rostovtzeff. Os samnitas, que tomaram Messana, viviam da pilhagem das cidades gregas. Híeron, tirano de Siracusa, sitiou Messana e uma parte dos habitantes pediu socorro a Cartago.

Acontece que a maioria dos samnitas buscou ajuda de Roma, que encarou como declarar guerra contra Cartago. Híeron e Cartago se aliaram, mas não conseguiram tomar Messana. Híeron abandonou seu aliado e passou-se ao lado dos romanos que prometeram soberania e independência de Siracusa. A guerra na Sicília arrastou-se por 23 anos.

A vitória de Roma na primeira guerra púnica foi, em parte, a alguns erros cometidos pelo adversário. Cartago não conseguiu impedir que o exército romano atravessasse da Itália para a Sicília.

Os romanos construíram uma grande frota e equiparam seus navios com pontes para abordar os barcos inimigos, o que era do desconhecimento dos cartagineses. Roma expulsou o inimigo de muitas cidades sicilianas. Encorajada pelos êxitos, mandou, em 256 a.C., um forte exército à África. Seu plano era tomar Cartago de um só golpe. A tentativa, comandada por Atílio Régulo, quase se consolidou. A cidade resistiu e, com a ajuda do general espartano Xantipo, o exército de Régulo foi derrotado, mas parte retornou para a Sicília.

A guerra na Sicília continuou, e Roma sofreu várias derrotas. Chegou a ficar quase sem frota, mas a qualidade da infantaria a levou à vitória. Os cartagineses foram recuando, mas o jovem general Amílcar Barca, pai de Aníbal, não desistiu da luta. Na última fase, Roma concordou em condições brandas de paz. Cartago entregou certa soma em dinheiro e suas possessões sicilianas.

OS AMOTINADOS

Após a paz, Cartago teve de enfrentar os amotinados mercenários que, ao voltarem para a África, não receberam seus salários. Berberes e certas cidades fenícias se juntaram a eles. Amílcar Barca esmagou a revolta e restaurou a ordem no Império Cartaginês, chegando a estender sua influência até a Numídia.

Os estudos de Indro Montanelli vão mais além e mostram que o motim dos mercenários terminou em massacre. Eles tiveram apoio do povo subjugado e dos escravos. Foi aí que os ricos comerciantes pediram ajuda a Amílcar. Conta o historiador que os amotinados chegaram a enterrar vivos 700 cartaginêses.

Amílcar convocou os jovens e atacou com 10 mil homens contra 40 mil dos inimigos. Acossou-os num vale e esperou que morressem de fome. Os mercenários comeram os cavalos, os prisioneiros e depois os escravos. Ao final mandaram o soldado Espédio pedir paz, mas Amílcar o crucificou. O líder Matão foi morto a chicotadas.

Foi a mais ímpia guerra de toda história durante três anos, segundo o historiador greco-romano Políbio. Quanto a Cartago, seus mercados na Itália e na Gália, suas províncias na Sicília, Sardenha e Córsega estavam perdidos. As duas últimas eram celeiros de Cartago e forneciam cobre, ferro e outros metais, segundo Indro,

Roma também lambia suas feridas. Os lígures e os ilírios saqueavam as costas, mas se tornaram vassalos depois de cinco anos de lutas, entre 258 a.C. a 233. Os gauleses também se preparavam para guerrear com 50 mil homens de infantaria e 20 mil de cavalaria. Combatiam nus, com colares e amuletos. O Senado tremeu e agradou aos deuses enterrando duas vítimas vivas de gauleses.

Na guerra, os deuses ficaram contentes, e 40 mil gauleses foram mortos e 10 mil prisioneiros. Toda Itália até nos Alpes (Gália Cisalpina) passou a pertencer a Roma. Os romanos ainda destruíram os lígures e a Ilíria, da rainha Teuta. Depois puseram os pés no Adriático até o Oriente.